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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O dia em que Tarso caiu do cavalo em três línguas

Ontem, o jornal espanhol El Pais publicou uma entrevista com o Tarso Genro com este título bombástico:

"El gran obstáculo de Dilma Rousseff es el apoyo de Lula"

A aspa é esta:

    Es una buena candidata, tiene buena capacidad de gestión, pero, sobre todo, tiene el obstáculo más grande que pueda poseer alguien que opte a la presidencia: el apoyo del presidente Lula. Creo que le va a afectar mucho. Además, la oposición tiene constancia de eso. Ninguno de los candidatos que se presentan dicen que lo hacen contra Lula, sino que lo hacen para gobernar post-Lula. Es una señal de la importancia que tiene el presidente.

Faz sentido. Concorrer com o apoio de um presidente tão popular, apesar das óbvias vantagens políticas, é mais ou menos o mesmo que pintar um alvo político na testa.

Mas o termo "obstáculo", ao repercutir por aqui, soou pesado. A BBC Brasil resenhou o texto e todos os serviços online fizeram controlcê-controlvê:

Apoio de Lula é 'obstáculo' à candidatura de Dilma, diz Tarso a 'El País' (O Globo)

Apoio de Lula é "obstáculo" à candidatura de Dilma, diz Tarso a "El País" (Folha Online)

Apoio de Lula é 'obstáculo' à candidatura de Dilma, diz Tarso a 'El País' (Estadão.com)

Parêntese: eu, pessoalmente, acho um saco esse vezo do churnalismo de todo mundo publicar exatamente os mesmos textos copiados das mesmíssimas fontes às quais qualquer um tem acesso diretamente e de graça. E você?

Mas voltemos à forma como o Tarso caiu do cavalo. Quando a coisa começou a repercutir, o Ministério da Justiça lançou uma nota explicando o erro:

    A palavra handicap - utilizada pelo ministro com a conotação de "vantagem" - foi equivocadamente interpretada pelo repórter espanhol como "obstáculo", o que gerou a manchete "O grande obstáculo de Dilma Roussef é o apoio de Lula".

Na mensagem enviada ao El Pais, Tarso ainda afirma: "Utilizei a palavra "handicap", que no Brasil tem uma conotação positiva."

Vá lá: substituindo a palavra, a aspa continua fazendo sentido, embora fique bem menos sexy.

Pode parecer um absurdo que uma vantagem vire 180 graus e vire obstáculo, mas aí vem o cavalo de onde o Tarso caiu.

Em inglês, "handicap" significa "limitar por obstáculos". Mas o termo "handicap" é usado também no turfe para indicar a vantagem que um cavalo tem em relação aos outros. Cavalos mais fortes recebem um peso extra para correr em condições de igualdade com os mais fracos. Por conta disso, os fãs de turfe transformaram peso em vantagem.

Não é incomum que esse analfabetismo bilíngüe leve a essas inversões. Eu já vi um profissional elogiar a qualidade ímpar do trabalho de outro dizendo que "ele é uma commodity". Eu, pessoalmente, não gostaria de ser comparado com produtos indiferenciados entre si, cujo valor está na quantidade. Mas entendo o que um analfabeto bilíngüe quer dizer com isso, embora ache graça.

Tarso caiu do cavalo, então, numa entrevista concedida possivelmente em portunhol selvagem, com o uso de termos arcanos e maltraduzidos de esportes fora de moda. Não é qualquer um que, com uma só palavra, consegue cometer uma gafe trilíngüe e ainda causar um estremecimento político.

Convenhamos: mereceu toda a incomodação que deve ter tido durante o dia, né?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Retratos falados

Na sexta-feira, a polícia civil do RS divulgou o retrato falado do cidadão que roubou o carro do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. É este aqui, autografado e tudo.



Hoje, a polícia civil do PR divulgou o retrato falado do cidadão que matou um guri e baleou e depois estuprou a namorada dele. É este aqui, sem autógrafo.



Responda depressa: qual deles ajuda mais a reconhecer o criminoso se você o vir na rua?

Pois é.

E olha que não deve ser por falta de recursos. O site Papiloscopistas.net traz um artigo interessante sobre o investimento da Secretaria Nacional de Segurança Pública em softwares para montar retratos falados e treinamento para os papiloscopistas os fazerem melhor.

Será que essa tecnologia ainda não chegou no "estado mais politizado do Brasil"? Não acredito. Deve ser pra manter a tradição do autógrafo do artista, nessa terra tão prezadora das tradições.

Na dúvida, brinque de fazer retratos falados com o FlashFace. É de graça e parece mais eficiente que o da polícia civil gaúcha. Pelo menos o meu feito por mim mesmo ficou parecido:

domingo, 25 de janeiro de 2009

Não consigo entender

Como eu estou fora do RS há muito tempo, tem algumas coisas que eu não consigo entender.

Até há pouquinho, a governadora Yeda estava toda enrolada, certo? Certo. Aí chega novembro, dezembro, e começa a aparecer por toda parte notícias da sua milagrosa volta por cima, com o fim do déficit fiscal do estado e decisões que livraram o peso dos escândalos dos ombros de sua administração. Estranhei o grau e a rapidez da virada. Pra mim, cheirava a algo tipo "consultoria de imagem".

Aí leio que o ajuste fiscal não ajustou bem as coisas. Aí leio que o secretário das Finanças saltou fora do barco. Aí leio a história do Aeroyeda. E aí, hoje, leio isto aqui no Estadão:

    Ao extinguir o Conselho Estadual de Comunicação Social, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), exonerou o próprio marido, Carlos Crusius. O conselho havia sido criado por decreto no início do governo. Dois de seus integrantes, Paulo Fona e Isara Marques, já haviam sido exonerados. Na sexta-feira, o Diário Oficial trouxe decreto que o extinguiu definitivamente.

    Na quinta-feira, o marido da governadora, que é economista, demonstrou irritação, numa reunião do primeiro escalão, por não ter conhecimento de estudo feito por uma empresa de consultoria contratada para reforçar a imagem e as marcas do governo. A governadora interrompeu sua reclamação e deu seguimento à reunião. O incidente foi revelado pelo jornal Correio do Povo. A atuação de Carlos Crusius no conselho não era remunerada.

Ou seja, existe uma consultoria de imagem envolvida (possivelmente a do José Barrionuevo, de onde saiu o atual chefe de comunicação do governo estadual). O marido da governadora foi o último a saber, e me eximo de fazer piadas de mau gosto a respeito.

Caramba, alguém aí consegue me explicar o que está acontecendo naquela terra? Claramente a operação publicitária está mais densa do que tem conseguido ser o trabalho de reportagem a respeito da situação do estado.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O macaco, o rabo e o coronel

Brasília é um ovo mesmo, mas a história da Satiagraha está cada dia mais fabulosa que os vaivéns da novela "A Favorita". Com a diferença de que os roteiristas da novela dão mais pistas para o espectador sobre como as peças soltas do quebra-cabeças se encaixam.

Agora, depois de o juiz Fausto De Sanctis publicar em sua sentença a informação de que um assessor exonerado da segurança do STF conversava com o advogado de Daniel Dantas acusado de oferecer propina a policiais na operação Satiagraha, o ministro Gilmar Mendes mandou apurar.

Isto vem da sentença:

    "Hugo Chiaroni, que se apresentava como integrante do Instituto Sagres - Política e Gestão Estratégica Aplicadas, segundo ele próprio e os delegados Protógenes Queiroz, Marcos Antônio Lino Ribeiro e Ricardo Saadi, ligou para Sérgio de Souza Cirillo, especialista em guerra eletrônica, com experiência profissional na área de inteligência e contra-inteligência, oficial do Exército e que provavelmente se conheciam porque este também é vinculado ao referido instituto, nove vezes, no período de 4/6/2008 a 7/7/2008"

Então, como o ministro quer apurar, vou dar minha modesta contribuição ao trabalho de quem for investigar. Todos os dados abaixo estão com as fontes linkadas. (Não há de quê, ministro.) Eu mesmo continuo sem entender o caso, porque o quebra-cabeças é encalacrado e quem tem as informações nunca ajuda.

Da matéria de hoje do O Globo:

    [Sérgio de Souza] Cirillo foi o principal assessor da Secretaria de Segurança do STF entre agosto e outubro deste ano. Ele foi contratado para trabalhar no STF um mês depois do lançamento da Satiagraha e demitido no início de outubro. Para Cirillo, não há nenhum vínculo entre a demissão e os desdobramentos da Satiagraha. Ele teria se afastado porque a Secretaria de Segurança, então chefiada pelo coronel Joaquim Gabriel Alonso, entrou em choque com Gilmar Mendes. A secretaria teria vetado o embarque do filho de um dos ministros do STF pela sala vip da instituição no aeroporto.

    (...) Convencido de que a segurança do STF estava mal estruturada, Gilmar resolveu trocar a chefia do setor em abril deste ano. Ministros do tribunal, inclusive o presidente, haviam sido assaltados. Para recrutar o novo pessoal, Gilmar consultou o general Alberto Cardoso, que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Fernando Henrique Cardoso. O general recomendou os serviços do coronel Joaquim Gabriel Alonso Gonçalvez, que foi imediatamente contratado para montar a Secretaria de Segurança do STF.

    Alonso, por sua vez, convidou o coronel Cirillo para ser seu principal assessor e substituto imediato. De acordo com a sentença de De Sanctis, Hugo Chicaroni, braço direito de Dantas, telefonou para Cirillo nove vezes entre 4 junho e 7 julho deste ano. No dia seguinte, foi deflagrada a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, que prendeu Dantas e outras pessoas - Chicaroni, inclusive. Cirillo foi contratado pelo STF no dia 30 de julho. Segundo a assessoria de imprensa do STF, Gilmar não conhecia previamente nem Alonso, nem Cirillo.

Todos os jornais consultaram a assessoria de imprensa do STF. O Jornal do Brasil, por exemplo:

    Tanto Sérgio Cirillo como seu superior, coronel Joaquim Gabriel Alonso Gonçalves, foram exonerados de seus cargos em outubro por motivos "administrativos", conforme a Secretaria de Comunicação Social do tribunal. Apurou-se que a demissão teve como causa um "entrevero" entre eles e os responsáveis pela segurança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro, quando eram tomadas providências de rotina referentes à segurança do presidente, que iria ao STF para a inauguração da exposição sobre os 200 anos da Corte.

Caso o JB tivesse pesquisado seus arquivos antes de ligar para a assessoria do STF, teria encontrado nota do Informe JB, de 7 de outubro, que dizia:

    O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, perdeu a paciência com a novela sobre a escuta da qual foi alvo e fez as primeiras vítimas.Exonerou ontem Joaquim Gabriel Alonso Gonçalves,secretário de segurança do tribunal, e o assessor Sérgio de Souza Cirillo.

Essa nota saiu no auge da crise dos grampos, quando o ministro Gilmar Mendes falava em criminalizar servidores que vazam. Ele se referia obliquamente à polêmica sobre o grampo por escrito publicado pela revista Veja.

Embora, segundo a decisão do juiz Fausto De Sanctis, já trabalhasse dentro do STF desde junho (podendo estar lá em 10 de julho, dia da varredura noticiada pela revista), Cirillo foi formalmente contratado dias antes da publicação da matéria da Veja. O período de sua meteórica passagem pelo STF coincide exatamente com a duração da crise do grampo. Não tenho como saber se uma coisa está necessariamente relacionada à outra. Mas é curioso, de qualquer forma.

Uma semana depois da nota sobre a exoneração dos servidores, o servidor da Presidência do STF Aílton de Carvalho Queiroz sugeriu na CPI do Grampo que foi a Presidência do excelso sodalício quem vazou o documento para a Veja. (Caso tenha interesse, baixe aqui a íntegra do depoimento de Queiroz.)

Depois dali, meio que esfriou o caso do vazamento dos grampos.

Quando foi feita a varredura que detectou o grampo, pelo que entendi do noticiário de hoje, Cirillo já era funcionário da secretaria de segurança do STF. Só ainda não tinha sido contratado. Seria mais adiante no mesmo mês, dias antes de sair a matéria da Veja - dias antes, também, de o ministro Gilmar Mendes afirmar que "O vazamento hoje não é a exceção, mas a regra". Na íntegra de seu depoimento à CPI, Queiroz diz que a Veja manteve só a assinatura dele, omitindo as demais. Elas não foram publicadas. Estou curioso para saber se a de Cirillo era uma delas.

Uma coisa curiosa: o nome de Cirillo não foi mencionado nenhuma vez no depoimento de Queiroz à CPI. Mas, a julgar pelas perguntas feitas sobre quem são os funcionários da segurança do STF, certamente seria mencionado caso ele ainda fosse servidor do STF.

Para os anais da seção "Sirvam Nossas Façanhas": Cirillo foi aluno do Colégio Militar de Porto Alegre da turma de 1970/1971, no tempo em que a dita era mais dura. Há alguns anos, é dono de um tênis clube em Brasília.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os gaúchos e a política


Peguei no Nova Corja um resumo muito resumido de uma pesquisa encomendada pela Assembléia Legislativa do RS sobre como o povo autoconsiderado o mais politizado do Brasil vê a política. O PDF linkado no site da Zero Hora tem apenas pinceladas nos resultados. Pessoalmente, eu queria ler os resultados inteiros. Podem ser reveladores.

Menos de um em cada 5 gaúchos confia na imprensa (17,6%), o que explica muito o ataque ao Graciliano há duas semanas. No Brasil, o índice de confiança na imprensa medido no Barômetro da AMB é de quase 3 em cada 5 (58%). O índice gaúcho é um terço disso, por mais que seja temerário comparar pesquisas de metodologia diferente.

Essa diferença diz muito a respeito da qualidade da imprensa de lá, embora certamente os gaúchos --eu sou sueco-- certamente prefiram achar que é por causa do nível de educação do berço de Flores da Cunha e de Borges de Medeiros, terra de Getúlio Vargas, presidente brasileiro. Ainda ontem, a Zero Hora inventou novas regras para o campeonato sul-americano de futebol, regras essas prontamente desmentidas pela Conmebol. Se o povo come bola até nas páginas de gre-nal, que são a especialidade informativa daquelas plagas, é compreensível um índice tão baixo de consideração à imprensa.

Menos de um em cada 4 gaúchos vê necessidade de maior fiscalização dos poderes eleitos (22,5%). Isso me lembra bastante o comentário que recebi no blog do Deu no Jornal, em 2006, quando cutuquei a falta de acessos ao Excelências no RS. Um cavalheiro disse que lá o povo é tão politizado que não precisa ter acesso a informações sobre o que seus deputados fazem. Na época, observei: "politização" sem informação não passa de torcida.

Possivelmente por conta desse déficit de informação, desse analfabetismo funcional institucionalizado, mais de um em cada 4 gaúchos acha que o RS é mais desenvolvido que o resto do Brasil (25,5%).

Mais da metade dos eleitores não lembra mais em quem votou pra deputado estadual em 2006 (51,9%). Em conseqüência, quase a totalidade dos consultados não sabe dizer o que o Parlamento votou de importante (95,2%). Se bem que isso também pode refletir um acompanhamento constante da Assembléia gaúcha. Duvido que o pessoal que acompanha também saiba dizer o que lá foi votado de importante.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crítica da razão bombachuda


Para ter algum insight sobre os motivos do que aconteceu com o Graciliano, vale ler a gloriosa reportagem "Nação Farroupilha", publicada na National Geographic deste mês. O acampamento farroupilha - que eu chamo carinhosamente de "CTG Sapateando na Bosta" - acontece todo ano em setembro no parque Harmonia.

Se você não conhece e nem nunca ouviu falar, dá pra descrever assim: é tipo uma disneylândia dos pampas sonhados pelo Paixão Côrtes -- com a diferença de que os Mickeys, Donalds e Patetas são voluntários e até mesmo tiram férias pra acampar lá. Nos piquetes, reproduz-se milimetricamente a tradição criada no grêmio estudantil do Julinho. Milimetricamente, inclusive na estrutura de igualdade dos sexos: os "peões" ficam pra um lado contando mentira uns pros outros, geralmente pilchados, e as "prendas", geralmente embrulhadas num vestido que mais parece a cortina da sala, ficam pro outro cuidando das crias. Mas o churrasquinho de gato é de primeira.

Tal fenômeno nunca que eu me lembre foi abordado com um olhar mais crítico pela imprensa nativa - que trata o acampamento mais ou menos como a do Rio trata o carnaval, só que sem questionar os dirigentes e nem olhar as contas. Precisou que a National Geographic publicasse algo mais crítico a respeito, entre outras reportagens sobre espécies exóticas: 8 páginas depois de um texto sobre os bonobos da Reserva Nacional de Sankuru, na República Democrática do Congo, e 53 páginas antes de uma reportagem fotográfica sobre a tumultuosa temporada de acasalamento dos elefantes-marinhos na ilha Geórgia do Sul.

O trecho crucial para entender a lógica gaúcha:

    O acampamento se inicia na última semana de agosto, quando casas de madeira começam a ser construídas, e se estende até o fim de setembro. Muita gente tira férias nesse período e troca a areia da praia ou o ar da serra pelas vielas de chão batido. A cada edição, a freqüência de pessoas de um contexto mais urbano aumenta.

    Fornecedor de materiais de construção, Estêvão Scalco, o jovem patrão do Piquete 30 de Abril, recebe amigos há dez anos para confraternizar no acampamento. Ele salienta com entusiasmo o fervor dos gaúchos por suas tradições. Na falta de melhores palavras para definir os motivos, apela ao futebol: "Tu já viu algum jogo fora do Rio Grande do Sul? Que outra torcida, a não ser a de Grêmio e Inter, leva a bandeira e canta o hino de seu estado?"

    Emblemática, a Semana Farroupilha reflete a adoção crescente de símbolos e de um ideário regionalista em ambientes urbanos. Além de o Hino Rio-Grandense - do refrão "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" - ter se transformado em canto obrigatório nos confrontos de clubes gaúchos contra equipes de outros estados, o mantra das arquibancadas dos anos 90, "Ah! Eu tô maluco!", criado no Rio de Janeiro, ganhou versão local: "Ah! Eu sou gaúcho!" Nenhum brasileiro afirma com tamanha contundência sua crença nos valores locais. Para o bem, porque a preservação da identidade é fundamental na construção de uma sociedade, e ao desafiar a nebulosa idéia da padronização mundial, aspecto negativo da globalização. Para o mal, quando tradicionalismo se confunde com conservadorismo, e na medida em que o discurso regional é usado como fonte de especulação comercial.

    Atentas ao aumento do culto às tradições, a publicidade e a imprensa do Rio Grande do Sul têm se apoiado à exaustão na fórmula fácil do amor à terra e na busca de um jeito localista de ver o mundo. O resultado é uma sociedade voltada para si mesma e inapta para exercer a autocrítica. Embasada em falsas premissas, a supervalorização do regionalismo tem robustecido a resistência à modernização, favorecido uma idéia de isolamento e, em casos mais extremos, alimentado uma falsa superioridade.

domingo, 26 de outubro de 2008

Faroeste gaúcho, ou Porto Alegre é (tosca) demais


A coisa está ficando pessoal.

Meu grande amigo Graciliano Rocha, que está em Porto Alegre como correspondente da Folha, é o mais novo ponto no mapa Faroeste Caboclo, que registra agressões e outros atentados possivelmente de motivação eleitoral.


Exibir mapa ampliado


Ele foi agredido no comitê eleitoral por simpatizantes do José Fogaça quando ia cobrir uma entrevista coletiva (cancelada) do prefeito ora reeleito de Porto Alegre. Enquanto o poeta não falava, a birita rolava solta e de graça. Quando mestre Gra chegou, um cabo eleitoral o abordou dizendo que ele não era bem-vindo por causa de umas "matérias filhas da puta" que ele publicou no jornal paulista. Antes que ele respondesse, levou um soco no olho, foi derrubado no chão e afofado de pontapés. Meu amigo não reagiu, porque é grande e não é bobo.

Sim, Porto Alegre virou algo tipo Canapi, só que com prefeito poeta. Porto Alegre é demais.

Ele não conseguiu identificar o agressor, mas o comitê de campanha, oficialmente, teve a gentileza de telefonar pra ele explicando que ninguém lá tinha nada a ver com isso.

Eu li ao menos duas das "matérias filhas da puta" apontadas pelo militante. A mais recente mostrava que o prefeito distribuiu bônus-habitação em período eleitoral. Gerou um processo contra o prefeito, sob a acusação de compra de votos. Outra, de há um mês, mostrou que o coordenador da campanha de Fogaça, Luiz Fernando Záchia, era investigado pelo TCE pela compra de dois imóveis de luxo. Com isso, Záchia resolveu pedir o boné.

Matérias filhas da puta, claro. Como as denúncias eram documentadas, possivelmente até o nome do cliente constava da certidão de nascimento das filhas da puta.

Ao Diário Gaúcho (que classificou a agressão como "suposta" em título), o coordenador da campanha, Clóvis Magalhães (substituto de Záchia, o cavalheiro que pediu pra sair depois da matéria de setembro), deu a versão oficial:

    As questões implicadas devem ser pessoais e não da campanha. Eu lamento. O repórter deve tomar as medidas cabíveis.

(EDITADO: Mais tarde, por telefone, Magalhães me disse que, na hora em que foi entrevistado, não sabia do caso.)

Cerca de 50 pessoas assistiram à agressão. O comitê não identificou os agressores, até porque não tem câmeras externas. Claro, não que isso fosse esperado.

Findas as agressões, o poeta discursou aos seus apoiadores:

    "É isso que está, neste momento, sendo consagrado pelas urnas, um projeto que implantou na cidade um ciclo de mudanças, que plantou sementes para o futuro."

E sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra, já cantavam os outros.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Debate seguro

Os sindicatos de jornalistas não cansam de me surpreender. Agora, inventaram o DEBATE A FAVOR, como se pode ver na nota do Coletiva.net de que reproduzo um trecho abaixo:

    JORNALISMO | Terça-feira, 12 de Agosto de 2008 | 09:48

    Feevale realiza debate a favor do diploma de jornalista

    Nesta quarta-feira, 13, às 19h30, a Feevale realizará um debate a favor do diploma de jornalista, com a presença do presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, José Nunes. No auditório do prédio Branco, no Campus II da Feevale (RS-239, 2755, Novo Hamburgo), o encontro é aberto aos alunos de todos os cursos da instituição e também à comunidade externa interessada. O evento está sendo organizado pelo representante do curso de Jornalismo da Feevale, Humberto Ivan Keske, e pela professora Neusa Ribeiro

    Segundo Nunes, o Sindicato está realizando uma mobilização junto às universidades, centros universitários e faculdades, buscando o apoio dos reitores, para que a lei não seja aprovada. "O apoio das universidades é extremamente importante, porque , se essa medida for aprovada, com o tempo, vai reduzir e muito o número de alunos interessados pelo curso", destaca.

Assim não dá. Ou é debate, ou é a favor. Se vai apenas abrigar opiniões a favor, pode ser chamado de manifestação, apologia, discurso, homenagem, defesa, desagravo. Mas debate não é, porque debate pressupõe outro lado.

Basicamente, isso reforça o que o Maurício Tuffani escreveu no artigo "Os defensores do diploma e seus debates imaginários", publicado no blog Laudas Críticas:

    As entidades defensoras da exigência de graduação superior em jornalismo para o exercício dessa profissão podem comemorar uma importante vitória: conseguiram evitar um efetivo debate público sobre esse tema polêmico ao longo de quase sete anos passados desde que o Ministério Público Federal em São Paulo ingressou com a Ação Civil Pública contra essa obrigatoriedade, que é vigente no Brasil desde a edição do Decreto-lei nº 972, de 17/10/1969.

    Das instituições ligadas ao jornalismo no Brasil, as principais defensoras desse requisito são sindicatos, escolas superiores e associações de professores e pesquisadores. Retomando sua prática contumaz nestes quase sete anos, elas decidiram proceder à tática da pressão junto ao Judiciário, sem ter esboçado o menor esforço para discutir publicamente o assunto. (...)

    No que diz respeito à Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e aos sindicatos a ela associados, seria ingenuidade esperar que eles promovessem uma ampla discussão sobre o tema. No entanto, apesar de a pesquisa ser parte das atribuições de professores e pesquisadores de jornalismo e de suas entidades, estes não responderam praticamente nada às questões de fundo levantadas contra a obrigatoriedade do diploma desde 2001. Em vez de contestações diretas a argumentos pontuais contrários a essa exigência, suas “contribuições ao debate” recorreram sistematicamente à evasiva e surrada tática de refutar questionamentos genéricos ou imaginários.

    Desse modo, nenhum antagonista é citado nominalmente, assim como nenhum documento com tese contrária é mencionado, seja em pronunciamentos de dirigentes, em ofícios de diretorias de entidades e até mesmo em artigos assinados por pesquisadores. Não é por menos que essas manifestações estão disponíveis na página de notícias do site da Fenaj, que prima por sua alergia a opiniões contrárias.

Mais ainda. O sindicalista fala mesmo que o debate a favor é "para que a lei não seja aprovada"? Que lei? O que está em questão hoje é o fato de o STF levar a julgamento neste semestre uma ação que questiona a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, criada pela ditadura militar em 1969.

O sindicalista afirma que, se cair a obrigatoriedade, "vai reduzir e muito o número de alunos interessados pelo curso". Bom, aí entramos numa seara interessante, que rende um ótimo debate (contra e a favor, por favor). Há uma profusão de cursos de jornalismo no Brasil. Boa parte deles é de baixa qualidade. Parte deles, de baixíssima qualidade. Esses cursos se mantêm por causa da obrigatoriedade do diploma. Existe demanda garantida, cria-se oferta.

Aí, lembro o que mestre Philip Meyer disse em entrevista que fiz com ele em 1999:

    "O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão."

Mas, é claro, um sindicalista diria que tal posição é selvagemente capitalista.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A imprensa bovina do estado mais politizado

Há séculos, eu costumo dizer que o Rio Grande do Sul é o túmulo do jornalismo. Saí de lá justamente porque não há mercado pra fazer reportagem. Ainda mais sobre política. Lida-se muito mal com informação por lá. Há uma polarização na política, mas no nível figadal das opiniões encarniçadas.

Quando fizemos o Excelências, em 2006, nem uma linha a respeito saiu nos jornais locais. (OK, saiu um editorial de um parágrafo na Zero Hora, sem dar o link. Mas quem é que lê editoriais?) E não é porque eu estava na coordenação: é que o projeto trazia informações importantes sobre a atuação dos deputados federais do estado. Proporcionalmente à quantidade de eleitores, era o único estado que tinha MENOS acessos do que gente votando.

Na época, alguém comentou no blog do Deu no Jornal que lá o pessoal é tão politizado que "não precisava" das informações do Excelências. Pra mim, porém, politização sem base em informação não passa de torcida. É comum por toda parte do Brasil, claro. Mas qualidade zero.

Hoje, os caras do A Nova Corja metem o dedo fundo na ferida:

    Cobertura dos Jogos Paradesgovernados
    from A Nova Corja by Rodrigo Alvares

    Alguém precisa avisar a imprensa gaúcha que o Rio Grande do Sul não é a China. Até os cegos em Seattle já entenderam como se faz jornalismo com a Rede Mondial de Computadores. Os pulitizadus precisam que a Folha, o Estadão, a Veja e até a carta Capital preencham as lacunas e o silêncio que reina no Estado.

    Para começar, ninguém se importa com o Bovinão, mas os jornais e revistas do centro do país insistem em fazer matérias para explicar o fenômeno de escândalos que o desgoverno Yoda apresenta a cada semana.

    Óbvio que a Mídia Má, Feia e Bobona deslocou todos os seus recursos - um punhado de repórteres - para Porto Alegre tendo em vista a derrubada de desgovernadora. É um absurdo que esse pessoal saia por aí fazendo perguntas e descobrindo coisas dificílimas para a mídia local conseguir.

    Uma intervenção é mister de ser feita não só no governo, mas também na mídia bovina. Nem preciso bancar o petista e escrever que isso é culpa do monopólio da RBS, porque não é. O apagão jornalístico é de todos os veículos.

    Mas é inconcebível que o presidente da ANJ admita que o seu jornal leve tantos furos e se resigne a publicar um “De acordo com a Folha” para cada volta que a Zero Hora leva e não investigue o que acontece não só nesse, mas em todos os governos.

    Porque não dá para crer que ninguém nas redações de Porto Alegre não tenha se atinado em coisas básicas de reportagem, como procurar o cartório onde está o registro da casa de Yeda, ligar para Lair Ferst ou simplesmente perguntar quem diabos comprou o tal apartamento em Capão da Canoa ou o Passat da desgovernadora.

    Mais uma vez, isso não é uma questão partidária ou ideológica. Mas viver 40 anos sem concorrência é um caso grave e o silêncio sobre as falcatruas, constrangedor. Aí me aparecem esses repórteres do centro do país e publicam coisas que os pulitizadus não estão interessados em saber ou que os outros saibam.

    Parece que todos no Bovinão estão mais interessados é em garantir o seu e seguir sua vidinha sem incomodar a catrefa que comanda a vala há décadas. Nada moralmente mais brasileiro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Palavra contra palavra

O jornal gaúcho Zero Hora foi atrás de José Dirceu pra ver se ele confirmava o que a revista publicou. Adivinhem:

    O ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, negou hoje ter afirmado que a antiga sede estadual do PT teria sido adquirida com dinheiro de caixa 2. Em entrevista à Rádio Gaúcha, ele afirmou que a jornalista responsável pela reportagem da revista Piauí, que publicou a informação, não gravou a conversa, realizada por três dias, durante uma viagem de Dirceu. Ele afirmou apenas ter relatado as denúncias da época da compra do prédio, e que o texto foi publicado em síntese.

    — Jamais afirmei que o PT comprou a sede financiado por caixa 2. (...) Durante todo o meu relato a ela (jornalista), eu deixei claro o que a Zero Hora expressa hoje: que houve uma CPI, que houve uma denúncia, que houve 11 pessoas denunciadas, mas que a Justiça rejeitou por falta de provas e o PT foi absolvido — disse.

    Segundo o ex-ministro, na época, como presidente do PT, ele defendeu o ex-governador Olívio Dutra, e todos os que foram acusados. Dirceu ainda pediu desculpas pelos transtornos causados aos petistas do Rio Grande do Sul, e afirmou que enviará uma carta à revista sobre outros erros publicados na revista.

Na onda do dito pelo não dito, também previsivelmente, Olívio aceitou as desculpas:

    O presidente estadual do PT, Olívio Dutra, aceitou hoje o pedido de desculpas apresentadas pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, em relação à entrevista publicada na revista Piauí. Segundo a reportagem, Dirceu teria confirmado que a compra da antiga sede do PT gaúcho, na Avenida Farrapos, 88, em Porto Alegre, havia sido feita com dinheiro de caixa 2. Em entrevista à Rádio Gaúcha na manhã de hoje, o ex-ministro negou ter feito tal afirmação e pediu desculpas ao PT gaúcho pelo transtorno.

    — Evidente que sim (o PT aceita o pedido de desculpas). (...) Nós não podemos ter nenhuma tergiversação com relação à lisura de um partido político. Nós, no PT, temos compromissos sérios com a transparência, com o caráter republicano, com o respeito à coisa pública — disse Olívio à Rádio Gaúcha.

    O ex-governador disse que recebeu uma mensagem de Dirceu na madrugada de hoje já expressando o pedido de desculpas ao partido, e explicando que enviaria uma carta à Piauí para esclarecer a interpretação feita pela revista.

Para não ficar tudo nesse clima de "desculpe o auê, eu não queria magoar você", o jornal também entrevistou o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, citado por Dirceu na entrevista. Ele sacou a sua metralhadora:

    ZH - O PT gaúcho recebia malas de dinheiro, como diz Dirceu?

    Pont - Isso é loucura. Dirceu está querendo dividir a culpa falando pelos cotovelos com qualquer um que, depois, de forma irresponsável, publica do mesmo jeito.

    ZH - Se a suspeita não procede, por que um petista influente como Dirceu faria uma declaração desse tipo?

    Pont - É grave e lamentável que Dirceu tenha chegado a esse grau de degeneração. Do jeito que o cara está vivendo, o serviço que ele presta de tráfico de influência, consultoria para grandes empresários, não tem nada que ver com o partido, com os militantes e com os objetivos de um partido.