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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Festival É Tudo Mentira (3): Estatísticas

A terceira parte do festival que comemora o dia dos bobos trata das mentiras numéricas. Em 1954, o estatístico americano Darrell Huff publicou um livro chamado "Como Mentir com Estatísticas". Nele, Huff explica conceitos da estatística, mostra como lê-las e não deixa dúvida alguma: bem torturados, os números revelam o que o freguês quiser. E os fregueses políticos SEMPRE querem.

Vamos começar pelo mais quente. Vocês viram ontem a notícia de que um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontou que o Brasil tem menos funcionários públicos do que os Estados Unidos? Isso bem no meio de um escândalo justamente relacionado à abundância de diretores no Senado e de recorrentes notícias sobre o inchaço de indicações políticas no governo.

Não é o primeiro estudo do gênero. Em janeiro, o mesmo instituto lançou um estudo noticiado da seguinte forma: "Brasil tem eficiência no gasto em saúde, diz estudo do Ipea".

Esse tipo de manipulação de dados faz um sucesso danado em debate de candidatos - mal posso esperar os de 2010.

Ora, você deve conhecer as queixas de alguém que enfrenta as filas do SUS, se é que não se queixa sozinho. Então, na época, eu abri o estudo do IPEA para dissecá-lo. Cheguei à seguinte conclusão: a eficiência no gasto apontada pelo estudo significa que a situação é tão precária que qualquer coisa que se gaste a mais já dá uma boa melhorada.

Procurei o estudo original do IPEA sobre os servidores. Em 2007, o país ultrapassou a marca dos 10 milhões de barnabés. Eles compararam a proporção de servidores públicos no Brasil com a proporção em outros países, quase todos menores que o Brasil. A máquina pública nos Estados Unidos é realmente muito maior que a brasileira - eu imagino a quantidade de arquivistas que eles devem contratar pra manter organizados seus documentos, que qualquer cidadão pode solicitar. No Brasil, essa estrutura é precária.

O que o estudo não leva em conta, portanto, são as medidas de eficiência dessa máquina. Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.

É que nem o Senado: tem dois diretores para cada senador, custa o equivalente a uma Ferrari, mas presta serviços de fusquinha detonado com problemas no escapamento. É mais ou menos essa a crítica feita pelo professor José Pastore ao estudo do IPEA.

Mas experimente por exemplo criar indicadores para avaliar essa eficiência. O pau come. Especialmente quando se trata de avaliação do ensino público ou da produtividade dos servidores. Sempre virão os paladinos da qualidade subjetiva dizendo que ela não pode ser reduzida a números. Até certo ponto, a crítica faz sentido: o número não diz tudo. Mas em boa parte ela não faz sentido: um conjunto bem escolhido de indicadores sempre diz alguma coisa a quem sabe lê-lo. Muitas vezes, porém, essa crítica arrasadora vem pra evitar qualquer tipo de avaliação que ameace práticas confortáveis. Por exemplo, o Senado detestou quando o estudo que eu coordenei mostrou que ele era a Casa legislativa mais cara do mundo, proporcionalmente.

Outra forma de estatística favorita entre os políticos e seus marqueteiros são as sondagens de opinião pública. Aí vai uma longa discussão para a qual não tenho muito espaço neste post. Mas cabe avaliar uma, que vem ganhando popularidade: as sondagens via internet.

No início de junho de 2007, uma polêmica cercava a não-renovação da concessão da emissora venezuelana Radio Caracas Televisión – identificada pelo presidente do país, Hugo Chávez, como uma das principais opositoras de seu regime. Os defensores da decisão de cassar a concessão argumentam que a licença havia vencido e que Chávez agiu perfeitamente dentro da lei. Os críticos da decisão afirmam que tirar a emissora do ar agrediu a liberdade de expressão – ainda que sua licença pudesse estar vencida, seria abuso da autoridade presidencial tirar do ar um canal crítico para pôr no ar uma TV “chapa-branca”.

Por aquela época, a embaixada da Venezuela em Brasília propôs a seguinte questão numa enquete em seu website:

    Você considera que a não-renovação da concessão do sinal radioelétrico do Estado à RCTV é:

    Um ato de soberania legislativa do Estado
    A expressão da vontade popular
    Um atentado à liberdade de expressão
    Não sabe

Fiquei sabendo da enquete no dia 4, a partir do blog do professor Orlando Tambosi, da UFSC – um ácido crítico de Chávez. Não foi o único blog que convidou à manifestação de contrariedade ao ato. Quando votei, havia 68,7% de votos na opção “Um atentado à liberdade de expressão”. À noite, já eram 77,28%. Na manhã do dia 5, eram 83,7%.

Pouco depois, misteriosamente, o placar virou e a opção “Um ato de soberania do Estado” ficou com 82% dos votos. No dia 6, a enquete foi fechada e ficou no arquivo do site.

Como era possível votar mais de uma vez, não é impossível que muitas pessoas tenham votado diversas vezes, contra, a favor ou ambos. Estão em seu pleno direito de manifestação, se a formulação técnica da enquete permite. Mas isso demonstra que uma pesquisa online não tem exatamente os mesmos critérios de uma pesquisa de opinião feita com rigor. Serve mais como passatempo do que como informação.

O fato: Os números não mentem, mas bem torturados eles revelam o que o freguês quiser. Pra saber o que está por trás deles, tem que ficar ligado. Tem que olhar como foi feito o número. Tem que ler o estudo. Às vezes, ele diz mais pelo que não é dito do que pelo que é efetivamente dito. Lembre que 100% dos pacientes de câncer desenvolveram a doença após anos bebendo água todo dia. Nem por isso a água é cancerígena.

terça-feira, 17 de março de 2009

A vida imita os spams mais toscos

Você certamente já recebeu uma história parecida em seu e-mail. Um livro de geografia, distribuído para alunos da sexta série de um território riquíssimo, traz noções completamente erradas sobre um país pobre latino-americano.

Não, não é a volta daquela corrente ridícula sobre o suposto livro de geografia americano que "tira" a Amazônia do Brasil.

Trata-se de um livro de geografia que realmente existe, é distribuído na rede estadual de São Paulo e, não contente em ter dois paraguais, ainda trocou o verdadeiro de lugar com o Uruguai. Ficou assim a imagem:


A Secretaria de Estado da Educação bota a culpa toda em quem imprimiu o livro e diz que não vai trocar. Menos de 2% dos exemplares teriam defeitos, mas a Folha encontrou livros defeituosos em várias cidades. O governo pôs uma correção na internet, mas só os diretores de escola, com senha, podem acessar.

Os paraguaios já têm o Brasil entalado na garganta por quererem aumentar os preços pagos pelo Brasil pela energia excedente que compra da parte paraguaia de Itaipu. Agora, mais essa.

E sabe o que é pior? Explico.

Quando os brasileiros se revoltavam com a corrente do livro americano, estavam reagindo a uma falsificação grosseira possivelmente feita por milicos de pijama. A indignação nacionalista apontava um cálculo maquiavélico.

Quando os paraguaios se revoltarem com a notícia do livro brasileiro, estarão reagindo apenas a mais uma demonstração do analfabetismo funcional institucional que rege o Brasil. Mas a indignação nacionalista também apontará um cálculo maquiavélico.

Pelo menos o livro ofensivo aos paraguaios de fato existe. Infelizmente. E o pior: existe por burrice.

    ATUALIZANDO: Depois que apareceu, ficou feio. Como sempre no Brasil. Então, o governo mandou recolher 500 mil exemplares do livro, que deverão ser substituídos pela Fundação Vanzolini, que o imprimiu, diz a Folha. Mas será que o erro foi só de quem imprimiu? O conteúdo não é produzido por quem imprimiu.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Contornos borrados

Assisti neste sábado a um filme muito interessante: "Rebobine, Por Favor". É uma comédia inteligente do diretor Michel Gondry, o mesmo de "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Mas vai ser difícil assistir, visto que só chegou uma cópia ao Brasil. Se vir na programação, corra para assistir. Enquanto isso, veja o canal deles no YouTube.

Se você acompanha o que se produz e distribui na internet, e o debate sobre isso, o filme é um prato cheio de sementes de idéias. Pena que o debate com o diretor, no Museu da Imagem e Som, estivesse tão cheio de estudantes tietes pedindo autógrafo e querendo que ele fizesse no palco a lição de casa deles. Podia ter sido bem produtivo. (Enchi o saco meio rápido e saí pra tomar um cafezinho.)

A história gira em torno de uma locadora de filmes dos anos 80 em VHS numa cidade pobre de New Jersey. Essa locadora fica numa casa condenada, onde o dono da lojinha (Danny Glover) diz ter nascido um grande pianista de jazz. Ameaçado de fechar, ele inventa umas férias e deixa seu filho (Mos Def) cuidando da loja. Ocorre que o filho tem um amigo completamente desastrado (Jack Black), que ganha temporariamente poderes magnéticos e simplesmente apaga todas as fitas da locadora.

Para ter o que entregar aos clientes sem dar na vista, eles começam a fazer suas próprias refilmagens amadoras dos filmes pedidos. Ficam assim:



As refilmagens ("suecadas", na definição do personagem de Jack Black) fazem sucesso e atraem multidões, que também passam a participar dos seus filmes. Isso gera conflitos com quem administra o copyright, que busca cobrar indenização dos autores das fitas "suecadas" por conta da propriedade dos filmes originais.

Se você já tentou acessar um vídeo no YouTube que havia sido tirado do ar por conflito de direitos autorais, percebe que é a mesma coisa em versão analógica. Hoje mesmo, no Valor Econômico, há uma notícia interessante a respeito: nos últimos 18 meses, uma associação que defende os direitos dos estúdios de cinema conseguiu na Justiça 268 sentenças contra piratas de DVDs. A polícia é acionada sempre que um pirata é identificado.

Há dez anos, sites de fãs de personagens de quadrinhos nos EUA costumavam ser acionados pelos detentores dos direitos - que buscavam retirar do ar as ilustrações utilizadas. E, se eu fizer meu próprio filme do Batman, ou uma versão editada do que bateu recordes de bilheteria, estou infringindo os direitos autorais da Warner ou alimentando a fama do personagem? As fitas "suecadas", que não eram exatamente copiadas de versões originais, seriam pirataria ou uma outra coisa?

Os contornos do direito autoral estão bastante borrados. Eu ainda tenho o costume de comprar CDs, mesmo sabendo o quanto é fácil baixar música da internet. Mas eu os ouço mais num aparelho de MP3 que carrego no bolso do que no CD player da sala. Para isso é preciso converter no computador, e o iTunes permite. Não há objeções a isso. Mas se eu copio um dos meus CDs raros do Deep Purple para presentear meu amigo Abdalla, que canta em homenagem aos mestres, estou violando os direitos autorais deles? E se eu faço um podcast sobre o Deep Purple contando a história de como evoluiu uma das músicas deles, usando vários trechos de diversas faixas, estou violando direitos autorais? E se eu pego meu violão e gravo uma versão de "Smoke on the Water" em ritmo de bossa nova, estou violando direitos autorais ou criando? (Ian Gillan talvez ache que não; mandei o arquivo para ele há alguns anos e ele respondeu: "Groovy!")

Mas, ao mesmo tempo, em seu "Ilícito", Moisés Naím conta como os terroristas que fizeram os ataques de 11 de março na Espanha usaram a venda de DVDs piratas para financiar seu negócio. Não era troca de arquivos, e sim venda em escala. O crime é o lucro, então? Não, acho que não. Mas a questão econômica aí é crucial.

Cada vez mais, a tecnologia facilita e barateia a cópia - e o preço é o principal motivo pelo qual alguém compra ou troca cópias extra-oficiais filmes ou músicas. Eu adoraria presentear o Abdalla com o DVD original de "Highway Star", o documentário que comemora os 40 anos de carreira do Ian Gillan. Pelo meu original, porém, eu paguei 20 libras em Londres. Eu simplesmente não tinha grana pra comprar duas cópias. Mais fácil comprar o meu e copiar pro amigo.

Em outubro, o advogado americano Lawrence Lessig deu uma entrevista interessante ao Marco Aurélio Canônico, da Folha Online. Em seu livro "Remix", Lessig fala na criação de uma cultura em que a audiência passa a ser também criadora, reciclando as idéias de seu consumo cultural. Porque hoje ela dispõe de ferramentas para isso, assim como o personagem do Jack Black tinha uma câmera VCR pra fazer as cópias "suecadas". Segundo Lessig, o principal foco de sua discordância com o cabeça da MPAA é o que fazer com os adolescentes que já começam a ouvir música baixando da internet. O general do copyright acha que uma geração inteira está fora da lei. Lessig acha que não vale a pena criminalizar uma geração inteira. "Os EUA têm tantos problemas maiores que não acho que o próximo presidente vá ter tempo para tratar de direitos autorais", diz ele.

Essa declaração vai mais ou menos na linha do que o Moisés Naím disse em 2007 num debate no Conselho de Relações Exteriores, uma ONG dos EUA. Alguém perguntou sobre a pirataria. Ele disse que, com a explosão das atividades ilícitas por conta das facilidades da tecnologia, do transporte e das finanças criadas nos últimos anos, o único jeito de combater eficientemente o crime organizado seria escolher bem as lutas em que entrar. Até porque os recursos são escassos. Apreender DVD pirata, por exemplo, é um tipo de ação visualmente forte com aqueles rolos compressores passando por cima (uma imagem que tem no filme também), mas é muito menos crucial do que atacar o tráfico de crianças. Para Naím, as próprias empresas interessadas precisam buscar formas de coibir isso por meio de tecnologia, deixando a polícia livre para fazer coisas mais importantes. Isso exigiria uma mudança no modelo de negócio para proteger o copyright - no que, como se vê, ele discorda de Lessig:

    That companies that are operating in areas that are vulnerable to counterfeit and that is now, as you said, almost all will have to think this through and change their business model. And as they say, moving from hoping for the perfection of governments and patents and lawyers to finding ways, tools, technologies that protect them.

    I was fascinated one -- one of the good examples I got was from the movie industry. They are, for example, moving to a new model in which the DVDs that the movies that we now watch at home are going to be a commodity which they have no hope of containing. And they're developing different technologies to change the experience of watching a movie that you can only get at their theatres under their circumstances. And one of the ways in which they are changing is that there will not be a physical product with the movie. There is going to be beamed through very encrypted and very complicated ways from certain centers to movie houses that are going to then project what they call 'project an experience,' which is not only a movie but is a, you know, the whole experience. You would go there because it's the only way of getting something that you cannot get at home by playing your DVDs, and there are plenty of examples of initiatives the industries is taking to protect themselves.

Pessoalmente, e nesse ponto o filme também toca, há uma coisa que me incomoda um pouco no YouTube e correlatos. Acho que há um excesso de material já disponível comercialmente e uma escassez de material produzido criativamente e caprichado. Essa oferta vem crescendo, mas a maior parte dela está ainda "suecada", referenciando material comercial. Há um potencial grande para distribuir coisas novas ali - e acho que o melhor exemplo é aquele grupo de estudantes de cinema austríacos que começaram chamando atenção para si mesmos forjando uma campanha eleitoral.

Gondry, porém, não ousa ir muito longe na defesa das idéias de seus personagens. Ele defende que a audiência faça seus próprios filmes, ainda que imperfeitos. Mas, ao saber que seus filmes não são distribuídos comercialmente no Brasil sequer em DVD, não defendeu que a platéia os baixasse da internet. (OK, ele não é bobo: a incompetente-porém-fashion tradutora do debate era do departamento de marketing da distribuidora do filme no Brasil.)

    SERVIÇO: O site AlwaysWatching.com pôs no ar os 10 melhores filmes suecados pelos fãs de "Rebobine, Por Favor".

    O Museu da Imagem e Som, em São Paulo, vai manter até janeiro a exposição sobre o filme, onde você mesmo pode fazer seu próprio suecado se chegar a tempo de participar de uma oficina.

domingo, 30 de novembro de 2008

Jogando para a torcida

Muita torcida e pouco uso da informação, os males do Brasil são. O uso da lógica de torcida como método administrativo deixou as metáforas deste blog e entrou no discurso do ministro Franklin Martins, ao comentar a informação de que a Petrobras tomou um empréstimo de R$ 2 bilhões na Caixa Econômica Federal para financiar crédito de curto prazo:

    "Quem torce contra a Petrobrás torce contra o Brasil", disse. "A Petrobras é uma empresa sólida, séria, forte e orgulho do País."

Peraí, vamos por partes.

É exatamente pela reputação sólida e forte da Petrobras, mais do que pelo volume do aporte (pouco para uma empresa desse tamanho), que o empréstimo chamou a atenção. Questionar isso não é "torcer contra"; é questionar.

Em 11 de novembro, duas semanas antes do anúncio do empréstimo, a empresa anunciou ao mercado financeiro, em carta de seu presidente, José Sergio Gabrielli de Azevedo:

    Prezados acionistas e investidores,

    É com orgulho que apresento o maior lucro trimestral da história da Petrobras. Duplicamos nosso lucro líquido em comparação com o mesmo período de 2007, atingindo R$ 10,9 bilhões.

    Esse resultado é fruto da excelência operacional, crescimento da produção, das vendas e da disciplina de capital acumulados ao longo de anos.

Mais adiante, o mesmo documento apresenta os balanços e mostra que, sim, a empresa opera com endividamento para se financiar - como qualquer outra. Quase um quarto da dívida total da empresa, de R$ 48,3 bilhões, está no curto prazo. Dois bilhões, pra eles, significam mais ou menos o mesmo que R$ 30 pra quem deve o aluguel. No último trimestre, diz o documento,

    O endividamento líquido do Sistema Petrobras aumentou 21% em relação à 30.06.2008, em decorrência da depreciação do Real no período, além de captações das SPE.

    O nível de endividamento, medido através do índice da dívida líquida/EBITDA aumentou de 0,48 em 30.06.2008 para 0,59 em 30.09.2008. A estrutura de capital está representada por 46% de participação de capitais de terceiros, mantendo-se estável se comparada a 30.06.2008.

Quando a empresa deu sua versão sobre o empréstimo, explicou que o lucro fabuloso foi por conta da flutuação do dólar, que costuma captar dinheiro para operações de curto prazo no mercado financeiro e que está evitando se expor ao risco cambial.

Pelo que lembro das aulas de contabilidade no segundo grau, a explicação tem lá seu sentido. Eles têm como pagar. Mas também tem sentido questionar isso. Num momento em que o governo sai em socorro de vários setores (menos, até agora, os de cervejas e gibis, como observei outro dia) com operações sempre na casa dos alguns bilhões, um aporte de números semelhantes a uma empresa do peso da Petrobras de fato parece à primeira vista indicar que ela tem tanto risco de quebrar quanto uma dessas pobres e coitadas empresas que foram recentemente pedir uma ajudinha ao governo pra não quebrar - digamos, uma GM ou uma Ford.

Se a porca torce o rabo, é na parte que eu não lembro das minhas aulas de contabilidade do segundo grau. Devia ter assistido com mais afinco, mas agora já faz metade da minha idade que eu perdi a chance.

Ocorre que não era de contabilidade, e sim de política, que eu queria comentar aqui.

Apontar o dado e questioná-lo não me parece ser "torcer contra". O que me preocupa, mais do que a saúde financeira da Petrobras, é a grenalização do trato da informação. A informação circula, mas quando cai no debate público ela não é tratada como ferramenta de decisão, e sim como peça de propaganda ou bandeira clubística. Isso ocorre no governo, ocorre na oposição e ocorre nas melhores mesas de boteco do país inteiro. Vira carnaval. A oposição diz que é um absurdo, o governo diz que se torce contra. E a leigarada toma partido como quem escolhe seu time de futebol.

Sabe onde não ocorre a grenalização? No mercado financeiro, por exemplo. É trabalhando com a informação e com o conhecimento de como funciona a psicologia da política que os operadores ganham dinheiro mesmo em tempos de crise. Eles capitalizam a grenalização, simples assim. O discurso belicoso acaba funcionando basicamente como mais uma chave de fenda na caixa de ferramentas dos especuladores. Eles sabem jogar com informação.

Outro elemento interessante nessa grenalização do trato da informação está em dois assuntos ambientais.

Durante meses, houve uma briga interna no governo sobre a concessão da licença ambiental para a construção da usina hidrelétrica de Jirau, na Amazônia. A licença ambiental é um documento que especifica o impacto no meio ambiente e os fatores de risco na construção. A Marina Silva caiu em parte porque era considerada lenta para carimbar o papel. O Carlos Minc, seu sucessor no ministério do meio ambiente, passou algum tempo batendo boca na imprensa com o Edison Lobão, do ministério da energia. Agora, o Ministério Público entrou na parada, processando o governo pela concessão da licença. Não entendo absolutamente nada de engenharia ambiental, então não tenho como ter opinião formada sobre se tem ou não que demorar mais ou menos a licença.

Não pude deixar de lembrar do analfabetismo funcional institucional e do caso Jirau quando li um pouco mais sobre o caso da tragédia catarinense, depois de quase uma semana meio longe da civilização. Aí, ao ler a edição Época que chegou hoje, trombei com uma boa entrevista com Moacyr Duarte, especialista em riscos. Vejam o que são as últimas duas perguntas e respostas:

    ÉPOCA – No caso de Santa Catarina, o senhor enxerga algo que era claramente uma prioridade que não recebeu a devida atenção?

    Duarte – Era preciso melhorar muito o sistema de alerta, que pode ser um radar. A questão é que temos um sistema econômico de produção que vai, cada vez mais, oferecer situações críticas. Lá mesmo em Santa Catarina, desabou uma encosta que arrebentou um gasoduto que alimenta o sul do país com gás natural. Vão queimar óleo. A poluição atmosférica vai ao pico nos próximos 20 dias porque consertar o duto leva um dia, mas a encosta 20 dias.

    ÉPOCA – O estudo de impacto ambiental daquele gasoduto não deveria ter previsto isso?

    Duarte – Sim, mas falta integração em todo o país. Os estudos de impacto ambiental, o Eia-Rima, uma exigência legal no país, também são estudos de risco. Por que essas informações não são repassadas aos bombeiros e aos órgãos de defesa civil? Por que essas informações ficam arquivadas nos órgãos ambientais em vez de ser distribuídas aos usuários práticos desses estudos? Esse sistema é tão ruim que, se surge uma indústria a 50 metros da outra, é feito um segundo estudo que é quase cópia do primeiro. Não há estoque de conhecimento. Os incessantes pedidos de estudos ambientais não equivalem a acúmulo de conhecimento. São documentos empilhados, jamais repassados de forma sistemática para os órgãos encarregados de fazer o planejamento contra essas catástrofes.

Ou seja: um documento importante e que causa tanta polêmica costuma ser guardado pro-forma, sem se tornar um instrumento de planejamento. É nessas horas que o analfabetismo funcional institucional causa prejuízos altos.

Por sorte, em Santa Catarina ainda não apareceu a lógica de torcida (até onde eu tenha lido). Mas é um caso tipo "bomba atômica": só numa tragédia muito grande é que se busca soluções contornando o analfabetismo funcional institucional. Apenas trabalhar inteligentemente com informação não garante que os problemas não ocorram: apenas melhora o planejamento para evitar as conseqüências evitáveis.

Ocorre que, com o analfabetismo funcional institucional, geralmente se espera o desastre pra depois correr atrás da solução, desesperadamente. E, no caso da Petrobras, se todo mundo está desconfiado, acusa-se-os de "torcer contra". Infelizmente, costuma funcionar quando se está jogando para a torcida.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os gaúchos e a política


Peguei no Nova Corja um resumo muito resumido de uma pesquisa encomendada pela Assembléia Legislativa do RS sobre como o povo autoconsiderado o mais politizado do Brasil vê a política. O PDF linkado no site da Zero Hora tem apenas pinceladas nos resultados. Pessoalmente, eu queria ler os resultados inteiros. Podem ser reveladores.

Menos de um em cada 5 gaúchos confia na imprensa (17,6%), o que explica muito o ataque ao Graciliano há duas semanas. No Brasil, o índice de confiança na imprensa medido no Barômetro da AMB é de quase 3 em cada 5 (58%). O índice gaúcho é um terço disso, por mais que seja temerário comparar pesquisas de metodologia diferente.

Essa diferença diz muito a respeito da qualidade da imprensa de lá, embora certamente os gaúchos --eu sou sueco-- certamente prefiram achar que é por causa do nível de educação do berço de Flores da Cunha e de Borges de Medeiros, terra de Getúlio Vargas, presidente brasileiro. Ainda ontem, a Zero Hora inventou novas regras para o campeonato sul-americano de futebol, regras essas prontamente desmentidas pela Conmebol. Se o povo come bola até nas páginas de gre-nal, que são a especialidade informativa daquelas plagas, é compreensível um índice tão baixo de consideração à imprensa.

Menos de um em cada 4 gaúchos vê necessidade de maior fiscalização dos poderes eleitos (22,5%). Isso me lembra bastante o comentário que recebi no blog do Deu no Jornal, em 2006, quando cutuquei a falta de acessos ao Excelências no RS. Um cavalheiro disse que lá o povo é tão politizado que não precisa ter acesso a informações sobre o que seus deputados fazem. Na época, observei: "politização" sem informação não passa de torcida.

Possivelmente por conta desse déficit de informação, desse analfabetismo funcional institucionalizado, mais de um em cada 4 gaúchos acha que o RS é mais desenvolvido que o resto do Brasil (25,5%).

Mais da metade dos eleitores não lembra mais em quem votou pra deputado estadual em 2006 (51,9%). Em conseqüência, quase a totalidade dos consultados não sabe dizer o que o Parlamento votou de importante (95,2%). Se bem que isso também pode refletir um acompanhamento constante da Assembléia gaúcha. Duvido que o pessoal que acompanha também saiba dizer o que lá foi votado de importante.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Justiça argentina censura resultados do Google

De O Globo:

    É de se imaginar que um dos termos com mais resultados num site de buscas argentino seja "Diego Maradona", certo? Errado. Uma batalha legal iniciada por diversas personalidades públicas do país vem obrigando o Yahoo e o Google locais a censurar diversos termos, entre eles o nome do ex-craque e atual técnico da seleção argentina.

    Segundo um representante do Google ouvido pelo site CNet News, essa manobra legal não seria possível nos EUA ou na Europa, onde a lei considera que sites de busca não são responsáveis pelo conteúdo das páginas que eles indicam.

    O imbróglio teve início em meados de 2007, quando um grupo de 70 modelos, representadas por um único advogado, pediu que o Google bloqueasse todas as referências com seus nomes para evitar o acesso a sites pornográficos que exibiam suas fotografias. A empresa se recusou a tomar a medida e disse que bloquearia apenas links específicos e que os usuários precisariam ser notificados, disse ao CNet News Alberto Arebalos, diretor do Google para a América Latina.

    O caso foi levado à Justiça e desde então juízes argentinos têm ficado do lado das modelos e de outras figuras públicas, como Maradona, que procuraram o mesmo advogado, Martin Leguizamon Peña. Ele pede ainda indenizações entre US$ 30 mil e US$ 121 mil para seus clientes.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Os grandes debates da humanidade

Conta o sempre alerta Blog dos Quadrinhos, do Paulo Ramos, que a revista "Discutindo Literatura" acaba de lançar um especial dedicado às histórias em quadrinhos. Segundo ele, o tema subjacente do especial é o debate sobre se quadrinhos são ou não literatura.

Outras revistas têm ido pelo mesmo caminho. Se você observa bem as bancas, deve ter visto há poucos meses a revista "Imprensa" trazer em sua capa o candente debate sobre se blog é ou não jornalismo.

Interessantíssimo e pertinente debate, eu diria. O que me traz novas e fascinantes idéias de pauta. Caso a editora Escala queira criar uma revista chamada "Discutindo Decoração", por exemplo, poderia lançar um especial com um amplo dossiê sobre se sofás são ou não cadeiras. Ou se geladeiras são ou não armários. Ou mesmo se janelas são ou não portas.

Pessoalmente, considero um erro grave de lógica absolutizar duas coisas distintas (e heterogêneas em si) para compará-las. Geralmente isso leva em conta duas coisas: a aparência mais superficial e a percepção de "superioridade" de uma em relação a outra. Pessoalmente, acho que a questão só causa polêmica quando um dos fatores é um ilustre desconhecido de quem levanta a lebre. Pode haver pontos em comum mas, de resto, como dizia aquele sábio, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Um trecho do meu comentário sério:

    Fãs de gibis citam de cor vários exemplos que poderiam ser considerados ficção do mesmo naipe da melhor literatura. Mas elas são a minoria dos quadrinhos. Assim como "literatura" não é uma coisa homogênea. É um erro colocar Alan Moore no mesmo saco de James Joyce, porque um "faz quadrinhos" e outro "fez literatura". Parece óbvio. Mas também é erro pôr James Joyce no mesmo saco de James Clavell, embora ambos "sejam literatura", bem como jogar Alan Moore no mesmo saco de Alan Sieber, embora ambos "sejam quadrinhos".

Pessoalmente, acho que esse tipo de debate geralmente se concentra em áreas que a média do pessoal conhece pouco. Qualquer atividade que exija leitura costuma cair nessa vala comum.

Por isso é que eu propus de brincadeira mudar o foco para a decoração, que é uma coisa que todo mundo mais ou menos conhece um pouco. Geladeira e armário, pelo menos, todo mundo conhece e, se não tem em casa, pelo menos sabe usar.

Ninguém em sã consciência diria que geladeira é armário. Ambos têm porta, claro. Ambos servem pra botar coisas dentro. Mas todos sabem que uma serve para uma coisa e o outro serve para outra. Eventualmente você pode guardar o pão na geladeira. Ou os bombons, especialmente se fizer calor. Eu sempre guardei ovos na geladeira, mas recentemente soube que é melhor guardá-los no armário. Leite de caixinha eu guardo no armário quando está fechado e ponho na geladeira depois de abrir. Mas só coloco a cerveja no armário quando não pretendo bebê-la hoje. Também evito guardar minhas roupas dentro da geladeira, por praticidade.

Parece óbvio demais? Pois a relação entre quadrinhos e literatura, ou entre blog e jornalismo, ou entre sofá e cadeira, é mais ou menos assim.

sábado, 8 de novembro de 2008

Casualmente

Um dos meus primeiros empregos, no século passado, foi no escritório de contabilidade de um simpaticíssimo gringo de Carlos Barbosa (RS), com forte sotaque daquela região colonizada pelos italianos. Sua piada favorita era esta:

-- Marcelo! Tu non sabe qual é a maior promessa do prefeito lá de Barbossa! Ele vai queimar um monton de pneus no meio da praça!
-- Ué, por quê?
-- É que ele quer transformar Barbossa em uma cidade grande, e cidade grande tem que ter poluiçon.

Eu achava graça. Mas, quando eu olho os recordes de engarrafamento e comparo o desenvolvimento de São Paulo com o de Malmö, não consigo deixar de pensar que a mesma lógica da piada do interior gaúcho é levada a sério, em um contexto um pouco diferente, quando se trata de vender carros.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Quebrando a lógica do carro

Há mais de mês e meio que venho querendo escrever este post. Achei um gancho hoje com as notícias da crise econômica.

Hoje, a Anfavea anunciou que as vendas de carros caíram pela primeira vez desde 2006. Em outubro, foram vendidos 2,1% menos carros do que no mesmo mês do ano passado. Apavorada, a indústria automobilística já quer que o governo entre em cena para financiar a compra de mais carros.

Enquanto isso, o trânsito continua um inferno. Dizem entrevistados do Estadão que a entrada de São Paulo parece uma membrana: ninguém entra e nem sai. Ainda esta semana, um acidente na Marginal do Tietê causou um engarrafamento de 14 horas. E vejam o que é a experiência de atravessar um cruzamento no centro da cidade por onde circulam estudantes, trabalhadores e velhinhos:



Eu já estava mais ou menos conformado com isso de que cidade desenvolvida é assim mesmo. Até setembro, eu achava que a tranqueira era o preço do desenvolvimento e que o negócio, então, era organizar a própria vida pra não ficar parado duas horas pra ir e duas horas pra voltar do trabalho. Pois organizei: trabalho em casa, e no final da tarde adoro olhar pela janela só ver os trouxas trancados em seus castelos de lata destilando raiva em nome da prosperidade da indústria automobilística.

Mas aí fui a Malmö, na Suécia, a cidade de onde veio minha tataravó. É uma cidade desenvolvida - a terceira maior do país. Oferece serviços sofisticados, tem restaurantes interessantes... e quase não se vê carros na rua. O que o povo usa mesmo é bicicleta. Este é um dos pontos mais importantes de concentração de restaurantes no centro de Malmö, na hora do almoço:



Quer sentir que você, pedestre, tem um pouco de poder? Simples: é só parar no meio-fio para dar a vez ao carro ao tentar atravessar alguma avenida em Malmö. O motorista fica constrangido e PÁRA O CARRO pra você atravessar. Compare com o vídeo da esquina da minha casa e imagine o quanto isso me espantou.

Mas um fenômeno desses não acontece sem política pública. Em Brasília, pra não ficar só na distante e quase utópica Escandinávia, os carros também têm que parar sempre que um pedestre bota o pé no meio da rua. Mas isso só acontece porque houve uma campanha do Correio Braziliense, em 1996, que estimulou o governo distrital a aumentar a vigilância sobre os barbeiros depois de uma série de acidentes.

Em Malmö, também tem política pública a respeito: em 2007, a cidade fez uma campanha chamada "Nada de Viagens Ridículas de Carro". Uma pesquisa feita pela prefeitura descobriu que quase a metade das viagens de carro em Malmö é de menos de 5km. Isso podia ser feito facilmente a pé ou de bicicleta.

Com o dado em mãos, a prefeitura incentivou os cidadãos a expor seus maiores micos automobilísticos, tipo pegar o carro pra ir até a esquina. Ridendo castigat mores - e humor e informação fazem maravilhas.

Em alguns bairros, a prefeitura também determinou que cada apartamento só poderia estacionar 0,7 carro - ou pagaria multas pesadas. Como é complicado andar por aí com sete décimos de carro, o pessoal prefere andar com uma bicicleta inteira. Veja este vídeo sobre as iniciativas ambientais da cidade:



Funciona. Certamente funciona melhor do que a prática paulistana de construir imóveis com seis vagas na garagem por apartamento.

Eu já me irritava muito com o trânsito de São Paulo. Depois de conhecer o mundo civilizado, além de me irritar com o trânsito passei a me irritar em dobro com o quanto se transforma o Brasil em um inferno pra beijar a mão das fábricas de carros.

O nó da questão

Preocupado com o aquecimento global, o senador Gerson Camata propôs a abolição do terno e gravata obrigatórios como uniforme dos representantes do povo brasileiro. Ele disse ter-se inspirado em experiência da ONU, que ao flexibilizar o uniforme permitiu aumentar a temperatura do ar condicionado e reduzir a emissão de gás carbônico em 300 metros cúbicos diários.

Colegas seus estranharam, na lógica do hábito que faz o monge. A senadora Marisa Serrano disse: "é estranho a gente ter parlamentares sem terno e gravata." Tião Viana disse que é a favor de tirar a gravata nas comissões temáticas, mas em sessões plenárias e reuniões especiais o pedaço de pano tem que ser obrigatório.

A proposta já estava prestes a ficar no meu arquivo do fait-divers quando a coisa ficou séria, pelo que vejo na Agência Senado.

Com o mesmo tom grave usado para defender que ninguém tem nada que mexer na lei da anistia, o presidente do Senado, Garibaldi Alves, declarou que é preciso estudar com cuidado essa questão da gravata.

    -- Creio que a obrigatoriedade do terno e da gravata precisa passar por um período de transição. Se isso for mudado rapidamente, vai haver um choque visual. Vão aparecer camisas esporte e vai terminar havendo uma liberação geral. Vou conversar com o Camata e conhecer melhor suas intenções, seus critérios.

A obrigatoriedade da gravata no Congresso já gerou algumas situações hilárias. Em novembro, naquele calorão todo, o senador Heráclito Fortes precisou pedir emprestada ao seu motorista uma gravata para poder subir ao plenário numa sessão não-deliberativa e discursar para todos os quatro colegas que lá estavam. O discurso, que versou sobre gravata, CPI das ONGs e a incorporação do Banco do Piauí pelo Banco do Brasil, ficou registrado para a posteridade no site do Senado. Foi um dos poucos discursos na história do parlamento em que mais da metade dos presentes conseguiu fazer apartes. Ele começa assim:

    O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM ¿ PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) ¿ Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, antes de falar, quero, por dever de justiça, congratular-me com os Senadores presentes: Simon, Mozarildo, Botelho e V. Exª, Senador Geraldo Mesquita. Quero louvar o fato de estarmos aqui, realizando esta sessão, nesta sexta-feira imprensada.
    Quero revelar, meu caro Fonseca, decano desta Casa, que não acreditei muito nesta sessão, tanto que vim com roupa esporte. Aí, tive de improvisar, Senador Simon: pedi emprestada a gravata ao meu motorista, Guilherme ¿ meu motorista há 20 anos ¿, para poder estar aqui ao lado de V. Exªs.

    O SR. PRESIDENTE (Geraldo Mesquita Júnior. PMDB ¿ AC) ¿ Mas V. Exª ficou muito bem.

    O Sr. Pedro Simon (PMDB ¿ RS) ¿ Cá entre nós, é uma gravata de Senador a do seu motorista. Meus cumprimentos.

    O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM ¿ PI) ¿ Pois é.

    O SR. PRESIDENTE (Geraldo Mesquita Júnior. PMDB ¿ AC) ¿ V. Exª ficou muito bem.

    O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM ¿ PI) ¿ É o costume, é a companhia. Para V. Exª ver, Senador, que, às vezes, a boa companhia revela o que é positivo para quem a escolhe.
    Eu, por exemplo, tenho apenas de me orgulhar de ter procurado, ao longo de toda a minha vida pública, ser amigo de V. Exª. Não tive decepção alguma e nenhum momento de arrependimento.

    O Sr. Pedro Simon (PMDB ¿ RS) ¿ Na verdade, tenho uma emoção muito grande pela amizade que temos há tanto tempo. Para mim, é uma alegria muito grande. Digo sempre que, nas horas mais difíceis, mais dramáticas, V. Exª foi um dos que botou a cara para ser batida: colocou a sua casa à disposição do comitê do Dr. Ulysses e, quando a maioria fugia, V. Exª estava ali presente. A nossa amizade é muito profunda. A única coisa com a qual não concordo é que, em termos de vestuário, V. Exª só teve o que perder comigo. Ainda bem que V. Exª não me copiou, porque, senão, não teria essa elegância que tem hoje.

    O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM ¿ PI) ¿ Antes de perder com V. Exª no vestuário, tenho de perder no peso, mas, infelizmente, a gulodice é maior do que a força de vontade, e eu entrego os pontos.

Mas nem sempre a observação do uso da gravata garante trânsito no Legislativo. Não, não, não senhores. Por exemplo: há um ano, a Câmara cancelou uma exposição de fotos no Salão Negro da Câmara dos Deputados. Isso porque uma das fotos mostrava a(o) Rogéria de camisa social e gravata. OK, pouca coisa além disso.

Pra resolver a questão, acho que o Garibaldi devia convocar urgentemente uma comissão parlamentar mista, presidida pelo Clodovil e relatada pelo Pompeo de Mattos. Essa comissão poderia convocar o Henry Sobel como um dos depoentes. Para contribuir com a futura comissão, forneço este link com a história da gravata.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Operação abafa

O Estadão, hoje, traz a informação de que o presidente Lula quer botar panos quentes sobre a discussão a respeito da punição ou não aos milicos da ditadura. Isso porque já tá começando a ficar feio.

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado com a ampliação da polêmica sobre a aplicação da Lei da Anistia, que já chegou até à Organização dos Estados Americanos (OEA), e quer que seus ministros parem de alimentar o debate pela imprensa. Lula quer evitar que seja aberta uma nova frente de críticas ao Brasil no exterior. Vez por outra o País entra na berlinda, questionado em foros internacionais por causa de denúncias de trabalho escravo ou de menores, além de problemas com índios.

Pois é. Se chamar muito a atenção o governo corre o risco de acabar sendo levado a fazer algo a respeito, então melhor deixar como está pra ver como fica. Na dúvida, proíba-se até mesmo o debate.

sábado, 1 de novembro de 2008

A formação do jornalista

Em seu blog, o Victor Barone lança uma campanha: em vez de obrigatoriamente se formar nas faculdades de jornalismo, jornalista tinha que ter formação intelectual obrigatória.

É uma boa sacada. Pessoalmente, porém, do jeito como eu sei que a tigrada é, duvido que a campanha pegue. Mas vale pra cutucar o raciocínio daqueles grenalistas para quem os contrários à obrigatoriedade do diploma são defensores da burrice.

Tem pressa, não... ops, tem sim!

Mestre Rubinho Valente informa hoje na Folha que a Advocacia-Geral da União, escritório de defesa do ex-diretor do DOPS Carlos Alberto Brilhante Ustra, pediu um tempinho a mais para o governo liberar os documentos da guerrilha do Araguaia.

As mortes dos guerrilheiros ocorreram em 1973/74. A sentença que condenou o governo a liberar esses documentos saiu em 2003. Passados 35 anos do fato e 5 anos da sentença, ainda não deu tempo de achar os documentos para divulgar. Sabe como é, serviço público, os arquivos desse jeito que são, esses papéis velhos, etc. Mas não tem problema, porque ninguém no Brasil tem pressa disso, não - só as famílias dos que morreram.

Ah, sim. Não são só as famílias, não. A ONU também instou o Brasil a liberar de uma vez os documentos da ditadura. O prazo para liberação venceu em novembro de 2006, como escrevi na época no blog do Deu no Jornal. Na segunda-feira, o Brasil também precisou enviar um representante à Organização dos Estados Americanos pra explicar por que diacho não foi punido ninguém. Um dos principais argumentos da AGU é que não há os benditos documentos. A Abin diz que sumiu tudo, como observei também no tempo do Deu no Jornal.

Ou seja: ninguém sabe, ninguém viu, mas quem se importa mesmo? Na dúvida, diz que não tem mais e joga-se com a barriga.

Alguém mais conciliador, como o Lula já o fez, pode argumentar que a ditadura militar acabou há muito tempo e não vale a pena abrir feridas tão antigas. Outros, de verve mais afiada, podem argumentar que é até bom que os documentos não apareçam para não darem base a indenizações altíssimas para as famílias dos mortos.

Ocorre, porém, que o que está em jogo é o direito de acesso a informações públicas - esse direito fundamental tão desconhecido da média dos brasileiros e tão ausente dos discursos do Gilmar Mendes em favor da manutenção dos direitos fundamentais dos algemados ilustres.

Eu já escrevi milhões de vezes que a falta de acesso aos documentos da democracia, num regime com uma Constituição de 20 anos, é pior do que a falta de acesso aos documentos da ditadura, que acabou faz tempo. Não faz sentido, por exemplo, que os dados de despesas presidenciais do governo Fernando Henrique continuem sigilosos, mesmo existindo o banco de dados da Dilma.

Ocorre, porém, que a visibilidade dos documentos da ditadura é crucial para chamar atenção internacional para o problema do acesso a informações públicas como um todo no Brasil. É uma briga em que vale a pena entrar, independente de qualquer Gre-Nal em que alguém torça.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O churnalismo e o submercado

O Globo publicou hoje na internet um texto, às 14h13, sobre uma jornalista presa em Búzios. Assinado pela repórter Taís Mendes, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Ana Elizabeth Perez Baptista Prata, conhecida como Beth Prata, foi presa agora há pouco por policiais militares de Búzios por determinação do juiz criminal da cidade, Rafael Resende das Chagas. Ela é acusada de distribuir folhetos apócrifos no balneário com acusações a juízes de corporativistas. Ela teria distribuído os folhetos no Tribunal de Justiça do Rio. A jornalista já responde a um processo de calúnia, injúria e difamação contra membros do Judiciário. O processo está em fase de julgamento. Beth Prata está presa na Delegacia de Búzios e será transferida para a carceragem feminina da Polinter, no Rio.

O concorrente JB Online publicou também um texto sobre o assunto, às 15h12. Sem assinatura, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Elizabeth Perez Baptista Prata foi presa pela por policiais militares agora pouco, em Búzios. Ela é acusada de distribuir panfletos apócrifos no balneário, onde acusava juízes de corporativistas. A prisão foi determinada pelo juíz criminal Rafael Resende das Chagas. Este não é o primeiro processo ao qual a jornalista responde. No momento, ela responde por calúnia, injúria e difamação também contra funcionário da Justiça, que se encontram em processo de julgamento. Elizabeth será transferida para a carceragem da Polinter, no Rio.

A principal diferença entre os dois textos: 59 minutos. Fora isso, frases foram trocadas de lugar, expressões foram retiradas e o "agora há pouco" foi deslocado como "agora pouco". E só.

Mas mesmo a história original está muito mal contada. É crime distribuir panfletos? É crime um juiz ser corporativista, como teoricamente dizem os panfletos que ela distribuía? O que diziam exatamente esses panfletos? Qual é a versão do advogado dela a respeito? Nada naquela matéria. Nada no resto do dia. Apenas lendo as informações dos textinhos, não dá sequer pra pensar se esse é ou não um caso de intimidação judicial a um jornalista por conta de sua atividade profissional. Não tem informação.

Apuração: zero. Mas as listas de notícias continuam gordas no JB, no O Globo e nos outros. Gordas de um jornalismo burro e braçal, que substitui o uso dos neurônios pelo uso de dois dedos na mão esquerda: um para segurar a tecla "ctrl" e o outro para alternar entre as teclas "c" e "v". O adjetivo "burro" não se aplica necessariamente aos jornalistas que fazem esse trabalho. Mas certamente se aplica à lógica organizacional que cria demanda por gado com diploma embaixo do braço, pouco salário e zero possibilidade de evolução profissional, porque afinal tem que ter notícia nova a cada segundo.

No começo deste ano, fez sucesso no Reino Unido o livro "Flat Earth News" (Notícias da Terra Chata). Nele, o repórter Nick Davies se valeu de um estudo acadêmico com a origem de 2.000 notícias, onde a análise demonstrou que apenas 12% delas eram produzidas por meio de apuração. O restante era ou chupação ou press-release. E isso acontecia nos meios de comunicação tradicionais, tidos como respeitáveis. Nada que vocês não conheçam por aqui também - com a diferença de que não há um Guardian brasileiro.

Davies, neste artigo, aponta que essa tosqueira tem a seguinte causa:

    No reporter who is producing nearly 10 stories every shift can possibly be doing their job properly. No reporter who spends nearly 95 per cent of the time crouched over a desk can possibly develop enough good leads or build enough good contacts. No reporter who speaks to so few people in researching 48 stories can possibly be checking their truth.

Em inglês, ele criou o trocadilho "churnalism" para descrever essa prática. Vem da expressão "churn out" que significa algo como "fazer nas coxas". Mas a palavra "churn" também é usada no jargão econômico para descrever o processo pelo qual empregos são regularmente criados e destruídos conforme muda a tecnologia. O que se aplica também, com louvor, ao trabalho dos portais. "Churn" também significa rotatividade. Que também se aplica à organização do trabalho nos portais.

Do pouco que eu conheço desse mercado, os "churnalistas" brasileiros costumam ser muito jovens e trabalhar sob contratos temporários relativamente mal-pagos. Dificilmente esse tipo de trabalho dá algum tipo de experiência que amplie suas habilidades profissionais - que raramente foram desenvolvidas na faculdade, porque as faculdades brasileiras, apesar de obrigatórias, são o que são. No churnalismo, o jovem jornalista também não tem oportunidade de desenvolver o texto, fontes, refinar sua capacidade de análise. Assim, por mais que queira, e muitas vezes quer, evoluir profissionalmente, o sujeito acaba ficando preso naquela terra paralela - que produz jornalismo só no nome.

Aí vem uma observação empírica minha, que eu já venho fazendo há algum tempo pra consumo próprio. O "churnalismo" acaba por criar um submercado de trabalho. É mais comum alguém sair de uma publicação de mais qualidade para o churnalismo do que o contrário. Conheço pilhas de jornalistas jovens que mudam de um site pra outro, muito insatisfeitos com a profissão em geral e seu trabalho (braçal) em particular - e isso muito pouco tempo depois de sair da faculdade.

Qualquer um sabe que toda possibilidade de futuro para o jornalismo passa necessariamente pelo uso da internet. Mas só o uso INTELIGENTE da internet pode abrir essas possibilidades. O caminho para se chegar a isso certamente não é o churnalismo.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma triste equação e uma longa digressão

Nunca fui muito bom em matemática, mas vejam esta equação aqui:

    (Espetáculo + incolumidade) x (tradição de abuso + desconfiança) = tristes modas

Em Marília, mais um descornado, este de 19 anos, manteve a ex-namorada (de 14) em cárcere privado. Foram dois dias. Ele libertou a guria hoje de manhã e deu no pé. São Paulo parece ter-se tornado a meca dos descornados e perigosos, com três mortes desde o seqüestro da Eloá (fora a da própria), como se pode observar nesta visualização do mapa exclusivo deste blog:


Exibir mapa ampliado

Um dos principais motivos possíveis pelos quais isso virou moda depois do caso Lindemberg é possivelmente o fato de que o único que não saiu ferido foi o seqüestrador. Dois artigos publicados nos últimos dias tocam bem nesse assunto. Eles convergem num ponto, divergem noutro.

"Uma verdade apavorante", de Paulo Moreira Leite, na Época desta semana:

    Deve-se ao coronel Eduardo José Félix, comandante da Tropa de Choque, a principal revelação sobre o estado de espírito da Polícia Militar de São Paulo. Na hora de explicar por que os atiradores de elite da PM desperdiçaram seis oportunidades para alvejar o Príncipe do Gueto que matou Eloá Pimentel, o coronel declarou: “Inevitavelmente os senhores da imprensa estariam questionando o Gate do mesmo jeito. É um garoto de 22 anos, sem antecedentes, que estava passando por uma crise nervosa”.

    A declaração é equivocada, já que a polícia não é um serviço de relações públicas e tem a obrigação legal de proteger vidas humanas em primeiro lugar. Não é difícil entender o comportamento da PM. A culpa não é da imprensa, mas a explicação é apavorante.

    A PM tem medo. Muitas vezes, quando um atirador de elite poderia entrar em ação – depois que todos os meios de negociação pacífica foram esgotados –, a voz de comando gagueja e as mãos que deveriam apertar o gatilho tremem. Criados nas trincheiras européias da Primeira Guerra Mundial, os atiradores de elite não são uma moda recente e estão em atividade no mundo inteiro. Mas o receio, no Brasil, é real, e nasceu em 1990.

    No esforço para libertar uma refém num assalto em Perdizes, um atirador de elite fez um disparo de filme. Matou o criminoso na hora. Mas a bala seguiu em frente e alvejou a vítima, que faleceu no hospital. O PM foi preso, julgado e condenado. Ouviu uma sentença humilhante, na qual o disparo era definido como inconseqüente e irresponsável.

    De lá para cá, os atiradores de elite baixaram o fuzil. É cada vez mais freqüente encontrar situações nas quais seus serviços poderiam ser usados – na opinião da maioria dos especialistas –, mas nem se cogita. É como se, por causa de um erro médico, fosse necessário abandonar uma técnica cirúrgica consagrada pela medicina.

"A liberdade e o direito com responsabilidade", da procuradora da República Ana Lúcia Amaral, hoje no Observatório da Imprensa:

    Mantendo a atenção de toda a mídia por cerca de 100 horas, [Lindemberg] teve o domínio da situação todo o tempo. Chegou a fazer disparos a esmo, colocando em risco outras pessoas, sem que a polícia reagisse, e exibiu-se por trás da refém, apontando a arma para sua cabeça. Mesmo havendo previsão legal da legítima defesa de terceiro (art. 25 do Código Penal), a polícia não atirou no seqüestrador.

    Todavia, a Polícia Militar de há muito é a "Geni": se atirasse, não faltaria quem criticasse a violência como desnecessária, pois não esgotadas as negociações. Entidades de defesa dos direitos humanos acusariam a polícia de execução sumária, sem julgamento por juiz competente, violando o direito à ampla defesa e o princípio da dignidade da pessoas humana etc., etc.

    (...) Não estou a defender a violência policial como forma de solução dos problemas de criminalidade, mas a ponderar se a imprensa não poderia exercer um certo controle da atividade policial, em tempo real, mas não transmitindo ao vivo.

Pessoalmente? Sempre fico com um pé atrás quando se fala em "pactos", "acordos", "parcerias" para a imprensa publicar ou deixar de publicar alguma coisa em nome de algum bom sentimento. Mas também acho que ninguém precisa de cobertura minuto a minuto de um caso triste desses. Acho que a informação é muito importante - até pra botar na mesa a discussão sobre políticas de segurança. Mas ninguém precisa desse circo todo que ocorreu - até porque o circo estimula reações doentias. Pode não causar, mas certamente dá idéias.

Existe um razoável meio termo, já estabelecido na cobertura de seqüestros em geral: a imprensa acompanha, mas só publica quando termina. Seria um bom meio-termo pra um caso desses? Eu acho que sim. Mas se for estabelecido por decreto eu sou contra. Teria que ser uma opção editorial de bom senso. Mas existe bom senso no mundo, ainda mais com trocentos sites minuto a minuto, além de TVs e rádios de notícias 24 horas competindo pra ver quem derruba primeiro o avião na Faria Lima?

ATENÇÃO: Os vários parágrafos a seguir contêm digressões sobre jornalismo. Caso julgue perda de tempo, não precisa ler mais pra frente.

Essa opinião tem muito a ver com minhas idiossincrasias profissionais - como, por exemplo, a de achar inútil todo tipo de pseudo-evento planejado pra atrair jornalistas: coisas como entrevistas coletivas, cafés-da-manhã-para-a-imprensa, debates eleitorais, coberturas-manada em porta de delegacia e outros que-tais. Também tem a ver com minha idiossincrasia fundamental, a de preferir os dados às aspas. E tem um pouquinho de egoísmo, também: prefiro cavar minhas próprias pautas a cobrir o assunto-da-vez que todo mundo está cobrindo.

(Um pouco por sorte, outro tanto por teimosia, outro tanto por direcionamento profissional, dá pra contar nos dedos quantas vezes precisei cobrir esse tipo de evento. Mas, de qualquer forma, eu me sinto incompetente nessas ocasiões, porque não é o que eu sei fazer. Há quem saiba e goste. Mas não é minha praia.)

Até porque o Brasil não pára enquanto ocorre o assunto da vez, mas as redações estão cada vez mais enxutas. É outra equação: despejar muitos profissionais para cobrir um só assunto tira profissionais da cobertura de todos os outros. E a ênfase primordial num só assunto favorece o declaratório, a espetacularização e a instrumentalização da cobertura por fontes cada vez mais profissionalizadas e portadoras dos mais diversos interesses. A compreensão, aí, vai pras cucuias.

É exatamente a esse fenômeno que o Carl Bernstein se refere no artigo "O Triunfo da Cultura Idiota", de 1992:

    O maior crime do negócio da notícia hoje é ficar para trás ou perder uma grande matéria. Então, a velocidade e a quantidade substituem a perfeição e a qualidade, a exatidão e o contexto. A pressão para competir, o medo de que alguém vá dar primeiro a notícia, cria um ambiente frenético onde uma nevasca de informações é apresentada e questões sérias não podem ser levantadas: e mesmo naquelas bem-aventuradas instâncias em que tais questões são feitas, ninguém passou meses trabalhando para verificar e respondê-las corretamente.

    Reportagem não é estenografia. É a melhor versão da verdade possível de se obter. As tendências realmente significativas no jornalismo não têm ido em direção a um compromisso com a melhor e mais complexa versão da verdade possível de se obter, não em direção a construir um novo jornalismo baseado em reportagens sérias e refletidas. Essas não são as prioridades que saltam para o leitor da maior parte de nossos jornais, nem o que o espectador recebe quando liga nos noticiários.

É impressionante como ele fica mais atual a cada ano que passa, quanto mais se multiplicam os canais pelos quais as notícias-commodity chegam aos seus consumidores. E quanto mais isso acontece, mais o circo se potencializa - e cada vez mais alto gritam os guardiões da decência com propostas censórias e jogando as coberturas da TV trash e do jornal sóbrio no mesmo saco basicamente por tratarem do mesmo assunto que se espetacularizou.

Já reparou nas "críticas de mídia" que vêm circulando por aí sobre a cobertura do caso Eloá? Pois é. Ainda ontem era a mesma gritaria sobre o caso Isabella - que foi coberto do mesmo jeito commoditizado.

E aqui volto ao meu maestro soberano Philip Meyer, que escreveu há pouco um interessante artigo na American Journalism Review onde ele reformula seu conceito de "jornalismo de precisão", dos anos 70, como "jornalismo baseado em evidências":

    I still believe that a newspaper's most important product, the product least vulnerable to substitution, is community influence. It gains this influence by being the trusted source for locally produced news, analysis and investigative reporting about public affairs. This influence makes it more attractive to advertisers.

    By news, I don't mean stenographic coverage of public meetings, channeling press releases or listing unanalyzed collections of facts. The old hunter-gatherer model of journalism is no longer sufficient. Now that information is so plentiful, we don't need new information so much as help in processing what's already available. Just as the development of modern agriculture led to a demand for varieties of processed food, the information age has created a demand for processed information. We need someone to put it into context, give it theoretical framing and suggest ways to act on it.

    The raw material for this processing is evidence-based journalism, something that bloggers are not good at originating.

    Not all readers demand such quality, but the educated, opinion-leading, news-junkie core of the audience always will. They will insist on it as a defense against "persuasive communication," the euphemism for advertising, public relations and spin that exploits the confusion of information overload. Readers need and want to be equipped with truth-based defenses.

    Newspapers might have a chance if they can meet that need by holding on to the kind of content that gives them their natural community influence. To keep the resources for doing that, they will have to jettison the frivolous items in the content buffet.

Acho que esse conceito de demanda por informação processada num tempo em que a informação-commodity barata e burra abunda vale a pena para dar partida à reflexão sobre o que fazer a respeito de um ambiente que, em última análise, alimenta os descornados e perigosos. A oferta de notícias-commodity não vai deixar de existir. Mas não é por isso que a imprensa de referência precisa concorrer com ela.

Mas, enfim, estou pensando com os dedos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um anacronismo a menos (ou não)

Recebi hoje pelo RSS do Consultor Jurídico, mas sei lá por que motivo ela veio hoje se é de há dois anos. De qualquer forma, aparentemente, não pegou, como lembra o Evandro nos comentários.

    A placa com o aviso “É crime desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela” deve ser retirada de todas as repartições públicas de São Paulo. A determinação é do Tribunal de Justiça paulista.

    As placas, que funcionam como uma espécie de Habeas Corpus preventivo para o mau serviço público, representam, senão um desacato, uma verdadeira agressão aos cidadãos. O corregedor-geral do TJ-SP, desembargador Gilberto Passos, acolheu Representação ajuizada pelo corregedor do Tribunal de Ética e Disciplina da seccional paulista da OAB, Sergei Cobra Arbex.

    Para a OAB paulista, os avisos ostensivos intimidam os cidadãos, usuários do serviço público, que temem reclamar quando não recebem atendimento adequado. Segundo Arbex, “da mesma maneira que se informa as sanções às quais o cidadão está sujeito em razão da incidência de norma legal, ele deve ser informado de seus direitos, também previstos em lei, para que possa exercer sua cidadania de maneira plena e irrestrita”.

Não admira que não tenha pego. Até hoje não houve nenhuma decisão judicial que mandasse tirar os crucifixos das paredes das repartições públicas. E olha que, teoricamente, o estado é laico.

Possivelmente essa confusão toda vem da própria Constituição. No preâmbulo, ela diz: "promulgamos, sob a proteção de Deus". E já no artigo 19 muda de idéia:

    Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

    I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Saída à brasileira

Os nossos geniais senadores, enquanto constrangidamente demitiam mais alguns parentes e de lambugem davam um pé no traseiro do advogado que arrumou um buraco pra manter o nepotismo, analisavam na CCJ mais uma medida genial que com certeza vai ajudar a aumentar a segurança no país.

Para evitar que as nossas cidades fiquem cada dia mais pichadas, o projeto proíbe a venda de tintas em spray a menores de 18 anos. Esse tipo de venda passa a ser crime. Pra comprar spray, será preciso apresentar carteira de identidade e o nome do comprador vai ter que aparecer na nota.

O projeto já vem com dois furos básicos. Em primeiro lugar, ele pressupõe que os sprays usados em pichações são usados por quem compra. Em segundo, ele pressupõe que os pichadores sejam todos menores de idade - e, ainda por cima, menores de idade que economizam seus trocados para realizar o sonho de escrever palavras incompreensíveis em paredes alheias. Qualquer desvio disso - seja roubo dos sprays, seja algum outro sujeito comprar o spray em nome do moleque, seja o pichador ser um barbado maior de idade - está completamente fora do alcance da lei.

É mais um exemplo da mentalidade "na dúvida, proíba-se", que reina no Brasil nas questões regulatórias e leva a uma perda de tempo incalculável discutindo medidas inócuas.

Porque aqui no Brasil é assim: se o estado não consegue fiscalizar o trânsito pra evitar mortes, proíbe-se a bebida. Se o jornal fala mal de um político em época de eleição, manda-se apreender a tiragem (e depois, quando fica feio, volta-se atrás). Se não se consegue fiscalizar o que os políticos fazem na internet, proíbe-se o uso da Web nas campanhas (e depois, quando fica feio, volta-se atrás). Se a modelo posa seminua com um terço, proíbe-se a reprodução da foto. Proíbe-se até videogame.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TSE faz a apologia do analfabetismo funcional

O TSE considerou "rigoroso demais" o teste de alfabetização promovido pelo TRE de Alagoas para os candidatos. Segundo a notícia do TSE, a prova tinha dez questões. Três delas eram de marcar. As outras sete eram de escrever. O candidato a vereador Manoel Martim Filho respondeu apenas as de marcar. Acertou duas.

Não li o teste, mas li as aspas dos ministros nessa notícia:

Ministro Arnaldo Versiani, relator do processo:

    “O tribunal resolveu transformar esse teste de alfabetização num vestibular, na base de interpretação de texto”

    “Eu acho que o fato de a pessoa ser alfabetizada não significa nem que ela tenha condições propriamente de escrever. Eu acho que o que importa é a compreensão do texto que ela lê e que lança alguma resposta. A habilidade de grafia não é uma condição inerente à condição de alfabetizado”


Ministro Carlos Ayres Britto, presidente do TSE:

    “Há uma diferença entre dominar a língua e dominar o alfabeto. Dominar o alfabeto é uma coisa muito simples”

Ou seja: se o candidato conhecer as letrinhas, está qualificado para tentar ganhar a chance de fazer as leis de uma cidade.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Eu desisto...

...de dar entrevistas sobre jornalismo a estudantes e sites especializados nacionais. Não vale a pena. Não que eu não soubesse, até porque sou um leitor atento desse tipo de notícia. Mas sempre deixo a gentileza imperar e acabo dando trela.

Anteontem, recebi um telefonema de uma moça de um site especializado, perguntando o que eu achava de uma pesquisa que a Fenaj fez sobre o que os brasileiros acham da obrigatoriedade do diploma. Respondi, da maneira mais sincera que podia.

Minutos depois, quando saiu a matéria no ar, a descrição do meu currículo estava atrasada em seis anos. A moça não me perguntou o que eu fazia hoje da vida, durante a entrevista - mas na hora não me preocupei, porque pelo menos até recentemente ela namorava um amigo meu, então devia saber mais ou menos. Liguei pra corrigir. Resposta: "ué, copiei do seu site". Um site que eu não atualizo há seis anos, que ainda fala da história que eu traduzi para Homem-Aranha 5 (hoje, está nas bancas a edição 81). Mais importante, diz que eu escrevo para lugares para os quais não escrevo mais há anos. Como perdi a senha, nunca tirei a página do ar.

Não sei se ela corrigiu, mas a praga do controlcê-controlvê é onipresente nos sites especializados - então, vários reproduziram o texto com o erro.

Há alguns meses, uma estudante me ligou para pedir ajuda para seu trabalho de conclusão de curso e passei mais de meia hora contando sobre os padrões das agressões contra jornalistas no Brasil. Outro dia ela me mandou o trabalho de conclusão de curso que fez e pediu para eu mandar minha opinião a respeito. Fiquei constrangido demais para fazê-lo com sinceridade, depois de ler o trabalho.

Resultado: em respeito às namoradas de amigos e estudantes bem-intencionados, mas especialmente em respeito à sanidade do meu fígado, desisto de dar entrevistas sobre jornalismo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Na dúvida, proíba-se (3)

Do O Globo Online, de novo:

    O diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, encaminhou ontem ao ministro da Justiça, Tarso Genro, sugestão para criminalizar o porte, sem autorização, de aparelhos capazes de realizar escutas ou grampos telefônicos. Atualmente, a PF só pode deter os portadores desses equipamentos em caso de flagrante na interceptação ilegal.

    "O que eu quero hoje é abordar alguém portando equipamentos de escuta sem autorização legal e poder prender em flagrante. Assim como se controla armas e produtos químicos para refino de drogas", disse o diretor-geral da PF.

    Corrêa frisou que tal iniciativa tem como objetivo separar a utilização legal das escutas - como as realizadas pela PF, que dependem de autorização judicial - das interceptações ilegais. O diretor-geral alertou para uma mistura no entendimento entre o que é legal e o que é ilegal no uso dos grampos.

Vamos lá: o que exatamente ele define como aparelhos capazes de realizar escutas ou grampos telefônicos? Porque a definição é ampla. Vai da maleta da Abin até coisas BEM mais prosaicas.

Eu tenho na minha gaveta um fiozinho que uso para ligar o meu gravador no meu telefone para gravar minhas entrevistas quando preciso. É de uma utilidade fabulosa para garantir que eu possa transcrever palavra por palavra o que me dizem nas entrevistas que faço. O fiozinho, aliás, foi comprado na mesma loja onde a Abin vai às compras - por R$ 20, salvo engano. Pela lei brasileira, é perfeitamente legal alguém gravar suas próprias conversas. Muitos outros jornalistas usam trecos semelhantes.

Esse fiozinho é um equipamento de escuta? Pode servir como tal, se for usado pra pendurar um gravador numa linha telefônica alheia, sei lá de que jeito. É bem menos eficiente do que gravar direto das telefônicas, como faz a Polícia Federal sob autorização judicial, mas funciona. Era mais ou menos assim que se grampeava telefones antigamente.

Sendo ele considerado um equipamento de escuta, o governo pretende forçar todos os jornalistas a registrar o fato de possuírem essa traquitana? Sendo considerado um equipamento de escuta e o governo forçando os jornalistas a registrarem, isso não configuraria um atentado à liberdade de imprensa?