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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Não prestar é só o começo

Hoje eu vou contar a história de sucesso de um ex-gestor público que começou sendo acusado de roubar o dinheiro da merenda e acabou sendo preso sob a acusação de ser o mentor do segundo maior roubo a banco no mundo. É o mais edificante de todos os casos que já coloquei na seção Gente que Não Presta.

Uma das notícias mais espetaculares dos últimos anos, no Brasil, foi o roubo dos milhões de reais que estavam para ser destruídos no depósito do Banco Central em Fortaleza (CE). Foi o segundo maior roubo do mundo em quatro décadas, segundo a agência France Presse.

Neste final de semana, foi preso o ex-prefeito de Boa Viagem (CE) Antônio Argeu Nunes Vieira, apontado pela Polícia Federal como o mentor do crime. É esse galã aí do lado.

Até agora, segundo O Globo, a PF contabiliza 122 envolvidos presos, dos quais 36 teriam participado diretamente do assalto. Já teriam sido recuperados R$ 20 milhões em espécie, além de R$ 30 milhões em bens: como carros, casas e fazendas. Isso dá um terço dos R$ 150 milhões originalmente roubados. O mesmo grupo estaria ligado à tentativa de roubo do Banrisul da Praça da Alfândega, em Porto Alegre.

O jornal cearense O Povo conta que uma das principais pistas da autoria do crime foi encontrada ainda em 2005, na casa onde a escavação vinha sendo feita, alugada em nome de uma empresa de grama sintética. Era uma nota de compra das fitas usadas para lacrar os sacos de dinheiro. A nota estava em nome da empresa Big Brilho, de propriedade do ex-prefeito. Aliás, em sua declaração de bens deste ano à Justiça Eleitoral (sim, ele concorreu), ele declarou como seu único patrimônio uma participação de R$ 30 mil nessa empresa. Ali consta apenas o CNPJ, mas se você for ao site da Receita Federal poderá ver os dados inteiros da Big Brilho.

Antes do roubo do Banco Central, Argeu havia tido sérios problemas com as prestações de contas de sua prefeitura. Esta aqui, por exemplo, vem do TCU, em 26 de setembro de 2000:

    GRUPO I- CLASSE II- 1ª CÂMARA
    TC nº 012.365/1999-8
    NATUREZA: Tomada de Contas Especial
    ENTIDADE: Prefeitura Municipal de Boa Viagem/CE
    RESPONSÁVEL: Antônio Argeu Nunes Vieira

    Trata-se de Tomada de Contas Especial instaurada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimentoda Educação–FNDE, contra a Prefeitura de Boa Viagem–CE, em decorrência da omissão no deverde prestar contas de recursos federais recebidos pelo então Prefeito do Município, Sr. Antônio Argeu Nunes Vieira, à conta do Convênio nº 5103/96, no valor de R$ 88.118,00 (oitenta e oito mil,cento e dezoito reais), firmado entre a indigitada Prefeitura e o referido Fundo, tendo por objeto a reforma, ampliação e equipamento das escolas da municipalidade.

Ele não apareceu para prestar contas. Em 2002, foi condenado a devolver aos cofres públicos mais R$ 398.670,00 por não prestar contas de recursos públicos. Caso tenha tempo, o leitor pode ler uma por uma as várias menções a Argeu no site do TCU.

Quem não presta costuma ser incluído pelo TCU numa lista de candidatos inelegíveis. Argeu apareceu lá em 2000. Em 2004. Em 2008. Como no Brasil é feio prejulgar poderosos, os candidatos incluídos nessas listas podem se candidatar caso recorram. Assim, para concorrer neste ano, ele recorreu mais uma vez. Como a lei permite, ele ganhou uma liminar e teve seu nome excluído do cadastro de impedidos de concorrer. Concorreu. Perdeu feio. Pouco mais de um mês depois da eleição, foi preso por uma acusação bem mais pesada. (Não sei se a PF usou algemas. Se usou, tio Gilmar pode achar feio e anular o processo.)

Como eu não sou o tio Gilmar, me permito terminar assim: gente que não presta contas sempre corre o risco de evoluir na carreira.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Em Salvador também

Salvador tem muito a ver com Porto Alegre, especialmente no tocante à popularidade do reggae, umbanda e capoeira.

Ontem, também lá um jornalista foi agredido por um membro de uma campanha em Salvador - desta vez, do PT, que havia perdido a eleição no dia 5.

Do A Tarde de hoje:

    Fotografia - Walter Pinheiro queixou-se ontem, publicamente, durante a votação, de fotografia do repórter Sebastião Bisneto, publicada na edição de ontem na página 12. Afirmou que, durante a campanha, suas fotos não foram bem escolhidas pelo jornal. Logo após o fato ocorrido no Colégio Sátiro Dias, na Pituba, o fotógrafo, ao cobrir a visita do candidato à colégio eleitoral, em São João do Cabrito, foi empurrado por segurança de um dos dois carros que faziam a escolta de Pinheiro. Enquanto o fotógrafo estava de costas para o veículo, o mesmo carro, em vez de buzinar, encostou e empurrou o profissional. A coordenação da campanha disse que foi um fato isolado sem o aval da direção.

domingo, 26 de outubro de 2008

Faroeste gaúcho, ou Porto Alegre é (tosca) demais


A coisa está ficando pessoal.

Meu grande amigo Graciliano Rocha, que está em Porto Alegre como correspondente da Folha, é o mais novo ponto no mapa Faroeste Caboclo, que registra agressões e outros atentados possivelmente de motivação eleitoral.


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Ele foi agredido no comitê eleitoral por simpatizantes do José Fogaça quando ia cobrir uma entrevista coletiva (cancelada) do prefeito ora reeleito de Porto Alegre. Enquanto o poeta não falava, a birita rolava solta e de graça. Quando mestre Gra chegou, um cabo eleitoral o abordou dizendo que ele não era bem-vindo por causa de umas "matérias filhas da puta" que ele publicou no jornal paulista. Antes que ele respondesse, levou um soco no olho, foi derrubado no chão e afofado de pontapés. Meu amigo não reagiu, porque é grande e não é bobo.

Sim, Porto Alegre virou algo tipo Canapi, só que com prefeito poeta. Porto Alegre é demais.

Ele não conseguiu identificar o agressor, mas o comitê de campanha, oficialmente, teve a gentileza de telefonar pra ele explicando que ninguém lá tinha nada a ver com isso.

Eu li ao menos duas das "matérias filhas da puta" apontadas pelo militante. A mais recente mostrava que o prefeito distribuiu bônus-habitação em período eleitoral. Gerou um processo contra o prefeito, sob a acusação de compra de votos. Outra, de há um mês, mostrou que o coordenador da campanha de Fogaça, Luiz Fernando Záchia, era investigado pelo TCE pela compra de dois imóveis de luxo. Com isso, Záchia resolveu pedir o boné.

Matérias filhas da puta, claro. Como as denúncias eram documentadas, possivelmente até o nome do cliente constava da certidão de nascimento das filhas da puta.

Ao Diário Gaúcho (que classificou a agressão como "suposta" em título), o coordenador da campanha, Clóvis Magalhães (substituto de Záchia, o cavalheiro que pediu pra sair depois da matéria de setembro), deu a versão oficial:

    As questões implicadas devem ser pessoais e não da campanha. Eu lamento. O repórter deve tomar as medidas cabíveis.

(EDITADO: Mais tarde, por telefone, Magalhães me disse que, na hora em que foi entrevistado, não sabia do caso.)

Cerca de 50 pessoas assistiram à agressão. O comitê não identificou os agressores, até porque não tem câmeras externas. Claro, não que isso fosse esperado.

Findas as agressões, o poeta discursou aos seus apoiadores:

    "É isso que está, neste momento, sendo consagrado pelas urnas, um projeto que implantou na cidade um ciclo de mudanças, que plantou sementes para o futuro."

E sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra, já cantavam os outros.

Perdendo feio

Vanderlei Siraque, candidato do PT na Santo André dos assassinatos do Celso Daniel e da Eloá, quase ganhou a eleição há três semanas, no primeiro turno.

Agora, no segundo turno, ele perdeu. Mas não apenas perdeu: conseguiu a façanha de ser o único candidato em todo o Brasil que teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, na eleição deste ano.

Entre o dia 5, quando recebeu 182.387 votos, e hoje, quando ganhou 175.513, Siraque perdeu 6.874 eleitores - ou 3,8% dos votos que teve há 21 dias - a um ritmo de 387,3 simpatizantes perdidos por dia.

É um tipo de proeza que o Geraldo Alckmin conseguiu em 2006, quando perdeu em período semelhante quase 6% dos votos que ganhou no primeiro turno.

O povo que está cobrindo a eleição ainda não se ligou nisso. Nem o Estadão, que deu uma reportagem grande sobre a vitória do PTB na cidade, nem a Folha, que ressaltou que a derrota quebra 12 anos de administrações petistas na cidade, nem o G1.

Segundo estudo do Excelências (baixe aqui), o noticiário já apresentou Siraque como um dos deputados que mais expandiram seu patrimônio entre 2002 e 2006. Seus bens se valorizaram em 493%.

Isso aumentou. Seus bens valiam R$ 88 mil em 2002 e R$ 522 mil em 2006, segundo a reportagem. De acordo com os dados que ele enviou ao TSE neste ano, seus bens hoje valem R$ 758.906,71. É um aumento de 862% em seis anos, segundo o Excel me informa.

(Pra fins de comparação. Seu patrimônio cresceu a um ritmo de R$ 9 mil mensais nos 72 meses entre janeiro de 2002 e janeiro de 2008.)

Siraque também teve como principal doadora de sua campanha à Assembléia Legislativa, em 2006, a Petroquímica União. Foram R$ 200.000,00. Se você é leitor antigo deste blog, talvez lembre do link entre Petroquímica União e Santo André apontado no post Poluentes e Influentes: ela é a indústria que mais polui na cidade.

Mas, bom, ele não ganhou. Pelo contrário: perdeu até votos que teve no primeiro turno. Cabe à imprensa do ABC ficar de olho no vencedor, agora.

O nível lá de cima é mais alto

Acabo de inaugurar mais uma tag para este blog. É a "Academia Pangloss de Direito e Balé", dedicada a observar os excessos de otimismo de nossos queridos juízes. Em particular os eleitorais, que são mais propensos a tais arroubos.

Por exemplo: hoje, no começo da tarde, o presidente em exercício do TRE-RJ, doutor Alberto Motta Morais, sobrevoou a cidade de helicóptero e declarou que, lá de cima, ele viu que a eleição transcorria sem problemas. "Parece feriado na cidade do Rio de Janeiro. As ruas e os locais de votação estão absolutamente tranqüilos", disse ele a O Globo.

Uma hora e meia antes, o mesmo site publicava a seguinte notícia:

    Traficantes da Cidade de Deus dispararam contra um grupo de fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) que faziam uma operação na comunidade. Ninguém ficou ferido, mas o clima continua tenso no local.

Também. Quem mandou não pegar o helicóptero pra fiscalizar a eleição?

Mais tarde, à Agência Brasil, o chefe da Fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Santa Brígida, tranqüilizou a todos com a informação que trouxe. Segundo ele, realmente traficantes dispararam tiros, mas o alvo não era nenhum fiscal da eleição. Portanto, pelas minhas contas, só eleitores concorreram a férias na terra dos pés juntos.

Ah, bom. Ufa, que alívio.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

E os mapas só crescem

Mais um ex-namorado descornado. Mais uma moça muito jovem. Mais uma arma. Mais um ponto no mapa "Descornados e Perigosos". Em Salvador.


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Um prefeito ameaça um vereador que teria denunciado irregularidades suas, no interior de São Paulo. No Piauí, um prefeito teria ameaçado um radialista. No Mato Grosso do Sul, mais um jornalista se diz ameaçado por um político. E o mapa "Faroeste Caboclo" só engorda.


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Pela terceira vez, um juiz eleitoral de Florianópolis manda apreender um jornal que publicou textos biliais sobre o prefeito e candidato Dario Berger. Mais um ponto no mapa "Censura Eleitoral".


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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

'Não vote em mim'

O prefeito Gilberto Kassab deu uma entrevista à rádio CBN, hoje, dizendo que se ele resolver se candidatar a algum cargo em 2010 seus eleitores não devem votar nele.

Político prometendo não concorrer a cargos mais altos não é novidade nenhuma. Mas esse negócio de pedir pra não votar tem mais história. Em 1996, o Maluf foi à TV dizer que, se o Pitta fosse um mau prefeito, não era mais pra votar nele. Deu no que deu.

(Pela trajetória decrescente das votações do Maluf, aliás, parece que aos poucos seus eleitores vão obedecendo.)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Faroeste carioca - o mapa

Hoje pela manhã, o vereador reeleito Alberto Salles (PSC-RJ) foi morto a tiros na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Anteriormente, em agosto, um assessor seu também sofreu um atentado a tiros. Os dois casos estão no mapa Faroeste Caboclo.

A visualização abaixo mostra onde os ataques se concentram na cidade do Rio de Janeiro e na região metropolitana.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TSE faz a apologia do analfabetismo funcional

O TSE considerou "rigoroso demais" o teste de alfabetização promovido pelo TRE de Alagoas para os candidatos. Segundo a notícia do TSE, a prova tinha dez questões. Três delas eram de marcar. As outras sete eram de escrever. O candidato a vereador Manoel Martim Filho respondeu apenas as de marcar. Acertou duas.

Não li o teste, mas li as aspas dos ministros nessa notícia:

Ministro Arnaldo Versiani, relator do processo:

    “O tribunal resolveu transformar esse teste de alfabetização num vestibular, na base de interpretação de texto”

    “Eu acho que o fato de a pessoa ser alfabetizada não significa nem que ela tenha condições propriamente de escrever. Eu acho que o que importa é a compreensão do texto que ela lê e que lança alguma resposta. A habilidade de grafia não é uma condição inerente à condição de alfabetizado”


Ministro Carlos Ayres Britto, presidente do TSE:

    “Há uma diferença entre dominar a língua e dominar o alfabeto. Dominar o alfabeto é uma coisa muito simples”

Ou seja: se o candidato conhecer as letrinhas, está qualificado para tentar ganhar a chance de fazer as leis de uma cidade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O tempo é o senhor da inconsistência

Pois Levy Fidélix, o homem do aerotrem, anunciou que vai apoiar a Marta no segundo turno de São Paulo.

Há oito anos e pouco, antes do primeiro turno, eu cobria as decisões do TRE para a Folha. Uma das pautas mais importantes nisso era o vaivém da candidatura do ex-presidente Fernando Collor de Mello à Prefeitura de São Paulo. Collor concorria pelo partido de Fidélix, o PRTB. O homem do aerotrem era o candidato a vice. Foi ele quem me deu a entrevista para comentar a decisão.

A aspa mais interessante dele falava sobre o partido estar jogando um "jogo de tapetão". Mas nesta ele falava da candidata que acabaria sendo eleita logo depois:

    "As esquerdas que se preparem. Collor é o melhor candidato de centro-direita e o eleitorado paulistano é de direita. O segundo turno vai ser entre Collor e o Lula de saias", disse Fidélix, referindo-se à petista Marta Suplicy.

Ele se referia também a um estudo então recém-publicado do André Singer, "Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro", muito em voga na época.

Como eu não gosto de aspas soltas, pro entrevistado falar o que quiser sem questionamento, coloquei o seguinte parágrafo para fins de contraste:

    Na pesquisa Datafolha divulgada hoje, Collor tem 1% das intenções de voto e 58% de rejeição.

Oito anos mudam muita coisa, percebe-se.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pangloss ataca novamente

Do O Globo:

    Em entrevista nesta segunda-feira, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, considerou a anulação das eleições no município de Benedito Leite (MA) como o caso mais grave ocorrido nas eleições deste ano. Ele disse que falou por telefone com a presidente do TRE do Maranhão, Cleonice Freire, que decretou a nulidade da eleição e convocou novo pleito para o dia 26 de outubro.

    O ministro relatou que cerca de 600 pessoas incendiaram urnas e mantiveram presos o juiz local e seu filho pequeno. A cidade já havia recebido auxílio de força federal com 11 agentes do Exército e 10 policiais militares, que conseguiram resgatar o juiz e a criança, mas não contiveram a destruição das urnas.

Contrasta bastante, na verdade, com a outra declaração feita também hoje por ele:

    "Ela transcorreu sem graves incidentes, portanto sem que as Forças Armadas tivessem que intervir nos locais [ 460 municípios] onde estavam posicionadas. Não houve uma única morte, nem emboscadas ou assassinatos"

Mas também contrasta bastante com as outras notícias de assassinatos.

E também contrasta bastante com outra que saiu agora há pouco no site do próprio TSE: no interior de Santa Catarina, mesários foram envenenados. Ninguém morreu, mas o piriri deve ter sido forte: colocaram agrotóxicos ou herbicidas na água usada para fazer o café.

Claro, em nenhuma dessas cidades foi preciso marcar outra eleição - o que significa custos, sem falar no equipamento destruído. Mas poxa: são assassinatos, é envenenamento. Não é pouca coisa. Não dá pra considerar que foi uma eleição "sem graves incidentes", concordam?

Não tenho elementos pra comparar a violência da campanha eleitoral deste ano à dos outros anos. Mas se isto aqui é tranquilidade, estamos na Suécia:


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Acuma? (Ou: de olho na aspa. Ou: Pangloss e o zepelim)

Algumas cidades brasileiras tiveram 100% dos votos computados para um só dos candidatos. Neste despacho da Agência Brasil, o presidente do TSE tentou tranquilizar os espíritos de porco que poderiam ver nisso um possível indício de fraude eletrônica:

    Ao comentar sobre casos ocorridos em alguns municípios, com um único candidato aparecendo com 100% dos votos, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, explicou que a candidatura do adversário pode estar sob análise da Justiça Eleitoral. "O outro candidato estava sub judice", justificou.

    Um desses casos ocorreu em Cocalzinho de Goiás (GO), onde o atual prefeito, Salomão Costa Araújo (PTB), obteve 100% dos votos, enquanto o outro candidato, Armando da Silva (PSDB), não teve registrado nenhum voto. De acordo com Ayres Britto, nesse tipo de situação, os votos do candidato sub júdice são contados, mas não divulgados, e o resultado da apuração é provisório, já que a Justiça Eleitoral ainda tomará uma decisão definitiva sobre a candidatura.

Então tá bom.

Outros candidatos sub judice, porém, tiveram seus resultados claramente demonstrados. É o caso de Carminha Jerominho, candidata presa que teve sua candidatura rejeitada no Rio de Janeiro. Nada disso a impediu de ser a 23ª mais votada na capital de todos os cariocas. Podem não ser casos exatamente comparáveis. Mas não consigo entender por que motivo se divulga os votos vereáveis da Batgirl e se dá 100% de votos prefeitáveis para o goiano.

Numa impressionante velocidade de cinco dias, o presidente do TSE também deu uma guinada de 180º em sua opinião sobre o voto facultativo. Neste outro despacho da Agência Brasil, ele diz que mudou de idéia: "A cultura brasileira é cultura brasileira. Ela é mais compatível com o modelo do voto obrigatório do que o modelo do voto facultativo." Vejamos o que ele disse no dia 1º, no debate que segundo ele mudou sua cabeça:

    “Eu entendo que temos um encontro marcado com esse tema no futuro e a legislação consagrará, como em outros países, a voluntariedade do voto. O eleitor comparecendo porque quer participar efetivamente do processo eleitoral e se engajando nas campanhas com mais conhecimento de causa e determinação pessoal”, disse Britto.

    “Como rito de passagem, a obrigatoriedade do voto deve permanecer ainda por mais tempo. Até que a democracia se consolide e que a economia chegue mais para todos”, ressaltou.

(Este blog sinceramente espera que ele mude de idéia sobre a conveniência do financiamento público de campanhas - proposta que, a pretexto de sufocar o caixa-dois, torna ilegal o caixa-um. Melhor solução seria tomar medidas para tornar o caixa-um mais transparente, inclusive em tempo real. Mas ainda prevalece no Brasil a doutrina Delúbio: "transparência assim é burrice".)

Outra declaração interessante do ministro Ayres Britto diz respeito à falta de incidentes graves na eleição, exposta por ele triunfalmente em entrevista coletiva:

    "Ela transcorreu sem graves incidentes, portanto sem que as Forças Armadas tivessem que intervir nos locais [ 460 municípios] onde estavam posicionadas. Não houve uma única morte, nem emboscadas ou assassinatos"

Gozado. Eu jurava ter lido notícias de vários casos ocorridos desde sexta-feira. Talvez estas notícias sejam ilusão de ótica, ou o conceito exato dos termos usados pelo ministro não esteja ao alcance de leigos:


Ou talvez eu seja apenas um espírito-de-porco. Não sei. Vocês acham?

Três poderes em um

Neste ano, eu estava meio de saco cheio para acompanhar a campanha eleitoral. Interessa-me muito mais o aspecto institucional da eleição, ou seja, como ela é conduzida, do que a dança das cadeiras de candidatos e partidos.

Nesse aspecto institucional, regulatório, o papel da Justiça Eleitoral é de profunda importância. A Justiça Eleitoral exclusiva é uma instituição que existe em poucos lugares (vale ler este artigo do organismo eleitoral canadense para ver uma comparação internacional).

E a Justiça Eleitoral brasileira tem uma característica possivelmente única em todas as democracias no mundo: ela exerce três poderes em um só, no tocante à eleição.

Como é?

Vejamos:

* A Justiça Eleitoral legisla, por meio das resoluções eleitorais que determinam como deve ser feita a eleição. Por exemplo, foi uma resolução da Justiça Eleitoral que permitiu a interpretação que proibia a imprensa de publicar entrevistas com pré-candidatos - o que levou a uma série de multas a meios de comunicação, o que derrubou a resolução quando os maiores meios do Brasil foram multados e a coisa ficou feia.

* A Justiça Eleitoral executa, admininstrando a eleição. É do seu orçamento, por exemplo, que são pagas as urnas eletrônicas, a logística inteira do sistema e até mesmo os custos das forças de segurança que reforçaram cidades conflagradas como o Rio de Janeiro no dia da votação.

* A Justiça Eleitoral também julga, obviamente, para resolver conflitos advindos da eleição. Quando são conflitos entre candidatos, a coisa é completamente natural. A coisa começa a ficar interessante mesmo é quando os julgamentos colidem com as funções legislativa e executiva da Justiça Eleitoral.

E eles colidem. Por exemplo, quando questionam resoluções da própria Justiça Eleitoral sobre propaganda na internet e demoram pra andar, e mesmo assim andam pouco. Ou quando questionam o sistema eletrônico de votação - um tipo de contestação que até hoje nunca prosperou na Justiça Eleitoral, em mais de dez anos, mesmo com algumas alegações tecnicamente graves sobre fragilidades no voto eletrônico (leia texto anterior que escrevi sobre isso).

No próximo post, vou contrapor algumas falas recentes do presidente do TSE ao noticiário dos últimos dias. Aguarde.

domingo, 5 de outubro de 2008

Mapas eleitorais

Esqueça o mapa de quantas capitais cada partido ganhou. Esse você vai ver a rodo amanhã em todos os jornais, TVs e sites. Os mapas que você não vai ver tão facilmente são os dois que preparei ao longo da campanha eleitoral.

O primeiro é o da censura em época de eleição. Meu monitoramento detectou desde abril 28 casos que podem ser considerados censura judicial. Eles se distribuem assim pelo território brasileiro:


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O segundo é o da violência eleitoral. Meu monitoramento detectou 61 ataques, atentados e confrontos no noticiário - dos quais 26 teriam acabado em morte. Quinze dos ataques - e três das mortes - ocorreram neste final de semana. (Dados atualizados às 15:00 de 6/10.)


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Deve haver mais do que isso, certamente. Mas esses são os casos que eu detectei.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Faroeste maranhense

Ontem, em São Pedro da Água Branca (MA), o vereador candidato à reeleição Edimar Ferreira de Sousa (PV) foi morto com um tiro na cabeça por um dos quatro homens que pegaram carona em seu carro. Mesmo com três testemunhas tendo estado no local do crime na hora da morte, a polícia ainda não sabe o motivo do assassinato, diz o G1.

É mais uma cruzinha para o mapa abaixo, que eu venho fazendo com todas as notícias do gênero que coleto. As eleições deste ano estão sangrentas.


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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Botando a mãe no meio

O senador Marcello Crivella é o primeiro candidato que eu vejo que põe a mãe no meio antes que os outros ponham - talvez pra ninguém xingá-la pelas costas. Da Folha Online:

    Crivella mudou sua estratégia de campanha e inaugurou nesta quarta-feira um comitê eleitoral na zona sul, área da cidade onde tem os maiores índices de rejeição. Para o evento, em Copacabana, levou até a mãe, Eris Bezerra Crivella, que mora no bairro.

    A mãe de Crivella disse que se sente "triste" ao ler notícias negativas sobre o filho. "Me sinto triste. Qualquer mãe se sente, mas fico confiante em Deus. Sei o filho que eu tenho. Nada dessas coisas atinge a moral dele", disse.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Enéas pirata vai tentar explicar tudo em 10 segundos

Essa eleição está genial. Tente escrever um texto que explique em 10 segundos a confusão toda. Do O Globo Online:

    O horário eleitoral gratuito desta terça-feira terá uma revelação entre os candidatos a vereador. O candidato Luciano Enéas Martines Nantes Soares, 37 anos, do Partido Trabalhista Nacional (PTN) vai tentar esclarecer ao eleitorado que não é filho do ex-deputado federal pelo Prona e candidato à presidência, Enéas Carneiro, mas sim do ex-vereador Osvaldo Enéas Nantes Soares. De acordo com o presidente do PTN, Kennedy Rodrigues, Enéas Filho vai dizer que pretende continuar o trabalho de seu pai na Câmara Municipal de São Paulo. Não se sabe se o mal-entendido será esclarecido, porque afinal o candidato Enéas Filho terá cerca de 10 segundos para desfazer a confusão que se formou em torno de sua candidatura.

    Com a barba comprida, grossos óculos para corrigir a miopia e o discurso enfático, Enéas Filho dava a entender no horário gratuito que era o herdeiro político de Enéas Carneiro, morto no ano passado, e bom puxador de votos.

    A semelhança entre o Enéas Filho e o original não foi mera coincidência. Além da caracterização física, Luciano incorporou a merca 'Enéas' a seu nome de batismo, Luciano Martines Nantes Soares. Nem no nome de seu pai, Osvaldo Nantes Soares, que passou se chamar Osvaldo Enéas Nantes Soares. Ambos trabalharam com o Enéas original e decidiram adotar o nome do deputado.

sábado, 30 de agosto de 2008

"El, el, el, militância de aluguel!"

Durante anos, foi esse o grito com que militantes do PT cumprimentavam os que agitavam bandeiras dos outros partidos. O grito foi se tornando cada vez mais raro nos últimos anos e, nesta época de descrédito da política, a militância inteira é terceirizada. Tanto que, vejam só, a campanha do PT é a que oferece a paga mais cobiçada.

Vejam esta excelente matéria do UOL, onde o repórter se fez contratar como militante. Alguns trechos:

    Segundo a legislação eleitoral, os cabos eleitorais não têm vínculo empregatício com os candidatos nem os partidos. Não há necessidade de contrato escrito e os acordos podem ser feitos verbalmente. Os comitês de Alckmin e Marta, no entanto, propõem contratos temporários, similares aos documentos firmados por lojas e fábricas em épocas de alta como Natal ou Páscoa. Kassab contrata os cabos eleitorais pela cooperativa CooperQuality, às quais os "militantes" são obrigados a se filiarem, mediante pagamento de taxa de R$ 10.

    (...) Ser pago para militar não é fácil para quem não tem indicação dentro dos partidos. Antes de conseguir a vaga no comitê central de Alckmin, bati à porta de outros dois escritórios da campanha tucana, dois da petista, telefonei para comitês regionais, preenchi fichas e passei um dia na sede da campanha de Kassab.

    (...) No comitê do DEM, peruas traziam os recrutados pelos escritórios regionais. Havia conhecidos de afiliados ao partido, jovens indicados por igreja evangélica de Santo Amaro e pessoas que tinham trabalhado na campanha de José Serra (PSDB), de quem Kassab herdou a prefeitura.

    Nas filas de espera para o cadastro, propagandas com fotos de favelas reurbanizadas, escolas recém-construídas e hospitais modernos na periferia estimulavam a conversa: "em época de eleição tudo funciona", dizia um. "É tudo assim, mesmo, pilantra", respondeu o outro.

    Entre os recrutados para a retaguarda de Alckmin, uma jovem comentava o vaivém do mercado: "A Marta tá pagando R$ 1.200. Umas meninas daqui foram chamadas para trabalhar lá".

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Candidatos marca diabo

Os moradores de São Paulo certamente conheceram o Stand Center, aquele shopping claustrofóbico de produtos xing-ling paraguaios que tinha na Paulista e foi fechado pelo prefeito. Bom, se você sentia saudades dele, é só ligar a TV no horário eleitoral. Vai ver pelo menos dois candidatos pirateados:

Enéias Filho, este rapaz barbudo que fala gritando rápido com a voz desgastada, tal qual o folclórico e falecido Enéas Carneiro, não é filho dele, e sim do ex-vereador Osvaldo Enéas (que, por sua vez, usava uma barba igual à do homem do Prona). O pai do candidato foi acusado de envolvimento com corrupção, em 2000. O original foi o recordista de votos na eleição de 2002, com 1,5 milhão de sufrágios - suficientes para levar alguns acusados de serem sanguessugas para Brasília em sua rabeira.

Se você viu o(a) Lacraia no horário eleitoral e pensou em votar no(a) grande amigo(a) do MC Serginho, seja lá por que motivo, cuidado: o(a) candidato(a) não é o(a) dançarino(a) que fez sucesso dançando a Egüinha Pocotó. Aliás, segundo a repórter Carol Rocha, do portal Terra, nem mesmo o partido que aceitou a candidatura admitiu saber que não era o(a) verdadeiro(a) Lacraia. O(a) original, entrevistado(a), se disse indignado(a) com o seu(ua) genérico(a).

Se você realmente está disposto a jogar seu voto fora com algum candidato bizarro, procure pelo menos bizarrices originais. Elas não faltam no horário eleitoral gratuito-uma-pinóia. Mas, já que vai pesquisar mesmo, que tal ver se encontra um candidato que lhe pareça um pouco sério? Recursos não faltam na internet pra pesquisar a capivara deles.

    COLABORE COM O BLOG: Conte aí na caixa de comentários qual foi a maior bizarria que você já viu no horário político neste ano.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Profissão perigo

A eleição anda acirrada pelo Brasil afora. Veja no mapa abaixo todos os casos de assassinatos ou atentados a tiros feitos a candidatos a prefeito e a vereador que detectei em 10 minutos de pesquisa:


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