Hoje eu vi um negócio que me deu até uma ponta de medo.
Eu tava passando pela rua São Luiz, no centro de São Paulo, pra gravar meu comentário de hoje pra MTV. Aí passa na frente da van um sujeito carregando um carrinho cheio de caixas de papel pra xerox.
Tinha um negócio engraçado no cabelo dele: meio sujo, meio verde. Aí ele olha pra janela: o desgramado tinha pintado a cara que nem o Coringa do filme. Igualzinho.
Lembrei direto de notícias que li recentemente.
Em janeiro, na Bélgica, um ano e um dia após a morte do ator Heath Ledger, um cara vestido de Coringa matou dois bebês e uma babá numa creche. Semana retrasada, nos Estados Unidos, um militar vestido de Coringa, acusado pelo assassinato de um colega, apontou uma arma para dois policiais num parque nacional e foi morto pela polícia.
Aí me aparece esse entregador vestido de Coringa no centrão de São Paulo. Pode ser que ele não vá matar ninguém, mas de qualquer forma andar por aí com o rosto e o cabelo pintados de Coringa, de graça, é um mico BEM maior do que sair na rua com uma camiseta do Batman (como eu mesmo saio às vezes). Eu diria que é quase equivalente a sair de cueca na rua.
OK, a caracterização do ator é genial mesmo. Bizarra na medida certa, sem ser um palhaço canastrão. Mas tem mais coisa aí, tem um elemento que não me parece usual: o que tem nesse Coringa do Heath Ledger que faz um cidadão pagar esse tipo de mico?
quinta-feira, 26 de março de 2009
Why so funny?
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terça-feira, 17 de março de 2009
A vida imita os spams mais toscos
Você certamente já recebeu uma história parecida em seu e-mail. Um livro de geografia, distribuído para alunos da sexta série de um território riquíssimo, traz noções completamente erradas sobre um país pobre latino-americano.
Não, não é a volta daquela corrente ridícula sobre o suposto livro de geografia americano que "tira" a Amazônia do Brasil.
Trata-se de um livro de geografia que realmente existe, é distribuído na rede estadual de São Paulo e, não contente em ter dois paraguais, ainda trocou o verdadeiro de lugar com o Uruguai. Ficou assim a imagem:

A Secretaria de Estado da Educação bota a culpa toda em quem imprimiu o livro e diz que não vai trocar. Menos de 2% dos exemplares teriam defeitos, mas a Folha encontrou livros defeituosos em várias cidades. O governo pôs uma correção na internet, mas só os diretores de escola, com senha, podem acessar.
Os paraguaios já têm o Brasil entalado na garganta por quererem aumentar os preços pagos pelo Brasil pela energia excedente que compra da parte paraguaia de Itaipu. Agora, mais essa.
E sabe o que é pior? Explico.
Quando os brasileiros se revoltavam com a corrente do livro americano, estavam reagindo a uma falsificação grosseira possivelmente feita por milicos de pijama. A indignação nacionalista apontava um cálculo maquiavélico.
Quando os paraguaios se revoltarem com a notícia do livro brasileiro, estarão reagindo apenas a mais uma demonstração do analfabetismo funcional institucional que rege o Brasil. Mas a indignação nacionalista também apontará um cálculo maquiavélico.
Pelo menos o livro ofensivo aos paraguaios de fato existe. Infelizmente. E o pior: existe por burrice.
- ATUALIZANDO: Depois que apareceu, ficou feio. Como sempre no Brasil. Então, o governo mandou recolher 500 mil exemplares do livro, que deverão ser substituídos pela Fundação Vanzolini, que o imprimiu, diz a Folha. Mas será que o erro foi só de quem imprimiu? O conteúdo não é produzido por quem imprimiu.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Homens de deus
O padre e deputado federal Luiz Couto deu uma entrevista onde criticou três dos maiores dogmas da igreja católica: a proibição ao uso da camisinha ("Defendo o uso da camisinha como uma questão de saúde pública"); o celibato, princípio que proíbe os religiosos de constituírem família ("O comando da Igreja é muito conservador nesse ponto (...) "Não tem fundamentação bíblica. Deveria ser optativo"); e o repúdio à união de homossexuais ("Devemos lutar no dia-a-dia contra o preconceito e a intolerância"). Couto também arranhou um quarto dogma ao defender as mulheres que fazem aborto devem ter direito a receber assistência médica.
Como resultado, o arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, afastou Couto das atividades religiosas até que ele se retrate de suas declarações.
Em Rio Grande, o padre Cláudio Dias Costa foi preso em fevereiro do ano passado, em flagrante, acusado de manter relações sexuais com uma menina de nove anos. Ele foi condenado a 13 anos e quatro meses de prisão, um ano depois da prisão em flagrante.
Como resultado, o bispo de Rio Grande, dom José Mário Stroher, diz que Costa continua sendo padre e apenas foi suspenso quando foi preso. Depois que cumprir a pena, ele vai passar por um tratamento médico e psicológico e será avaliado se deve ou não continuar exercendo a função de religioso.
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Nosso mundo burro
O The Onion lançou uma espécie de guia turístico satírico do mundo, chamado "Our Dumb World" ("Nosso Mundo Burro"). Um dos banners para anunciá-lo é este:
"Brasil. O que há de mais belo das pessoas. O que há de mais feio da humanidade."
Antes de protestar como fez o Brasil contra um episódio dos Simpsons, olhe bem ao seu redor, abra um jornal e pense a respeito.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Defensores do todo-poderoso
Em Londres, um grupo de ateus resolveu pôr um anúncio nos ônibus dizendo:
Agora, pare de se preocupar e curta sua vida."
O que eles fizeram com a sua descrença não é nada muito diferente, embora com o sinal trocado, do que absolutamente todas as religiões fazem para pregar suas crenças. A idéia é tão boa que fizeram o mesmo em Barcelona, logo depois. O único senão, apontam alguns ateus mais rigorosos, é o "provavelmente". O Guardian entrevistou Richard Dawkins a respeito.
Agora, carolas de toda sorte reclamam ao órgão regulador da publicidade que a campanha do ônibus ateu é mentirosa e vai contra os padrões comumente aceitos para a publicidade. Já foram recebidas 141 reclamações. Mesmo com o "provavelmente". Ah, que saudade do tempo do Torquemada! Não tinha tanta baixaria na tevê e nem se falava tão mal de pessoas importantes no jornal!
Eles, que acreditam no todo-poderoso, não precisavam fazer uma dessas. Era só deixar o ofendido decidir sozinho e punir os ofensores como lhe aprouvesse. Ou será que eles acreditam que provavelmente deus não vai fazer nada a respeito? Mas o cara não é todo-poderoso? Então, ora. Deixa ele provar que existe, caso exista, pra esses hereges verem só uma coisa. Afinal, o maior interessado em defender sua honra não é o ofendido?
Eu, no lugar dos diretores da campanha do ônibus ateu, faria o mesmo que seus oponentes, mas com sinal contrário: denunciaria todas as propagandas que dizem que certamente deus existe.
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terça-feira, 30 de dezembro de 2008
O cartão do ano
Há tempos admiro a colunista Lucy Kellahan, do Financial Times. As colunas dela sobre o mundo corporativo saem em português toda sexta no Valor, mas o original preserva o sarcasmo da moça em estado puro.
Em sua mais recente coluna, ela fala de um cartão de natal eletrônico que recebeu da Escola de Finanças e Administração de Frankfurt. Ele inclui um vídeo que mostra os professores da faculdade cantando "We wish you a merry christmas". Impossível não creditar a cara do diretor da faculdade, após a mensagem de boas festas em alemão, à crise braba do mundo das finanças.
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Estados Partidos da América
O Wall Street Journal entrevistou Igor Panarin, um acadêmico russo que já foi analista da KGB. Na opinião dele, os Estados Unidos vão se dividir da seguinte forma: um pedaço pra China, um pedaço pro Canadá, um pedaço pra Europa, um pedaço pro México e um pedaço pra Rússia. Vejam o mapa desenhado pela bola de cristal dele:
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Ho, hoho, hoho... e uma garrafa de rum!
Recentemente, a maior parte das notícias que leio sobre pirataria na imprensa estrangeira não se refere a música ou vídeo - e sim à pirataria clássica, marítima, de olho de vidro e cara de mau. Isto aqui é só dos últimos três dias, e o fascinante é que o noticiário se refere a vários casos, embora haja uma concentração de notícias sobre casos da Somália:
Spreading the Pirate Booty Around (Freakonomics/New York Times)
The lawless Horn - Pirates are only part of a much bigger problem in east Africa (The Economist)
Supertanker pirates demand $25m within 10 days (Guardian)
UN imposes fresh sanctions on Somalia after piracy talks (Guardian)
Shipping avoids Suez on piracy fears (Financial Times)
Egypt and other Red Sea nations target pirates (Los Angeles Times)
Indian Navy Says It Sank Pirate Ship (New York Times)
Britain to lead fleet of EU warships to tackle pirates (Guardian)
A consultoria ICC Commercial Crime Services fez um mapa dos ataques conhecidos.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Justiça argentina censura resultados do Google
De O Globo:
- É de se imaginar que um dos termos com mais resultados num site de buscas argentino seja "Diego Maradona", certo? Errado. Uma batalha legal iniciada por diversas personalidades públicas do país vem obrigando o Yahoo e o Google locais a censurar diversos termos, entre eles o nome do ex-craque e atual técnico da seleção argentina.
Segundo um representante do Google ouvido pelo site CNet News, essa manobra legal não seria possível nos EUA ou na Europa, onde a lei considera que sites de busca não são responsáveis pelo conteúdo das páginas que eles indicam.
O imbróglio teve início em meados de 2007, quando um grupo de 70 modelos, representadas por um único advogado, pediu que o Google bloqueasse todas as referências com seus nomes para evitar o acesso a sites pornográficos que exibiam suas fotografias. A empresa se recusou a tomar a medida e disse que bloquearia apenas links específicos e que os usuários precisariam ser notificados, disse ao CNet News Alberto Arebalos, diretor do Google para a América Latina.
O caso foi levado à Justiça e desde então juízes argentinos têm ficado do lado das modelos e de outras figuras públicas, como Maradona, que procuraram o mesmo advogado, Martin Leguizamon Peña. Ele pede ainda indenizações entre US$ 30 mil e US$ 121 mil para seus clientes.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Responda rápido
Um candidato de origem humilde se elege com um discurso de mudança e esperança, após oito anos de um governo ao qual se opôs. Ao ganhar, anuncia que vai manter em sua equipe peças-chave das políticas públicas do governo ao qual se opunha. Que país é esse?
Não é o Brasil, juro. Mas tomara que a semelhança pare por aí. Porque senão eu vou ter que resgatar pela enésima vez aquele trecho do Bakunin.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008
O segredo do morcego

Em 2009, o Batman completa 70 anos. Foi criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger, então dois jovens desenhistas americanos. O nome veio do fato de o personagem se vestir de morcego (bat) para aterrorizar os bandidos à noite. Desde então, o manto do morcego gerou milhões de dólares em gibis, seriados, desenhos animados, bonecos, lancheiras, pijamas e até chicletes.
Com o sucesso mundial do filme "O Cavaleiro das Trevas", oitavo longa-metragem oficial do personagem desde 1966, a prefeitura de uma cidade curda no sul da Turquia resolveu ganhar uns trocados processando o diretor Christopher Nolan. Isso porque o nome da localidade, tal qual o da identidade secreta de Bruce Wayne, é Batman.
Na verdade, o nome da cidade é uma abreviatura de "Bati Raman", mas o prefeito Huseyin Kalkan resolveu processar Nolan mesmo assim, por usar o nome "Batman" sem pagar direitos autorais à cidade.
"Só há um Batman no mundo. Os produtores americanos de cinema usam o nome da província sem nossa permissão. Processaremos quem usar o nome de Batman e, sim, é necessário irmos aos tribunais nos EUA", disse o prefeito.
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
A crise está feia
Está feia a crise na imprensa americana, com uma longa queda de circulação e vários cortes de pessoal e custos. O melhor exemplo disto são estes memorandos distribuídos nesta semana na redação do Raleigh News & Observer.
O primeiro é da editora de operações da redação, Susan Spring, quatro minutos antes do meio-dia:
- From: "Susan Spring"
Date: November 3, 2008 11:46:07 AM EST
To: [equipe do Raleigh News & Observer]
Subject: Etiqueta da pizza
Gostaria de lembrar-lhes que será fornecida pizza amanhã à noite APENAS para aqueles que trabalham na cobertura da eleição. Por favor, sejam polidos. Se estiverem cobrindo a eleição, podem pegar até DUAS fatias. Grata em antecipação por sua consideração.
Susan Spring
Director of Newsroom Operations
The News & Observer
(919) 829-4860
Algumas horas depois, outro memorando pisca nas telas dos funcionários do jornal. É do editor executivo John Drescher. Ele diz:
- Não haverá limite de duas fatias na terça à noite (mas se a Susan Spring persegui-lo com uma faca na mão, problema seu). E todos os que estiverem aqui podem se servir.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008
Na Suécia, há 10 anos, emails de autoridades são públicos
Quando estive na Suécia, em setembro, fiquei fascinado ao obter em poucos minutos os documentos da vinda da minha tataravó para o Brasil, em 1891. O acesso a informações públicas lá me ajudou até a tomar um cafezinho na casa dos meus antepassados.
Eu já sabia que eles já tinham uma lei de direito de acesso desde 1766 e que a partir da década de 1970 os direitos de acesso passaram a incluir documentos eletrônicos. Para comparar: os EUA têm uma lei de acesso desde 1966 e a partir de 1996 ela passou a incluir documentos eletrônicos. No Brasil, necas de pitibiribas, ficando tudo a cargo do barnabé de plantão.
O que eu não sabia era que, já em 1998, uma decisão judicial determinou por lá que todos os e-mails de autoridades e barnabés são documentos públicos - podendo, portanto, ser requisitados por qualquer cidadão. Nos EUA, recentemente, começaram a surgir decisões judiciais e regulamentos nesse sentido.
No Brasil, isso ainda é ficção científica, até porque o acesso à informação pública não faz parte dos direitos fundamentais defendidos com vigor pelo ministro Gilmar Mendes até agora. Mas, fazendo um esforço de imaginação, de que autoridades vocês gostariam de ler os e-mails?
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sábado, 18 de outubro de 2008
Rendimento líquido
Quando o dólar começou a se desvalorizar por conta da crise no mercado imobiliário americano, os investimentos passaram para as commodities. Que ficaram tão caras que geraram prosperidade no Brasil e preocupações em países mais pobres, por conta do preço dos alimentos. Agora, com a quebradeira toda incluindo as commodities, ninguém mais no mercado financeiro sabe para que lado a coisa vai.
Mas um mercado não sofre crise, segundo esta notícia da France-Presse: a bolsa de uísque.
- O Índice Mundial do Uísque deu lucros em média de 26,2% aos clientes desde sua criação há 11 meses, segundo seu artífice, Michel Kappen, um ex-investidor bancário.
"Temos vários clientes que dizem que já não querem saber de nada dos mercados de valores porque perderam muito dinheiro. Eles acham este tipo de investimento mais honesto: obtém exatamente o que pagaram, podem ver o produto, que é físico", afirmou.
Desde que foi lançado em novembro passado, este negócio atraiu mais de dois milhoes de euros em investimentos, com transações que oscilam entre 1.000 euros e 1,5 milhão de euros.
Os clientes compram garrafas de uísque raro ou originais de puro malte no Índice Mundial do Uísque, e podem comercializar e especular. "Além do mais, se a pessoa não quiser vender seu uísque, sempre pode bebê-lo", conclui Kappen.
Faz sentido, obviamente. Nos anos 30, quando os EUA estavam sob o efeito da Grande Depressão e o governo decretou a proibição à venda de álcool, quem mais ficou rico foi quem fazia bebidas alcoólicas para vender no mercado paralelo. Porque, nessas épocas de incerteza, muita gente que está com o seu na reta alivia as tensões com o cachorro engarrafado do Vinicius de Moraes.
E valoriza mesmo: há um ano e pouco, um colecionador pagou cerca de R$ 110 mil por uma garrafa de 1850 de um Bowmore single malt. Mas essa está muito além da conta, porque é muito antiga mesmo.
No site do World Whisky Index, a garrafa mais cara também é de um Bowmore 38 anos, de 1957 - esta aqui. Custa mais ou menos R$ 5.500. Vai um gole?
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
Scandinavian nights

Meia noite e meia passadas em Malmö. Acabo de voltar de uma longa conversa de quatro horas com o Svante Axbacke, um dos criadores do The Highway Star - primeiro website totalmente dedicado ao Deep Purple, onde comecei a aprender tudo o que sei hoje sobre a banda de que eu já gostava.
Já nos tínhamos encontrado uma vez em 2006, no Rio de Janeiro. Eu tinha acabado de receber um convite pra trabalhar na Transparência Brasil e o Svante tinha acabado de casar na embaixada sueca em Brasília. Íamos nos conhecer pessoalmente depois de bastante tempo trocando emails esporádicos sobre o Deep Purple, ambos com suas respectivas patroas não-fãs do Deep Purple. Tinha tudo pra ser um dia perfeito, mas um bandido com uma faca de cozinha estragou o dia levando embora minha máquina fotográfica digital e (o que é pior) esfaqueando meu braço.
Desta vez, não teve assalto nenhum. Pudemos tomar um copo de cerveja em dois bares diferentes, conversar sobre o Deep Purple, sobre engenharia de som e sobre a vida, o universo e tudo mais - e, além de tudo, sobre a suspeita de que a mulher dele pode ser minha prima distante.
Caso topem mais uma coincidência, o filho dos dois foi concebido no Brasil - em algum ponto entre a cerimônia da embaixada e os dias após a facada carioca. Mais uma? Eles foram a Londres em julho do ano passado pra batizar o guri numa igreja sueca. Mais ou menos na mesma época em que eu estava lá.
Só não deu pra tomar uma das cervejas num pub em frente à antiga casa dos meus antepassados porque ele não tinha mesa nenhuma disponível. Mas o Svante estacionou sua bicicleta em frente ao pub, sem correia nem nada.
Pra minha cabeça de brasileiro, o mais incrível de tudo - mais do que o filho brazuca dele, mais que a possível prima minha casada com ele - foi o fato de a bicicleta ainda estar exatamente no mesmo lugar quatro horas depois, sem corrente nem cadeado nem nada. Bem na frente da casa dos meus tataratios.
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Um cafezinho na casa dos antepassados
Estou em Malmö, no sul da Suécia, pesquisando a vida da avó da minha avó. E há poucos minutos tomei um café na casa dos irmãos dela.
Por conta de um gênio protestante chamado Anders Chydenius, a Suécia foi o primeiro país do mundo a ter uma lei que garantia a qualquer um o direito de acessar documentos públicos, sem precisar pagar nada por isso. A lei é de 1766, e com uma só penada garantia o direito de acesso a informações públicas, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.
O objetivo era que qualquer um pudesse usar a informação pública para fiscalizar o governo. Mas não só: uma boa lei de acesso – que dois séculos e meio depois o Brasil ainda não tem, lembre-se – permitiu que eu encontrasse o endereço onde o embarcador de madeira Axel Ohlsson vivia, vizinho de seu irmão, o peão diarista Nils Ohlsson, em 1909. O pai deles, Olaf, havia morrido em 1907, e Axel ficou responsável por seu inventário (sterbhus).
Em junho daquele ano, os dois receberam a visita de sua irmã, Carolina, que morava lá longe, no sul do Brasil. Ela tinha ido para lá em 1891, quando era uma criada de 17 anos, aparentemente fugindo junto com o moeiro Erland Ekman, com quem casou ou amancebou-se no Brasil. Não sei se era a primeira vez que ela voltava para ver a família. Mas, como a viagem de navio era longa e insalubre, deu o azarão de a irmã pegar meningite tuberculosa no navio.
Carolina, avó da minha avó de mesmo nome, foi internada no Hospital Geral de Malmö, num prédio que hoje abriga a administração do gigantesco hospital, em 16 de junho. Em 8 de julho, ela ainda mandou um cartão postal para seu filho, Albino (na verdade, Carl Axeli, mas era mais fácil pra gauchada dizer Albino):
- Meu querido Albino, como vais? Estais muito aboricido por falta da mamai ou quem sabe que vai melhor assim? Agora não demora mais muito tempo até nós chega. Das lembranças para todos e seja bem bonzinho para papai. Muitos beijos e abraços da tua mamãe.
Em 20 de agosto, Carolina teve alta do hospital. Mas, como naquele tempo uma mistura de meningite com tuberculose era mais ou menos o mesmo que uma mistura de aids com câncer em metástase, ela durou pouco depois disso. Morreu em 1º de setembro, e foi enterrada ao lado do pai. Amanhã de manhã vou confirmar se foi no cemitério aqui pertinho – e se eles ainda estão lá.
O endereço dos Ohlssons estava num livro publicado anualmente na cidade, contando quem era o responsável por cada casa, qual era sua profissão e qual era o valor tributável do imóvel. Ao olhar ali, os bibliotecários tiveram uma surpresa: ficava numa quadra onde até 1997 funcionava um anexo da biblioteca municipal de Malmö.
Por acaso, isso fica a duas quadras do hostel onde estou hospedado, numa simpática rua comercial por onde passei umas dez vezes desde ontem. Tem uma obra bem na esquina em frente ao endereço, então eu não tive como não olhar para lá várias vezes. Mas a casa, porém, foi demolida – ao contrário de outras da viznhança. No lugar dela, existe um shopping center. De frente para a rua, uma loja da rede de cafeterias Espresso House.
Assim, pude tomar um café na casa dos meus antepassados, um século depois do registro do endereço deles no livro da cidade.
Tack, herr Chydenius.
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domingo, 14 de setembro de 2008
Aftermath

A Noruega é um reino cheio de árvores e gente dizendo adeus.
Cheguei a Lillehammer na terça para a Conferência Global de Jornalismo Investigativo, que está terminando agora. Durante estes dias, tropecei, brindei, conversei e dancei com vários dos mais de 500 jornalistas de 86 países. Assisti TV trash, revi vários amigos, fiz ótimos contatos e tudo mais.
Agora, cinco da manhã no Brasil, está todo mundo se preparando pra ir embora.
Daqui a algumas horas, vou pegar uma carona com uma jornalista sueca até Gotemburgo, onde pego o trem para Malmö - a terra dos meus antepassados. Tenho vários endereços antigos a visitar e alguma pesquisa a fazer. Nestes dias, pensei em aproveitar essa viagem (que o Paulinho Oliveira disse ser "Kunta Kintê pra caramba") pra escrever um livro. Dia 18 volto para o Brasil.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Cine trash é fichinha
(Escrevi este texto de madrugada, sem internet no quarto, então só estou postando agora.)
TV norueguesa de madrugada é sensacional.
Bom, só pra ter uma idéia, enquanto vocês estão às 10 da noite, aqui são três da manhã. A estas alturas, eu passei o dia de uma forma muito interessante. Comecei caminhando com paquistaneses no Sentrum de Lillehammer (recebendo por tabela os olhares de reprovação dos europeus para os amigos muçulmanos), tomei muito café ruim, participei de conferências com figuras carimbadas, assisti ao depoimento de um jornalista sudanês que foi preso em Guantánamo, aplaudi um americano radicado na França tocando Robert Johnson embalado por cerveja Ringnes, ganhei uma cerveja de um especialista em direito de acesso a informações públicas, paguei uma cerveja pra ele e fiz parte de uma festa simpaticamente alienígena do outro lado do hotel, com direito a vinho do leste europeu e tudo mais.
Bão. Ao chegar ao quarto, liguei a televisão num canal que passa programas muito toscos de madrugada. Hoje o programa consiste no seguinte: é uma loira platinada, com uma camiseta justa dizendo a frase “out of control”, ao lado de um quadro onde estão escritas várias frases em norueguês, com um número de celular para mandar torpedos. Tem um quadrinho onde os torpedos são reproduzidos. A loira está tendo uma conversa animada e interminável com um cara que não aparece no vídeo. Pelo barulho, parece que eles estão jogando alguma coisa. Ela se aproxima da câmera e tal. Mas é muito estranho esse negócio todo. Completamente nonsense.
Ontem não foi muito melhor, mas foi mais cedo. Outra loira, esta meio gordinha e menos platinada (mais bonita que a de hoje, aliás) botava músicas no ar e ficava curtindo a música, em silêncio, enquanto a música tocava e os torpedos se revezavam na tela. Quando terminava, ela fazia alguns comentários em norueguês. Entendi algumas palavras, como “Scorpions”, por exemplo.
Ontem à noite, eu conversava animadamente com a amiga brasileira Liege Albuquerque sobre as vantagens de conversar em português num lugar onde português é grego. Pouco tempo depois, descobri as desvantagens de não entender um oi (só obrigado e de nada) de norueguês, que pra mim é grego, na festa do Jan.
Eu juro que adoraria entender um pingo dessa língua deles pra saber o que a loira platinada out of control está dizendo tão empolgadamente para a câmera. Um dia ainda inventam o verdadeiro Babelfish.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Produto de exportação
O maior produto exportado pelo Brasil não consta do banco de dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Trata-se de picaretas, mas não do tipo que se usa como ferramenta. Isso fica bem exemplificado nestas notícias dos últimos dias.
Pequim:
- Cinco brasileiros foram presos no último final de semana por venda ilegal de ingressos para os Jogos Olímpicos. A informação foi confirmada hoje (18) à Empresa Brasil de Comunicação pelo vice-cônsul da Embaixada do Brasil em Pequim, Haríolo dos Santos Araújo.
Quatro brasileiros já foram liberados e tiveram a extensão do visto reduzida. Um permanecerá detido por dez dias, por motivo que ainda não foi confirmado, e será deportado assim que for solto. Todos são turistas e estão em Pequim especialmente para os Jogos Olímpicos. Eles foram detidos em diferentes momentos e locais.
O vice-cônsul não forneceu os nomes dos brasileiros nem citou as cidades de origem deles, mas assegurou que todos foram bem tratados, de acordo com a legislação local. Os cinco detidos foram visitados por um diplomata do núcleo de atendimento a brasileiros. “Não foram para uma cadeia, mas para um centro de contraventores”, relatou.
Espanha:
- A Polícia espanhola deteve 84 pessoas, na maioria brasileiros, que faziam parte uma suposta rede que falsificava documentos para entrar e sair de países da União Européia, que eram vendidos a prostitutas por até US$ 745 (R$ 1.200) , para regularizar sua situação como turistas.
A Direção Geral da Polícia e da Guarda Civil informou nesta quinta-feira que 42 dos 84 detidos são acusados de crime de falsidade ideológica, de trabalhar para a organização como falsificadores ou intermediários, ou por terem selos falsificados em seu passaporte.
Reino Unido:
- A Embaixada do Reino Unido no Brasil confirmou nesta sexta-feira, em nota à imprensa, que o país está "considerando a possibilidade de introdução de regimes de visto para 11 nações", entre elas o Brasil, como parte de uma revisão global dos regimes de visto. A embaixada diz que a medida não entrará em vigor antes de 2009.
A nota diz ainda que "tais medidas podem vir a incluir o envio de um oficial de ligação britânico para o país em questão". Esses oficiais trabalhariam junto com agências de turismo, companhias aéreas e agências nacionais de imigração nos aeroportos. O governo britânico afirma que os oficiais não teriam poderes executivos para barrar a entrada de alguém suspeito em um avião para o Reino Unido.
(...) Segundo o Ministério do Interior britânico, esses países foram escolhidos após estudos sobre o grau de perigo que seus cidadãos no Reino Unido podem representar. Os quesitos analisados incluem o uso de passaporte falso, imigração ilegal (número de deportados, barrados nas fronteiras e trabalhadores ilegais), índices de criminalidade, ameaça de terrorismo e a forma como os governos dos respectivos países estão lidando com essas questões.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Brasil entra no primeiro mundo: vira alvo de terroristas
Há uma semana, pouco depois da meia-noite chilena, explodiu uma bomba caseira em frente à embaixada do Brasil no Chile. O culpado foi um encapuzado.
Hoje, explodiu outra bomba lá, defronte a uma filial do Itaú próxima à embaixada. Mais ou menos no mesmo horário da explosão da outra. E no mesmo dia da semana.
O embaixador brasileiro no Chile, Mário Villalba, diz que não tem nada a ver com as relações entre Brasil e Chile. O problema é que ninguém deixou nenhum panfleto reivindicando a autoria. Sendo isso verdade, como ele pode saber?
Caso os atentados cometidos no Chile contra o Brasil sejam de fato terroristas, quem poderia ter motivo para tanto? A turma do Norambuena, preso pelo seqüestro do Washington Olivetto e condenado à prisão aqui até 2032?
Há uma campanha pela libertação dele, mas ela parece pacífica até onde se saiba. O governo chileno também andou pedindo sua extradição em junho.
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