A Folha de S.Paulo publica a lista dos 50 diretores do Senado que perderam os benefícios depois que ficou feio. A economia com isso, de R$ 400 mil ao mês, equivale a R$ 4,8 milhões em um ano. E ainda é pouco. Ainda tem 131 diretores, e eu duvido que precise tanto. Se duvidar, deve ter diretor até encarregado da coordenação dos ascensoristas ou da troca dos rolos de papel higiênico no banheiro.
O orçamento do Senado é fabuloso: em 2007, era de R$ 2,6 bilhões. Proporcionalmente pela quantidade de membros, era mais suntuoso que o dos Estados Unidos (leia aqui o estudo que coordenei na Transparência Brasil na época). Neste ano, o orçamento é de R$ 2,8 bilhões. A maior parte dele, R$ 2,3 bilhões, vai para a folha de pagamento, segundo o Contas Abertas.
Em 2007, pouco antes de eu deixar a Transparência Brasil, propus ao diretor da entidade uma comparação que até hoje me orgulha: "Um Senado de Fuscas ao preço de Ferraris". Na época, o escândalo da vez era outro - e seu personagem principal já voltou a ser considerado um nobre líder partidário, um corretor de poder nessa briga toda. But I digress. O artigo dele a respeito dizia o seguinte:
- Imagine o eventual leitor que adquira um Porsche. Suponha que a assistência técnica passe mais de um mês se esquivando de verificar se o ruído estranho que se ouve no motor é sinal de algo grave. Perante tal comportamento, o leitor possivelmente recorrerá aos órgãos de defesa do consumidor.
Já quando se trata da vida política, o eleitor não conta com tal possibilidade. Não raro, o "produto" que seu voto engendrou se comporta como um Fusca 1955 com motor fundido. É assim, como um ferro-velho, que o Senado Federal vem se comportando no episódio Renan Calheiros. O pior é que estamos pagando preços de Ferrari pelos Fuscas, Gordinis e Simcas que em grande proporção habitam aquela Casa.
Levantamento recente da Transparência Brasil demonstra que o Senado é a Casa legislativa mais cara por membro entre 12 países pesquisados: a manutenção do Senado custa R$ 33,1 milhões por mandato de seus 81 integrantes. Esse dinheiro não vai todo diretamente para cada senador, mas paga uma estrutura que inclui funcionários, gráfica, TV, rádio, jornal e outros serviços basicamente voltados para a autopromoção de senadores.
Isso dá mais do que o dobro do que os Estados Unidos gastam por mandato parlamentar federal. Ao todo, o Senado brasileiro custa quase o dobro do orçamento previsto neste ano para as duas Casas do parlamento britânico, mesmo com todas as diferenças de riqueza entre o Brasil e o Reino Unido.
Embora custe mais caro que todos os parlamentos do Primeiro Mundo, talvez os serviços que as Casas legislativas brasileiras prestam sejam equivalentemente mais substanciais e relevantes. Talvez os R$ 33 milhões que pagamos por mandato senatorial valham a pena e recebamos de volta um desempenho espetacularmente notável. Mas será mesmo?
A demora em investigar as suspeitas que recaem sobre o presidente da Casa, Renan Calheiros, e a renitência que este manifesta ao se manter na Presidência da Casa demonstram que o Senado brasileiro presta aos cidadãos brasileiros uma representação de quinto mundo. Certamente não é por falta de recursos financeiros que o Senado deixa acumular, sem averiguação, indícios de que o seu presidente esteve envolvido em práticas escusas.
A situação não melhorou muito desde então. Os Fuscas continuam saindo a preço de Ferrari.
Mas, na verdade, melhorou, sim. Em um sentido: desde aquele estudo, a gente sabe cada vez melhor o tamanho do prejuízo.
