quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O churnalismo e o submercado

O Globo publicou hoje na internet um texto, às 14h13, sobre uma jornalista presa em Búzios. Assinado pela repórter Taís Mendes, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Ana Elizabeth Perez Baptista Prata, conhecida como Beth Prata, foi presa agora há pouco por policiais militares de Búzios por determinação do juiz criminal da cidade, Rafael Resende das Chagas. Ela é acusada de distribuir folhetos apócrifos no balneário com acusações a juízes de corporativistas. Ela teria distribuído os folhetos no Tribunal de Justiça do Rio. A jornalista já responde a um processo de calúnia, injúria e difamação contra membros do Judiciário. O processo está em fase de julgamento. Beth Prata está presa na Delegacia de Búzios e será transferida para a carceragem feminina da Polinter, no Rio.

O concorrente JB Online publicou também um texto sobre o assunto, às 15h12. Sem assinatura, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Elizabeth Perez Baptista Prata foi presa pela por policiais militares agora pouco, em Búzios. Ela é acusada de distribuir panfletos apócrifos no balneário, onde acusava juízes de corporativistas. A prisão foi determinada pelo juíz criminal Rafael Resende das Chagas. Este não é o primeiro processo ao qual a jornalista responde. No momento, ela responde por calúnia, injúria e difamação também contra funcionário da Justiça, que se encontram em processo de julgamento. Elizabeth será transferida para a carceragem da Polinter, no Rio.

A principal diferença entre os dois textos: 59 minutos. Fora isso, frases foram trocadas de lugar, expressões foram retiradas e o "agora há pouco" foi deslocado como "agora pouco". E só.

Mas mesmo a história original está muito mal contada. É crime distribuir panfletos? É crime um juiz ser corporativista, como teoricamente dizem os panfletos que ela distribuía? O que diziam exatamente esses panfletos? Qual é a versão do advogado dela a respeito? Nada naquela matéria. Nada no resto do dia. Apenas lendo as informações dos textinhos, não dá sequer pra pensar se esse é ou não um caso de intimidação judicial a um jornalista por conta de sua atividade profissional. Não tem informação.

Apuração: zero. Mas as listas de notícias continuam gordas no JB, no O Globo e nos outros. Gordas de um jornalismo burro e braçal, que substitui o uso dos neurônios pelo uso de dois dedos na mão esquerda: um para segurar a tecla "ctrl" e o outro para alternar entre as teclas "c" e "v". O adjetivo "burro" não se aplica necessariamente aos jornalistas que fazem esse trabalho. Mas certamente se aplica à lógica organizacional que cria demanda por gado com diploma embaixo do braço, pouco salário e zero possibilidade de evolução profissional, porque afinal tem que ter notícia nova a cada segundo.

No começo deste ano, fez sucesso no Reino Unido o livro "Flat Earth News" (Notícias da Terra Chata). Nele, o repórter Nick Davies se valeu de um estudo acadêmico com a origem de 2.000 notícias, onde a análise demonstrou que apenas 12% delas eram produzidas por meio de apuração. O restante era ou chupação ou press-release. E isso acontecia nos meios de comunicação tradicionais, tidos como respeitáveis. Nada que vocês não conheçam por aqui também - com a diferença de que não há um Guardian brasileiro.

Davies, neste artigo, aponta que essa tosqueira tem a seguinte causa:

    No reporter who is producing nearly 10 stories every shift can possibly be doing their job properly. No reporter who spends nearly 95 per cent of the time crouched over a desk can possibly develop enough good leads or build enough good contacts. No reporter who speaks to so few people in researching 48 stories can possibly be checking their truth.

Em inglês, ele criou o trocadilho "churnalism" para descrever essa prática. Vem da expressão "churn out" que significa algo como "fazer nas coxas". Mas a palavra "churn" também é usada no jargão econômico para descrever o processo pelo qual empregos são regularmente criados e destruídos conforme muda a tecnologia. O que se aplica também, com louvor, ao trabalho dos portais. "Churn" também significa rotatividade. Que também se aplica à organização do trabalho nos portais.

Do pouco que eu conheço desse mercado, os "churnalistas" brasileiros costumam ser muito jovens e trabalhar sob contratos temporários relativamente mal-pagos. Dificilmente esse tipo de trabalho dá algum tipo de experiência que amplie suas habilidades profissionais - que raramente foram desenvolvidas na faculdade, porque as faculdades brasileiras, apesar de obrigatórias, são o que são. No churnalismo, o jovem jornalista também não tem oportunidade de desenvolver o texto, fontes, refinar sua capacidade de análise. Assim, por mais que queira, e muitas vezes quer, evoluir profissionalmente, o sujeito acaba ficando preso naquela terra paralela - que produz jornalismo só no nome.

Aí vem uma observação empírica minha, que eu já venho fazendo há algum tempo pra consumo próprio. O "churnalismo" acaba por criar um submercado de trabalho. É mais comum alguém sair de uma publicação de mais qualidade para o churnalismo do que o contrário. Conheço pilhas de jornalistas jovens que mudam de um site pra outro, muito insatisfeitos com a profissão em geral e seu trabalho (braçal) em particular - e isso muito pouco tempo depois de sair da faculdade.

Qualquer um sabe que toda possibilidade de futuro para o jornalismo passa necessariamente pelo uso da internet. Mas só o uso INTELIGENTE da internet pode abrir essas possibilidades. O caminho para se chegar a isso certamente não é o churnalismo.

7 comentários:

Barone disse...

Sensacional.

Träsel disse...

Genial. Vou ver se compro esse livro.

Eva disse...

É, Marcelo, a coisa tá feia. Aqui no KC, nas minhas searches, eu vejo muita reprodução sem o MENOR acknowledgement. Isso sem contar o churnalismo, cada vez mais constante. Adorei o novo termo.

Diego Viana disse...

Na mosca! Já fui um desses garotos muito jovens que copiam e colam matérias. Eu tinha 18 anos e achava que seria foca. Vá tentar propor alguma coisa interessante numa redação brasileira hoje... impossível.

Marcelo disse...

Eva: a coisa não é fácil. Especialmente naqueles sites do interiorzão do Brasil (e não só, como se vê aqui), um copia o outro descaradamente.

Diego, eu pessoalmente não acho impossível fazer coisas interessantes hoje em dia. Tenho visto coisas legais, e quando dou cursos em redações mostrando algumas idéias de coisas novas sempre acabo vendo resultados práticos, geralmente produzidos por repórteres individuais. O problema está na forma como o jornalismo online é organizado dentro da redação. Ele costuma ser organizado como um gueto dos moleques que disparam uma avalanche de textos na base do ctrl-c/ctrl-v, sem conexão com o pessoal que produz o material de qualidade (embora estático) da publicação-mãe. As novidades interessantes vêm quando o pessoal da publicação-mãe se liga nas possibilidades da internet. O problema é mais administrativo do que jornalístico, me parece.

Fausto Salvadori disse...

Muito bom o texto, Marcelo. Mas a realidade das condições de trabalho podem ser ainda piores. Tem muita gente fazendo churnalismo por aí (na Folha Online, na Agência Estado) que nem é tão jovem assim, já tem mais de dez anos de profissão. Quanto aos "contratos"... Muitas vezes nem há contratos. A Folha Online e o UOL já foram flagrados em blitze do Ministério Público empregando profissionais de maneira informal, à margem da lei.

Plínio Bortolotti disse...

Marcelo,

Interessante análise. As questões de fundo da profissão são muito pouco debatidas. E, quando são, vem contaminadas pelo maniqueísmo [como no caso do "diploma"].