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terça-feira, 17 de março de 2009

Todos os homens da senadora

Meu amigo Eduardo Militão é um repórter raçudo do site Congresso em Foco. Ele está em cima do rolo das passagens aéreas indevidas emitidas na cota da senadora Roseana Sarney para amigos e parentes. Ele e outro raçudo, o Lúcio Lambranho, revelaram que as seguintes pessoas receberam passagens emitidas pela agência Sphaera na conta da senadora:

– Heitor Heluy, assessor do TRT 16ª Região – São Luís;

– Sebastião Murad, ex-deputado estadual, dono de uma rede de postos de combustível em São Luís;

– Eduardo Haickel, dono do posto de combustível Tiger, em São Luís;

– Henry Duailibe, dono da concessionária Duvel, da Ford, em São Luís;

– Rosa Lago, mulher do empresário Eduardo Lago, que tem negócios com Fernando Sarney;

– Teresa Sarney , mulher de Fernando Sarney, e

– Adalberto Furtado, conhecido como "Bil", dono da Construtora Estela, de São Luís.

O Ministério Público Federal vai investigar o caso.

Mas o mais legal é olhar a apuração. O Militão fez um telefonema gravado para a agência de viagens, onde a atendente confirmou que as passagens tinham sido emitidas para essas pessoas e pagas pela Roseana. Ele transcreve o telefonema aqui.

Quando a coisa ficou feia, a agência emitiu uma nota negando tudo "à [sic] pedido da Excelentíssima Senhora Senadora Roseana Sarney". A Agência Brasil registrou a negativa, e O Globo copiou a mesma nota da agência. Mas o Militão tinha a conversa gravada.

Eis a importância de gravar telefonemas, especialmente os mais importantes.

Na hora em que vi a matéria, lembrei de uma cena do "Todos os Homens do Presidente". Nela, o Carl Bernstein está cavocando a vida de um assessor da Casa Branca cujo nome estava nas agendas dos invasores do comitê democrata. Recebe a dica de que ele tirava livros sobre Bob Kennedy. Liga pra biblioteca da Casa Branca. A bibliotecária a princípio confirma. Depois de falar com um superior, ela muda completamente de idéia. Do roteiro original:

    What I said before? I was wrong. The
    truth is, I don't have a card that
    Mr. Hunt took out any Kennedy
    material.
    (WOODWARD and BERNSTEIN
    listen, and now there
    is something in her
    voice that wasn't
    there before: fear)
    I remember getting that material out
    for somebody, but it wasn't Mr. Hunt.
    The truth is, I've never had any
    requests at all from Mr. Hunt.
    (beat)
    The truth is, I don't know Mr. Hunt.

A cena vai aí embaixo. Salte para os 4 minutos e 43 segundos pra ver a conversa toda:

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Oba, ninguém segura o Brasil!


Esta o Shikida vai adorar. Leia este título da Agência Brasil, agência de notícias oficial do governo brasileiro:


A comparação, veja só, é com os sistemas de saúde europeus.

Quando li, lembrei das madrugadas que passei com parentes aguardando atendimento no Hospital Conceição, em Porto Alegre. E lembrei do indefectível Buscopan que receitavam às 4 da manhã para qualquer problema, fosse arritmia cardíaca ou infecção urinária. Lembrei dos fios expostos (antes de uma reforma que fizeram por lá). Será que é isso mesmo?

Vamos às aspas que embasam o título, todas elas sinuosas:

    “Os resultados não são totalmente desfavoráveis ao Brasil”

    “O desempenho relativo do sistema de saúde do Brasil ante os países da OCDE não é ruim em termos de custo-efetividade. Como o Brasil está longe de atingir uma estabilidade dos gastos, da estrutura e do desempenho do seu sistema de saúde, tendemos a não rejeitar a aceitação de um desempenho mais favorável ao sistema de saúde brasileiro”

Isso é longe de ser mais eficiente do que os sistemas de saúde da Europa, não? No parágrafo 12...

    Segundo ele, “nós não estamos de maneira nenhuma afirmando a excelência dos serviços de saúde do Brasil”. Mas admite que há um “enorme oportunidade de melhoria do sistema”. Em sua avaliação, “o dinheiro bem aplicado em saúde no Brasil tem excelente investimento social face aos resultados que podem ser obtidos em outros países”.

Aparentemente, o estudo quer dizer que, se o Brasil aplicar bem o dinheiro da saúde, será um excelente investimento social (uaaau).

A matéria não traz o link para o estudo completo. Mas aí você vai ao site do Ipea e pega primeiro o release original. Ele esclarece a incompreensão:

    Os pesquisadores constataram que "investir em saúde no Brasil tem retorno melhor que na maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "Para cada 1% de gasto a mais, investido na saúde, em termos per capita, o brasileiro ganha, aproximadamente, cinco anos de vida", diz a pesquisa.

Traduzindo: no Brasil, cada pouquinho que se investe a mais em saúde traz um benefício maior do que o de um pouquinho comparável de investimento num país rico. Mas isso significa que a situação é muito boa ou muito ruim?

Só lendo o estudo completo (baixe-o aqui). Na primeira página, ele esclarece o que o estudo pretende medir:

    No presente trabalho realizamos avaliações de eficiência que procuram inferir em
    que medida o investimento em termos monetários, no sistema de saúde do Brasil,
    comparado com os sistemas de saúde dos países da Organização para a Cooperação e
    Desenvolvimento Econômico (OCDE),1 seria eficiente em maximizar indicadores
    relacionados ao desempenho desses sistemas.

Traduzindo: o que eles querem ver não é se o gasto atual do Brasil com saúde é eficiente, no sentido de alocação de recursos. O que eles querem ver é o quanto melhoraria a saúde com mais gastos. E melhoraria muito mais do que na Europa se gastasse mais.

Aí, quer-me parecer que a Agência Brasil enganou seus leitores. Mas o leitor que foi por ela, a estas alturas, já deve ter pendurado a bandeira do Brasil na janela e soltado rojões.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Calcular multidões? Yes, we can


(Atenção: este post foi originalmente publicado no meu blog de dicas de pesquisa, o Dicas de um Fuçador. Dê uma passadinha lá!)

O jornalista Steve Doig, discípulo de Philip Meyer, aposta: vai ser uma loucura a quantidade de chutatísticas divergentes sobre a multidão que vai assistir à posse do Obama. Não por ser a posse do Obama, mas porque os números sempre são usados como arma para demonstrar força política. É assim lá, é assim aqui.

Nisso, que se dane a precisão. Os organizadores sabem que os jornalistas adoram números mas têm sérios problemas com a maldita matemática, então a gente entra na dança. Os mais cuidadosos costumam apresentar as estimativas dos organizadores lado a lado com as da polícia. Na mais comum, só pegam as estimativas de um dos lados. Mas dá pra medir, sim - embora seja mais trabalhoso. Nos anos 80, especialmente a partir dos comícios pelas Diretas na Praça da Sé, a Folha consagrou a técnica de pegar uma foto aérea, calcular a área e multiplicar: caberia algo entre 4 e 6 pessoas por metro quadrado.

Em artigo para a MSNBC, Doig sugere metodologia parecida e conta a origem dela:

    O método vem do final dos anos 60 e de um professor de jornalismo da Universidade de Califórnia em Berkeley chamado Herbert Jacobs, cujo gabinete ficava numa torre de onde se via a praça onde os estudantes freqüentemente se reuniam para protestar contra a guerra do Vietnã. A praça era marcada com linhas cruzadas regulares, o que permitiu a Jacobs ver quantos quadrados eram preenchidos pelos estudantes e quantos estudantes, em média, se aglomeravam na área.

    Após reunir dados de numerosas amostras, Jacobs criou alguns macetes que ainda são usados hoje por quem leva a sério a estimativa de multidões. Uma multidão mais solta, em que cada pessoa está à distância de um braço do corpo de seus vizinhos mais próximos, precisa de quase um metro quadrado por pessoa. Uma multidão mais aglomerada ocupa 0,42 metro quadrado por pessoa. Uma turba realmente assustadora com densidade de mosh-pit daria 0,23 metro quadrado por pessoa.

    O truque, então, é medir adequadamente os metros quadrados totais da área ocupada pela multidão e dividi-los pelo número apropriado, dependendo da avaliação sobre a densidade da multidão. Graças a fotos aéreas ou aplicativos de mapeamento como o Google Earth, até áreas abertas podem ser prontamente medidas atualmente.

Quando era ombudsman da Folha, mestre Mário Magalhães observou o quanto as medidas da multidão eram usadas pra puxar a brasa para assados militantes. A Parada Gay daquele ano orgulhava-se de 3,5 milhões de participantes. Magalhães lembrou que, no maior fora-Collor da história, em 18 de setembro de 1992, os organizadores falavam em 1 milhão de participantes, a polícia falava em 650 mil e a medição por foto aérea, feita pelo DataFolha, cravava 70 mil. Mário fez as contas: caso os números dos organizadores, apurados sabe-se lá com que metodologia, estivessem corretos, a multidão da parada gay seria "equivalente a 50 atos como o do auge dos caras-pintadas".

Para não dar muito erro amanhã, Doig dá algumas dicas:

    Se o pessoal se amontoar nos 0,33 quilômetros quadrados do National Mall entre as ruas 1 e 14 Noroeste em apertados meio metro quadrado por pessoa, cerca de 700 mil poderiam se enfiar lá. A área aberta em torno do Monumento a Washington, entre as avenidas Constitution e Independence, até a 17 Noroeste, podem acomodar outros 700 mil na mesma densidade. E, presumindo que uma multidão mais solta longe da posse vá ficar nos degraus do Capitólio, talvez mais um meio milhão possa estar circulando pela área do Mall defronte ao Memorial Lincoln.

    Assim, é pelo menos fisicamente possível acomodar algo próximo a 2 milhões de americanos na faixa de 3,4 quilômetros entre os degraus do Capitólio e os pés de Lincoln. Graças às espantosas realidades logísticas para hospedar, alimentar e transportar uma multidão de visitantes que quadruplicariam a população do distrito, há boas chances de que a multidão real será menor do que isso. Apenas fotos aéreas pós-posse poderão nos dizer ao certo.

Doig também lembra que a inflação das multidões também se presta à criação de mitos. "Um dia, tanta gente vai dizer que esteve na multidão que testemunhou a posse de Barack Obama quantos os que dizem hoje que ouviram o Jimi Hendrix tocar em Woodstock há 40 anos. As pessoas adoram se gabar de terem sido testemunhas da história - mesmo quando não foram."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Uma questão de perspectiva

A semântica é o penúltimo refúgio dos canalhas. Mas vale a pena observar como algumas estatísticas são apresentadas. As de homicídios, por exemplo.

Quem é que mata: o assassino, a circunstância ou a ferramenta que ele usa? Ou é a vítima quem é morrida? Depende da ferramenta, a julgar pelo noticiário.


Ninguém, mas ninguém mesmo, diz que "49,9% dos mortos pelos carros são pedestres". Tampouco diz que "Carros matam mais de 35 mil brasileiros ao ano".

No entanto, carros e armas pilotados por imbecis são responsáveis pela morte desse monte de gente todo dia.

    EDITADO: Caso você queira transformar seu carro numa máquina mortífera ainda mais eficiente, siga estas instruções.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O império do churnalismo e os produtos intermediários

Identifiquei o que tanto me incomoda no jornalismo online conforme atualmente praticado no Brasil: é o fato de ele entregar uma avalanche de produtos intermediários como notícia. Por produtos intermediários, quero dizer releases, pautas, retornos, fragmentos de notícia (essa aí é uma de quatro matérias enviadas pelo feed sobre a mesma pesquisa) e informações de interesse muito localizado. Todos os exemplos são do feed do O Globo, que me trouxe 120 notícias entre ontem à noite, quando desliguei o computador, e as duas da tarde de hoje. Nesse feed não tinha, mas outros têm, aspas isoladas repercutindo um assunto maior.

Parece-me o império dos produtos intermediários. No dia seguinte, os jornais vão basicamente diagramar uma versão um pouco mais editada desses produtos intermediários. Mas essa edição ainda refina muito pouco esse noticiário pra me fazer achar que vale a pena pagar por isso. Tanto esforço me parece ser empreendido na entrega desses produtos intermediários, e numa freqüência tão brutal, que faltam recursos humanos (braços e cabeças) para fazer um produto final mais apurado.

Isso me levou há poucos dias a cancelar minha assinatura de um jornal "generalista" diário, o Estadão. Mantive só a do Valor, que é especializado. Tudo o que saía no Estadão eu lia na internet antes, até porque vários dos portais já reproduziram ao longo do dia os textos da Agência Estado. Perco o material exclusivo, claro. Mas é tão pouco que me parece nem valer a pena pagar a assinatura. Ele será reproduzido depois na internet, mesmo.

Nos últimos dias, andei lendo alguns textos interessantes sobre mudanças no papel dos jornais, se é que eles pretendem ter algum futuro. Compartilho o filé deles.

1) Josh Korr, do Innovation 2.0, fez uma interessante provocação em seu blog. Segundo ele, em um momento de excesso de informação circulando, abster-se de publicar matérias tapa-buraco, concentrando-se em material exclusivo, é uma forma de inovar.

    Filler news can take many forms. Jarvis singles out reporting on election and post-holiday-shopping days. John McIntyre flags another persistent form of filler — stories based on dubious surveys — in this post. Jack Shafer never tires of exposing bogus trend pieces.

    I would add: many stories based on (or directly lifted from) press releases; one-sentence news like stock market updates, shuttle takeoffs, and incremental updates of previous stories; many politics-as-process stories. Even “important” news can become filler. Crime briefs become monotonous after so many days; the fifth front-page story on the Russia-Georgia conflict isn’t likely to resonate.

    Most of these story approaches are so ingrained that it’ll take conscious effort to stop and come up with more effective alternatives. But it can be done.

2) Com a economia complicada nos EUA, várias publicações estão reduzindo por lá sua freqüência de publicação em papel - o mais caro dos insumos. O Christian Science Monitor foca na Web e publica em papel uma vez por semana. A US News and World Report passa de semanal a quinzenal. O Independent, de Londres, mudou-se para o prédio do Daily Mail e pode passar a ser apenas online. Relatório da empresa de auditoria Deloitte, noticiado pelo Financial Times, aponta a possibilidade de 10% das publicações dos EUA irem por esse caminho em 2009. O problema:

    "Not even the most successful online newspaper and magazine sites generate sufficient profit to offset declining margin from print versions," the report says.

3) Apresentação de Matt Thompson para a Society of Professional Journalists sugere "contar histórias maiores", ao invés de simplesmente contar mais histórias. Alguns slides-chave:

    This is a key premise: if you take nothing else away from this talk, understand this
    (SLIDE) We have already shifted from a state of information scarcity to information overload
    Today’s journalism is STILL structured around information scarcity

    We talk about “filling the news hole”
    Broadcasters talk about “localizing” news stories
    (Not meant in the sense of making a national story more relevant to a local constituency, but essentially repeating a news story done elsewhere on a local scale)

    (SLIDE) One of the biggest organizing principles behind journalism as it’s practised today is TELLING MORE STORIES
    We don’t actually NEED more stories
    We don’t need journalists to tell us what happened at the city council meeting
    We don’t need journalists to tell us the story of last night’s game
    We don’t need journalists to speculate on who Obama’s cabinet is going to be

    (SLIDE) What we NEED is LARGER STORIES
    We need someone to tell us what last night’s city council meeting means for us
    Or what last night’s game means for our team
    Or what Obama’s cabinet choices mean for our country
    For the past however-many decades, our goal has been to find more things each day for everybody to worry about
    When I load up a news website, or watch a broadcast, more often than not what I see is news - a new headline, a new phenomenon, a new crime or crash or spectacle
    This is actually debilitating
    The net effect is that whenever I encounter “the news” these days, I feel LESS informed, not MORE so

Ao que me parece, a soma da cultura da escassez, tradicional no jornalismo, com a necessidade de notícias segundo-a-segundo, tradicional no jornalismo online, é o que leva ao churnalismo. E a notícias irrelevantes como "Madonna aparece na janela do hotel" (relevante pra quem está lá na frente), "Abertas as portas para o show da Madonna" (relevante pra quem está na fila), "Prefeitura desvia tráfego em Ipanema por causa de buraco de rua" (relevante pra quem está lá) e outras tantas.

Ao que me parece, vai levar muito tempo até que isso seja equacionado. Até porque apenas a concorrência pode fazer isso, e hoje a concorrência é pra ver quem dá mais notícias. Mesmo que sejam cópias de releases, chupação de notícias dos outros e pautas e retornos publicados na íntegra.

Ao que me parece, vou continuar me irritando com o noticiário por muito tempo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

E o Correio Braziliense, hein?

Segundo o Blog do Noblat, o Correio Braziliense cantou as glórias de um prêmio Esso vencido por um caderno especial que publicou: "Os Brinquedos dos anjos", uma reportagem mostrando como as crianças das favelas do Rio incorporaram a guerra do tráfico às suas brincadeiras. Trata-se de um trabalho realmente excepcional, por cuja premiação eu próprio argumentei quando participei da banca de um prêmio. Só que, segundo o blog do Noblat, a repórter autora das reportagens foi demitida há cerca de duas semanas, depois de ter uma reportagem engavetada sobre o mau uso do dinheiro no governo distrital.

Há pouco tempo, segundo reportagem da Folha resenhada no Consultor Jurídico, o portal do jornal na internet franqueou à Abin acesso às identidades de servidores que andavam postando críticas à instituição em seus fóruns de debates.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O sagrado direito ao sifu


A nova crise brasileira é a Crise do Sifu, dileta filha da Crise do Top-Top. Um dos aspectos mais debatidos sobre os impactos da crise econômica no Brasil é a prerrogativa (ou falta dela) para o presidente usar termos como "sifu" e "diarréia" em seus discursos.

Tudo começou quando, ao lançar o fundo do audiovisual, o presidente comentou desta maneira a forma como vem negando que o Brasil esteja em crise:

    Imaginem vocês, se um de vocês fosse médico e atendesse a um paciente doente, o que vocês falariam para ele? Olha, companheiro, o senhor tem um problema, mas a medicina já avançou demais, a ciência avançou demais, nós vamos dar tal remédio e você vai se recuperar. Ou você diria: meu, “sifu”. Vocês falariam isso para um paciente de vocês?

O argumento tem sua lógica, diga-se, embora eu não goste do exagerado tom de rosa com que o governo pinta o cenário. Mas, por iniciativa da oposição no Congresso, o problema é o Sifu da discórdia. Essa mesquinharia entra na conta da política bravateira e do jornalismo declaratório que se tem no Brasil, infelizmente. Viva-se com eles.

Eu, pessoalmente, acho que todos têm direito de usar o Sifu. Pode soar grosseiro a ouvidos de fada, vá lá, mas está longe de ser um escândalo. A forma como o governo lida com a crise envolve coisas bem mais complicadas do que o palavreado do presidente. Por exemplo: a secretaria de imprensa do Planalto omitiu voluntariamente a divulgação da íntegra do discurso do presidente ou não?

Ela esqueceu de enviar o discurso a todos os jornalistas que recebem por e-mail rigorosamente todos os discursos do presidente, num serviço importante prestado por ela a qualquer um que queira acompanhar melhor a política brasileira. Muitas vezes, eu só entendo de fato o que estava sendo dito quando, instado por uma aspa selecionada, vou atrás do discurso inteiro. Segundo o Josias de Souza, originalmente quando o texto foi para o ar o "sifu" não estava lá. Estava como "inaudível".

Obviamente, como sói acontecer no Brasil, a secretaria de imprensa do presidente diz que não enviou por erro, e não por censura. E também diz que originalmente tirou o sifu por erro, e não por censura.

Tendo sido a omissão de fato voluntária, por parte de algum assessor mais realista que o rei que tenha esquecido a invenção da televisão, que raio ele estava pensando? Tudo bem que ele calculasse que essa ia virar a irrelevância mais comentada da semana, dando ensejo a ataques ao Lula, mas adiantou? Não, só abriu mais um flanco. A própria assessoria do Planalto reconhece isso:

    “Seria inútil tentar fazer no texto algum tipo de censura, já que também disponibilizamos o áudio dos discursos”, afirmou o secretário de imprensa.

O que me preocupa não é se o presidente disse "sifu" ou não. O que me preocupa é se o país vai "sifu" ou não. O governo vem negando e dizendo para todo mundo torcer pelo Brasil. Aliás, era exatamente disso que ele falava quando soltou o sifu da discórdia. Mas, até aí, a assessoria de imprensa do presidente também negou ter omitido voluntariamente o discurso.

    SERVIÇO: A íntegra do discurso, com "sifu" e tudo, está neste link.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O macaco, o rabo e o coronel

Brasília é um ovo mesmo, mas a história da Satiagraha está cada dia mais fabulosa que os vaivéns da novela "A Favorita". Com a diferença de que os roteiristas da novela dão mais pistas para o espectador sobre como as peças soltas do quebra-cabeças se encaixam.

Agora, depois de o juiz Fausto De Sanctis publicar em sua sentença a informação de que um assessor exonerado da segurança do STF conversava com o advogado de Daniel Dantas acusado de oferecer propina a policiais na operação Satiagraha, o ministro Gilmar Mendes mandou apurar.

Isto vem da sentença:

    "Hugo Chiaroni, que se apresentava como integrante do Instituto Sagres - Política e Gestão Estratégica Aplicadas, segundo ele próprio e os delegados Protógenes Queiroz, Marcos Antônio Lino Ribeiro e Ricardo Saadi, ligou para Sérgio de Souza Cirillo, especialista em guerra eletrônica, com experiência profissional na área de inteligência e contra-inteligência, oficial do Exército e que provavelmente se conheciam porque este também é vinculado ao referido instituto, nove vezes, no período de 4/6/2008 a 7/7/2008"

Então, como o ministro quer apurar, vou dar minha modesta contribuição ao trabalho de quem for investigar. Todos os dados abaixo estão com as fontes linkadas. (Não há de quê, ministro.) Eu mesmo continuo sem entender o caso, porque o quebra-cabeças é encalacrado e quem tem as informações nunca ajuda.

Da matéria de hoje do O Globo:

    [Sérgio de Souza] Cirillo foi o principal assessor da Secretaria de Segurança do STF entre agosto e outubro deste ano. Ele foi contratado para trabalhar no STF um mês depois do lançamento da Satiagraha e demitido no início de outubro. Para Cirillo, não há nenhum vínculo entre a demissão e os desdobramentos da Satiagraha. Ele teria se afastado porque a Secretaria de Segurança, então chefiada pelo coronel Joaquim Gabriel Alonso, entrou em choque com Gilmar Mendes. A secretaria teria vetado o embarque do filho de um dos ministros do STF pela sala vip da instituição no aeroporto.

    (...) Convencido de que a segurança do STF estava mal estruturada, Gilmar resolveu trocar a chefia do setor em abril deste ano. Ministros do tribunal, inclusive o presidente, haviam sido assaltados. Para recrutar o novo pessoal, Gilmar consultou o general Alberto Cardoso, que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Fernando Henrique Cardoso. O general recomendou os serviços do coronel Joaquim Gabriel Alonso Gonçalvez, que foi imediatamente contratado para montar a Secretaria de Segurança do STF.

    Alonso, por sua vez, convidou o coronel Cirillo para ser seu principal assessor e substituto imediato. De acordo com a sentença de De Sanctis, Hugo Chicaroni, braço direito de Dantas, telefonou para Cirillo nove vezes entre 4 junho e 7 julho deste ano. No dia seguinte, foi deflagrada a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, que prendeu Dantas e outras pessoas - Chicaroni, inclusive. Cirillo foi contratado pelo STF no dia 30 de julho. Segundo a assessoria de imprensa do STF, Gilmar não conhecia previamente nem Alonso, nem Cirillo.

Todos os jornais consultaram a assessoria de imprensa do STF. O Jornal do Brasil, por exemplo:

    Tanto Sérgio Cirillo como seu superior, coronel Joaquim Gabriel Alonso Gonçalves, foram exonerados de seus cargos em outubro por motivos "administrativos", conforme a Secretaria de Comunicação Social do tribunal. Apurou-se que a demissão teve como causa um "entrevero" entre eles e os responsáveis pela segurança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro, quando eram tomadas providências de rotina referentes à segurança do presidente, que iria ao STF para a inauguração da exposição sobre os 200 anos da Corte.

Caso o JB tivesse pesquisado seus arquivos antes de ligar para a assessoria do STF, teria encontrado nota do Informe JB, de 7 de outubro, que dizia:

    O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, perdeu a paciência com a novela sobre a escuta da qual foi alvo e fez as primeiras vítimas.Exonerou ontem Joaquim Gabriel Alonso Gonçalves,secretário de segurança do tribunal, e o assessor Sérgio de Souza Cirillo.

Essa nota saiu no auge da crise dos grampos, quando o ministro Gilmar Mendes falava em criminalizar servidores que vazam. Ele se referia obliquamente à polêmica sobre o grampo por escrito publicado pela revista Veja.

Embora, segundo a decisão do juiz Fausto De Sanctis, já trabalhasse dentro do STF desde junho (podendo estar lá em 10 de julho, dia da varredura noticiada pela revista), Cirillo foi formalmente contratado dias antes da publicação da matéria da Veja. O período de sua meteórica passagem pelo STF coincide exatamente com a duração da crise do grampo. Não tenho como saber se uma coisa está necessariamente relacionada à outra. Mas é curioso, de qualquer forma.

Uma semana depois da nota sobre a exoneração dos servidores, o servidor da Presidência do STF Aílton de Carvalho Queiroz sugeriu na CPI do Grampo que foi a Presidência do excelso sodalício quem vazou o documento para a Veja. (Caso tenha interesse, baixe aqui a íntegra do depoimento de Queiroz.)

Depois dali, meio que esfriou o caso do vazamento dos grampos.

Quando foi feita a varredura que detectou o grampo, pelo que entendi do noticiário de hoje, Cirillo já era funcionário da secretaria de segurança do STF. Só ainda não tinha sido contratado. Seria mais adiante no mesmo mês, dias antes de sair a matéria da Veja - dias antes, também, de o ministro Gilmar Mendes afirmar que "O vazamento hoje não é a exceção, mas a regra". Na íntegra de seu depoimento à CPI, Queiroz diz que a Veja manteve só a assinatura dele, omitindo as demais. Elas não foram publicadas. Estou curioso para saber se a de Cirillo era uma delas.

Uma coisa curiosa: o nome de Cirillo não foi mencionado nenhuma vez no depoimento de Queiroz à CPI. Mas, a julgar pelas perguntas feitas sobre quem são os funcionários da segurança do STF, certamente seria mencionado caso ele ainda fosse servidor do STF.

Para os anais da seção "Sirvam Nossas Façanhas": Cirillo foi aluno do Colégio Militar de Porto Alegre da turma de 1970/1971, no tempo em que a dita era mais dura. Há alguns anos, é dono de um tênis clube em Brasília.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pensando "ão": distração, por exemplo

Dez e meia da manhã de segunda-feira, 10 de novembro. Eita, que ano que passa rápido, mas não era esse o assunto.

Fui procurar no site do jornal O Estado de S.Paulo um texto de ontem para citar um trecho aqui.

A edição que está no ar é a de sábado, 8 de novembro.

Troquei a data no link pra ver se vinha a edição de domingo. Veio este texto:

    Index of /estadaodehoje/20081109

    Icon Name Last modified Size Description[DIR] Parent Directory -
    [DIR] img/ 10-Nov-2008 00:17 -

É impressão ou eles babaram? Ou largaram a versão online pras cobras mesmo?

sábado, 8 de novembro de 2008

Olho na lei

O projeto de revogação da lei de imprensa apresentado pela senadora Serys Slhessarenko, em tramitação no Senado, inclui o seguinte retrogosto, segundo o Comunique-se:

    Outra questão a ser discutida é a multa a ser aplicada aos veículos que infringirem o segredo de Justiça e tornarem públicos documentos que são impedidos por lei.

A íntegra do projeto pode ser baixada aqui.

Meu sentido de aranha zune tanto com essas coisas que eu quase caio da cadeira.

    (Para quem não é muito bom com referências nerdísticas, o sentido de aranha é uma espécie de radar que avisa o Homem-Aranha sobre qualquer perigo iminente. Ele é como uma comichão na base de seu crânio, sempre que alguma ameaça se aproxima fora do alcance dos seus olhos. Esta história curtinha mostra como ele funciona.)

Técnica versus lei = politicagem panglossiana

Sete anos atrás, eu costumava fazer algumas reportagens sobre a segurança da urna eletrônica para a Folha de S.Paulo. A primeira constatação que fiz foi a seguinte: para cobrir segurança da urna, não adianta falar com os juízes. Precisa ir atrás da parte técnica. Porque o juiz entende da lei, e a lei diz que a urna tem que ser irrepreensivelmente confiável. Nesse caso, eu prefiro falar com os escovadores de bits dentro e fora do TSE, porque é uma questão técnica - muito embora seja usada para fins jurídicos.

Ontem, nos EUA, a empresa Diebold admitiu falhas no sistema das urnas eletrônicas que fabrica. Segundo a empresa, o software que transmite os votos para serem totalizados numa central tem um erro crítico de programação que pode fazer com que alguns votos sejam deixados pelo caminho.

Tal grau de sinceridade veio depois de dez anos atacando quem quer que questionasse a segurança de seus produtos.

Você pode dizer que essa é apenas a urna eletrônica americana, no país do sistema eleitoral mais confuso do mundo. Mas a Diebold, por meio de sua filial Diebold Procomp, foi quem desenvolveu a urna brasileira. No Brasil, todas as manifestações que você lê - geralmente da parte de juízes eleitorais - são no sentido de que a urna é "completamente segura".

Esta é a cobertura brasileira:

URNA ELETRÔNICA É 100% SEGURA, REAFIRMA TSE (G1, 26.out.2006)
Presidente do TSE diz que urna eletrônica é segura (Folha, 18.ago.2008)
Urna e voto são "indevassáveis", diz presidente do TSE (Folha, 26.ago.2008)
Ayres Britto diz que urna eletrônica coloca o Brasil em posição de vanguarda (Agência Brasil, 26.out.2008)
Urna eletrônica "pacifica os ânimos", diz ministro do TSE (26.out.2008)
Ayres Britto fez pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV. Ele também destacou a segurança da urna eletrônica. (G1, 25.out.2008)

Esta é a cobertura americana:

Can you count on voting machines? (New York Times, 6.jan.2008)
Michigan Clerk Sees Problems With Electronic Voting Machines (ProPublica, 5.nov.2008)
A Hint of Florida 2000 (or Ohio 2004) in Ohio 2008? (ProPublica, 5.nov.2008)
Kansas City Glitch Causes Voter List to Disappear (Washington Post, 5.nov.2008)

A diferença entre o "é verdade, tem falhas" de lá e o "completamente segura" daqui está basicamente na forma como o assunto é coberto. Aqui, o pessoal se contenta em transcrever a manifestação oficial de um alto magistrado eleitoral. Nos EUA, o povo vai atrás dos nerds desconfiados e faz reportagem.

sábado, 1 de novembro de 2008

A formação do jornalista

Em seu blog, o Victor Barone lança uma campanha: em vez de obrigatoriamente se formar nas faculdades de jornalismo, jornalista tinha que ter formação intelectual obrigatória.

É uma boa sacada. Pessoalmente, porém, do jeito como eu sei que a tigrada é, duvido que a campanha pegue. Mas vale pra cutucar o raciocínio daqueles grenalistas para quem os contrários à obrigatoriedade do diploma são defensores da burrice.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O churnalismo e o submercado

O Globo publicou hoje na internet um texto, às 14h13, sobre uma jornalista presa em Búzios. Assinado pela repórter Taís Mendes, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Ana Elizabeth Perez Baptista Prata, conhecida como Beth Prata, foi presa agora há pouco por policiais militares de Búzios por determinação do juiz criminal da cidade, Rafael Resende das Chagas. Ela é acusada de distribuir folhetos apócrifos no balneário com acusações a juízes de corporativistas. Ela teria distribuído os folhetos no Tribunal de Justiça do Rio. A jornalista já responde a um processo de calúnia, injúria e difamação contra membros do Judiciário. O processo está em fase de julgamento. Beth Prata está presa na Delegacia de Búzios e será transferida para a carceragem feminina da Polinter, no Rio.

O concorrente JB Online publicou também um texto sobre o assunto, às 15h12. Sem assinatura, ele diz o seguinte:

    RIO - A jornalista Elizabeth Perez Baptista Prata foi presa pela por policiais militares agora pouco, em Búzios. Ela é acusada de distribuir panfletos apócrifos no balneário, onde acusava juízes de corporativistas. A prisão foi determinada pelo juíz criminal Rafael Resende das Chagas. Este não é o primeiro processo ao qual a jornalista responde. No momento, ela responde por calúnia, injúria e difamação também contra funcionário da Justiça, que se encontram em processo de julgamento. Elizabeth será transferida para a carceragem da Polinter, no Rio.

A principal diferença entre os dois textos: 59 minutos. Fora isso, frases foram trocadas de lugar, expressões foram retiradas e o "agora há pouco" foi deslocado como "agora pouco". E só.

Mas mesmo a história original está muito mal contada. É crime distribuir panfletos? É crime um juiz ser corporativista, como teoricamente dizem os panfletos que ela distribuía? O que diziam exatamente esses panfletos? Qual é a versão do advogado dela a respeito? Nada naquela matéria. Nada no resto do dia. Apenas lendo as informações dos textinhos, não dá sequer pra pensar se esse é ou não um caso de intimidação judicial a um jornalista por conta de sua atividade profissional. Não tem informação.

Apuração: zero. Mas as listas de notícias continuam gordas no JB, no O Globo e nos outros. Gordas de um jornalismo burro e braçal, que substitui o uso dos neurônios pelo uso de dois dedos na mão esquerda: um para segurar a tecla "ctrl" e o outro para alternar entre as teclas "c" e "v". O adjetivo "burro" não se aplica necessariamente aos jornalistas que fazem esse trabalho. Mas certamente se aplica à lógica organizacional que cria demanda por gado com diploma embaixo do braço, pouco salário e zero possibilidade de evolução profissional, porque afinal tem que ter notícia nova a cada segundo.

No começo deste ano, fez sucesso no Reino Unido o livro "Flat Earth News" (Notícias da Terra Chata). Nele, o repórter Nick Davies se valeu de um estudo acadêmico com a origem de 2.000 notícias, onde a análise demonstrou que apenas 12% delas eram produzidas por meio de apuração. O restante era ou chupação ou press-release. E isso acontecia nos meios de comunicação tradicionais, tidos como respeitáveis. Nada que vocês não conheçam por aqui também - com a diferença de que não há um Guardian brasileiro.

Davies, neste artigo, aponta que essa tosqueira tem a seguinte causa:

    No reporter who is producing nearly 10 stories every shift can possibly be doing their job properly. No reporter who spends nearly 95 per cent of the time crouched over a desk can possibly develop enough good leads or build enough good contacts. No reporter who speaks to so few people in researching 48 stories can possibly be checking their truth.

Em inglês, ele criou o trocadilho "churnalism" para descrever essa prática. Vem da expressão "churn out" que significa algo como "fazer nas coxas". Mas a palavra "churn" também é usada no jargão econômico para descrever o processo pelo qual empregos são regularmente criados e destruídos conforme muda a tecnologia. O que se aplica também, com louvor, ao trabalho dos portais. "Churn" também significa rotatividade. Que também se aplica à organização do trabalho nos portais.

Do pouco que eu conheço desse mercado, os "churnalistas" brasileiros costumam ser muito jovens e trabalhar sob contratos temporários relativamente mal-pagos. Dificilmente esse tipo de trabalho dá algum tipo de experiência que amplie suas habilidades profissionais - que raramente foram desenvolvidas na faculdade, porque as faculdades brasileiras, apesar de obrigatórias, são o que são. No churnalismo, o jovem jornalista também não tem oportunidade de desenvolver o texto, fontes, refinar sua capacidade de análise. Assim, por mais que queira, e muitas vezes quer, evoluir profissionalmente, o sujeito acaba ficando preso naquela terra paralela - que produz jornalismo só no nome.

Aí vem uma observação empírica minha, que eu já venho fazendo há algum tempo pra consumo próprio. O "churnalismo" acaba por criar um submercado de trabalho. É mais comum alguém sair de uma publicação de mais qualidade para o churnalismo do que o contrário. Conheço pilhas de jornalistas jovens que mudam de um site pra outro, muito insatisfeitos com a profissão em geral e seu trabalho (braçal) em particular - e isso muito pouco tempo depois de sair da faculdade.

Qualquer um sabe que toda possibilidade de futuro para o jornalismo passa necessariamente pelo uso da internet. Mas só o uso INTELIGENTE da internet pode abrir essas possibilidades. O caminho para se chegar a isso certamente não é o churnalismo.

Os efeitos da equação

Ontem, em São Paulo, o G1 deu uma notícia bombástica: PM diz que criança é mantida refém pelo pai na Zona Sul de SP. Isso às 2 da manhã. A polícia e a imprensa haviam sido chamadas pela mãe, dizendo que o ex-marido havia tomado a criança como refém - e que estava armado.

Duas horas depois, às 4 da manhã, mudou completamente a versão: Mãe disse que filha era refém em SP para retomar guarda de criança, diz PM. O caso então ficou assim:

    A Polícia Militar (PM) informou que o caso de uma criança que seria mantida refém pelo próprio pai na Zona Sul de São Paulo, desde as 22 horas de quarta-feira (29), não passou de uma estratégia da mãe para tentar retomar a guarda da filha de 5 anos. No início da ocorrência, a PM tratou o caso como cárcere privado grave, e utilizou quatro equipes para ir ao local do suposto crime, totalizando a mobilização de pelo menos oito soldados.

    Segundo a PM, a própria mãe da criança chamou a polícia com quatro chamados consecutivos ao 190. Ela teria dito que o pai estava armado. A mulher também teria chamado a imprensa ao local, dando uma dimensão de seqüestro ao caso.

    Já no local, as equipes da PM constataram que a criança estava numa festa de aniversário em um bufê na região do Shopping Morumbi, na companhia do pai. A polícia apurou que ele não estava armado e não teria tomado a criança refém, conforme acusou a mãe. Ao menos dois soldados chegaram a revistar o rapaz e o estabelecimento à procura de uma suposta arma. Nada foi encontrado.

    Na seqüência, a mãe apresentou aos policiais um documento de busca e apreensão da criança. A informação foi contestada pelo pai, que segundo a apuração da PM, detém a guarda da criança. Ele ainda apresentaria a documentação.

Ou seja: era um trote de uma mulher que tentou usar o espetáculo a favor de seu lado em mais um drama familiar como tantos outros. Certamente triste. Mas há alguma dúvida de que isso é inspirado na moda gerada pelo espetáculo de Santo André?

Mais ainda: o caso todo saiu de madrugada no G1. Não havia nada confirmado quando a primeira notícia saiu. Duas horas depois, precisou haver a retratação.

A notícia sobre a briga pela guarda da criança saiu no Folha Online no feed de Cotidiano, com o texto atualizado depois que a situação se esclareceu. Assim: Briga por guarda de criança acaba em caso de polícia em SP. O leitor que só foi ler a respeito de manhã pegou apenas a versão completa. Ponto pra Folha Online - mas ainda assim o leitor que foi dormir depois de ler a primeira versão, sem o desfecho, levou pra cama a informação distorcida pelo interesse da mãe da criança.

O "G1 - Notícias" é o feed de maior volume de notícias entre os que eu recebo. Segundo as estatísticas do Google Reader, ele manda em média 252,2 textos diários. Faz tempo que desassinei o "G1 - Plantão", porque ele é ainda mais nervoso. Em apenas um minuto de hoje, às 10:34 da manhã, ele atualizou quatro notícias. Em 10 minutos, foram 12 notícias, incluindo as imperdíveis "Vaticano fecha portas do sacerdócio para homossexuais, mesmo os castos" e "Cadeira voadora fica acima das preocupações em feira de Londres".

Eu não assino feeds de portais exclusivamente de internet, como o Terra, porque senão ficaria louco. Não sei qual é a média, porque não assino, mas a lista de notícias é uma avalanche. E boa parte delas é chupada de outros meios de comunicação: BBC, JB, agências. Pessoalmente, prefiro sempre o original. Estamos na internet, enfim, e tudo está igualmente à mão.

Para fins de comparação, o feed "Folha Online - Brasil" envia uma média de 76,4 textos diários. "Folha Online - Cotidiano" envia uma média de 50 textos diários. Para mim, está de ótimo tamanho. E olha que eles também reproduzem material da BBC e da Agência Brasil, por exemplo.

Se não fosse a urgência de publicar dezenas e dezenas de textos de tantos em tantos minutos durante a madrugada, se o repórter pudesse se "dar ao luxo" de esperar até a polícia chegar ao local para publicar (quem tem urgência em ler notícias às 2 da manhã, afinal?), era um mico a menos da parte do G1. E não insuflava a sede de espetáculo da mãe da criança, certamente influenciada pela moda de Santo André.

A ânsia de ser o primeiro a dar as últimas, igualando qualidade a quantidade e publicando antes de confirmar, coloca os portais facilmente à mão de qualquer interesse - especialmente os espetaculosos, mas não só.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma triste equação e uma longa digressão

Nunca fui muito bom em matemática, mas vejam esta equação aqui:

    (Espetáculo + incolumidade) x (tradição de abuso + desconfiança) = tristes modas

Em Marília, mais um descornado, este de 19 anos, manteve a ex-namorada (de 14) em cárcere privado. Foram dois dias. Ele libertou a guria hoje de manhã e deu no pé. São Paulo parece ter-se tornado a meca dos descornados e perigosos, com três mortes desde o seqüestro da Eloá (fora a da própria), como se pode observar nesta visualização do mapa exclusivo deste blog:


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Um dos principais motivos possíveis pelos quais isso virou moda depois do caso Lindemberg é possivelmente o fato de que o único que não saiu ferido foi o seqüestrador. Dois artigos publicados nos últimos dias tocam bem nesse assunto. Eles convergem num ponto, divergem noutro.

"Uma verdade apavorante", de Paulo Moreira Leite, na Época desta semana:

    Deve-se ao coronel Eduardo José Félix, comandante da Tropa de Choque, a principal revelação sobre o estado de espírito da Polícia Militar de São Paulo. Na hora de explicar por que os atiradores de elite da PM desperdiçaram seis oportunidades para alvejar o Príncipe do Gueto que matou Eloá Pimentel, o coronel declarou: “Inevitavelmente os senhores da imprensa estariam questionando o Gate do mesmo jeito. É um garoto de 22 anos, sem antecedentes, que estava passando por uma crise nervosa”.

    A declaração é equivocada, já que a polícia não é um serviço de relações públicas e tem a obrigação legal de proteger vidas humanas em primeiro lugar. Não é difícil entender o comportamento da PM. A culpa não é da imprensa, mas a explicação é apavorante.

    A PM tem medo. Muitas vezes, quando um atirador de elite poderia entrar em ação – depois que todos os meios de negociação pacífica foram esgotados –, a voz de comando gagueja e as mãos que deveriam apertar o gatilho tremem. Criados nas trincheiras européias da Primeira Guerra Mundial, os atiradores de elite não são uma moda recente e estão em atividade no mundo inteiro. Mas o receio, no Brasil, é real, e nasceu em 1990.

    No esforço para libertar uma refém num assalto em Perdizes, um atirador de elite fez um disparo de filme. Matou o criminoso na hora. Mas a bala seguiu em frente e alvejou a vítima, que faleceu no hospital. O PM foi preso, julgado e condenado. Ouviu uma sentença humilhante, na qual o disparo era definido como inconseqüente e irresponsável.

    De lá para cá, os atiradores de elite baixaram o fuzil. É cada vez mais freqüente encontrar situações nas quais seus serviços poderiam ser usados – na opinião da maioria dos especialistas –, mas nem se cogita. É como se, por causa de um erro médico, fosse necessário abandonar uma técnica cirúrgica consagrada pela medicina.

"A liberdade e o direito com responsabilidade", da procuradora da República Ana Lúcia Amaral, hoje no Observatório da Imprensa:

    Mantendo a atenção de toda a mídia por cerca de 100 horas, [Lindemberg] teve o domínio da situação todo o tempo. Chegou a fazer disparos a esmo, colocando em risco outras pessoas, sem que a polícia reagisse, e exibiu-se por trás da refém, apontando a arma para sua cabeça. Mesmo havendo previsão legal da legítima defesa de terceiro (art. 25 do Código Penal), a polícia não atirou no seqüestrador.

    Todavia, a Polícia Militar de há muito é a "Geni": se atirasse, não faltaria quem criticasse a violência como desnecessária, pois não esgotadas as negociações. Entidades de defesa dos direitos humanos acusariam a polícia de execução sumária, sem julgamento por juiz competente, violando o direito à ampla defesa e o princípio da dignidade da pessoas humana etc., etc.

    (...) Não estou a defender a violência policial como forma de solução dos problemas de criminalidade, mas a ponderar se a imprensa não poderia exercer um certo controle da atividade policial, em tempo real, mas não transmitindo ao vivo.

Pessoalmente? Sempre fico com um pé atrás quando se fala em "pactos", "acordos", "parcerias" para a imprensa publicar ou deixar de publicar alguma coisa em nome de algum bom sentimento. Mas também acho que ninguém precisa de cobertura minuto a minuto de um caso triste desses. Acho que a informação é muito importante - até pra botar na mesa a discussão sobre políticas de segurança. Mas ninguém precisa desse circo todo que ocorreu - até porque o circo estimula reações doentias. Pode não causar, mas certamente dá idéias.

Existe um razoável meio termo, já estabelecido na cobertura de seqüestros em geral: a imprensa acompanha, mas só publica quando termina. Seria um bom meio-termo pra um caso desses? Eu acho que sim. Mas se for estabelecido por decreto eu sou contra. Teria que ser uma opção editorial de bom senso. Mas existe bom senso no mundo, ainda mais com trocentos sites minuto a minuto, além de TVs e rádios de notícias 24 horas competindo pra ver quem derruba primeiro o avião na Faria Lima?

ATENÇÃO: Os vários parágrafos a seguir contêm digressões sobre jornalismo. Caso julgue perda de tempo, não precisa ler mais pra frente.

Essa opinião tem muito a ver com minhas idiossincrasias profissionais - como, por exemplo, a de achar inútil todo tipo de pseudo-evento planejado pra atrair jornalistas: coisas como entrevistas coletivas, cafés-da-manhã-para-a-imprensa, debates eleitorais, coberturas-manada em porta de delegacia e outros que-tais. Também tem a ver com minha idiossincrasia fundamental, a de preferir os dados às aspas. E tem um pouquinho de egoísmo, também: prefiro cavar minhas próprias pautas a cobrir o assunto-da-vez que todo mundo está cobrindo.

(Um pouco por sorte, outro tanto por teimosia, outro tanto por direcionamento profissional, dá pra contar nos dedos quantas vezes precisei cobrir esse tipo de evento. Mas, de qualquer forma, eu me sinto incompetente nessas ocasiões, porque não é o que eu sei fazer. Há quem saiba e goste. Mas não é minha praia.)

Até porque o Brasil não pára enquanto ocorre o assunto da vez, mas as redações estão cada vez mais enxutas. É outra equação: despejar muitos profissionais para cobrir um só assunto tira profissionais da cobertura de todos os outros. E a ênfase primordial num só assunto favorece o declaratório, a espetacularização e a instrumentalização da cobertura por fontes cada vez mais profissionalizadas e portadoras dos mais diversos interesses. A compreensão, aí, vai pras cucuias.

É exatamente a esse fenômeno que o Carl Bernstein se refere no artigo "O Triunfo da Cultura Idiota", de 1992:

    O maior crime do negócio da notícia hoje é ficar para trás ou perder uma grande matéria. Então, a velocidade e a quantidade substituem a perfeição e a qualidade, a exatidão e o contexto. A pressão para competir, o medo de que alguém vá dar primeiro a notícia, cria um ambiente frenético onde uma nevasca de informações é apresentada e questões sérias não podem ser levantadas: e mesmo naquelas bem-aventuradas instâncias em que tais questões são feitas, ninguém passou meses trabalhando para verificar e respondê-las corretamente.

    Reportagem não é estenografia. É a melhor versão da verdade possível de se obter. As tendências realmente significativas no jornalismo não têm ido em direção a um compromisso com a melhor e mais complexa versão da verdade possível de se obter, não em direção a construir um novo jornalismo baseado em reportagens sérias e refletidas. Essas não são as prioridades que saltam para o leitor da maior parte de nossos jornais, nem o que o espectador recebe quando liga nos noticiários.

É impressionante como ele fica mais atual a cada ano que passa, quanto mais se multiplicam os canais pelos quais as notícias-commodity chegam aos seus consumidores. E quanto mais isso acontece, mais o circo se potencializa - e cada vez mais alto gritam os guardiões da decência com propostas censórias e jogando as coberturas da TV trash e do jornal sóbrio no mesmo saco basicamente por tratarem do mesmo assunto que se espetacularizou.

Já reparou nas "críticas de mídia" que vêm circulando por aí sobre a cobertura do caso Eloá? Pois é. Ainda ontem era a mesma gritaria sobre o caso Isabella - que foi coberto do mesmo jeito commoditizado.

E aqui volto ao meu maestro soberano Philip Meyer, que escreveu há pouco um interessante artigo na American Journalism Review onde ele reformula seu conceito de "jornalismo de precisão", dos anos 70, como "jornalismo baseado em evidências":

    I still believe that a newspaper's most important product, the product least vulnerable to substitution, is community influence. It gains this influence by being the trusted source for locally produced news, analysis and investigative reporting about public affairs. This influence makes it more attractive to advertisers.

    By news, I don't mean stenographic coverage of public meetings, channeling press releases or listing unanalyzed collections of facts. The old hunter-gatherer model of journalism is no longer sufficient. Now that information is so plentiful, we don't need new information so much as help in processing what's already available. Just as the development of modern agriculture led to a demand for varieties of processed food, the information age has created a demand for processed information. We need someone to put it into context, give it theoretical framing and suggest ways to act on it.

    The raw material for this processing is evidence-based journalism, something that bloggers are not good at originating.

    Not all readers demand such quality, but the educated, opinion-leading, news-junkie core of the audience always will. They will insist on it as a defense against "persuasive communication," the euphemism for advertising, public relations and spin that exploits the confusion of information overload. Readers need and want to be equipped with truth-based defenses.

    Newspapers might have a chance if they can meet that need by holding on to the kind of content that gives them their natural community influence. To keep the resources for doing that, they will have to jettison the frivolous items in the content buffet.

Acho que esse conceito de demanda por informação processada num tempo em que a informação-commodity barata e burra abunda vale a pena para dar partida à reflexão sobre o que fazer a respeito de um ambiente que, em última análise, alimenta os descornados e perigosos. A oferta de notícias-commodity não vai deixar de existir. Mas não é por isso que a imprensa de referência precisa concorrer com ela.

Mas, enfim, estou pensando com os dedos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Em Salvador também

Salvador tem muito a ver com Porto Alegre, especialmente no tocante à popularidade do reggae, umbanda e capoeira.

Ontem, também lá um jornalista foi agredido por um membro de uma campanha em Salvador - desta vez, do PT, que havia perdido a eleição no dia 5.

Do A Tarde de hoje:

    Fotografia - Walter Pinheiro queixou-se ontem, publicamente, durante a votação, de fotografia do repórter Sebastião Bisneto, publicada na edição de ontem na página 12. Afirmou que, durante a campanha, suas fotos não foram bem escolhidas pelo jornal. Logo após o fato ocorrido no Colégio Sátiro Dias, na Pituba, o fotógrafo, ao cobrir a visita do candidato à colégio eleitoral, em São João do Cabrito, foi empurrado por segurança de um dos dois carros que faziam a escolta de Pinheiro. Enquanto o fotógrafo estava de costas para o veículo, o mesmo carro, em vez de buzinar, encostou e empurrou o profissional. A coordenação da campanha disse que foi um fato isolado sem o aval da direção.

Não é por nada não, mas...

Não acho que o pai da Eloá seja santo nem nada. Acho que está claro que ele fez parte de um grupo de extermínio em Alagoas e fugiu com outro nome quando a filha era pequena. Mas tenho me divertido bastante com a escalada de novas revelações sobre a família:

Pai de Eloá é identificado em Alagoas e acusado de integrar 'gangue fardada' (21/10/2008)

Secretaria de Defesa Social de Alagoas quer força-tarefa para buscar pai de Eloá (21/10/2008)

Vizinhos sabiam que pai de Eloá tinha problemas em Alagoas (23/10/2008)

Pai de Eloá é acusado de mais dois homicídios e de deserção (23/10/2008)

Pai de Eloá pode ter matado sua primeira mulher (24/10/2008)

Ex-cunhadas do pai de Eloá querem colaborar no inquérito sobre a morte da irmã (24/10/2008)

Polícia de Maceió investiga elo de Lindemberg com pai de Eloá (26/10/2008)

Mãe de Eloá é acusada de seqüestrar filho do 1º casamento (27/10/2008)

Aguardem os próximos capítulos. Nesse ritmo, mais dia, menos dia, ainda vão descobrir que foi o pai da Eloá quem matou o Celso Daniel, junto com o Lindemberg.

Pessoalmente? Costumo desconfiar um tanto quando aparecem vilões absolutos. Nem nos gibis eles existem mais. Se formos levar em conta a perícia com que foi feita a operação de resgate, dá pra supor que a investigação não deve ser muito melhor. Mas qualquer um que tiver novas revelações sobre as maldades da família certamente vai ganhar espaço.

domingo, 26 de outubro de 2008

Faroeste gaúcho, ou Porto Alegre é (tosca) demais


A coisa está ficando pessoal.

Meu grande amigo Graciliano Rocha, que está em Porto Alegre como correspondente da Folha, é o mais novo ponto no mapa Faroeste Caboclo, que registra agressões e outros atentados possivelmente de motivação eleitoral.


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Ele foi agredido no comitê eleitoral por simpatizantes do José Fogaça quando ia cobrir uma entrevista coletiva (cancelada) do prefeito ora reeleito de Porto Alegre. Enquanto o poeta não falava, a birita rolava solta e de graça. Quando mestre Gra chegou, um cabo eleitoral o abordou dizendo que ele não era bem-vindo por causa de umas "matérias filhas da puta" que ele publicou no jornal paulista. Antes que ele respondesse, levou um soco no olho, foi derrubado no chão e afofado de pontapés. Meu amigo não reagiu, porque é grande e não é bobo.

Sim, Porto Alegre virou algo tipo Canapi, só que com prefeito poeta. Porto Alegre é demais.

Ele não conseguiu identificar o agressor, mas o comitê de campanha, oficialmente, teve a gentileza de telefonar pra ele explicando que ninguém lá tinha nada a ver com isso.

Eu li ao menos duas das "matérias filhas da puta" apontadas pelo militante. A mais recente mostrava que o prefeito distribuiu bônus-habitação em período eleitoral. Gerou um processo contra o prefeito, sob a acusação de compra de votos. Outra, de há um mês, mostrou que o coordenador da campanha de Fogaça, Luiz Fernando Záchia, era investigado pelo TCE pela compra de dois imóveis de luxo. Com isso, Záchia resolveu pedir o boné.

Matérias filhas da puta, claro. Como as denúncias eram documentadas, possivelmente até o nome do cliente constava da certidão de nascimento das filhas da puta.

Ao Diário Gaúcho (que classificou a agressão como "suposta" em título), o coordenador da campanha, Clóvis Magalhães (substituto de Záchia, o cavalheiro que pediu pra sair depois da matéria de setembro), deu a versão oficial:

    As questões implicadas devem ser pessoais e não da campanha. Eu lamento. O repórter deve tomar as medidas cabíveis.

(EDITADO: Mais tarde, por telefone, Magalhães me disse que, na hora em que foi entrevistado, não sabia do caso.)

Cerca de 50 pessoas assistiram à agressão. O comitê não identificou os agressores, até porque não tem câmeras externas. Claro, não que isso fosse esperado.

Findas as agressões, o poeta discursou aos seus apoiadores:

    "É isso que está, neste momento, sendo consagrado pelas urnas, um projeto que implantou na cidade um ciclo de mudanças, que plantou sementes para o futuro."

E sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra, já cantavam os outros.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

E os mapas só crescem

Mais um ex-namorado descornado. Mais uma moça muito jovem. Mais uma arma. Mais um ponto no mapa "Descornados e Perigosos". Em Salvador.


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Um prefeito ameaça um vereador que teria denunciado irregularidades suas, no interior de São Paulo. No Piauí, um prefeito teria ameaçado um radialista. No Mato Grosso do Sul, mais um jornalista se diz ameaçado por um político. E o mapa "Faroeste Caboclo" só engorda.


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Pela terceira vez, um juiz eleitoral de Florianópolis manda apreender um jornal que publicou textos biliais sobre o prefeito e candidato Dario Berger. Mais um ponto no mapa "Censura Eleitoral".


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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Uma arcaica obrigatoriedade

A Economist da próxima semana, que acaba de entrar no ar, traz um artigo curtinho sobre a mais maldiscutida questão do jornalismo brasileiro: a obrigatoriedade do diploma. Discordo em observações pontuais, apenas, mas acho meritória a publicação desse artigo para tentar provocar um debate além das verdades marteladas pelos sindicatos. O texto não toca na questão da péssima qualidade da média dos cursos que a lei beneficia com a obrigatoriedade, mas vale a pena ler.

Traduzo aqui:

    Uma das várias coisas que permaneceram iguais no Brasil depois do fim do regime militar em 1985 foi a necessidade de os jornalistas obterem um diploma e um registro junto ao ministério do trabalho. Quando a lei que estipulou isso foi criada, em 1967, ela criou uma forma útil de evitar que encrenqueiros dessem sua opinião. Ela sobreviveu porque o Brasil costuma ser lento em desfazer tais anacronismos, mas também porque convém aos sindicatos de jornalistas manter a lojinha fechada.

    Agora, o Supremo Tribunal Federal vai decidir se elimina essa lei. Ao mesmo tempo, o ministério da educação pondera se qualquer brasileiro com grau universitário poderia obter um diploma que lhe permita escrever (um pré-requisito que, de saída, ainda excluiria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva).

    "A qualidade do jornalismo no Brasil sofreria se as regras mudassem", afirma Celso Schröder, da Federação Nacional dos Jornalistas. Isso é questionável. Boa parte do jornalismo do Brasil é boa e robustamente independente, particularmente quando se comparado com a mídia do México ou da Argentina. Mas isso tem menos a ver com os diplomas brandidos pelos profissionais do que com a competitividade do mercado de jornais e revistas. Embora haja apenas poucos canais de TV disponíveis para todos, eles fazem um trabalho bastante bom de cobrir o que está acontecendo para aqueles que assistem às notícias, ao invés de lê-las.

    A maior falha na mídia brasileira tem a ver com a propriedade de emissoras de rádio e jornais de província. Segundo o Donos da Mídia, um grupo de monitoramento, 271 políticos (definidos como legisladores estaduais ou federais, ou prefeitos) são ou diretores ou sócios de empresas de mídia. Surpreendentemente, os dois estados com a maior incidência de donos-políticos são Minas Gerais e São Paulo, no desenvolvido sudeste. Nenhum diploma pode garantir jornalismo independente da parte desses mini-Berlusconis.

Mestre Maurício Tuffani também escreveu sobre a polêmica da obrigatoriedade, hoje, em seu Laudas Críticas. Ele é um dos mais qualificados críticos da faculdade obrigatória no Brasil.