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terça-feira, 17 de março de 2009

Todos os homens da senadora

Meu amigo Eduardo Militão é um repórter raçudo do site Congresso em Foco. Ele está em cima do rolo das passagens aéreas indevidas emitidas na cota da senadora Roseana Sarney para amigos e parentes. Ele e outro raçudo, o Lúcio Lambranho, revelaram que as seguintes pessoas receberam passagens emitidas pela agência Sphaera na conta da senadora:

– Heitor Heluy, assessor do TRT 16ª Região – São Luís;

– Sebastião Murad, ex-deputado estadual, dono de uma rede de postos de combustível em São Luís;

– Eduardo Haickel, dono do posto de combustível Tiger, em São Luís;

– Henry Duailibe, dono da concessionária Duvel, da Ford, em São Luís;

– Rosa Lago, mulher do empresário Eduardo Lago, que tem negócios com Fernando Sarney;

– Teresa Sarney , mulher de Fernando Sarney, e

– Adalberto Furtado, conhecido como "Bil", dono da Construtora Estela, de São Luís.

O Ministério Público Federal vai investigar o caso.

Mas o mais legal é olhar a apuração. O Militão fez um telefonema gravado para a agência de viagens, onde a atendente confirmou que as passagens tinham sido emitidas para essas pessoas e pagas pela Roseana. Ele transcreve o telefonema aqui.

Quando a coisa ficou feia, a agência emitiu uma nota negando tudo "à [sic] pedido da Excelentíssima Senhora Senadora Roseana Sarney". A Agência Brasil registrou a negativa, e O Globo copiou a mesma nota da agência. Mas o Militão tinha a conversa gravada.

Eis a importância de gravar telefonemas, especialmente os mais importantes.

Na hora em que vi a matéria, lembrei de uma cena do "Todos os Homens do Presidente". Nela, o Carl Bernstein está cavocando a vida de um assessor da Casa Branca cujo nome estava nas agendas dos invasores do comitê democrata. Recebe a dica de que ele tirava livros sobre Bob Kennedy. Liga pra biblioteca da Casa Branca. A bibliotecária a princípio confirma. Depois de falar com um superior, ela muda completamente de idéia. Do roteiro original:

    What I said before? I was wrong. The
    truth is, I don't have a card that
    Mr. Hunt took out any Kennedy
    material.
    (WOODWARD and BERNSTEIN
    listen, and now there
    is something in her
    voice that wasn't
    there before: fear)
    I remember getting that material out
    for somebody, but it wasn't Mr. Hunt.
    The truth is, I've never had any
    requests at all from Mr. Hunt.
    (beat)
    The truth is, I don't know Mr. Hunt.

A cena vai aí embaixo. Salte para os 4 minutos e 43 segundos pra ver a conversa toda:

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crítica da razão bombachuda


Para ter algum insight sobre os motivos do que aconteceu com o Graciliano, vale ler a gloriosa reportagem "Nação Farroupilha", publicada na National Geographic deste mês. O acampamento farroupilha - que eu chamo carinhosamente de "CTG Sapateando na Bosta" - acontece todo ano em setembro no parque Harmonia.

Se você não conhece e nem nunca ouviu falar, dá pra descrever assim: é tipo uma disneylândia dos pampas sonhados pelo Paixão Côrtes -- com a diferença de que os Mickeys, Donalds e Patetas são voluntários e até mesmo tiram férias pra acampar lá. Nos piquetes, reproduz-se milimetricamente a tradição criada no grêmio estudantil do Julinho. Milimetricamente, inclusive na estrutura de igualdade dos sexos: os "peões" ficam pra um lado contando mentira uns pros outros, geralmente pilchados, e as "prendas", geralmente embrulhadas num vestido que mais parece a cortina da sala, ficam pro outro cuidando das crias. Mas o churrasquinho de gato é de primeira.

Tal fenômeno nunca que eu me lembre foi abordado com um olhar mais crítico pela imprensa nativa - que trata o acampamento mais ou menos como a do Rio trata o carnaval, só que sem questionar os dirigentes e nem olhar as contas. Precisou que a National Geographic publicasse algo mais crítico a respeito, entre outras reportagens sobre espécies exóticas: 8 páginas depois de um texto sobre os bonobos da Reserva Nacional de Sankuru, na República Democrática do Congo, e 53 páginas antes de uma reportagem fotográfica sobre a tumultuosa temporada de acasalamento dos elefantes-marinhos na ilha Geórgia do Sul.

O trecho crucial para entender a lógica gaúcha:

    O acampamento se inicia na última semana de agosto, quando casas de madeira começam a ser construídas, e se estende até o fim de setembro. Muita gente tira férias nesse período e troca a areia da praia ou o ar da serra pelas vielas de chão batido. A cada edição, a freqüência de pessoas de um contexto mais urbano aumenta.

    Fornecedor de materiais de construção, Estêvão Scalco, o jovem patrão do Piquete 30 de Abril, recebe amigos há dez anos para confraternizar no acampamento. Ele salienta com entusiasmo o fervor dos gaúchos por suas tradições. Na falta de melhores palavras para definir os motivos, apela ao futebol: "Tu já viu algum jogo fora do Rio Grande do Sul? Que outra torcida, a não ser a de Grêmio e Inter, leva a bandeira e canta o hino de seu estado?"

    Emblemática, a Semana Farroupilha reflete a adoção crescente de símbolos e de um ideário regionalista em ambientes urbanos. Além de o Hino Rio-Grandense - do refrão "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" - ter se transformado em canto obrigatório nos confrontos de clubes gaúchos contra equipes de outros estados, o mantra das arquibancadas dos anos 90, "Ah! Eu tô maluco!", criado no Rio de Janeiro, ganhou versão local: "Ah! Eu sou gaúcho!" Nenhum brasileiro afirma com tamanha contundência sua crença nos valores locais. Para o bem, porque a preservação da identidade é fundamental na construção de uma sociedade, e ao desafiar a nebulosa idéia da padronização mundial, aspecto negativo da globalização. Para o mal, quando tradicionalismo se confunde com conservadorismo, e na medida em que o discurso regional é usado como fonte de especulação comercial.

    Atentas ao aumento do culto às tradições, a publicidade e a imprensa do Rio Grande do Sul têm se apoiado à exaustão na fórmula fácil do amor à terra e na busca de um jeito localista de ver o mundo. O resultado é uma sociedade voltada para si mesma e inapta para exercer a autocrítica. Embasada em falsas premissas, a supervalorização do regionalismo tem robustecido a resistência à modernização, favorecido uma idéia de isolamento e, em casos mais extremos, alimentado uma falsa superioridade.

sábado, 30 de agosto de 2008

"El, el, el, militância de aluguel!"

Durante anos, foi esse o grito com que militantes do PT cumprimentavam os que agitavam bandeiras dos outros partidos. O grito foi se tornando cada vez mais raro nos últimos anos e, nesta época de descrédito da política, a militância inteira é terceirizada. Tanto que, vejam só, a campanha do PT é a que oferece a paga mais cobiçada.

Vejam esta excelente matéria do UOL, onde o repórter se fez contratar como militante. Alguns trechos:

    Segundo a legislação eleitoral, os cabos eleitorais não têm vínculo empregatício com os candidatos nem os partidos. Não há necessidade de contrato escrito e os acordos podem ser feitos verbalmente. Os comitês de Alckmin e Marta, no entanto, propõem contratos temporários, similares aos documentos firmados por lojas e fábricas em épocas de alta como Natal ou Páscoa. Kassab contrata os cabos eleitorais pela cooperativa CooperQuality, às quais os "militantes" são obrigados a se filiarem, mediante pagamento de taxa de R$ 10.

    (...) Ser pago para militar não é fácil para quem não tem indicação dentro dos partidos. Antes de conseguir a vaga no comitê central de Alckmin, bati à porta de outros dois escritórios da campanha tucana, dois da petista, telefonei para comitês regionais, preenchi fichas e passei um dia na sede da campanha de Kassab.

    (...) No comitê do DEM, peruas traziam os recrutados pelos escritórios regionais. Havia conhecidos de afiliados ao partido, jovens indicados por igreja evangélica de Santo Amaro e pessoas que tinham trabalhado na campanha de José Serra (PSDB), de quem Kassab herdou a prefeitura.

    Nas filas de espera para o cadastro, propagandas com fotos de favelas reurbanizadas, escolas recém-construídas e hospitais modernos na periferia estimulavam a conversa: "em época de eleição tudo funciona", dizia um. "É tudo assim, mesmo, pilantra", respondeu o outro.

    Entre os recrutados para a retaguarda de Alckmin, uma jovem comentava o vaivém do mercado: "A Marta tá pagando R$ 1.200. Umas meninas daqui foram chamadas para trabalhar lá".

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A ópera dos malandrinhos


A Folha Online publicou, escondidos em um texto sobre a estréia de uma ópera, os resultados de uma licitação de ampliação do metrô de São Paulo, diz o blog de Josias de Souza. O texto, do editor Ricardo Feltrin, foi publicado oito horas antes da revelação dos resultados, diz a Folha Online.

As empresas vencedoras são as mesmas que participam hoje da construção da linha - e que serão formalmente acusadas de homicídio pela promotoria pública devido a um acidente em janeiro de 2007 em sua obra, onde que morreram sete pessoas. As empresas não quiseram se pronunciar sobre o resultado publicado.

A estratégia repete em parte a forma como o repórter Janio de Freitas, também da Folha, antecipou em 1987 os resultados da licitação da ferrovia Norte-Sul. Ele publicou cinco dias antes dos resultados um anúncio classificado cifrado com os dados dos 18 vencedores. Em 2007, em sua coluna, Janio recordou os 20 anos do caso.

As principais construtoras envolvidas no consórcio que constrói a nova linha do metrô de São Paulo estavam entre as que venceram a licitação da Norte-Sul em 1986: Andrade Gutierrez, Camargo Correa, Queiroz Galvão e Norberto Odebrecht. Apenas a OAS, que faz parte do consórcio Linha Amarela, retirou-se da licitação da Norte-Sul.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Direito de acesso no mundo

O direito de acesso a informações públicas é o mais desconhecido dos direitos fundamentais. A BBC World começou hoje uma série de reportagens em áudio sobre o "direito a saber" no mundo. O Brasil ainda não tem a sua, mas o Chile aprovou há pouco. Hoje, mais de 70 países já têm, incluindo até mesmo o Zimbábue.

O repórter responsável pelo programa é o mesmo que mantém o blog Open Secrets, da BBC, sobre informações públicas.

O Brasil, repito, ainda não tem lei a respeito. Há dois projetos de lei por aí, sendo que um deles está pronto pra votar na Câmara desde 2004. É o mais imperfeito. O melhor foi preparado pela Controladoria-Geral da União e o presidente Lula prometeu enviar ao Congresso assim que fosse reeleito. Até hoje, não o fez.

Enquanto isso, o Ministério Público entra na Justiça pedindo acesso aos documentos da ditadura. "Os procuradores em São Paulo querem que o governo federal indique quem são os responsáveis e quais razões levam os arquivos produzidos na ditadura estarem ainda sob sigilo", diz a matéria.

Genial. Tem que abrir tudo. Mas, ainda assim, os documentos da democracia continuam órfãos de quem inquira sobre o porquê de seu sigilo. A Presidência inventou lá uma justificativa tabajara pra manter os gastos dos presidentes fora dos olhos do público e ninguém tacou processo.

Para ouvir a primeira parte da série da BBC, clique aqui.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Faltou mencionar

No domingo, também saiu no Los Angeles Times uma reportagem do Reed Johnson em que eu colaborei principalmente com contatos. É um perfil do jornalista Lúcio Flávio Pinto, de Belém (PA), um dos sócios fundadores da Abraji. Vale a pena ler.

Lúcio Flávio Pinto reports from the Amazon

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Aqui, ferrolho pra não prestar; lá, obrigação de abrir


Hoje, em seu depoimento no Senado, a ministra Dilma Roussef inventou um ferrolho para o jogo de esconde-esconde da CPI dos cartões: dados sobre gastos de presidentes, segundo ela, devem ser revelados após o fim do mandato. Com isso, os cartões do FHC podem ser investigados e os do Lula só deveriam ser liberados "a partir de certo momento".

Ocorre que isso não é lei. Ela inventou na hora. Vale observar que ela também disse ter pedido uma consulta para saber o tratamento a ser dado ao banco de dados sobre gastos do governo anterior. A consulta teria sido pedida só agora, depois de todo o escÂndalo. Ou seja: ela já é ministra há um tempão, o banco de dados vem sendo montado há uma data, mas não existe clareza no governo sobre que informações são ou não públicas. Na dúvida, servem como cartas no jogo de salão da política brasileira.

O grande problema do Brasil, no tocante a dados governamentais, é que as leis que tratam de acesso a informações públicas são vagas e praticamente virgens de regulamentação. Quando se regulamenta, trata-se de sigilo, não de fornecimento de informações. O decreto hoje vigente estabelece algumas classes de sigilo sobre documentos. Mas não há uma regulamentação clara, por exemplo, de em que categoria se devem colocar os gastos de um presidente. Veja lá.

Em contraste com isso, vale a pena ver a série de reportagens que o Valor Econômico começou a publicar ontem. O repórter Ricardo Balthazar, em Washington, solicitou ao governo americano, por um requerimento formal com base no Freedom of Information Act, todos os documentos que tratam da eleição do Lula como presidente. Os documentos de algumas classificações de sigilo são liberados em cinco anos; outros, em dez; outros, em quinze.

Balthazar pegou um gostinho no mês passado, quando foram liberados os primeiros documentos de cinco anos atrás. Fez esta reportagem, dando conta que o Federal Reserve manifestava preocupações com a vitória do hoje presidente.

Na série desta semana, Balthazar mostra como Lula ganhou a confiança dos gringos. Lula teria oferecido ajuda aos EUA, como parceiro estratégico para acalmar o Chávez. Zé Dirceu foi o intermediário de alguns contatos com o Itamaraty. Isso está registrado em documentos oficiais, embora o ex-comissário ensaboe a resposta em entrevista ao jornal. Em troca da força, a embaixada dos EUA garantiu que o governo americano apoiasse o presidente.

Para melhorar ainda mais o serviço prestado aos leitores, o jornal tornou disponíveis para os assinantes os documentos.

Nas palavras do mestre Sérgio Leo, fundador da Abraji, colunista do Valor e especialista em relações internacionais:

    A divulgação dos relatos das autoridades sobre as conversas deixa mal José Dirceu, que teria até falado em ressuscitar a Alca, quando já estava claro que não havia como fazer o acordo sem abrir mão de reivindicações importantes e ceder em pontos que reduziriam fortemente o espaço para uma política autônoma de desenvolviemnto.

    Mas, os documentos divulgados pelo Valor, em geral, mostram o governo brasileiro preocupado em defender interesses dos vizinhos (a própria venezuela, a Bolívia, a Argentina) em seus contatos com os EUA. Uma lição interessante que fica para as autoriades brasilerias é a de que, quando falam em nome do país,falam para a história, e suas conversas um dia poderão ganhar publicidade. Bravatas, traições, jogos duplos podem chegar ao conhecimento do público antes do que se pensa.

    Mas isso só é mais perigoso com países democráticos. A maioria dos regimes autoritários não deixa muito registro. O governo Bush diminuiu a transparência dos arquivos de governo por lá _ e, é claro, há muita coisa que jamais saberemos sobre as andanças de emissãrios dos EUA no continente. Mas que a gente devia cobrar leis semelhantes, de abertura de arquivos, aqui no Brasil, ah, isso devia.

Sugestão de pauta: o Valor poderia solicitar ao governo brasileiro os documentos que mostram a versão daqui para os mesmos fatos. Caso existam, claro.

sexta-feira, 7 de março de 2008

"Estou me divertindo tanto que devia ser preso!"

Com vocês, I.F.Stone em carne, osso e verve:

Centenário de um gigante


    "Não creio que o papel principal de um jornalista livre numa sociedade livre seja expor a sujeira. Isso é apenas parte do trabalho, suponho. O verdadeiro problema é fornecer uma compreensão maior das complexidades em que seu país, seu povo e sua época estão envolvidos. Nosso trabalho é traduzir essas questões, estudá-las. O trabalho principal não é desgraçar ninguém, nem difamar ninguém, e sim fornecer compreensão."

O trecho acima é de I.F.Stone, polêmico jornalista americano que teria completado seu centenário em dezembro. Sou fascinado pelo trabalho dele há uns dez anos, desde que li um artigo sobre sua metodologia de reportagem, mergulhando em documentos oficiais para achar as lacunas que as aspas tentam encobrir. Depois, fui atrás de tudo o que pude achar do que ele escreveu. Para ele, ávido leitor de Kropotkin na juventude, "todos os governos mentem, e não se deve acreditar em nada do que eles dizem".

Na próxima semana, haverá um evento na New York University em comemoração à efeméride. A Fundação Nieman acaba de criar um prêmio a jornalistas independentes homenageando o velho mestre. E a família pôs no ar um site com informações sobre a vida e carreira de Stone - e alguns exemplares do I.F.Stone's Weekly, o jornal que ele editou independentemente em Washington durante vários anos - mantendo-se praticamente só com a boa receita das assinaturas.

Stone era uma figuraça. Foi um cara que apoiou causas erradas e depois teve a macheza de mostrar os erros - com apuração própria. Já aposentado, usou o mesmo método para reconstruir o Julgamento de Sócrates. Ele aprendeu grego arcaico para ler no original os poucos textos que restam falando do assunto em primeira mão. Neles, achou os mesmos tipos de lacunas que achava a respeito das justificativas para os EUA irem à guerra do Vietnã. Já é um projeto de aposentadoria, não?

(Não deixe de ler esta genial auto-entrevista em que ele descreve o método de pesquisa utilizado para o livro.)

O site feito pela família não é tão completo quanto o feito em homenagem ao colunista Carlos Castello Branco, mas está bem bom. Destaco dois exemplares do I.F.Stone's Weekly ali disponíveis: a última edição, de 1971, onde Stone faz um balanço de sua carreira, e uma de 1968 em que ele usa sua poderosa metodologia para chegar à seguinte conclusão sobre o episódio do Golfo de Tonkin: "só sabemos que fomos nós que atiramos primeiro".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Outras novidades do NYT

O Russo provocou ali embaixo: bilheteria de cinema é um assunto meio bobinho. Ainda mais em se tratando de Hollywood.

Concordo em parte. Mas o que eu queria, na verdade, era chamar a atenção para coisas interessantes que o New York Times vem fazendo em termos de apresentação de dados, até mesmo numa área que costuma ser coberta com alguma frivolidade (figurinos, efeitos especiais, casa/separa). No Brasil, geralmente, a cobertura mais aprofundada de artes e espetáculos é na forma de resenhas. Há pouca reportagem sobre os bastidores, mas há, ainda que geralmente sem usar bancos de dados.

Vale a pena dar uma olhada no guia da pré-campanha eleitoral americana que eles fizeram. Neste aqui, está creditado o dedo do Aron Pilhofer, repórter especializado em bancos de dados com quem tive algumas ótimas conversas em Londres, há alguns meses.

Tudo feito com informação pública. Tudo mais revelador do que muito off. São caminhos muito interessantes, os que se abrem à nossa frente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Novas formas de apresentar dados

O New York Times fez um gráfico interativo muito interessante, sobre as receitas de filmes americanos. É de babar.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Esculhambaram a corrupção

A corrupção na política ficou tão popular, com papos de boteco girando em torno do "ué, vai dizer que você lá não pegava?", que vigaristas têm se especializado em criar uma espécie de golpe nigeriano pra pegar os trouxas que se acham espertos. Em vez da grana do Sani Abacha, a isca é a grana do caixa-dois. Em vez de e-mails empolados em inglês macarrônico, é telefone.

O G1 publica uma curiosa notícia sobre estelionatários que davam golpes dizendo serem especialistas em lavagem de dinheiro de caixa-dois de políticos:

    Alencar Zolin foi preso quando saía de um condomínio de luxo onde mora na cidade de Campinas. De acordo com a Polícia Federal, ele seria o chefe da quadrilha e tinha várias identidades para aplicar um golpe milionário. O alvo da quadrilha eram empresários, prefeitos e vereadores.

    As investigações indicam que os estelionatários se passavam por assessores de políticos, diziam que tinham dólares, que seriam de sobras de campanha e que precisavam trocar por reais. Para seduzir as vítimas, ofereciam a moeda americana por uma cotação bem abaixo do mercado.

    Para dar mais crédito ao negócio, os estelionatários visitavam as vítimas. É o que mostram as conversas gravadas com autorização da Justiça.

    Em uma das gravações, os supostos golpistas estão irritados. Eles comentam que o vereador Félix Alves, de Porto Murtinho (MS), tinha dado R$ 28 mil à quadrilha e queria o dinheiro de volta. Por telefone, o vereador negou que tenha caído no golpe.

    De acordo com os investigadores, o grupo agiu nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Brasília, Alagoas, Paraná e Rio Grande do Sul.

    Só nos últimos cinco meses, a quadrilha movimentou mais de R$ 5 milhões. Ao todo, a operação da Polícia Federal prendeu oito pessoas, entre elas um policial do Deic, departamento que combate o crime organizado em São Paulo. Outros cinco policiais da mesma delegacia estão sendo investigados.

Mas esse não é, nem de longe, o primeiro caso do gênero. Em agosto de 2006, o Correio Braziliense publicou uma reportagem bem interessante sobre um golpe parecido, em que vigaristas abordavam empresários pedindo dinheiro e prometendo pagar o triplo quando entrasse a grana do caixa-dois. Começava assim:

    O deputado Doutor Ronaldo não é mensaleiro nem sanguessuga. Não participou de nenhum dos muitos esquemas, grandes ou pequenos, descobertos nos subterrâneos do Congresso Nacional nos últimos anos. O senador Guimarães também. Jamais foi flagrado em negociatas com o governo. Mesmo assim, o primeiro está preso desde ontem. O outro, depois de fugir do cerco, ainda é perseguido pela Polícia Federal. Juntos, eles roubaram aproximadamente R$ 4 milhões de pelo menos 60 vítimas, entre pequenos empresários e fazendeiros. As acusações: formação de quadrilha e estelionato.

    O deputado Doutor Ronaldo jamais teve votos. Sequer participou de eleição. Na verdade, era um personagem fictício, criado pelo estelionatário Elias José da Silva - morador do Gama, preso ontem, na Operação 3 por 1 deflagrada pela PF - para aplicar golpes país afora. Como em 100% dos casos de estelionato, o crime se amparava na poderosa retórica dos criminosos. No popular, os integrantes da quadrilha só conseguiam sucesso porque eram bons de papo. Tal característica, como se sabe, é comum também aos políticos.

Leiam esse texto do Ugo Braga. É uma aula de jornalismo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Virou pó?

Ontem, o Jornal Nacional exibiu uma das reportagens de TV mais bem apuradas a que assisti recentemente. Trata do sumiço de algo entre 102 e 202 quilos de cocaína apreendidos em um avião. Para fazer a comparação entre a cocaína apreendida e a cocaína entregue à Justiça, eles alugaram um jatinho e dispuseram nele pacotes de farinha com o peso que chegou ao Judiciário, para comparar com o material originalmente apreendido. Assista aqui o vídeo.

O piloto que denunciou a polícia, dizendo que transportava 300 quilos, morreu na prisão oito meses depois de fazer a denúncia. Oficialmente, foi por causas naturais.

Censura, por outros meios

A Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco baixou uma ordem, dia 18, proibindo que o centro integrado de dados da Polícia Civil de fornecer informações à imprensa, segundo nota de repúdio do sindicato dos jornalistas local. O centro totaliza as informações sobre homicídios ocorridos no estado.

Isso atrapalha o trabalho do PE Bodycount, uma das mais interessantes iniciativas jornalísticas independentes atualmente em curso no Brasil, vencedora do prêmio Vladimir Herzog. De certa forma, também é uma reação a ele. No final de semana, o blog informou que teria havido 45 mortes no estado, enquanto a secretaria só admitia 26. Mais adiante, a secretaria precisou voltar atrás.

EDITADO: Na verdade, não atrapalha muito o trabalho deles - só dos repórteres que contam exclusivamente com a fonte oficial. Mas ainda assim é um problema. Todo dia, a equipe do PE Bodycount faz cerca de 50 telefonemas para delegacias, hospitais e rádios para colher dados sobre assassinatos ocorridos no estado. Muitas vezes esses dados contradizem os da secretaria de segurança. Coloco em breve no blog uma entrevista com os responsáveis pelo site.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ainda mais sobre jornalismo e dados

A repórter Jennifer LaFleur, que por anos foi instrutora de reportagem com o auxílio do computador na NICAR, escreve no Dallas News sobre como os cidadãos podem acessar e usar registros públicos para facilitar suas vidas.

O jornal até mesmo criou na internet um centro de dados que foram notícia, para que os leitores possam acessar os dados brutos e pesquisarem o que lhes interessa.

ISSO é usar a internet com inteligência.

Um bom exemplo do que acontece quando os jornais colocam na internet para qualquer leitor ler as planilhas com que trabalham foi publicado neste domingo, no Estadão.

Comentei durante a semana passada o fato de o jornal ter colocado na internet a planilha com os parlamentares que receberam dinheiro de bancos em suas campanhas eleitorais (baixe aqui a planilha).

No domingo, o jornal publicou uma reportagem mostrando que os dados de algumas doações registradas na Justiça Eleitoral atribuíam ao Unibanco dinheiro doado por empresas que incluem até um frigorífico. Ninguém sabia disso, nem ninguém tinha reclamado, antes de o jornal publicar a reportagem anterior, colocando a planilha na internet.

Questionado a respeito, o TSE indicou que o problema pode ser ainda mais grave:

    Por meio de sua assessoria, o TSE esclareceu que não processa outras contas que não as de candidatos a presidente da República. A contabilidade de candidatos a outros cargos é de responsabilidade dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) dos Estados, que as enviam ao TSE, encarregado legalmente apenas de torná-las disponíveis, não de manuseá-las.

    (...) O TSE informou que vai tentar descobrir o que aconteceu, mas adiantou que não tem como conferir, uma a uma, a contabilidade de campanha de todos os candidatos a deputado federal e a senador, nem pode, legalmente, corrigi-las. Também explicou que a veracidade das informações é de responsabilidade dos candidatos, que, se quiserem corrigir as contas, devem pedi-lo aos respectivos TREs.

    Segundo o TSE, em relação a senadores e deputados a lei determina que deve divulgar a contabilidade, não sanar os erros. Essa, insistiu, é função dos tribunais estaduais, a partir de iniciativa dos candidatos.

Não foi por falta de aviso que isso aconteceu. O Claudio Weber Abramo, diretor da Transparência Brasil, costumava sempre criticar a falta de checagem por parte da Justiça Eleitoral sobre os dados de doações de campanha. Muitas vezes, os dados que chegavam para o projeto Às Claras vinham com CNPJs estapafúrdios, o que dificultava estabelecer conexões entre doadores que são filiais da mesma empresa, por exemplo.

É impossível saber que proporção dos dados está comprometida por esse desleixo por parte do TSE. Mas muito dificilmente se ficaria sabendo que parte deles está comprometida se não fosse a singela atitude do Estadão de colocar na internet a planilha que usou. Não foi o jornal que descobriu. Talvez tenha sido algum político, talvez tenha sido o banco, e o descobridor alertou o jornal. Isso rendeu pauta, e das boas. Isso é parte da serventia de colocar os dados à disposição do leitor.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Na trilha do spam

O repórter Simon Cox, da BBC, é o responsável por um documentário de rádio muito interessante sobre a cadeia produtiva do spam - aquelas mensagens que entopem nossa caixa postal oferecendo alongadores de pinto, relógios falsos e diplomas universitários a preço de banana.

Ele encomendou um vidro de um alongador de pinto (a US$ 70) e a partir daí começou a traçar de onde vinha o e-mail, de onde vinha o produto, quem ganhava com isso e quem comprava. Para encobrir os verdadeiros responsáveis, o esquema incluía a "escravização" de computadores de incautos, por meio de vírus, para que eles mandassem o spam sem identificar a fonte. Partindo da Europa, a investigação o levou aos Estados Unidos, à Índia e finalmente à Nova Zelândia.

Basicamente, o spam só se prolifera porque milhares de trouxas caem no golpe e temerariamente colocam seu cartão de crédito à disposição desses golpistas. Cox encontrou alguns especialistas nesse tipo de investigação. Um deles conseguiu hackear o site de uma empresa dessas. Lá, descobriu vários clientes, incluindo altos executivos de bancos de investimento.

Você pode baixar o documentário aqui.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Inovação sutil, mas importante

O Estadão de hoje publica na reportagem sobre os deputados financiados por bancos que vão votar o aumento do imposto sobre os lucros do setor financeiro, sutilmente, uma planilha de Excel com os dados de quais deputados receberam dinheiro de bancos (baixe aqui).

Isso permite que o leitor faça sua própria análise e tire suas próprias conclusões. Permite, por exemplo, que eu aponte um passo a mais que o jornal não permite na planilha: analisou quanto os deputados receberam dos bancos, citou em alguns casos que proporção das doações isso representava. Mas não mostrou isso na planilha, o que me impede de saber quem são os mais comprometidos com os bancos.

Ainda assim, parabéns ao repórter Wilson Tosta e à equipe do jornal online. É uma inovação, sem dúvida.

Jornalismo "top de linha", terceira edição


Desde 2006, a Investigative Reporters and Editors concede o prêmio Philip Meyer às reportagens de apuração mais complexa publicadas pela imprensa. “O prêmio reconhece os melhores usos de métodos da ciência social no jornalismo”, diz a descrição oficial. Trata-se do “top de linha” do jornalismo.

Meyer é um dos poucos profissionais a serem homenageados com o nome de um prêmio ainda em vida (os outros dois que conheço são Don Barlett e James Steele, que foram discípulos de Meyer). O velho mestre se aposenta de seu cargo de professor na Universidade da Carolina do Norte nos próximos meses, mas continua dando contribuições por um jornalismo de qualidade.

Em termos de dinheiro, o prêmio Philip Meyer é modesto comparado até aos prêmios brasileiros: US$ 500, US$ 300 e US$ 200, respectivamente. O significado do prêmio para o desenvolvimento do jornalismo, porém, é importante. Na inscrição dos trabalhos, é preciso descrever todo o processo de apuração. É a complexidade da apuração, e não o produto final ou seu impacto, que pesa mais na avaliação. As descrições dos trabalhos ficam, depois, disponíveis para os sócios da IRE, para que possam aprender com a experiência dos colegas.

Vale a pena conhecer esses trabalhos, especialmente para os que julgam ser o jornalismo de precisão algo como ficção científica. Sempre vale a pena dar uma olhada em trabalhos de referência como esses.

Publico aqui o resumo dos trabalhos vencedores da terceira edição:

1º lugar: Falsificando as notas, Dallas Morning Herald
A pauta é parecida com a do jornal da Filadélfia que ganhou o terceiro lugar em 2007, mas a execução foi mais ambiciosa. A série de três dias mostrou sérias evidências de fraude nos testes-padrão, por mais de 50 mil estudantes de escolas públicas e particulares do estado do Texas. O jornal foi o primeiro a fazer uma reportagem sobre isso, em 2004, quando ainda sequer havia o prêmio Philip Meyer. Desta vez, os repórteres Joshua Benton e Holly Hacker analisaram um gigantesco banco de dados de notas e respostas de testes de centenas de milhares de estudantes individuais que fizeram os testes ao longo de dois anos. O rigor empregado pela série fez com que o estado anunciasse controles mais fortes sobre as condições em que os testes são feitos nas escolas do Texas, para se adaptarem aos métodos estatísticos de detecção de fraudes usados pelo jornal.

2º LUGAR: Questão de vida ou morte, Atlanta Journal-Constitution
A pena de morte ainda é lei em vários pontos dos Estados Unidos. Em alguns estados, porém, ela é mais cruel. Em 1972, uma decisão da Suprema Corte americana classificou a aplicação da pena no estado da Geórgia – o mesmo onde se passa o filme “E o Vento Levou” – como “arbitrário e capcioso”. Nessa série de quatro duas, os repórteres Bill Rankin, Heather Vogell, Sonji Jacobs e a analista de bancos de dados Megan Clarke mergulharam em dados de 2.300 condenações por assassinato registradas desde 1995. Paralelamente, a pesquisadora Alice Wertheim fez um banco de dados com as condenações a pena de morte desde 1982. Os jornalistas fizeram diversas análises nos dados e conseguiram demonstrar que as condenações à pena de morte variavam de acordo com características demográficas dos réus e com o lugar onde viviam. Com isso, o Legislativo estadual decidiu considerar mudanças nas leis de pena de morte e o Judiciário local tomou iniciativas para melhorar o processo de revisão dos casos.

3º LUGAR: Empresas de Seguro - Serviço ou Safadeza, Kansas City Star
Três repórteres passaram quase um ano analisando um banco de dados com mais de 35 milhões de registros de reclamações contra mais de 2.400 companhias de seguros dos Estados Unidos. A idéia era verificar quais são as reclamações dos clientes dessas empresas e como elas respondem a isso. A preocupação com o consumidor, segundo descobriram os repórteres Mike Casey, Mark Morris e David Klepper, varia muito conforme a empresa, o lugar do país e o tipo de cobertura. Logo na primeira reportagem, era mostrado o caso de uma mulher cujo plano de saúde não cobria internação hospitalar – e ela só descobriu isso ao receber uma conta de US$ 16 mil. Na última reportagem, o jornal demonstrava que as empresas de seguros passam por virtualmente nenhuma supervisão pública e que os encarregados pela pouca supervisão que há vêm das próprias empresas em que devem ficar de olho. A partir da análise do jornal, o Legislativo Americano passou a propor mudanças na regulamentação dos planos de seguros.

Quanto vale um presidente? Quem dá mais?

Entre os trechos que escrevi para meu livro neste domingo, estava um resumo do "The Buying of the President" (a compra do presidente), para a bibliografia comentada. Pois agora recebo a notícia de que acaba de ser lançada a edição de 2008, em meio às primárias. O website está neste link. Você também pode ler tudo sobre as edições anteriores aqui. Quer ver uma entrevista de Bill Hogan, o atual coordenador, a respeito? Vai lá:



O livro de 2004 é a maior e mais completa reportagem política que já li na vida, cruzando todo tipo de informações sobre a vida dos pré-candidatos a presidente. O de 2008 já entrou na minha lista de compras.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Um mestre se aposenta

Philip Meyer, o homem cujas idéias mudaram minha visão do que é jornalismo, está prestes a se aposentar. Está com 80 anos, e dará aulas na Universidade da Carolina do Norte até a última vez em que for bater ponto. O jornal Raleigh Chronicle, cujo editor-chefe é um discípulo de Meyer, publicou uma boa entrevista com o velho mestre, focando especialmente no papel dos jornais para o futuro.

A aposentadoria dele me deixa um pouco sem chão. É claro que ele merece esse prêmio de poder ficar em casa curtindo os netos -- coisa que será muito mais difícil para alguém da minha geração. Por outro, é uma pena ver um cérebro importante como o dele se retirando. OK, no Brasil muita gente boa cai fora duas décadas antes dele. Mas ainda assim.

Meyer é pouco conhecido no Brasil. É o autor de Precision Journalism, um livro que encontrei empoeirado e mal lido na biblioteca da faculdade há dez anos. Nunca foi publicado no Brasil, mas diz respeito à mudança no papel do jornalismo. Já em 1973, Meyer propunha uma forma mais aprofundada de apuração, calcada nas ferramentas da informática e nas metodologias de pesquisa das ciências sociais. Ainda hoje, esse tipo de trabalho é considerado quase ficção científica no jornalismo brasileiro. Nos EUA, porém, há um prêmio anual (que leva o nome do mestre) para as reportagens de apuração mais complexa. A terceira edição deve sair nas próximas semanas.

Seu livro mais comentado saiu no Brasil: é The Vanishing Newspaper (aqui, "Os Jornais podem Desaparecer?" - o primeiro capítulo pode ser baixado aqui). Acompanhei todo o processo de produção e li o livro assim que saiu lá fora. Acho que fui o primeiro brasileiro a ler. No livro, Meyer mergulha nos dados da indústria jornalística para tentar verificar as causas do declínio da leitura de jornais e apontar possíveis soluções.

(Embora o livro seja muito comentado, quase todos os comentários se concentram apenas numa gracinha escrita pelo autor na página 16. A frase está logo abaixo de um gráfico. Ele diz: "Tente esticar aquela linha com uma régua, e ele nos mostra ficando sem leitores no primeiro trimestre de 2043". Pra mim, tinha passado batido. Mas muita gente boa tratou isso como "previsão", como se Meyer fosse um Walter Mercado ou uma Mãe Dinah. Não é o caso, nem ele apresentou o dado como tal. Isso demonstra basicamente que o pessoal não costuma ler muito além do prefácio.)

Não consegui ser orientando de Meyer na UNC, em parte por conta da minha idade. Ainda não consegui trazê-lo ao Brasil - e olha que eu tentei várias vezes, por meio da Abraji e do Centro Knight. Em 2007 ele quase veio, mas enviou um amigo no lugar. Ainda não consegui publicar aqui a tradução do "Precision Journalism". Mas neste ano acho que pelo menos meu livro sobre o assunto deve sair. Apesar disso, consegui desenvolver uma relação respeitosa e produtiva com o velho mestre via internet. Sou imensamente grato a ele por todas as idéias que me deu, direta e indiretamente. Quase ninguém sabe, mas a idéia do projeto Excelências foi conseqüência direta de uma troca de emails com ele.

A repórter do Raleigh Chronicle perguntou a ele o que vai fazer daqui pra frente. Sua resposta:

    Vou escrever. Não sei bem o quê. Talvez artigos, talvez matérias para revistas, cartas para o editor. Quem sabe?