Mostrando postagens com marcador viagens na irrealidade cotidiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagens na irrealidade cotidiana. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Retratos falados

Na sexta-feira, a polícia civil do RS divulgou o retrato falado do cidadão que roubou o carro do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. É este aqui, autografado e tudo.



Hoje, a polícia civil do PR divulgou o retrato falado do cidadão que matou um guri e baleou e depois estuprou a namorada dele. É este aqui, sem autógrafo.



Responda depressa: qual deles ajuda mais a reconhecer o criminoso se você o vir na rua?

Pois é.

E olha que não deve ser por falta de recursos. O site Papiloscopistas.net traz um artigo interessante sobre o investimento da Secretaria Nacional de Segurança Pública em softwares para montar retratos falados e treinamento para os papiloscopistas os fazerem melhor.

Será que essa tecnologia ainda não chegou no "estado mais politizado do Brasil"? Não acredito. Deve ser pra manter a tradição do autógrafo do artista, nessa terra tão prezadora das tradições.

Na dúvida, brinque de fazer retratos falados com o FlashFace. É de graça e parece mais eficiente que o da polícia civil gaúcha. Pelo menos o meu feito por mim mesmo ficou parecido:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Astrologia - fator de crédito

O Valor hoje tem uma matéria interessante (link para assinantes) sobre o novo sistema de compras online das Casas Bahia, criado com a ajuda de neurocientistas. Em certo ponto, os atendentes podem ligar para os candidatos a cliente e tentar confirmar as informações passadas. Firmeza da voz é um dos fatores a analisar. Até aí, tudo dentro do mais ou menos esperado. Aí vem isto:

    A checagem, diz Gonzaga, pode inclui ainda algumas pegadinhas, como perguntar ao consumidor qual é o seu signo. "Se ele parar muito tempo para pensar, isso já é mais um fator a ser considerado."

Hm. Eu simplesmente não apenas não entendo absolutamente nada de astrologia como sequer sei direito qual é meu signo. Se nem os horoscopeiros chegam a um consenso (sou de 20 de janeiro, então pra alguns é o último dia de Capricórnio e para outros é o primeiro de Aquário), não sou eu que vou me preocupar com isso.

Agora vai explicar isso pra um atendente de telemarketing. No mínimo ele vai duvidar de que eu tenho curso superior. Onde já se viu, alguém não saber seu signo?

Mas, ok, a maioria esmagadora da população não tem minhas idiossincrasias e leva a sério a noção de que a época do ano do seu nascimento equipara linhas gerais de sua personalidade à de um doze avos da população do mundo.

No planeta onde eu moro, porém, há bem mais do que 12 tipos de personalidade.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Oba, ninguém segura o Brasil!


Esta o Shikida vai adorar. Leia este título da Agência Brasil, agência de notícias oficial do governo brasileiro:


A comparação, veja só, é com os sistemas de saúde europeus.

Quando li, lembrei das madrugadas que passei com parentes aguardando atendimento no Hospital Conceição, em Porto Alegre. E lembrei do indefectível Buscopan que receitavam às 4 da manhã para qualquer problema, fosse arritmia cardíaca ou infecção urinária. Lembrei dos fios expostos (antes de uma reforma que fizeram por lá). Será que é isso mesmo?

Vamos às aspas que embasam o título, todas elas sinuosas:

    “Os resultados não são totalmente desfavoráveis ao Brasil”

    “O desempenho relativo do sistema de saúde do Brasil ante os países da OCDE não é ruim em termos de custo-efetividade. Como o Brasil está longe de atingir uma estabilidade dos gastos, da estrutura e do desempenho do seu sistema de saúde, tendemos a não rejeitar a aceitação de um desempenho mais favorável ao sistema de saúde brasileiro”

Isso é longe de ser mais eficiente do que os sistemas de saúde da Europa, não? No parágrafo 12...

    Segundo ele, “nós não estamos de maneira nenhuma afirmando a excelência dos serviços de saúde do Brasil”. Mas admite que há um “enorme oportunidade de melhoria do sistema”. Em sua avaliação, “o dinheiro bem aplicado em saúde no Brasil tem excelente investimento social face aos resultados que podem ser obtidos em outros países”.

Aparentemente, o estudo quer dizer que, se o Brasil aplicar bem o dinheiro da saúde, será um excelente investimento social (uaaau).

A matéria não traz o link para o estudo completo. Mas aí você vai ao site do Ipea e pega primeiro o release original. Ele esclarece a incompreensão:

    Os pesquisadores constataram que "investir em saúde no Brasil tem retorno melhor que na maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "Para cada 1% de gasto a mais, investido na saúde, em termos per capita, o brasileiro ganha, aproximadamente, cinco anos de vida", diz a pesquisa.

Traduzindo: no Brasil, cada pouquinho que se investe a mais em saúde traz um benefício maior do que o de um pouquinho comparável de investimento num país rico. Mas isso significa que a situação é muito boa ou muito ruim?

Só lendo o estudo completo (baixe-o aqui). Na primeira página, ele esclarece o que o estudo pretende medir:

    No presente trabalho realizamos avaliações de eficiência que procuram inferir em
    que medida o investimento em termos monetários, no sistema de saúde do Brasil,
    comparado com os sistemas de saúde dos países da Organização para a Cooperação e
    Desenvolvimento Econômico (OCDE),1 seria eficiente em maximizar indicadores
    relacionados ao desempenho desses sistemas.

Traduzindo: o que eles querem ver não é se o gasto atual do Brasil com saúde é eficiente, no sentido de alocação de recursos. O que eles querem ver é o quanto melhoraria a saúde com mais gastos. E melhoraria muito mais do que na Europa se gastasse mais.

Aí, quer-me parecer que a Agência Brasil enganou seus leitores. Mas o leitor que foi por ela, a estas alturas, já deve ter pendurado a bandeira do Brasil na janela e soltado rojões.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Tranqueira permanente

Até pouco tempo atrás, em São Paulo, existia o conceito de "horário de pico". Eram aqueles horários - mais ou menos os mesmos - em que boa parte da cidade parece se deslocar: no início da manhã, no final da tarde e, um pouco menos, no horário do almoço e começo do turno da tarde. Aos poucos, os horários de pico foram se esticando. Hoje, não dá pra ter certeza alguma sobre a que hora é mais tranqüilo andar pela rua.

Da mesma forma, até o ano passado ainda dava para ter uma certeza: em janeiro, os que preferimos ficar na cidade podemos ir à vontade ao cinema, aos bares, à rua, sem se preocupar com filas. A julgar pela experiência dos últimos dias no trânsito, em bares e em cinemas, isso também já era. Ontem acho que levamos quase meia hora na fila para conseguir pagar a conta no bar onde fui assistir a um tributo ao Led Zeppelin. Repare: não era a bilheteria do show do Elton John, e sim o caixa de um bar de rock do Bixiga onde um amigo meu estava cantando.

Parece que o pessoal desistiu de ir para a praia e resolveu ficar. Faria sentido, dados os megaengarrafamentos pra ir pra lá e as tranqueiras enfrentadas depois de chegar. Amigos que estiveram na praia falam de filas homéricas para tudo. Duas horas para comprar pão, e coisa e tal. Em São Paulo, pelo menos, há mais opções de filas para entrar. Só que as filas da praia não deixaram de existir. Aumentou até a quantidade de lixo nas estradas. E a tranqueira na cidade só cresce.

Quer-me parecer que estamos entrando na era da tranqueira permanente. Daí ao Grande Engarrafamento descrito pelo Ignácio de Loyola Brandão em "Não Verás País Nenhum" é um pulinho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Ônibus mata ciclista na Paulista: o motor venceu


Hoje pela manhã, uma ciclista de 40 anos foi atropelada na Avenida Paulista. Seu corpo ficou quatro horas estendido no chão, até que foi removido. (A foto acima não é do acidente; foi tirada do blog Apocalipse Motorizado).

O relato do Diário de S.Paulo é sucinto:

    Uma ciclista, de 40 anos, morreu após ser atropelada por um ônibus, na Avenida Paulista, no sentido Consolação, na região dos Jardins. O acidente ocorreu quase na frente do prédio da Fundação Casper Líbero, na pista da direita. Márcia Regina de Andrade Prado circulava perto do meio-fio quando o motorista a ultrapassou. Uma testemunha diz que o motorista bateu no guidão da bicicleta. Ela se desiquilibrou, caiu e o coletivo passou por cima dela. O motorista Mario José de Oliveira, de 53 anos, trabalha desde 1981 e diz que nunca havia se envolvido em acidentes. Ele relatou à reportagem que ela estava no meio da faixa. Ele avançou na segunda faixa para ultrapassá-la. Quando ele retornava para a faixa da direita, ouviu o barulho e parou.

    - Tenho a consciência tranquila. Lamento muito a morte de uma pessoa, mas sei que não tive culpa - disse.

A Folha Online informa: "Quem trafegava pela avenida Paulista por volta das 15h50 enfrentava 1,3 km de congestionamento no sentido Consolação, da rua Joaquim Eugênio de Lima até a rua Augusta".

Por curiosidade, resolvi pesquisar na internet para ver o que descobria a respeito da ciclista. Renunciar ao carro, em São Paulo, já exige alguma coragem. Adotar a bicicleta como meio de transporte aqui, então, exige quase a mesma coragem de quem combatia a ditadura militar.

Encontrei, e não passei longe da verdade, não. Márcia Regina de Andrade Prado era uma ativista do ciclismo - uma "cicloativista", como eles se definem. Costumava solicitar liberação das autoridades para bicicletadas, reclamava a elas sobre falta de condições para o tráfego de ciclistas e era chamada de "nossa líder" por outros integrantes do movimento.

Alguém com esse grau de articulação, presume-se, não poderia ser uma ciclista imprudente. Imprudente, parece, tornou-se fugir à lógica do motor em São Paulo.

Em setembro, Márcia foi uma das signatárias do Manifesto dos Invisíveis, que tinha este trecho:

    Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. As leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

Meus respeitos à Márcia, a quem eu não conhecia mas passei a admirar a partir da pesquisa para este post. Sempre tive simpatia pelos ciclistas, mas ainda não tive coragem de comprar uma bicicleta exatamente por medo de algo como o que houve com ela.

Pensar que o caos do motor é o preço do desenvolvimento é agir como aquele prefeito de piada, cujo primeiro ato na administração de uma cidade pequena foi queimar uma pilha de pneus na praça. "Eu prometi desenvolver a cidade, e cidade desenvolvida tem que ter poluição", justificou.

Contrastem essa notícia com esta reportagem que saiu hoje no New York Times sobre um cicloativista de Portland, Oregon. Ele é deputado, representando a cidade. O prefeito da cidade também é ciclista.

Quer contrastar mais ainda? Veja esta cena de Malmö, a terceira maior cidade da Suécia, muito industrializada e bem-provida de serviços sofisticados. Foi tirada ao meio-dia. Seria impensável na primeira ou na décima ou talvez na centésima maior cidade do Brasil. Comparar as fotos das duas pontas deste post mostra mais ou menos qual é a distância entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido.



terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Nosso mundo burro

O The Onion lançou uma espécie de guia turístico satírico do mundo, chamado "Our Dumb World" ("Nosso Mundo Burro"). Um dos banners para anunciá-lo é este:


"Brasil. O que há de mais belo das pessoas. O que há de mais feio da humanidade."

Antes de protestar como fez o Brasil contra um episódio dos Simpsons, olhe bem ao seu redor, abra um jornal e pense a respeito.

Barraca armada

Do O Globo:

    O Grêmio poderá recorrer ao uso do Viagra nos jogos da primeira fase da Libertadores. O médico do clube que acompanha a pré-temporada em Bento Gonçalves, Alarico Endres, admitiu a possibilidade nesta segunda-feira. O recurso ao comprimido azul não teria nada a ver com a potência sexual dos jogadores. Seria uma forma de aumentar a oxigenação do sangue, um dos efeitos do remédio, e assim minimizar os efeitos da altitude.

Isso provavelmente facilita o trabalho de quem for fazer o teste antidoping: com uma olhada o médico vai poder ver se tomaram ou não. O amigo leitor que quiser comprar o remedinho azul também tem mais uma desculpa: "é que eu preciso oxigenar o sangue, sabe?"

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Defensores do todo-poderoso

Em Londres, um grupo de ateus resolveu pôr um anúncio nos ônibus dizendo:

"PROVAVELMENTE, NÃO EXISTE DEUS.
Agora, pare de se preocupar e curta sua vida."


O que eles fizeram com a sua descrença não é nada muito diferente, embora com o sinal trocado, do que absolutamente todas as religiões fazem para pregar suas crenças. A idéia é tão boa que fizeram o mesmo em Barcelona, logo depois. O único senão, apontam alguns ateus mais rigorosos, é o "provavelmente". O Guardian entrevistou Richard Dawkins a respeito.

Agora, carolas de toda sorte reclamam ao órgão regulador da publicidade que a campanha do ônibus ateu é mentirosa e vai contra os padrões comumente aceitos para a publicidade. Já foram recebidas 141 reclamações. Mesmo com o "provavelmente". Ah, que saudade do tempo do Torquemada! Não tinha tanta baixaria na tevê e nem se falava tão mal de pessoas importantes no jornal!

Eles, que acreditam no todo-poderoso, não precisavam fazer uma dessas. Era só deixar o ofendido decidir sozinho e punir os ofensores como lhe aprouvesse. Ou será que eles acreditam que provavelmente deus não vai fazer nada a respeito? Mas o cara não é todo-poderoso? Então, ora. Deixa ele provar que existe, caso exista, pra esses hereges verem só uma coisa. Afinal, o maior interessado em defender sua honra não é o ofendido?

Eu, no lugar dos diretores da campanha do ônibus ateu, faria o mesmo que seus oponentes, mas com sinal contrário: denunciaria todas as propagandas que dizem que certamente deus existe.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A lógica do engarrafamento e a falta que faz o cabo de enxada

Dez dias antes do primeiro show da Madonna, diversos desocupados já acamparam na frente do estádio do Morumbi, numa inequívoca oportunidade de ocasião para qualquer bandido que se preze.

Eles são um pouco mais velhos que os fãs do Rebelde, mas têm mais ou menos a mesma mentalidade. Se duvidar, há até tios dos fãs do Rebelde ali no meio. Em setembro, eles se acotovelaram na internet, altas horas da madrugada, pra comprar um ingresso caríssimo num site de metodologia obscura - e que, por vezes, cobrava dobrado. Agora, já com o ingresso no bolso, largam tudo (sei lá se tiram férias do trabalho ou se simplesmente são desocupados) pra se dedicar por dez dias à nobre atividade de esperar a Madonna tocar, expostos ao sol e à chuva.

Eles dirão que é por amor à música. Mas, pra mim, isso soa mais a falta do que fazer, temperada por um vezo antropológico nativo.

O pessoal em São Paulo gosta de fazer fila. O trânsito é uma boa prova disso. A mentalidade do engarrafamento, porém, se estende a todas as atividades humanas - em especial às culturais e gastronômicas.

Ainda outro dia fui ao cinema assistir "Rebobine, por favor". Os ingressos eram gratuitos, então havia uma fila para obtê-los. Até aí, normal. Então, passou o sujeito da bilheteria entregando os bilhetes. Ingresso garantido, coloquei-o no bolso e fui sentar à sombra, beber uma água, algo assim. A fila continuou lá - desta vez, esperando a porta abrir. Deixei a fila passar e só entrei quando já estava aberto. Peguei um ótimo lugar. Com a vantagem de que ainda aproveitei a sombra e bebi água.

Gosto muito da padaria Bella Paulista, na Haddock Lobo. Mas há vários meses me recuso a comer lá. A comida é deliciosa, os pães estimulam todos os sentidos, mas a fila é insuportável. Não acho que valha a pena ficar 20 minutos na fila por um bom pedaço de pizza e uma caldereta de chope gelado. Há outros lugares, até ali perto, que servem o mesmo, com qualidade e respeito ao valor do meu tempo.

Em 2005, eu fui algumas vezes a um bar de jazz muito bom que abriu no Bexiga. Como ele estava abrindo, ia pouca gente. Um dia, vi lá dois músicos tocando apenas o cancioneiro do Robert Johnson, com um violão monstruosamente bem-tocado e tudo mais. Ao sair, cumprimentei o dono. Travou-se este diálogo:

-- Genial, este bar. É bom aproveitar agora, porque daqui a um ano certamente isso aqui vai estar lotado.

-- Um ano é tempo demais, quero que estoure logo!

Como não tinha fila na porta - embora fosse isso o que mais me atraía lá, além da qualidade da música -, ele fechou em pouquíssimos meses. Uma pena. Hoje, no mesmo lugar, funciona uma casa de pagode. Mais uma vez a lógica do engarrafamento venceu a lógica da qualidade.

No fim, tudo isso são sintomas de como cada um usa seu tempo. O meu, pessoalmente, eu trato feito diamante.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Condolências

Neste domingo, a assessoria de imprensa do Superior Tribunal de Justiça encaminha a quem interessar possa este comunicado:

    O ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), comunica o falecimento da sua mãe Maria José do Nascimento Gonçalves, ocorrido neste domingo, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). O sepultamento será realizado nesta segunda-feria (8), no bairro de Realengo, situado na zona oeste da capital.

    O ministro do STJ Luiz Fux, que se encontra no Rio de Janeiro, vai representar o Tribunal no sepultamento.

Minhas condolências à família, obviamente. Espero que dona Maria José tenha tido uma vida longa e produtiva, e que o ministro se refaça logo do impacto da perda.

E especiais condolências ao assessor de imprensa destacado para trabalhar no domingo apenas com a finalidade de enviar a notícia - de resto completamente desvinculada do trabalho do tribunal. Na prática, a assessoria do STJ parece ter funcionado como um serviço particular de recados do ministro.

Caso a moda pegue, podemos esperar que as assessorias da Câmara dos Deputados e do Senado informem sobre mortes de parentes dos 594 deputados e senadores.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Carta de aviso

A julgar pelos mais recentes comentários do onipresente Gilmar Mendes, criticando o Ministério Público por não publicar que está investigando alguém, sugiro o seguinte modelo de carta-aviso para o MP enviar a seus investigados antes de qualquer coisa:

    Prezado senhor,

    Temos suspeitas de ilicitude em suas atividades. Portanto, gostaríamos de participar-lhe que nas próximas semanas pretendemos acompanhar seus passos e monitorar seus telefonemas, caso o Judiciário manifeste sua anuência. Alertamos que comentários feitos em suas conversas monitoradas poderão ser checados in loco, portanto assegure-se de que ao longo desses dias cumprirá o que combinar com seus associados em seus telefonemas.

    Caso a medida lhe desagrade, é favor enviar imediatamente pedido de habeas corpus preventivo ao Supremo Tribunal Federal.

    Grato,


    Fulano de Tal
    Procurador da República.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Questões de suma importância

O Senado rejeitou hoje a sugestão do deputado Gerson Camata de dispensar o terno e a gravata nas sessões. Segundo Camata, a rejeição foi porque a Mesa decidiu que o paletó é imprescindível à dignidade do Senado. Só ele, na Mesa, votou a favor da proposta.

Nas doutas palavras do sucessor de Renan Calheiros, o galante Garibaldi Alves Filho:

    "A proposta não encontrou a receptividade que era esperada, tendo em vista que os senadores já estão acostumados (com o terno e a gravata). Nesse ponto, eles são conservadores. Eu estou inscrito no grupo dos que acham que não chegou a hora de abrir mão do paletó e da gravata."

É claro que, se tivesse passado a proposta (que, convenhamos, é quase bobinha embora vise poupar energia), ninguém impediria de usar gravata nem o dr. Garibaldi e nem quem quer que também quisesse. Mas o Heráclito Fortes não precisaria mais passar pelo constrangimento de pedir emprestado ao seu motorista um pedaço de pano pra amarrar no pescoço.

Ocorre que, na singular metodologia de interpretação de texto do analfabetismo funcional institucional à brasileira, sutileza não tem vez. Permissões que não obrigam não servem. Ou obriga-se ou proíbe-se - meio termo fica por conta da conveniência.

É por isso que ponto facultativo é feriado. É por isso que, se a lei faculta ao candidato prestar parciais de suas contas ao longo da campanha, quase ninguém presta. Não é obrigado a prestar, é? Na verdade, muita gente não presta nem quando é obrigado, se não ganhou a eleição.

Mas, voltando à decisão da Mesa do Senado, não consigo deixar de pensar nos seguintes atos da Mesa:

* Punir servidor que denunciou o Renan Calheiros por manipular seu processo de cassação, pode.

* Criar 97 novos cargos na surdina, pode - mas só enquanto não ficar muito feio, porque senão dá na vista e tem que voltar atrás.

* Fazer que não viu a determinação antinepotismo, pode - mas só enquanto não ficar muito feio, porque senão dá na vista.

* Propor brecha pra manter parentes depois da lei antinepotismo, pode, na estratégia do popular personagem João - aquele que não pode aplaudir a medida por não ter braços.

Agora: liberar a manga de camisa é um absurdo e não pode porque o Senado ainda não está preparado para isso. Já chega a casa vizinha, onde o Pompeo de Mattos circula de bombacha (pode) e Mão Branca queria andar de chapéu de couro (não pode). Onde já se viu uma coisa dessas, não é mesmo?

Ao menos no tocante ao vestuário, a Câmara Alta exige respeito.

domingo, 16 de novembro de 2008

Influindo no mundo

As propostas deste blog estão começando a influenciar o mundo.

Lembra que outro dia eu propus alguns métodos novos para fazer eleições no Brasil?

Pois é. Um deles - o cara-e-coroa - foi adotado na eleição para supervisor distrital do Grupo 4 de Desenvolvimento da Comunidade de Riverwood, no condado de Charlotte, na Flórida.

Como deu empate entre os dois candidatos, fizeram recontagem. Como fizeram recontagem e o empate continuava lá, jogou-se uma moedinha pro alto. Perdeu o mais azarado.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Medidas de combate à crise

Pra segurar o tchan da crise, o governo federal já anunciou dezenas de bilhões de reais em facilidades de crédito, com grana da Viúva, para a compra de carros, eletrodomésticos, casa própria, carteiras de bancos falibundos e o direito de construir megaobras de infra-estrutura.

Como a economia brasileira não pode parar, sugiro outros setores que também poderiam receber ajuda de crédito:

    * Cerveja: vem chegando o verão, um calor no coração, e com ele vêm as propagandas de cerveja entrando de sola nos horários mais assistidos da TV. Para desaquecer os ânimos sem desaquecer o consumo, o governo poderia criar uma linha de crédito de R$ 2 bilhões para garantir o fiado em botecos do Brasil inteiro.

    * Churrasco: uma eventual crise no Brasil poderia reduzir as vendas de carne, e os produtores do Mato Grosso do companheiro Blairo Maggi poderiam ficar mal das pernas. Uma linha de crédito de R$ 2 bilhões pra garantir o churrasco do brasileiro poderia deixá-los felizes e até desencalhar os invendáveis bois piratas da Amazônia.

    * Gibi: cada vez mais encadernados vêm sendo lançados, com personagens raros como o Starman de James Robinson. Uma linha de crédito de R$ 100 milhões (gibi vende pouco no Brasil) poderia aplacar os ânimos.

São medidas emergenciais, eu sei, mas devem dar uma segurada na crise até que o analista econômico alemão recrutado pelo Lula resolva a parada apelando a suas poderosas conexões.

sábado, 8 de novembro de 2008

Eleição, à moda dos bugios


O Estadão de hoje noticia um sincero discurso de um marqueteiro, por mais que isso possa parecer uma contradição em termos:

    Para que um candidato vença uma eleição, vale tudo. É o que diz Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (Abcop), que também dá aulas de marketing político na Universidade de Salamanca, na Espanha, e foi responsável por 13 campanhas eleitorais este ano. Tudo não exclui, segundo ele, ataques pessoais, jogadas sujas e folhetos apócrifos com acusações: "O que está em jogo é o poder. A política, como dizia Maquiavel, não é moral nem imoral. É amoral". E continuou: "Não dá para fazer política ética e moral no mundo democrático. Isso não existe".

    Manhanelli compara as campanhas eleitorais a uma guerra: "Para se ganhar o poder, não tem limites. É como uma guerra. Existe limite para ganhar uma guerra? Parte para o tudo ou nada, como o Collor (Fernando Collor de Mello) colocando a Miriam Cordeiro no programa de TV e a Marta (Suplicy, do PT) insinuando que (Gilberto) Kassab era homossexual", afirmou.

Taí, gostei da sinceridade. É melhor do que o discurso politicamente correto de "não, a gente não fez isso, vocês é que são maldosos, nossa campanha sempre foi propositiva e de alto nível". Obviamente, ele não disse nada que a gente não saiba: o que importa aos nossos dignos representantes é apenas a dança das cadeiras, e os marqueteiros são contratados pra dar o ritmo da dança.

A julgar pelas peremptórias afirmações do marqueteiro, o negócio é declarar oficialmente instaurada a tecnologia eleitoral dos bugios, portanto.

O bugio é uma espécie de macaco que, para resolver disputas, defeca na mão e atira contra seu oponente. Este responde na mesma moeda. Não sei direito como se decide ao final quem foi que ganhou, mas o cheiro que fica no ar deve ser algo notável.

Reformular o sistema eleitoral a partir da perspectiva de seus mais dedicados operadores, os marqueteiros, pode ter vantagens muito sólidas em termos de custos. Podemos, por exemplo, dispensar a caríssima logística que exige a participação dos eleitores - até porque os índices de abstenção vêm subindo à medida que sobe o descontentamento com o fato de a classe política viver em uma crise paralela.

Se aceitarmos as premissas de que boas decisões são decisões bem informadas e de que o voto é uma decisão importante, já vivemos no mundo do faz-de-conta há muito tempo.

A campanha é sempre curta - compare qualquer período pré-eleitoral brasileiro com o período pré-eleitoral americano, por exemplo. Os candidatos também dificilmente falam sinceramente o que pretendem fazer, pois todos os discursos são pré-fabricados para amoldar-se às expectativas medidas em pesquisas de opinião. Mesmo as divergências não chegam a divergir. Se você observou com atenção os debates em alguma capital, deve ter notado a freqüência com que um candidato perguntava sobre um ponto, o oponente respondia sobre outro e a tréplica versava sobre um terceiro. Faz sentido: se a arte da campanha é a arte do insulto, e se as regras dos debates acertadas com os marqueteiros proíbem o insulto, o debate eleitoral na TV tornou-se a arte de esculpir promessas com bafo quente. Aí, o negócio é cada um jogar pra sua platéia que tá na boa.

Assim, tenho algumas propostas de baixíssimo custo para aperfeiçoar o sistema, do ponto de vista da decisão de quem é que ganha.

    1) Par ou ímpar: a apuração é mais rápida do que a das urnas eletrônicas e todo mundo entende facilmente os resultados. O problema é que, como o Brasil tem muitos partidos, isso só daria certo no segundo turno. O mesmo vale para o cara-ou-coroa. Custo: zero. No cara-ou-coroa, pode-se escalonar o custo de acordo com o quanto valem as propostas dos candidatos - R$ 0,01, R$ 0,05, R$ 0,10, R$ 0,25, R$ 0,50 ou R$ 1.

    2) Palitinho: tem regras um pouco mais complicadas do que o par ou ímpar, mas podem participar mais candidatos. É mais fraudável do que o método anterior, pois sempre pode aparecer alguém com um palitinho quebrado escondido na manga. Custo: acho que uma caixa de fósforos deve custar R$ 0,50. Para honrar os candidatos, pode-se pagar um almoço para todos eles em uma cantina e emprestar o material do paliteiro para que se realize a grande festa da democracia.

Admito que as propostas acima não estão à altura da retórica belicosa do especialista em marketing político. Nenhuma delas verte sangue, premissa básica de qualquer guerra travada fora dos pátios escolares na hora do recreio. Assim, proponho algumas mais adequadas.

    3) Arena de gladiadores: é o meu método favorito, e possivelmente a venda dos direitos de transmissão do espetacular pleito pela TV pode render royalties internacionais para financiar a Justiça Eleitoral. Esse método consiste no seguinte: todos os candidatos são reunidos numa arena para lutarem até a morte. Quem sobrar vivo ganha a eleição. As armas à sua disposição - lança, maça, machadinha - dependerão do grau de financiamento de sua campanha, mas ainda assim seria mais barato do que no sistema atual. Custo: o preço de um aluguel de estádio para jogo de futebol. É caro, mas mesmo assim é mais barato que a logística toda das urnas eletrônicas.

    4) Duelo ao entardecer: poderia ser o método usado no segundo turno. Cada um escolhe sua arma e padrinho. Viram-se de costas um para o outro e dão dez passos. Ao sinal dos padrinhos, miram e atiram. Quem sobrar vivo governa a cidade. A primeira providência para viabilizar isso seria mudar a lei que proíbe duelos no Brasil. Custo: baratinho, especialmente se cada candidato levar sua própria garrucha.

    5) Roleta-russa: outra forma empolgante de resolver o segundo turno, embora não tão romântica quanto a anterior. Frank Miller foi quem melhor descreveu as regras. "Tradicionalmente, a roleta-russa requer uma bala, uma arma e dois idiotas. Os dois idiotas apontam a pistola para as próprias cabeças e apertam o gatilho, um por vez. O idiota de sorte sobrevive." Talvez seja necessário mudar alguma outra lei para viabilizar essa modalidade de pleito. Custo: uma bala de revólver calibre 38 não deve sair mais do que R$ 5.