quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Consultor de deslocamento. Que tal?


Segundo o Times Online, a Grã-Bretanha está prestes a criar uma nova categoria de funcionários públicos: os consultores de deslocamento. Sua função será conversar pessoalmente com os moradores e convencê-los a encontrar maneiras de trocar o uso do carro particular por transporte público, bicicleta ou caminhadas. Poderão oferecer descontos em lojas de bicicletas e pedômetros para que o cidadão saiba o quanto caminha.

Há alguns anos, Londres foi a primeira cidade do mundo a criar o pedágio urbano na área central, o que tira o incentivo aos motoristas para ir ao trabalho de carro particular. Isso permite sair do almoço perto do Palácio de Buckingham caminhando pelo meio da rua, calmamente, conversando com os amigos. Deu tão certo que estão ampliando a área. E muita gente usa bicicleta para ir ao trabalho.

O desincentivo ao uso do carro particular é uma medida importante, embora certamente possa ser impopular logo no começo. Nenhum político brasileiro tem coragem de sequer discutir o pedágio urbano em público. Governar é abrir estradas, afinal.

Em São Paulo, há pouco mais de dez anos há um rodízio de carros - a cada dia útil, 20% dos automóveis são proibidos de circular. Mas de que adianta isso se muita gente compra um segundo carro para usar no dia do rodízio e os novos empreendimentos imobiliários já anunciam seis vagas na garagem?

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha costuma descrever a cultura do carro particular em São Paulo da seguinte maneira: "quatro toneladas de lata carregando 70kg de gente". Nos horários mais atravancados, nas ruas mais atravancadas, há um mar de toneladas de carros carregando só seus motoristas.

Caminhar, em São Paulo, é um esporte radical. E não estou falando apenas das calçadas irregulares e detonadas, doidas pra torcer o pé de alguém. Tente atravessar a rua em alguns pontos da Consolação - próximo à Maria Antônia, por exemplo. Os mais jovens podem dar uma corridinha. Os mais velhos, quem manda saírem à rua?

Se você perguntar ao guarda de trânsito como encaminhar uma sugestão para segurar o sinal aberto por mais alguns poucos segundos, ele dará de ombros: a rua tem muita demanda, não há solução. Mas o motorista, em sua fortaleza de lata, vai de qualquer forma chegar mais rápido que o pedestre com seus calçados.

(Ou não: quanto mais carros, menos velocidade média do trânsito. Mas quem mandou sair de carro particular? Eu é que não fui...)

Um passo importante aqui foi o "bilhete único", que vem sendo imitado de maneira tabajara no Rio.

Em Londres também tem - mas o de lá é ainda melhor. Ele não é calculado por viagens, mas por dia e área. Você paga pela área onde circula e pela quantidade de dias que vai utilizar. Eu paguei uma taxa para circular uma semana na região central. Nesse período, podia pegar ônibus e metrô quantas vezes quisesse.

Claro, Londres tem o sistema de transporte público mais eficiente do mundo, incluindo um muito eficiente sistema de informação em tempo real sobre as condições de transporte.

Mas as cidades brasileiras não precisam continuar tendo um sistema de transporte público quase improvisado com ônibus batendo lata, passageiros transformados em sardinhas, calçadas inóspitas e semáforos carnívoros. É mais barato não ter carro - o que deveria ser mais incentivado num país com tantos problemas de economia.

Se você analisar as estatísticas disponíveis sobre como funciona o trânsito em São Paulo, pode acabar concordando comigo que as medidas londrinas podem ser um passo importante por aqui.

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