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domingo, 18 de janeiro de 2009

Tranqueira permanente

Até pouco tempo atrás, em São Paulo, existia o conceito de "horário de pico". Eram aqueles horários - mais ou menos os mesmos - em que boa parte da cidade parece se deslocar: no início da manhã, no final da tarde e, um pouco menos, no horário do almoço e começo do turno da tarde. Aos poucos, os horários de pico foram se esticando. Hoje, não dá pra ter certeza alguma sobre a que hora é mais tranqüilo andar pela rua.

Da mesma forma, até o ano passado ainda dava para ter uma certeza: em janeiro, os que preferimos ficar na cidade podemos ir à vontade ao cinema, aos bares, à rua, sem se preocupar com filas. A julgar pela experiência dos últimos dias no trânsito, em bares e em cinemas, isso também já era. Ontem acho que levamos quase meia hora na fila para conseguir pagar a conta no bar onde fui assistir a um tributo ao Led Zeppelin. Repare: não era a bilheteria do show do Elton John, e sim o caixa de um bar de rock do Bixiga onde um amigo meu estava cantando.

Parece que o pessoal desistiu de ir para a praia e resolveu ficar. Faria sentido, dados os megaengarrafamentos pra ir pra lá e as tranqueiras enfrentadas depois de chegar. Amigos que estiveram na praia falam de filas homéricas para tudo. Duas horas para comprar pão, e coisa e tal. Em São Paulo, pelo menos, há mais opções de filas para entrar. Só que as filas da praia não deixaram de existir. Aumentou até a quantidade de lixo nas estradas. E a tranqueira na cidade só cresce.

Quer-me parecer que estamos entrando na era da tranqueira permanente. Daí ao Grande Engarrafamento descrito pelo Ignácio de Loyola Brandão em "Não Verás País Nenhum" é um pulinho.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A lógica do engarrafamento e a falta que faz o cabo de enxada

Dez dias antes do primeiro show da Madonna, diversos desocupados já acamparam na frente do estádio do Morumbi, numa inequívoca oportunidade de ocasião para qualquer bandido que se preze.

Eles são um pouco mais velhos que os fãs do Rebelde, mas têm mais ou menos a mesma mentalidade. Se duvidar, há até tios dos fãs do Rebelde ali no meio. Em setembro, eles se acotovelaram na internet, altas horas da madrugada, pra comprar um ingresso caríssimo num site de metodologia obscura - e que, por vezes, cobrava dobrado. Agora, já com o ingresso no bolso, largam tudo (sei lá se tiram férias do trabalho ou se simplesmente são desocupados) pra se dedicar por dez dias à nobre atividade de esperar a Madonna tocar, expostos ao sol e à chuva.

Eles dirão que é por amor à música. Mas, pra mim, isso soa mais a falta do que fazer, temperada por um vezo antropológico nativo.

O pessoal em São Paulo gosta de fazer fila. O trânsito é uma boa prova disso. A mentalidade do engarrafamento, porém, se estende a todas as atividades humanas - em especial às culturais e gastronômicas.

Ainda outro dia fui ao cinema assistir "Rebobine, por favor". Os ingressos eram gratuitos, então havia uma fila para obtê-los. Até aí, normal. Então, passou o sujeito da bilheteria entregando os bilhetes. Ingresso garantido, coloquei-o no bolso e fui sentar à sombra, beber uma água, algo assim. A fila continuou lá - desta vez, esperando a porta abrir. Deixei a fila passar e só entrei quando já estava aberto. Peguei um ótimo lugar. Com a vantagem de que ainda aproveitei a sombra e bebi água.

Gosto muito da padaria Bella Paulista, na Haddock Lobo. Mas há vários meses me recuso a comer lá. A comida é deliciosa, os pães estimulam todos os sentidos, mas a fila é insuportável. Não acho que valha a pena ficar 20 minutos na fila por um bom pedaço de pizza e uma caldereta de chope gelado. Há outros lugares, até ali perto, que servem o mesmo, com qualidade e respeito ao valor do meu tempo.

Em 2005, eu fui algumas vezes a um bar de jazz muito bom que abriu no Bexiga. Como ele estava abrindo, ia pouca gente. Um dia, vi lá dois músicos tocando apenas o cancioneiro do Robert Johnson, com um violão monstruosamente bem-tocado e tudo mais. Ao sair, cumprimentei o dono. Travou-se este diálogo:

-- Genial, este bar. É bom aproveitar agora, porque daqui a um ano certamente isso aqui vai estar lotado.

-- Um ano é tempo demais, quero que estoure logo!

Como não tinha fila na porta - embora fosse isso o que mais me atraía lá, além da qualidade da música -, ele fechou em pouquíssimos meses. Uma pena. Hoje, no mesmo lugar, funciona uma casa de pagode. Mais uma vez a lógica do engarrafamento venceu a lógica da qualidade.

No fim, tudo isso são sintomas de como cada um usa seu tempo. O meu, pessoalmente, eu trato feito diamante.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Dissecando a Lei Seca

O economista Claudio Shikida, do De Gustibus, costuma ter uma abordagem bastante interessante sobre diversas questões. Ele aplica os instrumentos de raciocínio da boa pesquisa econômica para estimular a reflexão - mais ou menos à mesma maneira que os autores de Freakonomics, embora sem dispor de uma coluna no New York Times. Acompanho bastante o trabalho dele, pela internet.

Com alguns de seus colegas, Shikida escreveu um e-book analisando a Lei Seca. Ele deverá estar disponível hoje em seu site: http://shikida.net

No resumo dele:

    Aborda-se perguntas como: quais os custos? Quais os benefícios? Quais as dificuldades em se mensurar seus impactos? Quais as consequências não-intencionais desta nova lei? Qual o papel do Estado? Enfim, e resumidamente, perguntamo-nos "a quem realmente servem os bafômetros"?

    Dada a - bastante óbvia - relevância do tema, não apenas no aspecto de saúde pública, mas também na delicada questão acerca das liberdades individuais - na qual o "chopp" ou o "vinho" é um mero, embora saboroso, detalhe - penso que a discussão é mais do que importante. Adianto que, de maneira verdadeiramente plural, não há conclusões definitivas, mas o leitor encontrará muita informação relevante para sua reflexão, bem como uma ou outra proposta.

domingo, 9 de março de 2008

Crônicas para ler no engarrafamento


Amanhã começa de novo. Imprima e leve para o carro.

    Venda de carros tem o melhor janeiro da história

Dia 30 de janeiro, em título de notícia do G1

    As vendas totais de veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motos e implementos rodoviários) no varejo cresceram 33,73% em fevereiro deste ano na comparação com o mesmo mês do ano passado, somando 346.183 unidades, segundo dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) divulgados hoje. No acumulado do ano, as vendas estão 32,76% mais elevadas, totalizando 713.273 unidades comercializadas sobre 2007 (537.274 unidades) --trata-se do melhor resultado da série histórica do setor tanto para o período como para fevereiro.

Dia 4, na Folha Online

    A capital paulista bateu nesta quinta-feira um novo recorde de congestionamento pela manhã. O índice chegou a 165 km às 9h. O trânsito parado não apenas inferniza a vida dos motoristas, revela que a cidade que almeja o posto de capital de negócios da América Latina não tem infra-estrutura de transportes suficiente.

    O prejuízo com os congestionamentos alcança R$ 52 bilhões por ano, o equivalente a 20% do Produto Interno Bruto da cidade, segundo Rodrigo Queiroz, professor de projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP). Esse valor leva em consideração o tempo que o motorista gasta parado no tráfego, ou seja, o quanto ele deixa de ganhar se estivesse em alguma atividade produtiva, além, é claro, do prejuízo com o combustível.

    Isso significa que os congestionamentos levam para o ralo 20% da riqueza que a cidade produz.

Dia 6, no Globo Online

    Em dois dos dias (de recorde de congestionamento) houve o apagão de energia com repercussão no trânsito. No segundo dia de recorde (quarta-feira) registramos dez acidentes em duas horas, das 6h30 às 8h30. Foram acidentes graves nas Marginais Pinheiros e Tietê, no corredor Norte-Sul e na 23 de Maio. Em janeiro e fevereiro, houve um aumento de mil ocorrências por mês. Passaram de 12 mil para 13 mil. Num sistema saturado, um pequeno acréscimo de volume de trânsito desencadeia uma onda muito maior. A cidade de São Paulo tem 17 mil quilômetros de via. Nós estamos monitorando as principais, que são 820 quilômetros que é 5% de todo o sistema viário. Estamos falando de congestionamentos recordes essa semana, em 20% desses 5% monitorado. Ninguém gosta de pegar 100, 160 quilômetros de congestionamento todo dia.

    (...)É preciso entender que o trânsito é uma função derivada de outras (atividades) - a verticalização da cidade, o sistema de transporte, a produção automobilística. Principalmente da atividade econômica. Uma cidade como São Paulo não é viável tendo como base dos deslocamentos o transporte individual. Precisamos entender que o desafio do trânsito não é exclusivamente da CET. As pessoas continuam circulando com uma pessoa em média por carro. Precisamos de atitudes proativas não só do órgão de trânsito, mas dos demais órgãos e da população.

ROBERTO SCARINGELLA, presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego, em entrevista ao Estadão de hoje

    A free-way estava coalhada de carros. De uma amurada a outra, nenhum espaço. Ao luar, via os radiadores enegrecidos, capôs corroídos, vidros partidos ou cobertos de pó, faróis vazados. Surgiram de repente, ao rastejarmos pela lombada. Na sua imobilidade davam a sensação de velocidade.

    Fantasmagóricos, como esqueletos de dinossauros em museus. Bando de monstros, mortos subitamente em pleno ataque. Uma vez, criança, fui ver um velho desenho animado. Se chamava Fantasia. A cena que mais me impressionava era a do desespero dos anumais pré-históricos em fuga.

    Comida e água tinham se acabado em seus habitats. Eles partiam em manadas, estranhos e gigantescos animais, fustigados pela fome e pelo sol. Iam caindo e o tempo se encarregava de sepultá-los, torná-los esqueletos descarnados, espécie desaparecida, transformada agora em fóssil.

    isto me vem à cabeça, ao ver estes velhos carros, talvez os últimos do grande sonho brasileiro. Logo depois do Notável Congestionamento, as fábricas foram fechadas e milhares de pessoas ficaram nas ruas. Os que trabalhavam na fabricação e os que viviam das indústrias paralelas. Um tempo de grande dor.

    -- Pois é, restos do Notável Congestionamento.

    -- Eu sei, só me espanta, porque já retiraram os carros de quase todos os lugares.

    -- Aqui foi mais fácil fechar a estrada. Tem duzentos quilômetros de carros.

    -- Foi uma semana tão louca, pensei que o país ia explodir. Pela primeira vez os brasileiros se revoltaram de verdade. Vi gente se armar e sair à rua, tentando formar grupos.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, na distopia de "Não verás país nenhum"

quinta-feira, 6 de março de 2008

Melhorar o trânsito é tarefa de todos


Seis e meia da tarde passadas. Da janela, vejo a tranqueira na Consolação e me autocongratulo por ter instalado meu escritório em casa. Se tem uma coisa que não me agrada é trânsito. Hoje deu uma melhorada, mas os últimos dez dias foram de constantes recordes de engarrafamento. O resultado disso é um mar de lata, geralmente com um só tripulante em cada carro.

Você pode se perguntar: por que a prefeitura não faz nada? Vá lá: até faz alguma coisa, como diz o presidente da CET. Mas não fiscaliza muito, tem poucos olhos nas ruas. E também não pode proibir o cidadão de sair com o carro pra rua - quando tenta restringir, via rodízio, encontra-se formas criativas de burlar (comprando outro carro, por exemplo). Virou esculhambação. Uma solução drástica como o pedágio urbano implantado em Londres ajudaria, mas é uma medida muito impopular no curto prazo. Falta coragem política, especialmente em ano eleitoral.

Eu acho graça quando leio notícias explicando que o trânsito está congestionado "por excesso de carros". Claro que é por excesso de carros. O grande problema é o excesso de carros. São 800 novas placas por dia, 6 milhões de carros circulando na cidade. Não tem como não engarrafar.

O que adianta mesmo é o motorista procurar alternativas para ELE não engarrafar o trânsito. Nunca entendi, por exemplo, por que é que numa cidade tão moderna como São Paulo quase todo mundo entra e quase todo mundo sai do trabalho mais ou menos na mesma hora. Se alguns conseguem chegar e sair meia hora mais tarde, já alivia. Nem todo mundo consegue, mas alguns podem conseguir. Muita gente já faz isso no dia do rodízio, chegando mais cedo e saindo mais tarde.

Eu pessoalmente não dirijo. Não sei dirigir e não tenho a mínima vontade de ter carro. Minha necessidade de transporte geralmente pode ser bem atendida por ônibus e táxis. Além de ser muito mais barato, um carro a mais na rua é sempre um carro a mais engarrafando a rua. Se os engarrafamentos me irritam tanto, não sou eu que vou contribuir para aumentá-los.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Consultor de deslocamento. Que tal?


Segundo o Times Online, a Grã-Bretanha está prestes a criar uma nova categoria de funcionários públicos: os consultores de deslocamento. Sua função será conversar pessoalmente com os moradores e convencê-los a encontrar maneiras de trocar o uso do carro particular por transporte público, bicicleta ou caminhadas. Poderão oferecer descontos em lojas de bicicletas e pedômetros para que o cidadão saiba o quanto caminha.

Há alguns anos, Londres foi a primeira cidade do mundo a criar o pedágio urbano na área central, o que tira o incentivo aos motoristas para ir ao trabalho de carro particular. Isso permite sair do almoço perto do Palácio de Buckingham caminhando pelo meio da rua, calmamente, conversando com os amigos. Deu tão certo que estão ampliando a área. E muita gente usa bicicleta para ir ao trabalho.

O desincentivo ao uso do carro particular é uma medida importante, embora certamente possa ser impopular logo no começo. Nenhum político brasileiro tem coragem de sequer discutir o pedágio urbano em público. Governar é abrir estradas, afinal.

Em São Paulo, há pouco mais de dez anos há um rodízio de carros - a cada dia útil, 20% dos automóveis são proibidos de circular. Mas de que adianta isso se muita gente compra um segundo carro para usar no dia do rodízio e os novos empreendimentos imobiliários já anunciam seis vagas na garagem?

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha costuma descrever a cultura do carro particular em São Paulo da seguinte maneira: "quatro toneladas de lata carregando 70kg de gente". Nos horários mais atravancados, nas ruas mais atravancadas, há um mar de toneladas de carros carregando só seus motoristas.

Caminhar, em São Paulo, é um esporte radical. E não estou falando apenas das calçadas irregulares e detonadas, doidas pra torcer o pé de alguém. Tente atravessar a rua em alguns pontos da Consolação - próximo à Maria Antônia, por exemplo. Os mais jovens podem dar uma corridinha. Os mais velhos, quem manda saírem à rua?

Se você perguntar ao guarda de trânsito como encaminhar uma sugestão para segurar o sinal aberto por mais alguns poucos segundos, ele dará de ombros: a rua tem muita demanda, não há solução. Mas o motorista, em sua fortaleza de lata, vai de qualquer forma chegar mais rápido que o pedestre com seus calçados.

(Ou não: quanto mais carros, menos velocidade média do trânsito. Mas quem mandou sair de carro particular? Eu é que não fui...)

Um passo importante aqui foi o "bilhete único", que vem sendo imitado de maneira tabajara no Rio.

Em Londres também tem - mas o de lá é ainda melhor. Ele não é calculado por viagens, mas por dia e área. Você paga pela área onde circula e pela quantidade de dias que vai utilizar. Eu paguei uma taxa para circular uma semana na região central. Nesse período, podia pegar ônibus e metrô quantas vezes quisesse.

Claro, Londres tem o sistema de transporte público mais eficiente do mundo, incluindo um muito eficiente sistema de informação em tempo real sobre as condições de transporte.

Mas as cidades brasileiras não precisam continuar tendo um sistema de transporte público quase improvisado com ônibus batendo lata, passageiros transformados em sardinhas, calçadas inóspitas e semáforos carnívoros. É mais barato não ter carro - o que deveria ser mais incentivado num país com tantos problemas de economia.

Se você analisar as estatísticas disponíveis sobre como funciona o trânsito em São Paulo, pode acabar concordando comigo que as medidas londrinas podem ser um passo importante por aqui.