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terça-feira, 31 de março de 2009

Festival É Tudo Mentira (2): "Seis não; meia dúzia"

A segunda parte do festival, comemorando a semana de Primeiro de Abril e do centenário do Pinóquio, trata de um hábito peculiar na política: a estratégia semântica de trocar seis por meia dúzia quando o nome popular da prática se torna um fardo pesado demais para carregar.

O campeão disso é Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, para quem a origem dos recursos do Valerioduto não era o caixa-dois. Porque caixa-dois é uma coisa feia, ilegal, suja. Não, senhor: não era caixa-dois, eram "recursos não contabilizados". No caso do mensalão, até hoje há uma disputa de filigrana segundo a qual o mensalão não existiu porque os pagamentos a partidos para votar projetos de interesse do governo não eram mensais. O Marco Aurélio Garcia deu essa versão na última Piauí:

    Marco Aurélio foi coordenador da campanha de reeleição de Lula, em 2006. A primeira dificuldade que encontrou então, no terreno político, foi tratar do escândalo do mensalão, os milhões de reais pagos a parlamentares, muitos deles do PT, para votar a favor de propostas do governo. Ele diz que o mensalão, dessa forma, não existiu. Mas admite que o dinheiro existiu, era proveniente do caixa dois de campanhas, e nessa condição foi distribuído a parlamentares.

Outra forma popular de trocar seis por meia dúzia em política é trocar o nome de instituições, programas e impostos com fins diversos.

Em 1993, o governo criou o Imposto Provisório sobre Movimentações Financeiras. Incidindo com uma alíquota pequena a cada saque, cada cheque, cada depósito e cada pagamento de conta, era uma maneira engenhosa de tomar uns trocados dos brasileiros sem eles sentirem muito. De quebra, o governo também ganhava um instrumento poderoso para monitorar movimentos financeiros no sistema bancário.

A primeira mentira nisso era o "Provisório" no nome. Sim, era provisório: ele tinha duração definida. Mas podia ser renovado logo depois, indefinidamente, conforme o governo propusesse ao Congresso. A segunda medida veio poucos anos depois, quando a palavra "Imposto" foi trocada por "Contribuição". Viu, não é mais um imposto: esse que você está pagando é uma contribuição. (Outra mentira com a CPMF foi a justificativa de destinar seus recursos à saúde. Ao longo de mais de uma década, apenas uma fração do dinheiro foi para a saúde.)

E qualquer um que tenha crescido em alguma década antes dessa já ouviu falar em Febem, não é? Eram as Fundações Estaduais para o Bem-Estar do Menor. O nome já era mentiroso: bem-estar era o que eles menos tinham por lá, especialmente quando queimavam os colchões ou cortavam a cabeça dos coleguinhas pra protestar.

Mas veio a mudança de século e o predomínio do politicamente correto. A palavra "Menor" ficou estigmatizada (eu devia reclamar; minha primeira caderneta de poupança, aberta quando eu tinha 3 anos, incluía a palavra ao final do meu nome). "Menor infrator", mais ainda. Uma amiga assistente social, por dentro da última moda do palavreado, me disse há alguns anos que uma aluna trabalhava com "adolescentes em situação de conflito com a lei, sob medida socioeducativa de privação da liberdade, sem lazer externo". Baixou-me o espírito de Zé Simão. Arregalei os olhos e comecei a rir: "TUCANARAM O PIVETE PRESO!"

Com o veto politicamente correto à palavra "menor" e a situação deteriorando, o nome "Febem" virou anátema. Era feio um governo ter uma Febem no estado. O negócio era reformar as Febens. Então, marqueteiros criativos em toda parte descobriram uma maneira engenhosa de contornar a situação: criaram nomes fofinhos para elas. No Rio Grande do Sul, é a FASE (Fundação de Atendimento Socioeducativo). Em São Paulo, é Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente). É só uma fase, tá em casa.

Os nomes fofos, porém, não resolveram o problema com sua varinha de condão. Colchões continuam sendo queimados, internos continuam fugindo e cada vez mais há inclusive infiltração de facções criminosas dos presídios nas ex-Febens.

Uma terceira maneira de trocar seis por meia dúzia na política é também incentivada pelos marqueteiros: trocar o nome de uma política pública de um governo anterior e continuar fazendo a mesma coisa.

Um exemplo disso é o Bolsa-Família, que agregou vários programas já iniciados antes do governo Lula. Mas gosto bastante da questão do transporte urbano, então vou falar dos corredores de ônibus de São Paulo.

Várias cidades dispõem de corredores de ônibus, há anos. São muito úteis, aumentando a velocidade média dos veículos que transportam um número maior de passageiros. Porto Alegre tem, Curitiba tem. São Paulo não tinha, até 2004. Quando eles foram feitos aqui, ganharam o nome marqueteiro de "Passa-Rápido". Depois que mudou o governo, o nome caiu em desuso. Aliás, construir corredores também caiu em desuso. Mas quando o prefeito fala no assunto, ele fala hoje em "corredores".

Nesse caso, especialmente, eu acho mais adequado. Tenho horror a essas marquetices.

O fato: Desde 1595, quando Shakespeare publicou a peça "Romeu e Julieta", sabe-se que "uma rosa, com qualquer outro nome, teria o mesmo doce perfume". Não se deixe enganar pelas armadilhas semânticas de marqueteiros e outros espertos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Deputado mexe o popozão e faz média com o funk

Que ninguém diga que os deputados brasileiros não trabalham. Vejam este projeto:

    Um projeto de lei apresentado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) na Câmara define o funk como "forma de manifestação cultural popular" e determina que o poder público garanta as condições para a democratização da sua produção e veiculação musical. Na justificativa da proposta, Alencar enfatizou que o movimento funk é hoje uma atividade de lazer e cultura popular das mais importantes, reunindo mais de 1 milhão de jovens todos os fins de semana, apenas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

    (...) Pela proposta, o Poder Público deverá garantir a proteção do funk e dos direitos dos artistas do movimento, reconhecidos como "agentes da cultura popular". Deverá ser assegurada a livre realização das festas e dos bailes para sua promoção.

    Se aprovada, a lei estabelecerá ainda que o poder público deve assegurar as condições para a democratização da produção e veiculação musical do funk, "de modo a minimizar o monopólio e a cartelização desse gênero musical" [NOTA DO BLOG: ou seja, via incentivo cultural]. O projeto define também que a discriminação e o preconceito contra o movimento funk e seus integrantes estarão sujeitos às penas previstas em lei.

Não é novidade que os funkeiros estejam querendo esse reconhecimento. O pleito consta do funk escrito pela Valeska Popozuda para o presidente Lula, após o encontro dos dois há algumas semanas. Mas há aí algumas questões de fundo.

Pessoalmente, acho que cultura popular não tem que ser algo que se reconheça por decreto. Quem tem que reconhecer cultura popular é o público dessas expressões. A julgar pelo sucesso do funk, seu caráter popular já está mais do que reconhecido. Obviamente há quem desgoste do ritmo (eu, por exemplo), mas lei nenhuma pode mudar isso.

O que me intriga mais é colocar o desgosto pelo funk na mira das patrulhas do politicamente correto quando prevê penas para quem "discrimina" o funk. E também não dá pra desprezar as grandes possibilidades de dinheiro público que se abririam com o reconhecimento. Afinal, no que depende da bolsa da Viúva, incentivo à cultura é o que não falta no Brasil.

OUTRO LADO: O BLUES
Blues era som de preto. De favelado. Mas quando tocava ninguém ficava parado.

Até os anos 60, quando o blues do Delta do Mississipi foi redescoberto e tocou fogo na criação do apogeu do rock, os discos de blues de raiz eram raríssimos porque só haviam sido vendidos em lojas "étnicas", no sul dos EUA.

Gênios como o Robert Johnson, na época, deviam soar mais ou menos como os letristas de funk. Ele abusa do duplo sentido e das metáforas sexuais ("squeeze my lemon till the juice runs down on my leg"). Fala em bater e dar tiro em mulher ("I'm gonna beat my woman until I'm satisfied", "Take my 32-20, boy, cut her half in two"). Mas ouçam o que ele faz com o violão, sozinho, ENQUANTO canta. E aqueles uivos! Esse é o patrimônio cultural que ele deixou. Viveu ferrado, morreu em circunstâncias suspeitas. Nunca ganhou um décimo da grana que os funkeiros ganham com os bailes.

Desconheço se o Congresso dos EUA aprovou, alguma vez, alguma lei consagrando o blues de raiz como forma expressão cultural. Até onde eu saiba, nunca - a consagração veio dos que amam a música. Cultura popular, consagração popular.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A cegueira do politicamente correto



Eu ainda não assisti ao "Blindness", filme do Fernando Meirelles feito a partir do "Ensaio sobre a Cegueira", do Saramago. Hoje, porém, li uma notícia relacionada ao filme que me deixou meio cabreiro com a profundidade a que chega a paranóia do politicamente correto.

Uma associação de cegos nos EUA pretende organizar um protesto contra o filme, que segundo eles reforça estereótipos negativos sobre quem não enxerga. "O filme retrata cegos como monstros, e vejo isso como uma mentira", disse Marc Maurer, presidente da Federação Nacional de Cegos, sediada em Baltimore, nos Estados Unidos. "A cegueira não transforma pessoas decentes em monstros."

Meirelles rebateu: “Os personagens do filme não são cegos, são pessoas que ficaram cegas de um momento para outro, sem nenhum tempo para adaptação. O filme é sobre a natureza humana e não sobre a cegueira, inclusive o único personagem que era cego de nascença [interpretado por Danny Glover] é quem está mais tranqüilo na situação, justamente por sua capacidade de adaptação.” (...) “Evidentemente, sei que os cegos podem ter uma vida normal completamente integrados à sociedade. São inúmeros os exemplos de geniais artistas, pensadores , juristas ou cientistas cegos”.

E o pior é que nem dá pra recomendar que eles vejam o filme antes de criticar.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Breguisticamente correto

Leio uma notícia interessante no site do PNUD: uma ONG pernambucana, com grana da ONU, solicita a meninas carentes que reescrevam de maneira politicamente correta letras de músicas consideradas machistas. Geralmente, trata-se de crássicos da brega-music. Mano Velho deve conhecer todos.

    Nas oficinas promovidas pela instituição, meninas de rua ou muito pobres, de 12 a 21 anos, identificam trechos de músicas que tratam a mulher de maneira pejorativa e os recriam. Assim, a música "Piri Piri Piri", que era cantada como "Eu sou comprometida e não quero confusão/ Quem sabe escondidinho, num lugar bem escurinho/ Uma ou duas vezes a gente dá um jeitinho", virou "Eu sou tua amiga e não quero traição/ Quem sabe amiguinho, eu só quero teu carinho/Uma ou duas vezes a gente vai ao barzinho".

    A noção de infidelidade da mulher também é invertida no brega "DNA". O original "Essa mina é safada e tá querendo te enganar/ Pois ela já ficou com vários amigos seus/ Agora engravidou e disse que esse filho é teu" virou "Essa mina é uma gata e tá querendo te ganhar/ Pois ela nunca ficou com nenhum amigo teu/ Agora engravidou e com certeza esse filho é teu". Em outro trecho, o que era chulo vira afeto: "Beijo na boca é coisa do passado/ A onda agora é... vem na pegada/ Pegada do papai e toma, toma, toma" ficou "Beijo na boca é coisa muito boa/ A onda agora é beijar o meu amor/ Vem, vem, vem, pois você é o meu amor".

Vá lá, eu detesto música brega. Mas sou ainda mais contrário à censura politicamente correta. A melhor censura que se pode fazer ao brega é dar elementos pro pessoal se interessar por outros tipos de música. Age no lado da demanda.

Isso me lembra a tosqueira do “não atire o pau no gato”. Na prática, fora a satisfação politicamente correta de quem empurra essas coisas goela abaixo, qual é o efeito disso?

O grande problema é pegar um troço descartável e sabidamente tosco e tentar transformar em algo “edificante”. Quer-me parecer que seria muito mais interessante usar essa grana para ensinar essas gurias a fazerem as suas próprias músicas, com instrumentos e tudo mais. Mas aí dá mais trabalho e menos discurso, não é mesmo?

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Casa de torneira, espeto de garrafa

Na Irlanda do Norte, a companhia de tratamento de água gastou 12 mil libras desde 2003 comprando... água mineral. Isso não inclui as 9.500 libras gastas comprando água mineral para distribuir a consumidores em tempos de crises de abastecimento. O dado foi obtido por meio da lei de acesso a informações públicas.

Isso é que é confiar no próprio produto, diria um espírito-de-porco.

A humanidade ficou sem tratamento de água - algo fundamental para manter a saúde e evitar doenças simples - até o começo do século 19. Só em 1829 surgiram as primeiras estações de tratamento de água, na Inglaterra. Desde então, avançou-se bastante nisso, embora não o suficiente. Pelo censo de 2000, 78% das residências brasileiras tinham água tratada - pouco mais de três em cada quatro (baixe aqui o mapa do saneamento).

Nos últimos anos, porém, e cada vez mais, há uma ênfase em beber água mineral - que é geralmente tão segura quanto a da torneira mas muito mais cara. Já vi gente boa fazendo cara feia para a água da torneira (pela qual todos pagamos). No livro "A História do Mundo em 6 Copos", um dos melhores que li nos últimos anos, o jornalista Tom Standage conta:

    Na verdade, em nenhuma outra área o abismo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento é mais aparente do que em suas atitudes em relação à água.

    As vendas de água engarrafada estão explodindo, com os mais altos níveis de consumo, no mundo desenvolvido, onde a água da torneira é abundante e segura para ser consumida. Os italianos são os consumidores mais entusiastas do mundo, bebendo uma média de 180 litros por ano cada um, e são seguidos de perto por franceses, belgas, alemães e espanhóis. A indústria global de água em garrafa teve receitas em torno de 46 bilhões de dólares em 2003, e o consumo está crescendo 11% ao ano, mais rapidamente do que o de qualquer outra bebida. Os restaurantes servem água cara em garrafas com designs especiais, e o hábito de se carregar uma pequena garrafa plástica de água potável o tempo todo, que teve como pioneiras as supermodelos, difundiu-se pelo mundo. Pare num posto de gasolina nos Estados Unidos e você vai descobrir que a água em garrafa, litro por litro, custa mais do que a gasolina. Águas minerais de fontes específicas, desde a França até as ilhas Fiji, são enviadas a consumidores no mundo inteiro.

    (...) Não há evidências de que a água engarrafada seja mais segura ou mais saudável do que a disponível nas torneiras das nações desenvolvidas e, em testes cegos experimentais de sabores, muitas pessoas não conseguiram estabelecer a diferença entre as duas. As diferenças de gosto entre águas engarrafadas excedem a diferença em gosto entre a água engarrafada e a de torneira. Mesmo assim, as pessoas continuam a comprar a primeira, muito embora custe entre 250 e dez mil vezes mais por litro do que a segunda. Em resumo, a água segura tornou-se tão abundante no mundo desenvolvido que as pessoas podem se dar ao luxo de afastar-se da água de torneira, que está debaixo de seus narizes, e beber em vez disso a água de garrafa. Como os dois tipos são seguros, a espécie de água que se bebe tornou-se uma escolha de estilo de vida.

Standage não fica apenas na órbita de onde a água é segura. Ele mostra como em muitas outras partes do mundo a água é um problema político, antes de tudo. Mas permanece a questão: por que raios uma empresa de água compra água?

A outra questão que fica não pode ser respondida facilmente porque não temos uma lei de acesso a informações públicas no Brasil: será que não é a mesma coisa com os DMAEs, SABESPs e CEDAEs do Brasil?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O semântico e o concreto

Na próxima semana, o curso de Letras da USP terá um ciclo de palestras que inclui uma mesa sobre "Manifestações de preconceito e intolerância lingüísticos". A professora Marli Quadros Leite vai falar sobre como a imprensa usa a linguagem de maneira preconceituosa. O ponto mais popular da questão, informa o jovem jornalista que enviou o material para a lista da Abraji, é o uso do termo "menor" para descrever quem tem menos de 18 anos e porventura comete crimes. Pode? Não pode? Tanto faz?

Conheço bem o debate. Muitas das críticas que vejo à imprensa são nesse sentido. "Ah, chamou de menor!", "Ah, sem-terra ocupa e não invade!" No tempo em que eu trabalhava em redação, também era comum recebermos telefonemas reclamando do uso de certos termos. As intenções do pessoal muitas vezes são boas. Ótimas. Geralmente trata-se de não estigmatizar grupos ou ações. Mas será que adianta mexer no simbólico se o concreto é o mesmo?

É claro que é preciso se preocupar com a exatidão do vocabulário. Não sou "pessoa portadora de sofrimento psíquico", como diria essa gente, de imaginar o contrário. De fato há palavras que, mal escolhidas, distorcem a informação. Mas muitas vezes o que eu observo é que se policia a forma do significante por não se poder alterar a concretude do significado, pra usar expressões do domínio desse pessoal aí. Isso dá a impressão de que se está "fazendo alguma coisa" a respeito. Ou serve pra mascarar o significado mesmo. Troca-se placas, muda-se o logo, contrata-se agências de publicidade e consultorias de imagem, dá-se discursos... faz um bem danado em ano eleitoral.

Em várias vezes, trata-se de grupos rivais carimbando com palavras mais ou menos simpáticas situações concretas. Veja os grupos "pró-vida" e "pró-escolha", rótulos politicamente corretos adotados pelos grupos que contra ou a favor do aborto. Vida e escolha são valores universais. Ao adotar semanticamente tais palavras em defesa de um lado numa causa polêmica, porém, os grupos buscam fugir do cerne do assunto e carimbar os opositores como pró-morte ou contrários ao livre arbítrio. É preciso sempre acompanhar essas questões com o devido olhar crítico, sem escapar da questão e, de preferência, sem comprar o peixe dos lados em conflito. Levando em conta o cerne da questão, não a retórica dos lados em esgrima.

O resultado muitas vezes lembra aquela brincadeira do humorista Zé Simão sobre o dicionário de tucanês. Às vezes isso rende tributo ao marketing, em piadas práticas tipo mudar o nome da Febem pra sigla Casa sem que haja notícia de mudanças de mesmo calibre nas práticas internas. Eles continuam em más condições, mas agora o nome da instituição é mais simpático. Mais uma ação do governo estadual. Ou aquela desculpa famosa: não se tratava de caixa-dois, e sim de recursos não-contabilizados.

Tente explicar pra dona Maria o que é um 'adolescente em situação de conflito com a lei sob medida sócio-educativa de privação da liberdade sem lazer externo". Lembro da expressão porque minha amiga assistente social que a usou precisou respirar no meio. "Tucanaram o pivete preso!", provoquei com minha melhor gargalhada de Vincent Price (baixe aqui a original). Ela quase me deixou tomando café sozinho, não sei se por causa do “tucanaram”, do “pivete” ou do “preso”. Não sei qual das palavras ela achou mais feia. A situação do adolescente, porém, ao que eu saiba não mudou por causa da longa expressão.

No fim, o resultado é mais ou menos o mesmo que se agarrar ao debate sobre a idade de uma moça que foi presa entre homens e estuprada durante um mês. Se ela fosse maior de idade, isso atenuaria a situação pela qual ela passou? Claro que não. Mas a ênfase no debate do acessório é uma forma de evadir-se do debate sobre as situações concretas. Faz barulho e dá ibope.

Há alguns anos, o governo federal tentou emplacar a cartilha "Politicamente Correto & Direitos Humanos", que fazia a lista do pode-não-pode. Os dois primeiros verbetes:

    A coisa ficou preta – A frase é utilizada para expressar o aumento das dificuldades de determinada situação, traindo forte conotação racista contra os negros.

    Africano – Termo relativo à África, aos seus naturais e habitantes. Sua utilização genérica muitas vezes serve para negar a diversidade de países e povos daquele continente ou para discriminá-los, em geral, inferiorizando-os.

A cartilha surgiu pouco antes do escândalo do mensalão, em que logo no começo uma das principais defesas do governo foi o fato de que todos os partidos políticos fazem caixa-dois. Nessa fase triunfal, a cartilha trazia este verbete:

    Farinha do mesmo saco – A expressão, junto com outras semelhantes – “Todo político é ladrão”, “Os jornalistas são mentirosos”, “Os muçulmanos são terroristas” – ilustra a falsidade e leviandade das generalizações apressadas, base de quase todos os preconceitos. O fato de haver políticos corruptos, jornalistas imprecisos e muçulmanos extremistas não significa que a totalidade de cada um desses segmentos mereça aquelas respectivas acusações. Por outro lado, especialmente na imprensa diária, a utilização de características pessoais do personagem da notícia muitas vezes trai o preconceito do repórter. É comum lembrar os traços étnicos de um ladrão se ele é negro, mas não se for branco. Pouquíssimos jornalistas se referiram ao fato de o presidente George Bush ser metodista quando noticiaram que ele resolveu atacar o Iraque. Mas muitos escreveram e continuam a escrever que os militantes que participam da resistência iraquiana são muçulmanos. É usual adjetivar os partidos palestinos, sem exceção, de terroristas, mas muito raro chamar de terrorista o governo de Israel quando este lança mísseis sobre civis palestinos. Não se trata de evitar ou omitir informações, mas de saber utilizá-las de maneira adequada e precisa, para prevenir o preconceito e a discriminação.

Nem o próprio presidente Lula escapava de utilizar alguns dos termos vetados por seu governo. A cartilha acabou suprimida (mas você pode baixá-la aqui, graças a um desses geniais espíritos de porco que andam pela internet).

Não é só o pessoal "do social" que gosta disso. Lembre que a CPMF é "contribuição" e "provisória". E veja esta notícia de hoje, dando conta de que o Conselho Monetário Nacional resolveu dar uma dura nos bancos pra eles padronizarem os nomes das tarifas bancárias. Muitas vezes a gente paga "tarifa fácil", "taxa flex" e sabe-se lá mais o quê, sem saber direito o que é. Cada banco bota seu nomezinho simpático nas taxas. Alvíssaras: uma dentro, a favor do nosso bolso.

Sempre que eu vejo essas coisas, lembro de George Orwell. No ensaio "Politics and the English Language", de 1946, Orwell desenvolveu o que pensava sobre o assunto pra depois fazer a caricatura com a novilíngua do romance 1984. Fiquem com um trecho, até porque ele é muito mais arguto do que eu poderia pensar em ser:

    Em nosso tempo, a redação e oratória políticas são em grande parte a defesa do indefensável. Coisas como a continuidade do domínio britânico na Índia, os expurgos e deportações russos, o despejo de bombas atômicas no Japão, podem de fato ser defendidos, mas somente com argumentos que são brutais demais para a maior parte das pessoas encararem, e que não fecham com os objetivos declarados dos partidos políticos. Assim, a linguagem política precisa consistir em grande parte de eufemismos, desculpas e pura vagueza nebulosa. Vilarejos indefesos são bombardeados pelo ar, os habitantes levados a ir para o interior, o gado é metralhado, as cabanas pegam fogo com balas incendiárias: a isso se chama pacificação. Milhões de camponeses têm suas fazendas roubadas e são levados a arrastar-se pela estrada levando apenas o que podem carregar: a isso se chama transferência de população ou retificação de fronteiras. Pessoas são presas por anos sem julgamento, ou levam tiros na nuca ou são largados para morrer de escorbuto nos campos do Ártico: a isso se chama eliminação de elementos não-confiáveis. Tal fraseologia é necessária quando se quer dar nome às coisas sem evocar imagens mentais delas. (...)

    O estilo inflado é em si um tipo de eufemismo. Uma massa de latim cai sobre os fatos como suave neve, borrando seus contornos e encobrindo todos os detalhes. O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade. Quando há um intervalo entre os objetivos real e declarado de alguém, isso se transforma quase instintivamente em longas palavras e jargões exaustos, como um siba jorrando tinta. Em nosso tempo, não existe algo como "manter-se fora da política". Todas as questões são questões políticas, e a própria política é uma massa de mentiras, evasões, estupidez, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera em geral é ruim, a linguagem deve sofrer.

Quando o debate sobre uma questão séria se prende ao acessório por motivos políticos, abra o olho.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

É discriminação sim. Do pior tipo.

A BBC informa que um casal de gordinhos foi barrado ao entrar na Nova Zelândia.

    Richie Trezise, um especialista em cabos submarinos contratado pela Telecom neozelandesa na Grã-Bretanha, só pôde entrar no país depois de uma dieta radical para perder 5 centímetros de barriga.

    No entanto, a esposa dele, Rowan, continua na Grã-Bretanha impedida de se reunir com o marido porque não conseguiu passar no teste do Índice de Massa Corporal (IMC), reconhecido internacionalmente como o padrão para avaliar o grau de obesidade. O cálculo é feito através da divisão do peso (em quilos) da pessoa pela altura ao quadrado (em metros).

    O IMC de Richie Trezise era 42, o que, segundo as recomendações da imigração neozelandesa faziam dele um paciente de obesidade mórbida. As autoridades da Nova Zelândia costumam proibir a entrada de pessoas com IMC maior que 35.

    Há também uma recomendação sobre o diâmetro da cintura dos imigrantes: para homens, o máximo são 102 centímetros, enquanto mulheres não podem ter mais do que 88 cm.

    Rowan Trezise continua na Grã-Bretanha, em dieta. De acordo com a família, se até o Natal ela não conseguir ter a entrada aprovada, Richie Trezise deve desistir do emprego e voltar para casa.

    O departamento de Imigração da Nova Zelândia afirmou não saber informar o número de pessoas que tiveram o processo de imigração recusado pelas autoridades por causa de obesidade.

    Trezise foi contratado na Grã-Bretanha para um emprego altamente especializado e atualmente é um dos quatro técnicos da Telecom para melhorar a qualidade da conexão a cabo entre a Nova Zelândia e a Austrália.

Ou seja: eu, por um fio, quase não entraria na Nova Zelândia até recentemente. Meu IMC até poucas semanas estava algumas casas decimais acima de 35. E eu nem me destaco muito pela circunferência.

No meu dicionário, pelo menos, esse tipo de coisa é discriminação. Do pior tipo, cerceando o direito de ir, vir e trabalhar por conta de uma característica pessoal do imigrante que, se ele não cair por cima de ninguém, prejudica só a ele próprio. Num mundo minimamente saudável, não deveria ser tarefa dos governos se meter na vida do cidadão a esse ponto.

O que os leitores pensam a respeito? Everton, continua achando razoável?

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

'Mesa para obeso ou não-obeso, senhor?'

Da France-Presse, via Folha Online:

    A luta contra a epidemia de obesidade que afeta ou ameaça 200 milhões de pessoas nos Estados Unidos deve se inspirar no combate ao tabagismo, comentou um especialista em uma conferência em Nova Orleans, nos Estados Unidos.

    "O que funcionou com o tabaco foi uma estratégia múltipla que impôs impostos sobre os maços de cigarros, proibiu aos menores o acesso ao tabaco, baniu o fumo dos lugares públicos", defendeu William Dietz, diretor de prevenção do CDC (Centro Federal de Controle de Doenças). "Não será uma ação isolada que fará a diferença, mas várias ao mesmo tempo", acrescentou o estudioso.

Ser obeso não é exatamente saudável. Tampouco o é fumar. Mas não sei se é o Estado quem tem que fazer algo a respeito disso.

Estimular uma alimentação mais saudável, estimular exercício, vá lá. É razoável. Mas o que mais funcionou contra o fumo foi o constrangimento imposto aos fumantes - não poder entrar em determinados lugares, por exemplo. Vá lá: cigarro incomoda quem está por perto e não fuma. Mas, de si para si, cada um que se mate do jeito que achar mais conveniente.

O que não é razoável é o estímulo à discriminação. Já pensou chegar a um restaurante e o recepcionista perguntar se a mesa é para obeso ou não-obeso?

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Uma mente polêmica

Na última semana, o nobelizado biólogo James Watson foi demonizado por todos os lados por causa de declarações desastradas publicadas num perfil do jornal inglês The Times. Nos últimos anos, ele tem se notabilizado como uma espécie de Dercy Gonçalves científica - aproveita a idade pra falar o que dá na telha, pra chocar mesmo. Na pior das hipóteses, sempre vai aparecer alguém dizendo "tsc, tsc, tá caduco".

Escrito por uma ex-assistente sua, o perfil publicado no dia 14 relembrou várias das antigas polêmicas em que Watson se meteu - e iniciou a nova com a malfadada frase sobre o link entre diferenças étnicas e desigualdades intelectuais. Vale a pena ler o perfil inteiro, até para contextualizar melhor a frase.

O que aparentemente ele não esperava era precisar cancelar a turnê de sua biografia, "Avoid Boring People" ("Evite Gente Chata", ainda não publicada no Brasil) e ter de deixar o laboratório em que trabalhava devido à controvérsia toda. Ou esperava? Vejam este parágrafo, logo após o da frase controversa:

    Watson sem dúvida vai rebater entusiasticamente as inevitáveis críticas que surgirão. Ele certa vez comentou com um amigo cientista - talvez com otimismo - que "certamente não está longe o tempo em que a academia não terá escolha além de devolver o politicamente correto aos políticos”. Mesmo depois de um ano trabalhando no laboratório, ainda me enerva sua compulsão tipo "pro-diabo-com-isso" de falar o que pensa. Os críticos podem ver sua aceitação de estudos "ciência-soft" - que tentam ligar o QI a genes específicos, sem levar em conta a sociedade ou outros fatores na equação – como uma abordagem perigosa de uma questão complexa. Seus comentários, entretanto, embora aparentemente descuidados, são sempre calculados. Não por mal, mas com o ar traquinas de uma grande mente esperando ser desafiada. Eu pergunto a ele como acalma aqueles que ofende. "Eu tento usar o humor ou o que eu puder pra indicar que eu compreendo que outras pessoas tenham pontos de vista diferentes", explica.

Ou será que a intenção da assistente era puxar o tapete de Watson mesmo, pra dar uma lição ao homem que anteriormente disse que mulheres não levam jeito pra fazer ciência? Difícil saber. Faz parte do lado "Caras" da coisa, que realmente não me interessa.

A parte mais curiosa está no final: são as "dicas de sucesso" de James Watson.

    - Sempre tome decisões necessárias antes de precisar

    - Seja o primeiro a contar uma boa história

    - Não apóie esquemas que exijam milagres

    - Nunca seja a pessoa mais brilhante da sala

    - Só peça conselhos que vá depois aceitar

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Quem tem medo do livro mau?

Há pouco tratamos da censura ao "Uivo", de Allen Ginsberg. Mas a coisa não tem limite nenhum. Vem da Folha Online a notícia:

    Uma associação de pais britânicos, a favor de queimar os livros infantis sem final feliz, organizou para o fim deste mês uma série de "Fogueiras dos Livros Maus", convidando outros pais a levarem os volumes "pouco alegres" para jogá-los ao fogo, informou o "Daily Mail".

    A "Happy Ending Foundation" considera que a vida já submete as crianças a amarguras e "coisas feias" demais e, por isso, é preciso "protegê-los" contra as histórias "deprimentes".

Apavorante, não? Lembra os regimes totalitários. Lembra o Admirável Mundo Novo de Huxley. Mas trata-se do totalitarismo das boas intenções, que busca impor a todos os bons sentimentos - ou, pior, embotar o raciocínio próprio ao mostrar apenas um lado, considerado justo, da vida. Boa coisa não pode dar. Basta ver coisas como isto aqui.

É uma tendência que vem crescendo aos poucos. Em 2002, nos EUA, descobriram que trechos e palavras foram extirpados de livros clássicos por não atenderem aos ditames do politicamente correto - só faltando traduzir o título do famoso livro de Hemingway para "O Homem da Melhor Idade e o Mar".

Eu não duvidaria: em alguns lugares, já mudaram a tradicional letra do Atirei o Pau no Gato para "Não atire o pau no ga-tô-tô/Porque is-sô-sô/Não se faz-faz-faz..."

Durante um bom tempo traduzi textos do site do Ian Gillan. Passei a respeitá-lo imensamente, mais do que já respeitava como músico, quando traduzi algumas reflexões suas assim:

    "O politicamente correto foi o responsável pelo desaparecimento de um naco enorme da diversão em nossas vidas. Desprezo a devoção do tipo politicamente correto. Tenho tanto direito e capacidade de ter sensibilidade e reflexão sobre questões delicadas quanto um pós-modernista, e acho que minha moral é tão saudável quanto a de um religioso; em outras palavras, frágil e vulnerável."

    "O Politicamente Correto terá o efeito de inchar as sensibilidades até tal ponto que não será possível falar nada sobre qualquer coisa… Eu só insulto os meus amigos, meu chapa, o resto pode ir pro inferno!"

Outro sujeito que muito admirei na vida, mestre Paulo Acosta, chamava os arautos do politicamente correto de PPMTL: Pessoas Portadoras de Muito Tempo Livre.

Se você lê bem em inglês, recomendo a leitura deste artigo do The Guardian: Why personal politics has gone too far.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Uivo indecente?

    “Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura, esfomeados nus e histéricos, arrastando-se pelas ruas negras no poente à procura de um rancor injetável".

Há 50 anos, uma decisão judicial considerou que o livro "Uivo", do poeta americano Allen Ginsbergh, não era indecente e tinha "importância social redentora". Para marcar os 50 anos da decisão, uma rádio americana transmitiu a leitura de trechos dele - mas só na internet, visto que no rádio a Federal Communications Commission poderia dar uma alta multa por obscenidade, informa o New York Times na reportagem "'Uivo' em uma era que teme a indecência". O livro começa com o trecho acima.

Compare isso com o politicamente correto, que é de certa forma uma conseqüência direta no meio acadêmico dos movimentos libertários dos anos 60, que por sua vez eram inspirados no movimento beat dos anos 50 - que gerou o Uivo e On The Road.

Será que os americanos estão mais puritanos hoje do que seus pais e avós? Aliás, será que o mundo inteiro está sobrecaretizando também? Vale a pena pensar nisso. E vale a pena ler a matéria do New York Times. Compare-a com esta matéria da The Economist sobre o "paternalismo soft" que vem se tornando uma tendência mundial.