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sexta-feira, 20 de março de 2009

O Senado é um Fusca com preço de Ferrari

A Folha de S.Paulo publica a lista dos 50 diretores do Senado que perderam os benefícios depois que ficou feio. A economia com isso, de R$ 400 mil ao mês, equivale a R$ 4,8 milhões em um ano. E ainda é pouco. Ainda tem 131 diretores, e eu duvido que precise tanto. Se duvidar, deve ter diretor até encarregado da coordenação dos ascensoristas ou da troca dos rolos de papel higiênico no banheiro.

O orçamento do Senado é fabuloso: em 2007, era de R$ 2,6 bilhões. Proporcionalmente pela quantidade de membros, era mais suntuoso que o dos Estados Unidos (leia aqui o estudo que coordenei na Transparência Brasil na época). Neste ano, o orçamento é de R$ 2,8 bilhões. A maior parte dele, R$ 2,3 bilhões, vai para a folha de pagamento, segundo o Contas Abertas.

Em 2007, pouco antes de eu deixar a Transparência Brasil, propus ao diretor da entidade uma comparação que até hoje me orgulha: "Um Senado de Fuscas ao preço de Ferraris". Na época, o escândalo da vez era outro - e seu personagem principal já voltou a ser considerado um nobre líder partidário, um corretor de poder nessa briga toda. But I digress. O artigo dele a respeito dizia o seguinte:

    Imagine o eventual leitor que adquira um Porsche. Suponha que a assistência técnica passe mais de um mês se esquivando de verificar se o ruído estranho que se ouve no motor é sinal de algo grave. Perante tal comportamento, o leitor possivelmente recorrerá aos órgãos de defesa do consumidor.

    Já quando se trata da vida política, o eleitor não conta com tal possibilidade. Não raro, o "produto" que seu voto engendrou se comporta como um Fusca 1955 com motor fundido. É assim, como um ferro-velho, que o Senado Federal vem se comportando no episódio Renan Calheiros. O pior é que estamos pagando preços de Ferrari pelos Fuscas, Gordinis e Simcas que em grande proporção habitam aquela Casa.

    Levantamento recente da Transparência Brasil demonstra que o Senado é a Casa legislativa mais cara por membro entre 12 países pesquisados: a manutenção do Senado custa R$ 33,1 milhões por mandato de seus 81 integrantes. Esse dinheiro não vai todo diretamente para cada senador, mas paga uma estrutura que inclui funcionários, gráfica, TV, rádio, jornal e outros serviços basicamente voltados para a autopromoção de senadores.

    Isso dá mais do que o dobro do que os Estados Unidos gastam por mandato parlamentar federal. Ao todo, o Senado brasileiro custa quase o dobro do orçamento previsto neste ano para as duas Casas do parlamento britânico, mesmo com todas as diferenças de riqueza entre o Brasil e o Reino Unido.

    Embora custe mais caro que todos os parlamentos do Primeiro Mundo, talvez os serviços que as Casas legislativas brasileiras prestam sejam equivalentemente mais substanciais e relevantes. Talvez os R$ 33 milhões que pagamos por mandato senatorial valham a pena e recebamos de volta um desempenho espetacularmente notável. Mas será mesmo?

    A demora em investigar as suspeitas que recaem sobre o presidente da Casa, Renan Calheiros, e a renitência que este manifesta ao se manter na Presidência da Casa demonstram que o Senado brasileiro presta aos cidadãos brasileiros uma representação de quinto mundo. Certamente não é por falta de recursos financeiros que o Senado deixa acumular, sem averiguação, indícios de que o seu presidente esteve envolvido em práticas escusas.

A situação não melhorou muito desde então. Os Fuscas continuam saindo a preço de Ferrari.

Mas, na verdade, melhorou, sim. Em um sentido: desde aquele estudo, a gente sabe cada vez melhor o tamanho do prejuízo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Por que sai tão caro

O Senado é a Casa legislativa mais cara do Brasil, como a Transparência Brasil revelou pela primeira vez em 2007, em estudo que eu coordenei. Naquele ano, proporcionalmente, a manutenção da Casa custava mais de R$ 33 milhões por parlamentar.

Os escândalos recentes, incluindo a farta distribuição de passagens aéreas pela Roseana Sarney e a conta do celular da filha do Tião Vianna, têm como cereja do bolo uma singela correção que o Senado divulgou no final da tarde de hoje.

Pela manhã, dizia-se que a Casa tinha 136 diretores e que os representantes dos nossos estados cogitavam demitir metade deles.

À tarde, corrigiu-se o número impreciso. Na verdade, a Casa dispõe de 181 diretores.

Ou seja: eles não apenas têm mais diretores do que senadores (são 2,23 diretores por senador) como também sequer têm certeza de quantos diretores eles têm.

Não admira que saia tão caro manter nossos queridos senadores.

A crise afetou a Bolsa...

...e a novidade é que agora a própria Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) vai demitir 175 funcionários. A maior parte das demissões em massa detectadas no noticiário desde janeiro se concentra na cidade de São Paulo ou seu entorno. Vejam só o que é o mapa das demissões na cidade:


Exibir mapa ampliado

terça-feira, 17 de março de 2009

Censores com censores fazem zigue, zigue, zá

A Embraer, que fez de tudo pra atrapalhar a vida do repórter que revelou em dezembro o plano de demitir mais de 4 mil funcionários, teve 5% de seu capital comprado pelo banco Barclays, inglês.

O anúncio sai no mesmo dia em que o Barclays censurou judicialmente o Guardian por publicar uma série de documentos internos vazados da empresa, mencionando um plano do banco de fazer investimentos por meio de uma complexa teia de empresas, incluindo algumas nas ilhas Cayman, pra escapar dos impostos.

Segundo o Barclays, o Guardian de agir como quem toma a justiça em suas próprias mãos ao publicar os documentos. O tribunal aceitou a censura. No caso da Embraer, não houve processo, mas o repórter foi humilhado em público.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Banqueiros e algemas


Do Blog do Vinicius:

    Bernard Madoff, o homem da fraude de mais de US$ 60 bilhões de dólares, confessou-se culpado diante de um juiz federal americano, em Nova York. Sua liberdade sob fiança foi cancelada e ele saiu do tribunal algemado, para a cadeia, onde vai esperar sua sentença.

    Madoff, ex-presidente da Nasdaq, é um escroque, mas fisicamente é um homem inofensivo de 70 anos de idade. Caso não estivesse algemado, o risco maior era de que saísse correndo do tribunal e se atirasse sob um carro.

    Mas é difícil dizer que os Estados Unidos não sejam um Estado de direito. No Estado de direito brasileiro, financistas não vão para cadeia, assassinos confessos e provados, mas ricos, ficam "presos" em casa, e se acredita que os juízes de primeira instância não valem o papel em que escrevem suas sentenças, pois ninguém (com advogados carésimos) será condenado até que o tribunal mais alto confirme a sentença do primeiro juiz, talvez décadas depois do primeiro julgamento, que em geral também demora muito.

    Os ricos também não podem ser algemados (ninguém se importa com as detenções do povaréu, enfiado aos cachações dentro de camburões, "apresentados" pela polícia, com policiais segurando suas fuças para quem mostrem a cara para as fotos).

    No Brasil, Madoff, se por um acaso remoto fosse condenado, ficaria livre até a morte.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Pra mandar a crise embora, sorte

A mais nova medida anticrise do governo foi anunciada sem a pompa habitual.

Agora, a Quina vai correr seis vezes por semana e as raspadinhas federais terão prêmio de até R$ 600 mil. O governo já opera dez loterias diferentes.

Em 2007, as loterias da Caixa arrecadaram 10,7% mais do que em 2007, numa receita total de R$ 5,7 bilhões com as apostas. Pagaram R$ 1,76 bilhão em prêmios, e o restante foi para a Viúva.

Com a ampliação nos prêmios, a idéia da Caixa é atrair apostadores mais jovens. Com a crise, é fácil entender o que os atrairá. Atrairá possivelmente também outros espertos, como os descobertos em 2003 comprando bilhetes premiados para lavar dinheiro.

domingo, 1 de março de 2009

Tadinhos dos banquinhos

Da coluna do Kennedy Alencar:

    Antes do Carnaval, os principais bancos privados do país fizeram uma ação articulada para tentar amenizar as constantes críticas públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva às instituições financeiras como um todo. Por emissários, queixaram-se de que Lula estaria demonizando os bancos na atual crise econômica. (...)

    Os bancos estariam constrangidos de divulgar grandes lucros obtidos em 2008, por serem sempre apresentados como indevidos num país com as carências do Brasil. As instituições se queixaram de que Lula estimula uma imagem negativa dos bancos, sobretudo na mídia, justamente na hora em que são retratados os resultados do ano passado.

O lucro dos bancos foi menos fabuloso do que o do ano anterior, mas ainda assim foi fabuloso. O do banco com o qual contribuo pagando taxas tinha sido de R$ 8,01 bilhões em 2007, e em 2008 foi só de R$ 7,62 bilhões. Mas tadinhos dos banqueiros, ficaram constrangidos de divulgar. Eles não têm a sorte dos deputados, por exemplo, que podem não prestar contas à vontade. Como negociam ações na bolsa, são obrigados a divulgar, e isso deve dar mesmo uma vergonha danada. Até porque não podem fazer como os deputados e sair por aí culpando a Geni de sempre, a imprensa.

Imaginem só o constrangimento dos banqueiros, de ter que sair na rua e todo mundo ficar apontando: "olha lá o rico!!!", chegando até o ponto máximo do preconceito de dizer "sai, magnata!". Por isso é que eles usam helicópteros, ora, tornando São Paulo a segunda cidade do mundo com o maior número desses veículos. Imaginem o desgosto de ver seus colegas no exterior não podendo nem usar jatinho particular. Outro dia li uma coluna da Mônica Bergamo em que namoradas de banqueiros reclamavam que a crise afeta até o desempenho afetivo dos rapazes, e que restaurantes chiques antes lotados agora vivem às moscas.

Deve ser dura a vida deles, fala sério.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Custo e benefício

O blog continua suspenso, exceto casos excepcionais. Como esta matéria do Estadão de hoje:

    Uma conta matemática simples comprova que a estratégia de dez dos réus da ação do mensalão ao arrolarem testemunhas no exterior é atrasar a conclusão do processo.

    Para que a Justiça ouça as testemunhas no exterior - Portugal, Bahamas, Argentina e Estados Unidos -, os réus terão de desembolsar, por decisão do ministro relator do processo, Joaquim Barbosa, R$ 19,1 milhões, custo da tradução juramentada de todos os 91 volumes do processo. Se pagassem para que as 13 testemunhas viessem ao Brasil, o custo baixaria para R$ 107 mil, incluindo passagens aéreas de ida e volta e estada de três dias na mais luxuosa suíte de um dos melhores hotéis de Brasília.

    Além de mais barato, o processo correria mais rápido. E é exatamente por essa celeridade que os réus devem optar por pagar muito mais caro e deixar as testemunhas longe do Brasil. Para ouvi-las, a Justiça terá de cumprir um trâmite burocrático que atrasará o andamento do caso. Quanto mais o tempo passar, mais fácil para alguns se livrarem de uma condenação. Diante dos altos custos dessa burocracia, o relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, deu prazo para que os réus decidam se querem ou não arcar com as despesas de um interrogatório no exterior.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A telinha fictícia e o abandono dos jatinhos

Se você pega ônibus em São Paulo, nos corredores de ônibus, deve ter visto com curiosidade a telinha da SPTrans que mostra quantos minutos faltam para chegar os ônibus que passam por ali.

Se você já parou para olhar essa telinha, deve ter chegado à mesma perplexidade do Aylons:

    Instalada nos mais importantes pontos de ônibus da cidade, isso daí deveria informar quando chegam os ônibus… porém, nunca funciona.

Pois é. Não funciona. É bastante provável que os dados ali mostrados sejam fictícios, só pra constar que funciona. Mas a coisa é bem mais complicada.

Aquela telinha nunca funcionou. Passou muito tempo desligada. Só recentemente começou a ser ligada no corredor aqui da esquina, mas eu nunca vi as obras necessárias no corredor pra que ela funcionasse. Porque isso depende de obra.

Uma vez, há uns 4 anos, participei de uma entrevista com o ex-secretário de transportes, Frederico Bussinger, e perguntei a respeito desse ponto da telinha inoperante. Na época, ele disse que o maior problema para que esse sistema funcionasse era o fato de que a obra foi feita sem instalar os sensores, que ficariam sob o asfalto em diversos pontos do corredor.

O material já foi comprado, e saiu caro, mas por conta de erros na obra nunca havia sido posto para funcionar. Isso seria corrigido um dia, segundo ele. Só que pra isso seria necessário mexer no asfaltamento dos corredores pra colocar os sensores lá, em vários pontos, para o sistema poder mostrar nas telas quais ônibus estão mais perto.

Eu moro a meia quadra de um corredor de ônibus, e olho para lá todo dia pela janela. Nunca vi essas obras. Já vi operações pontuais no asfalto, mas nada aparentemente mais complexo que isso.

A telinha fictícia fica bem na foto, mas irrita quem de fato precisa dela. Geralmente, é quem está nervoso esperando o ônibus pra ir a um compromisso. Mas a questão é que, para os gestores públicos brasileiros, o que importa mais é a foto, não a função.

(A tela que funciona, essa sim, é aquela que passa pegadinhas genéricas em algumas linhas de ônibus, com o fim de atrair anúncios um dia. Um saco.)

E sabe o que a telinha fictícia me lembra também? Daquele estudo divulgado há pouco tempo dizendo que 86% dos usuários de ônibus em São Paulo não querem ar condicionado em suas viagens. Também me lembrou da decisão de manter a frota envelhecida, pra agradar os empresários de ônibus. Aí, num domingo de sol malvado como hoje, o passageiro pode exercitar o radical esporte de equilibrar-se num ônibus, aos solavancos, num calor intenso.

E você, que pensava que a política não interferia na sua vida, hein?

Com a crise financeira, os grandes banqueiros do mundo passaram a ter que usar "transporte público" em suas viagens - no caso, trens e vôos comerciais, ao invés dos jatinhos particulares de agora há pouco. Tudo, segundo o Financial Times, pra escapar do carimbo de "vergonha" dos US$ 18 bilhões distribuídos em bônus aos banqueiros num cenário em que eles falharam e todo mundo está se quebrando.

A idéia é ótima e poderia ser replicada em uma escala menor.

O prefeito, o governador, os vereadores e os deputados estaduais poderiam fazer o nobre esforço de ir para o trabalho de transporte público, de vez em quando. Nem que fosse por uma só semana, para fumarem um pouco da droga que vendem aos cidadãos.

Não seria uma coisa inédita: o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, prometia ir para o trabalho de metrô. Gosta de ser fotografado fazendo isso, muito embora o New York Times conte que ele na verdade anda 22 quadras de camionete antes de entrar na estação.

De qualquer forma, Bloomberg anda muito mais de metrô do que sua contraparte paulistana, Gilberto Kassab, que só entra lá em época de campanha. No ônibus, então, que é muito mais da alçada dele, nem pensar...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Será que o Madoff te afeta?


A Folha Online usa uma matéria da agência espanhola EFE para contar quem está na lista dos investidores que perderam dinheiro com o esquema do financista picareta Bernard Madoff. Ela, porém, não dá o link para a íntegra do documento.

Possivelmente, quem baixou a matéria também não se deu ao trabalho de procurar o documento. Ou, tendo procurado, sequer abriu pra ver se tinha alguma coisa interessante. E tem, porque eu baixei e procurei.

Mas não é disso que eu queria falar.

O Santander foi o banco que mais perdeu dinheiro com o Madoff, certo? E também foi o banco que elogiou o Madoff em um relatório antes do mico, certo? E também é o banco que ofereceu compensação aos seus clientes de mais alto perfil que perderam dinheiro com o golpe, certo?

Pois hoje o Banco Central publicou a lista dos bancos que cobram os mais altos juros mensais. O Santander é o terceiro mais careiro, depois do HSBC e do Banco Schahin. Ele cobra em média 9,90% por mês no cheque especial. Isso, em termos de juros compostos, dá impressionantes 75,2% ao ano.

Mas por que cresce tanto?

O juro dos bancos é alto por causa do spread bancário - a diferença entre a taxa oficial que o banco paga ao Banco Central (12,75% ao ano) e a taxa que o banco cobra dos clientes (os 75,2% ao ano, no caso do Santander). O spread é calculado pelo banco basicamente levando em conta o risco que ele avalia que terá para recuperar o dinheiro que te emprestou. Se o banco tem medo de que vá aumentar o desemprego, e com ele a inadimplência, ele aumenta o spread. Vale a pena ler esta notícia da Folha Online sobre o que a Febraban fala a respeito do spread.

Mas então, voltando ao Madoff. Até que ponto o prejuízo com a grana alta apostada na pirâmide do picareta não aumenta o spread que engorda os juros cobrados pelo Santander do cara comum que fica pendurado no cheque especial? E quem compensa esse sujeito?

Eu adoraria ler essa matéria.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Entenda o Legislativo em três parágrafos (mais um de pós-graduação)

A matéria abaixo, do Estadão, ilustra boa parte do que você poderia aprender sobre o Legislativo brasileiro lendo vários livros sobre

1) A relação entre a política municipal e a correlação de forças no Congresso;

2) Patrimonialismo e a forma como o Legislativo gasta o nosso dinheiro;

3) Regimento da Câmara dos Deputados;

4) Por que raios suas excelências votaram contra abolir a obrigatoriedade do paletó.

São estes os três parágrafos - e entre nos links para conhecer melhor os rapazes:

    TRABALHO DE UM DIA CUSTA R$ 99 MIL

    A manobra política de seis secretários estaduais e municipais que reassumiram os mandatos de deputado apenas para votar na eleição da Mesa Diretora vai custar aos cofres da Câmara R$ 99 mil. Para ficar poucos dias ou até menos de 24 horas na Casa, cada um receberá o equivalente ao salário de um mês - R$ 16,5 mil. O benefício, chamado "indenização", é pago aos parlamentares todo ano no início e no fim dos trabalhos legislativos, a título ajuda de custo pelo deslocamento e outros gastos que permitem o comparecimento às sessões. Vale para os titulares e para os suplentes, na primeira vez que assumem o mandato a cada ano.

    Na segunda-feira, reassumiram os mandatos os secretários estaduais Alberto Fraga (DEM-DF) e Osmar Terra (PMDB-RS) e os municipais Walter Feldman (PSDB-SP) e Jorge Bittar (PT-RJ). Em 29 de janeiro, reassumiu o secretário de Trabalho do Distrito Federal, Bispo Rodovalho (DEM), e, no dia seguinte, foi a vez do secretário de Desenvolvimento Urbano do DF, Cássio Taniguchi (DEM).

    Todos são eleitores do novo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e a maioria, dizendo-se surpresa com o vencimento adicional, prometeu doar o valor recebido a uma instituição ou encaminhar ofício à Câmara pedindo que o depósito, previsto para o dia 10, não seja feito. Quando os deputados voltam às suas secretarias - o que já aconteceu com Bittar, Fraga e Taniguchi -, os suplentes assumem e também recebem a ajuda de custo. Temer disse que não tem como alterar o decreto legislativo que garante esse benefício tanto a titulares quanto a suplentes. Para tanto, é preciso o plenário aprovar novo decreto alterando o que está em vigor.

Quer se especializar mais no assunto? Um parágrafo, da Folha:

    O novo corregedor da Câmara, deputado Edmar Moreira (DEM-MG), colocou à venda um castelo com torres de até oito andares e 36 suítes, inspirado nas construções europeias e erguido no interior de Minas Gerais. Por US$ 25 milhões é possível comprar o imóvel, informa por telefone o corretor. Contudo, Moreira declarou à Justiça Eleitoral em 1998, 2002 e 2006 apenas uma casa e um terreno, avaliados em R$ 17,5 mil. O deputado se recusa a comentar o assunto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Todo mundo de olho, a coisa anda

Lembra das cadeiras do Senado, a Casa do Entendimento? Lembra da eleição da nova diretoria? Pois é, eles já vieram querendo consertar a burrada, possivelmente pra evitar desgaste logo de saída. Do Estadão:

    Eleito ontem como primeiro-secretário do Senado, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) mandou suspender a licitação no valor de R$ 2,49 milhões para compra de 1.724 cadeiras e 62 sofás. Heráclito disse que quer se informar sobre a transação, que só se tornou pública na véspera da troca dos membros da Mesa Diretora da Casa e que ontem mesmo se encerraria, com a abertura dos envelopes dos interessados em disputar a licitação.

    A decisão de adquirir os móveis se deu sob o comando do ex-primeiro-secretário Efraim Morais (DEM-PB) e do atual diretor-geral, Agaciel Maia. Segundo Agaciel, as cadeiras e sofás foram pedidos pelos gabinetes e pela TV Senado, sendo que a área encarregada de atendê-los decidiu fazer uma única compra para barateá-la. "Não foi uma decisão política. Como essa há várias licitações, como a assinatura de jornais, que independem da troca ou não da Mesa", afirmou.

    O móveis teriam de ser entregue no prazo máximo de 60 dias, a contar da data do contrato com o Senado. E as exigências são muitas: os senadores, por exemplo, terão "cadeira de couro preto, costura dupla, encosto alto, com base giratória que permite movimentos silenciosos e giros de 360 graus". Tantas especificações terminam alimentando a suspeita de se tratar de uma licitação dirigida. Agaciel nega. "Não há nenhuma maldade nessa compra", afirmou. O ex-primeiro-secretário não quis comentar a licitação.

Basicamente, a coisa funciona assim: a farra rola solta até você ficar sabendo. Quando você fica sabendo, pega mal. Quando pega mal, eles voltam atrás e dizem que na verdade foi você quem entendeu errado.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mais Madoff e Santander

Do Financial Times:

    Santander, the Spanish bank, said it would offer preferred shares to individual private banking clients – but not institutional investors – who lost money in the alleged fraud by US broker Bernard Madoff in exchange for a promise not to sue.

    The biggest bank in the eurozone will offer clients the amount they invested and lost but not the full nominal value of their holdings at the time Mr Madoff was arrested in December. The bank said it was the first to offer a settlement to Madoff investors.

    The Santander preferred shares, yielding 2 per cent a year, would be bought back by the bank after 10 years and have a face value of €1.38bn. The cost to the bank of €500m will be taken in the 2008 accounts to be announced next week.

    Santander has said its clients lost €2.33bn more than any other bank hit by the Madoff scandal, and its customers in Spain, Latin America and elsewhere are up in arms over the loss of their investments.

Como será que isso afeta os clientes brasileiros?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ei, você aí...

Eu sou fãzaço da Lucy Kellaway, a mais ácida colunista do Financial Times. Especialmente quando o presidente Lula assina um PAC privado de R$ 100 bilhões e os empresários choram as pitangas porque uma das exigências pra levar a graninha da Viúva é a de evitar o mais novo esporte mundial, o de demitir em massa (aliás, ouça esta notícia do Onion Radio News).

Ora, cavalheiros, sejam machos uma vez na vida. Agradeçam, senhores, pelo fato de minha colunista favorita não fazer parte da equipe econômica. Ela os levaria a um reality show. Assim:

    No entanto, eu tenho uma idéia melhor para uma série de TV em tempos de recessão: ela também seria algo que prenderia os telespectadores diante da telinha, mas seria mais benéfica do que maléfica. Meu programa, que se chamaria "The Begging Bowl" (algo como "Passando o Chapéu"), faria presidentes-executivos de empresas em dificuldades competirem por empréstimos e esmolas. Eles fariam uma breve apresentação sobre si e depois seriam interrogados por um comitê. (Eu gosto de me ver como Sharon Osbourne- embora ainda seja misericordiosa.) Os telespectadores iriam então decidir quem deveria ser ajudado e quem deveria ser abandonado à própria sorte.

    Estar sob esse escrutínio televisivo certamente mudaria o comportamento das empresas para melhor. Pense no que aconteceria em dezembro, quando as três grandes fabricantes de automóveis dos Estados Unidos foram de chapéu na mão até Washington e tiveram que admitir na televisão que chegaram lá em três jatinhos executivos separados. Na vez seguinte, eles foram de carro.

    Perguntas deselegantes sobre salários e bonificações seriam rotineiramente feitas aos concorrentes em meu programa. Os presidentes teriam de falar sobre como suas empresas se enrolaram tanto e quais seriam suas propostas para tirá-las da lama. Aquelas como a Land of Leather, a companhia britânica de sofás que quebrou na semana passada apesar de ter sido bastante prudente, poderiam acabar sendo salvas pela vontade popular.

    Você pode dizer que o público é ignorante demais para decidir sobre assuntos complicados como esse. Mas os bancos fizeram uma bagunça tão grande ao decidirem para quem emprestar no passado, que o público dificilmente se sairia pior.

    Você também pode se perguntar de onde viria o dinheiro do socorro. Mas se um holandês pode passar US$ 1 milhão de seu próprio dinheiro para operadores novatos, eu realmente não vejo porque Gordon Brown (o primeiro-ministro britânico) não poderia colocar os 20 bilhões de libras que estão sendo disponibilizados para empresas com problemas no chapéu da televisão e deixar os contribuintes decidirem quem merece o quê. Afinal de contas, o dinheiro é deles.

É motivo pra trocar de banco

Do Wall Street Journal, via Valor:

    O Santander , maior banco da Espanha, encheu Bernard Madoff de elogios semanas antes de sua prisão pela suposta fraude de US$ 50 bilhões, chamando de "impecável" seu conhecimento sobre o momento para se entrar e sair do mercado, em informe para investidores. Advogados sustentam que o relatório levanta dúvidas sobre os controles de risco do banco.

    Administradores de recursos da divisão de investimentos no fundo hedge Optimal, pertencente ao banco espanhol, cujos clientes estão entre os mais prejudicados no escândalo, disseram a investidores institucionais estar impressionados com sua capacidade de "encontrar pontos de entrada e saída ótimos, para benefício dos investidores".

    A revelação do conteúdo do informe traz suspeita sobre a efetividade das operações de gestão de risco e de análise das contas. Alguns advogados disseram que informes de fundos como o do Optimal poderiam dar munição para investidores que querem processar terceiros que lhes venderam o fundo Madoff.

    "Os documentos serão devastadores", afirmou o advogado Jacob Zamansky, representando clientes que pensam tomar medidas legais contra o Banco Santander, entre outros. Ontem, uma firma de advocacia espanhola informou que negociará com o banco em nome de um grupo de cem clientes espanhóis e latino-americanos afetados pelo escândalo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

De que serve um escândalo

Pois vocês lembram que o ubíquo e loquaz ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, anunciou aos quatro ventos que havia sido grampeado. Inclusive, seu gabinete vazou para a Veja a transcrição de um grampo que aparentemente ninguém fez e cujo áudio aparentemente todo mundo desconhece.

Pois aí, nesta gloriosa primeira semana de janeiro, o Contas Abertas informa que tal escândalo não foi em vão. Pelo menos não para o fornecedor que vencer a licitação de telefones criptografados para o alto sodalício, que custarão R$ 380 mil às burras daquela solícita senhora que perdeu o marido.

O STF não respondeu aos pedidos de entrevista do site.

A rota das armas

A Polícia Federal divulgou uma lista de 17 cidades e 3 portos por onde mais entram armas no Brasil. Isso está noticiado em O Globo, no Congresso em Foco e em outros sites. Mas só aqui você pode visualizar onde estão as rotas:


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Fazendo as contas

Na segunda-feira, o Valor publicou uma entrevista com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, com o provocativo título "Governo erra na crise e favorece oposição" (leia aqui, se for assinante). A certa altura, ele afirma:

    Se o problema é de poder de compra que estaria atrapalhando o crescimento o governo faria melhor em estender o prazo e aumentar o valor do seguro desemprego.

    (...) O governo deveria garantir o poder de compra da população, garantir que ela poderá continuar se endividando. A taxa de inadimplência não aumentou nos últimos seis anos. As famílias endividam-se no limite do que podem pagar. O Estado tem que fazer alguma coisa na área social. Não estou de acordo com corte fiscal em favor de segmentos que têm recursos. Isto reduz a possibilidade de o Estado continuar investindo em infra-estrutura e prejudica o contribuinte.

Fiquei intrigado com a questão do seguro-desemprego, então fui atrás de alguns números. Para o Orçamento de 2009, serão destinados R$ 23,8 bilhões ao seguro-desemprego. Isso é 14,4% mais do que foi neste ano.

É muito ou pouco? É mais do que os R$ 4 bilhões emprestados para as montadoras de carros darem crédito a quem quer comprar sua nova prisão de lata. Ou que os R$ 10 bilhões liberados em crédito pra garantir a alegria dos varejistas no comércio do natal. Mas é menos de um quarto dos US$ 53 bilhões postos no mercado pra segurar a alta do dólar.

São dimensões diferentes, mas com impactos diferentes em fatias diferentes da população.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Deputado mexe o popozão e faz média com o funk

Que ninguém diga que os deputados brasileiros não trabalham. Vejam este projeto:

    Um projeto de lei apresentado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) na Câmara define o funk como "forma de manifestação cultural popular" e determina que o poder público garanta as condições para a democratização da sua produção e veiculação musical. Na justificativa da proposta, Alencar enfatizou que o movimento funk é hoje uma atividade de lazer e cultura popular das mais importantes, reunindo mais de 1 milhão de jovens todos os fins de semana, apenas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

    (...) Pela proposta, o Poder Público deverá garantir a proteção do funk e dos direitos dos artistas do movimento, reconhecidos como "agentes da cultura popular". Deverá ser assegurada a livre realização das festas e dos bailes para sua promoção.

    Se aprovada, a lei estabelecerá ainda que o poder público deve assegurar as condições para a democratização da produção e veiculação musical do funk, "de modo a minimizar o monopólio e a cartelização desse gênero musical" [NOTA DO BLOG: ou seja, via incentivo cultural]. O projeto define também que a discriminação e o preconceito contra o movimento funk e seus integrantes estarão sujeitos às penas previstas em lei.

Não é novidade que os funkeiros estejam querendo esse reconhecimento. O pleito consta do funk escrito pela Valeska Popozuda para o presidente Lula, após o encontro dos dois há algumas semanas. Mas há aí algumas questões de fundo.

Pessoalmente, acho que cultura popular não tem que ser algo que se reconheça por decreto. Quem tem que reconhecer cultura popular é o público dessas expressões. A julgar pelo sucesso do funk, seu caráter popular já está mais do que reconhecido. Obviamente há quem desgoste do ritmo (eu, por exemplo), mas lei nenhuma pode mudar isso.

O que me intriga mais é colocar o desgosto pelo funk na mira das patrulhas do politicamente correto quando prevê penas para quem "discrimina" o funk. E também não dá pra desprezar as grandes possibilidades de dinheiro público que se abririam com o reconhecimento. Afinal, no que depende da bolsa da Viúva, incentivo à cultura é o que não falta no Brasil.

OUTRO LADO: O BLUES
Blues era som de preto. De favelado. Mas quando tocava ninguém ficava parado.

Até os anos 60, quando o blues do Delta do Mississipi foi redescoberto e tocou fogo na criação do apogeu do rock, os discos de blues de raiz eram raríssimos porque só haviam sido vendidos em lojas "étnicas", no sul dos EUA.

Gênios como o Robert Johnson, na época, deviam soar mais ou menos como os letristas de funk. Ele abusa do duplo sentido e das metáforas sexuais ("squeeze my lemon till the juice runs down on my leg"). Fala em bater e dar tiro em mulher ("I'm gonna beat my woman until I'm satisfied", "Take my 32-20, boy, cut her half in two"). Mas ouçam o que ele faz com o violão, sozinho, ENQUANTO canta. E aqueles uivos! Esse é o patrimônio cultural que ele deixou. Viveu ferrado, morreu em circunstâncias suspeitas. Nunca ganhou um décimo da grana que os funkeiros ganham com os bailes.

Desconheço se o Congresso dos EUA aprovou, alguma vez, alguma lei consagrando o blues de raiz como forma expressão cultural. Até onde eu saiba, nunca - a consagração veio dos que amam a música. Cultura popular, consagração popular.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cinema brasileiro: pouca idéia na cabeça, muita grana na mão

O blog Cinema em Produção traz um interessante artigo com a cobertura de uma conferência sobre os desafios culturais e econômicos para o cinema brasileiro, ocorrido neste final de semana em São Paulo. Segundo os conferencistas, dinheiro é o que não falta no cinema brasileiro. Pra atiçar a curiosidade, leiam essas frases do secretário municipal de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil:

    "No Brasil, tudo é ao contrário. Tem gente ganhando dinheiro e a atividade está indo para o buraco. Há negócios, mas não há mercado"

    "Na época da Embrafilme, havia uma dependência de 70%, 80%. Hoje é mais de 100%"

    "O cinema brasileiro é escolhido por comissões de bancos que não entendem nada de cinema, é bancado pelo governo e 100% incentivado."

    "Falar em 100 filmes por ano é uma tolice, é distribuir dinheiro. É uma realidade baseada em uma outra conjuntura, do tempo das pornochanchadas. Essa política não dá resultados, isso não é competitivo hoje"

Isso sem falar que a intermediação governamental do incentivo ao cinema é uma das atividades mais gratificantes do serviço público brasileiro, como comentei aqui outro dia.