
Hoje pela manhã, uma ciclista de 40 anos foi atropelada na Avenida Paulista. Seu corpo ficou quatro horas estendido no chão, até que foi removido. (A foto acima não é do acidente; foi tirada do blog
Apocalipse Motorizado).
O
relato do Diário de S.Paulo é sucinto:
Uma ciclista, de 40 anos, morreu após ser atropelada por um ônibus, na Avenida Paulista, no sentido Consolação, na região dos Jardins. O acidente ocorreu quase na frente do prédio da Fundação Casper Líbero, na pista da direita. Márcia Regina de Andrade Prado circulava perto do meio-fio quando o motorista a ultrapassou. Uma testemunha diz que o motorista bateu no guidão da bicicleta. Ela se desiquilibrou, caiu e o coletivo passou por cima dela. O motorista Mario José de Oliveira, de 53 anos, trabalha desde 1981 e diz que nunca havia se envolvido em acidentes. Ele relatou à reportagem que ela estava no meio da faixa. Ele avançou na segunda faixa para ultrapassá-la. Quando ele retornava para a faixa da direita, ouviu o barulho e parou.
- Tenho a consciência tranquila. Lamento muito a morte de uma pessoa, mas sei que não tive culpa - disse.
A
Folha Online informa: "Quem trafegava pela avenida Paulista por volta das 15h50 enfrentava 1,3 km de congestionamento no sentido Consolação, da rua Joaquim Eugênio de Lima até a rua Augusta".
Por curiosidade, resolvi pesquisar na internet para ver o que descobria a respeito da ciclista. Renunciar ao carro, em São Paulo, já exige alguma coragem. Adotar a bicicleta como meio de transporte aqui, então, exige quase a mesma coragem de quem combatia a ditadura militar.
Encontrei, e não passei longe da verdade, não. Márcia Regina de Andrade Prado era uma ativista do ciclismo - uma "cicloativista", como eles se definem. Costumava
solicitar liberação das autoridades para bicicletadas,
reclamava a elas sobre falta de condições para o tráfego de ciclistas e era
chamada de "nossa líder" por outros integrantes do movimento.
Alguém com esse grau de articulação, presume-se, não poderia ser uma ciclista imprudente. Imprudente, parece, tornou-se fugir à lógica do motor em São Paulo.
Em setembro, Márcia foi uma das signatárias do
Manifesto dos Invisíveis, que tinha este trecho:
Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. As leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.
Meus respeitos à Márcia, a quem eu não conhecia mas passei a admirar a partir da pesquisa para este post. Sempre tive simpatia pelos ciclistas, mas ainda não tive coragem de comprar uma bicicleta exatamente por medo de algo como o que houve com ela.
Pensar que o caos do motor é o preço do desenvolvimento é agir como aquele prefeito de piada, cujo primeiro ato na administração de uma cidade pequena foi queimar uma pilha de pneus na praça. "Eu prometi desenvolver a cidade, e cidade desenvolvida tem que ter poluição", justificou.
Contrastem essa notícia com
esta reportagem que saiu hoje no New York Times sobre um cicloativista de Portland, Oregon. Ele é deputado, representando a cidade. O prefeito da cidade também é ciclista.
Quer contrastar mais ainda? Veja esta cena de Malmö, a terceira maior cidade da Suécia, muito industrializada e bem-provida de serviços sofisticados. Foi tirada ao meio-dia. Seria impensável na primeira ou na décima ou talvez na centésima maior cidade do Brasil. Comparar as fotos das duas pontas deste post mostra mais ou menos qual é a distância entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido.