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quinta-feira, 26 de março de 2009

Why so funny?

Hoje eu vi um negócio que me deu até uma ponta de medo.

Eu tava passando pela rua São Luiz, no centro de São Paulo, pra gravar meu comentário de hoje pra MTV. Aí passa na frente da van um sujeito carregando um carrinho cheio de caixas de papel pra xerox.

Tinha um negócio engraçado no cabelo dele: meio sujo, meio verde. Aí ele olha pra janela: o desgramado tinha pintado a cara que nem o Coringa do filme. Igualzinho.

Lembrei direto de notícias que li recentemente.

Em janeiro, na Bélgica, um ano e um dia após a morte do ator Heath Ledger, um cara vestido de Coringa matou dois bebês e uma babá numa creche. Semana retrasada, nos Estados Unidos, um militar vestido de Coringa, acusado pelo assassinato de um colega, apontou uma arma para dois policiais num parque nacional e foi morto pela polícia.

Aí me aparece esse entregador vestido de Coringa no centrão de São Paulo. Pode ser que ele não vá matar ninguém, mas de qualquer forma andar por aí com o rosto e o cabelo pintados de Coringa, de graça, é um mico BEM maior do que sair na rua com uma camiseta do Batman (como eu mesmo saio às vezes). Eu diria que é quase equivalente a sair de cueca na rua.

OK, a caracterização do ator é genial mesmo. Bizarra na medida certa, sem ser um palhaço canastrão. Mas tem mais coisa aí, tem um elemento que não me parece usual: o que tem nesse Coringa do Heath Ledger que faz um cidadão pagar esse tipo de mico?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Capela Fashion Week

Ontem eu brinquei no Twitter com a Liana Pithan: o enterro do Clodovil iria lançar as novas tendências para a moda fúnebre outono-inverno.

Por mais que eu estivesse brincando, o jornalismo online nunca me decepciona. Da Folha Online:

    Terno claro, em tecido branco riscado com pequenos quadrados cinza, gravata borboleta azul e lenço do mesmo tom. É assim que o estilista, apresentador e deputado Clodovil Hernandes é velado nesta quarta-feira na Assembleia Legislativa de São Paulo.

    A criação é do próprio estilista que, segundo assessores, desenhou o modelo durante o Carnaval deste ano.

    "É a primeira vez que ele está usando", afirmou o assessor e amigo João Toledo, que acompanha o velório próximo ao corpo.

    O caixão onde se encontra Clodovil está coberto por um véu e seu corpo é coberto por pétalas de flores até a altura da cintura; na mão, Clodovil segura um buquê de flores roxas, presente de uma amiga que também está no velório.

Nada contra. Legal a observação do repórter. Acho que daria um bom tempero numa matéria maior sobre o enterro e as questões políticas envolvidas (como a briga do presidente do PTC, partido pelo qual Clodovil se elegeu mas depois saiu, com a assessora do deputado). Mas uma matéria só sobre isso? Não sei.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O filme do Lula


Olá a todos que chegaram ao blog por conta do comentário no Notícias MTV. Hoje, falei sobre o filme "Lula, o Filho do Brasil", que conta a infância e juventude duras do presidente. O filme estréia em janeiro de 2010, o ano da eleição pra definir quem vai ficar com a cadeira dele - Lula e Dilma agradecem, obviamente.

Apontei algumas coincidências entre as empresas que financiam a produção do filme, sem pedir incentivo fiscal, e as que financiaram a campanha do presidente em 2006.

A Revista Época contou quem são os financiadores do filme. Uma empresa que financiou o filme e que eu não mencionei no comentário foi a Volkswagen, onde Lula trabalhou e teve forte atividade sindical. Quem diria: 30 anos depois...

Alguns vídeos com imagens da filmagem já estão no YouTube, como este:


Mas vamos ao que interessa: recursos pra conhecer melhor a política.

Você pode verificar quem foram os doadores da campanha do Lula em 2006 no site Às Claras, da Transparência Brasil. Estão lá as principais doadoras de recursos do filme. Fuçando um pouco no site, dá pra ver pra quem mais essas empresas doaram. Como elas doam para políticos de vários partidos, já viu. Mas vai ser interessante ver a reação da politicada toda quando o filme estrear. Fiquem de olho.

O filme é baseado no livro "Lula, o Filho do Brasil", da jornalista Denise Paraná. A obra foi editada no primeiro ano do primeiro mandato do presidente, pela editora Perseu Abramo, que pertence ao PT.

A autora entrevistou o Lula e vários de seus parentes para contar as dificuldades da vida do político, desde que saiu do semi-árido nordestino até fundar o PT. O filme, porém, termina antes disso - no episódio em que ele está preso por ter organizado uma greve no ABC e sua mãe morre. Um delegado federal, que mandava lá na cadeia, deixou ele sair do xadrez para ir ao enterro. Por acaso, trata-se do hoje senador Romeu Tuma.

Isso é uma coisa interessante de observar, até pra ver o quanto política não é uma área onde a lógica de torcida possa valer.

No início do governo Lula, Tuma era do PFL, que depois virou o Democratas, de oposição ao presidente. Alegando falta de espaço, ele saiu para fazer parte do PTB, que é da base governista. O filho do senador, Romeu Tuma Júnior, acabou virando secretário nacional de Justiça.

O mundo, afinal, gira, e política no Brasil é isso mesmo. O importante é ficar de olho, sempre, no que eles fazem com o cheque em branco que receberam na urna.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Um Grammy e uma negativa

Robert Plant ganhou cinco Grammys ontem, por seu trabalho com Allison Krauss ("Raising Sand"). Merecido mesmo: é um BAITA discão. Foi por conta de seu entusiasmo com esse trabalho que Plant não quis saber de voltar para o Led Zeppelin e ganhar milhões. Na cerimônia, quando um repórter perguntou por que ele não voltava, ele lascou:

-- Olha, meu chapa, sei lá que idade você tem, mas tenta cantar 'Communication Breakdown' de calça apertada.

Vejam o que é o Robert Plant cantando "Black Dog", do Led, com sua nova parceira. Eu, particularmente, adorei. Recomendo os fones de ouvido pra ouvir melhor o dueto. Allison Kraus cantando "gonna make you sweat, gonna make you groove" junto com o "Percy" é pra derreter os fortes. E esperem só o solo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cinco Woodstocks na Paulista???


Fiz as contas.

Se o Réveillon da Paulista tivesse mesmo os 2,4 milhões estimados pela prefeitura, daria mais ou menos uns cinco Woodstocks.

Ou o dobro da soma dos públicos estimados de Woodstock (500 mil), do festival da Ilha de Wight (600 mil) e do California Jam (200 mil).

Pelas minhas contas, também, caberia na Paulista com alguma boa vontade um décimo do público estimado.

Quem ganha com a inflação dos públicos?

Geralmente, cachês são calculados pelo público. Se foi isso, o sertanejo Daniel, os forrozeiros Saia Rodada, os axezistas Babado Novo e os semiroqueiros do Skank ganharam bem mais do que o possível. Com grana dos meus impostos.

Saiba tudo no Dicas de um Fuçador.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O dia em que o Batman morreu

Depois de muitas idas, vindas e negativas, o Batman morreu numa história do roteirista escocês Grant Morrison. Ela saiu com pouco alarde hoje, 14 de janeiro, no gibi Final Crisis 6.

Morreu de uma forma honrosa e heróica: matando o hipervilão cósmico Darkseid, que havia escravizado a Terra, e com isso salvando o mundo. Mais ou menos do mesmo jeito que o escritor Grant Morrison havia feito no arco "Pedra da Eternidade", quando escreveu a Liga da Justiça. Agora, em Gotham, começa a briga pela sua sucessão. Meu favorito é o sucessor natural: Dick Grayson, o primeiro Robin.

Adeus, Bruce Wayne. Ou até logo, considerando que em gibi quem é morto sempre aparece, que 2009 é o ano em que o Batman completa 70 anos de publicação e que o filme do Homem-Morcego acaba de reestrear para concorrer melhor ao Oscar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Defensores do todo-poderoso

Em Londres, um grupo de ateus resolveu pôr um anúncio nos ônibus dizendo:

"PROVAVELMENTE, NÃO EXISTE DEUS.
Agora, pare de se preocupar e curta sua vida."


O que eles fizeram com a sua descrença não é nada muito diferente, embora com o sinal trocado, do que absolutamente todas as religiões fazem para pregar suas crenças. A idéia é tão boa que fizeram o mesmo em Barcelona, logo depois. O único senão, apontam alguns ateus mais rigorosos, é o "provavelmente". O Guardian entrevistou Richard Dawkins a respeito.

Agora, carolas de toda sorte reclamam ao órgão regulador da publicidade que a campanha do ônibus ateu é mentirosa e vai contra os padrões comumente aceitos para a publicidade. Já foram recebidas 141 reclamações. Mesmo com o "provavelmente". Ah, que saudade do tempo do Torquemada! Não tinha tanta baixaria na tevê e nem se falava tão mal de pessoas importantes no jornal!

Eles, que acreditam no todo-poderoso, não precisavam fazer uma dessas. Era só deixar o ofendido decidir sozinho e punir os ofensores como lhe aprouvesse. Ou será que eles acreditam que provavelmente deus não vai fazer nada a respeito? Mas o cara não é todo-poderoso? Então, ora. Deixa ele provar que existe, caso exista, pra esses hereges verem só uma coisa. Afinal, o maior interessado em defender sua honra não é o ofendido?

Eu, no lugar dos diretores da campanha do ônibus ateu, faria o mesmo que seus oponentes, mas com sinal contrário: denunciaria todas as propagandas que dizem que certamente deus existe.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E o Quico?


Pois a Folha Online publicou, com base no que o site de fofocas TMZ publicou sem identificar a fonte, que a Gisele Bündchen ia casar com o jogador de futebol americano Tom Brady, seu namorado. Logo depois, o pai do jogador negou - e a Folha Online publicou também.

Em épocas de falta de assunto, fofocas sobre o namoro da Gisele Bündchen sempre rendem ótimos erros do churnalismo. Esta aqui, por exemplo, saiu no carnaval.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Deputado mexe o popozão e faz média com o funk

Que ninguém diga que os deputados brasileiros não trabalham. Vejam este projeto:

    Um projeto de lei apresentado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) na Câmara define o funk como "forma de manifestação cultural popular" e determina que o poder público garanta as condições para a democratização da sua produção e veiculação musical. Na justificativa da proposta, Alencar enfatizou que o movimento funk é hoje uma atividade de lazer e cultura popular das mais importantes, reunindo mais de 1 milhão de jovens todos os fins de semana, apenas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

    (...) Pela proposta, o Poder Público deverá garantir a proteção do funk e dos direitos dos artistas do movimento, reconhecidos como "agentes da cultura popular". Deverá ser assegurada a livre realização das festas e dos bailes para sua promoção.

    Se aprovada, a lei estabelecerá ainda que o poder público deve assegurar as condições para a democratização da produção e veiculação musical do funk, "de modo a minimizar o monopólio e a cartelização desse gênero musical" [NOTA DO BLOG: ou seja, via incentivo cultural]. O projeto define também que a discriminação e o preconceito contra o movimento funk e seus integrantes estarão sujeitos às penas previstas em lei.

Não é novidade que os funkeiros estejam querendo esse reconhecimento. O pleito consta do funk escrito pela Valeska Popozuda para o presidente Lula, após o encontro dos dois há algumas semanas. Mas há aí algumas questões de fundo.

Pessoalmente, acho que cultura popular não tem que ser algo que se reconheça por decreto. Quem tem que reconhecer cultura popular é o público dessas expressões. A julgar pelo sucesso do funk, seu caráter popular já está mais do que reconhecido. Obviamente há quem desgoste do ritmo (eu, por exemplo), mas lei nenhuma pode mudar isso.

O que me intriga mais é colocar o desgosto pelo funk na mira das patrulhas do politicamente correto quando prevê penas para quem "discrimina" o funk. E também não dá pra desprezar as grandes possibilidades de dinheiro público que se abririam com o reconhecimento. Afinal, no que depende da bolsa da Viúva, incentivo à cultura é o que não falta no Brasil.

OUTRO LADO: O BLUES
Blues era som de preto. De favelado. Mas quando tocava ninguém ficava parado.

Até os anos 60, quando o blues do Delta do Mississipi foi redescoberto e tocou fogo na criação do apogeu do rock, os discos de blues de raiz eram raríssimos porque só haviam sido vendidos em lojas "étnicas", no sul dos EUA.

Gênios como o Robert Johnson, na época, deviam soar mais ou menos como os letristas de funk. Ele abusa do duplo sentido e das metáforas sexuais ("squeeze my lemon till the juice runs down on my leg"). Fala em bater e dar tiro em mulher ("I'm gonna beat my woman until I'm satisfied", "Take my 32-20, boy, cut her half in two"). Mas ouçam o que ele faz com o violão, sozinho, ENQUANTO canta. E aqueles uivos! Esse é o patrimônio cultural que ele deixou. Viveu ferrado, morreu em circunstâncias suspeitas. Nunca ganhou um décimo da grana que os funkeiros ganham com os bailes.

Desconheço se o Congresso dos EUA aprovou, alguma vez, alguma lei consagrando o blues de raiz como forma expressão cultural. Até onde eu saiba, nunca - a consagração veio dos que amam a música. Cultura popular, consagração popular.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cinema brasileiro: pouca idéia na cabeça, muita grana na mão

O blog Cinema em Produção traz um interessante artigo com a cobertura de uma conferência sobre os desafios culturais e econômicos para o cinema brasileiro, ocorrido neste final de semana em São Paulo. Segundo os conferencistas, dinheiro é o que não falta no cinema brasileiro. Pra atiçar a curiosidade, leiam essas frases do secretário municipal de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil:

    "No Brasil, tudo é ao contrário. Tem gente ganhando dinheiro e a atividade está indo para o buraco. Há negócios, mas não há mercado"

    "Na época da Embrafilme, havia uma dependência de 70%, 80%. Hoje é mais de 100%"

    "O cinema brasileiro é escolhido por comissões de bancos que não entendem nada de cinema, é bancado pelo governo e 100% incentivado."

    "Falar em 100 filmes por ano é uma tolice, é distribuir dinheiro. É uma realidade baseada em uma outra conjuntura, do tempo das pornochanchadas. Essa política não dá resultados, isso não é competitivo hoje"

Isso sem falar que a intermediação governamental do incentivo ao cinema é uma das atividades mais gratificantes do serviço público brasileiro, como comentei aqui outro dia.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A lógica do engarrafamento e a falta que faz o cabo de enxada

Dez dias antes do primeiro show da Madonna, diversos desocupados já acamparam na frente do estádio do Morumbi, numa inequívoca oportunidade de ocasião para qualquer bandido que se preze.

Eles são um pouco mais velhos que os fãs do Rebelde, mas têm mais ou menos a mesma mentalidade. Se duvidar, há até tios dos fãs do Rebelde ali no meio. Em setembro, eles se acotovelaram na internet, altas horas da madrugada, pra comprar um ingresso caríssimo num site de metodologia obscura - e que, por vezes, cobrava dobrado. Agora, já com o ingresso no bolso, largam tudo (sei lá se tiram férias do trabalho ou se simplesmente são desocupados) pra se dedicar por dez dias à nobre atividade de esperar a Madonna tocar, expostos ao sol e à chuva.

Eles dirão que é por amor à música. Mas, pra mim, isso soa mais a falta do que fazer, temperada por um vezo antropológico nativo.

O pessoal em São Paulo gosta de fazer fila. O trânsito é uma boa prova disso. A mentalidade do engarrafamento, porém, se estende a todas as atividades humanas - em especial às culturais e gastronômicas.

Ainda outro dia fui ao cinema assistir "Rebobine, por favor". Os ingressos eram gratuitos, então havia uma fila para obtê-los. Até aí, normal. Então, passou o sujeito da bilheteria entregando os bilhetes. Ingresso garantido, coloquei-o no bolso e fui sentar à sombra, beber uma água, algo assim. A fila continuou lá - desta vez, esperando a porta abrir. Deixei a fila passar e só entrei quando já estava aberto. Peguei um ótimo lugar. Com a vantagem de que ainda aproveitei a sombra e bebi água.

Gosto muito da padaria Bella Paulista, na Haddock Lobo. Mas há vários meses me recuso a comer lá. A comida é deliciosa, os pães estimulam todos os sentidos, mas a fila é insuportável. Não acho que valha a pena ficar 20 minutos na fila por um bom pedaço de pizza e uma caldereta de chope gelado. Há outros lugares, até ali perto, que servem o mesmo, com qualidade e respeito ao valor do meu tempo.

Em 2005, eu fui algumas vezes a um bar de jazz muito bom que abriu no Bexiga. Como ele estava abrindo, ia pouca gente. Um dia, vi lá dois músicos tocando apenas o cancioneiro do Robert Johnson, com um violão monstruosamente bem-tocado e tudo mais. Ao sair, cumprimentei o dono. Travou-se este diálogo:

-- Genial, este bar. É bom aproveitar agora, porque daqui a um ano certamente isso aqui vai estar lotado.

-- Um ano é tempo demais, quero que estoure logo!

Como não tinha fila na porta - embora fosse isso o que mais me atraía lá, além da qualidade da música -, ele fechou em pouquíssimos meses. Uma pena. Hoje, no mesmo lugar, funciona uma casa de pagode. Mais uma vez a lógica do engarrafamento venceu a lógica da qualidade.

No fim, tudo isso são sintomas de como cada um usa seu tempo. O meu, pessoalmente, eu trato feito diamante.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Piuí, piuí, piuí, abacaxi...


Lembra daquele concurso da Ancine que eu relatei ontem? Pois é: ele é só o começo, aparentemente. Da Agência Câmara:

    A Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público aprovou na quarta-feira (26) o Projeto de Lei 3946/08, do Poder Executivo, que cria 100 cargos efetivos no quadro de pessoal da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Serão 44 cargos de Técnico em Regulação da Atividade Cinematográfica e Audiovisual e 56 técnicos administrativos. O impacto orçamentário anual será de R$ 4,05 milhões.

    A contratação dos novos profissionais atende, além da necessidade de pessoal, a termo de conciliação judicial firmado com o Ministério Público do Trabalho em que a União se comprometeu a substituir, até 2010, os terceirizados da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.

    O relator, deputado Vicentinho (PT-SP), recomendou a aprovação da matéria. "O provimento dos cargos gerará um impacto estimado em R$ 329 mil mensais. Mas os órgãos de controle entenderam que é irregular a terceirização de determinadas atividades, que precisam ser exercidas por servidores efetivos", afirmou Vicentinho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Gratificante

Trabalhar na agência que regula o cinema no Brasil deve ser muito gratificante.

A rotina inclui aprovar grana pública para os filmes da Xuxa, carimbar o incentivo fiscal de clássicos como "Tronco" (o filme mais caro do Brasil, que custou proporcionalmente R$ 2.500 para cada um dos mil espectadores que teve) e apoiar festivais-boca-livre em Miami e outros cantos do mundo para um elenco estrelado de atores globais.

O salário também não é nada mau. Vejam só esta notícia do O Globo:

    Vai até o dia 21 de dezembro o período de inscrição para o concurso do Agência Nacional do Cinema (Ancine), que será realizado pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O órgão federal vai preencher 30 vagas para o cargo de Especialista em Regulação da Atividade Cinematográfica e Audiovisual, que exige nível superior em qualquer área, e 25 postos para Analista Administrativo, com vagas divididas para bacharéis em Biblioteconomia, Ciências Contábeis, Ciências Exatas ou Tecnológicas, além também de qualquer área de formação. Todas as vagas se destinam à cidade do Rio de Janeiro e o vencimento básico será de R$ 3.700, que, com as gratificações, chega a um inicial de R$ 9.552.

De fato, poucos cargos do serviço público gratificam tanto. Na Polícia Federal, por exemplo, os agentes reclamam que o governo não paga horas extras e não dá recursos pra obras vitais para o combate ao crime organizado. Quando eu estudei numa universidade federal, também, vira e mexe havia greves por conta dos salários dos professores.

Deve ser um jeito de mostrar que o governo prioriza a cultura, certamente.

Contornos borrados

Assisti neste sábado a um filme muito interessante: "Rebobine, Por Favor". É uma comédia inteligente do diretor Michel Gondry, o mesmo de "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Mas vai ser difícil assistir, visto que só chegou uma cópia ao Brasil. Se vir na programação, corra para assistir. Enquanto isso, veja o canal deles no YouTube.

Se você acompanha o que se produz e distribui na internet, e o debate sobre isso, o filme é um prato cheio de sementes de idéias. Pena que o debate com o diretor, no Museu da Imagem e Som, estivesse tão cheio de estudantes tietes pedindo autógrafo e querendo que ele fizesse no palco a lição de casa deles. Podia ter sido bem produtivo. (Enchi o saco meio rápido e saí pra tomar um cafezinho.)

A história gira em torno de uma locadora de filmes dos anos 80 em VHS numa cidade pobre de New Jersey. Essa locadora fica numa casa condenada, onde o dono da lojinha (Danny Glover) diz ter nascido um grande pianista de jazz. Ameaçado de fechar, ele inventa umas férias e deixa seu filho (Mos Def) cuidando da loja. Ocorre que o filho tem um amigo completamente desastrado (Jack Black), que ganha temporariamente poderes magnéticos e simplesmente apaga todas as fitas da locadora.

Para ter o que entregar aos clientes sem dar na vista, eles começam a fazer suas próprias refilmagens amadoras dos filmes pedidos. Ficam assim:



As refilmagens ("suecadas", na definição do personagem de Jack Black) fazem sucesso e atraem multidões, que também passam a participar dos seus filmes. Isso gera conflitos com quem administra o copyright, que busca cobrar indenização dos autores das fitas "suecadas" por conta da propriedade dos filmes originais.

Se você já tentou acessar um vídeo no YouTube que havia sido tirado do ar por conflito de direitos autorais, percebe que é a mesma coisa em versão analógica. Hoje mesmo, no Valor Econômico, há uma notícia interessante a respeito: nos últimos 18 meses, uma associação que defende os direitos dos estúdios de cinema conseguiu na Justiça 268 sentenças contra piratas de DVDs. A polícia é acionada sempre que um pirata é identificado.

Há dez anos, sites de fãs de personagens de quadrinhos nos EUA costumavam ser acionados pelos detentores dos direitos - que buscavam retirar do ar as ilustrações utilizadas. E, se eu fizer meu próprio filme do Batman, ou uma versão editada do que bateu recordes de bilheteria, estou infringindo os direitos autorais da Warner ou alimentando a fama do personagem? As fitas "suecadas", que não eram exatamente copiadas de versões originais, seriam pirataria ou uma outra coisa?

Os contornos do direito autoral estão bastante borrados. Eu ainda tenho o costume de comprar CDs, mesmo sabendo o quanto é fácil baixar música da internet. Mas eu os ouço mais num aparelho de MP3 que carrego no bolso do que no CD player da sala. Para isso é preciso converter no computador, e o iTunes permite. Não há objeções a isso. Mas se eu copio um dos meus CDs raros do Deep Purple para presentear meu amigo Abdalla, que canta em homenagem aos mestres, estou violando os direitos autorais deles? E se eu faço um podcast sobre o Deep Purple contando a história de como evoluiu uma das músicas deles, usando vários trechos de diversas faixas, estou violando direitos autorais? E se eu pego meu violão e gravo uma versão de "Smoke on the Water" em ritmo de bossa nova, estou violando direitos autorais ou criando? (Ian Gillan talvez ache que não; mandei o arquivo para ele há alguns anos e ele respondeu: "Groovy!")

Mas, ao mesmo tempo, em seu "Ilícito", Moisés Naím conta como os terroristas que fizeram os ataques de 11 de março na Espanha usaram a venda de DVDs piratas para financiar seu negócio. Não era troca de arquivos, e sim venda em escala. O crime é o lucro, então? Não, acho que não. Mas a questão econômica aí é crucial.

Cada vez mais, a tecnologia facilita e barateia a cópia - e o preço é o principal motivo pelo qual alguém compra ou troca cópias extra-oficiais filmes ou músicas. Eu adoraria presentear o Abdalla com o DVD original de "Highway Star", o documentário que comemora os 40 anos de carreira do Ian Gillan. Pelo meu original, porém, eu paguei 20 libras em Londres. Eu simplesmente não tinha grana pra comprar duas cópias. Mais fácil comprar o meu e copiar pro amigo.

Em outubro, o advogado americano Lawrence Lessig deu uma entrevista interessante ao Marco Aurélio Canônico, da Folha Online. Em seu livro "Remix", Lessig fala na criação de uma cultura em que a audiência passa a ser também criadora, reciclando as idéias de seu consumo cultural. Porque hoje ela dispõe de ferramentas para isso, assim como o personagem do Jack Black tinha uma câmera VCR pra fazer as cópias "suecadas". Segundo Lessig, o principal foco de sua discordância com o cabeça da MPAA é o que fazer com os adolescentes que já começam a ouvir música baixando da internet. O general do copyright acha que uma geração inteira está fora da lei. Lessig acha que não vale a pena criminalizar uma geração inteira. "Os EUA têm tantos problemas maiores que não acho que o próximo presidente vá ter tempo para tratar de direitos autorais", diz ele.

Essa declaração vai mais ou menos na linha do que o Moisés Naím disse em 2007 num debate no Conselho de Relações Exteriores, uma ONG dos EUA. Alguém perguntou sobre a pirataria. Ele disse que, com a explosão das atividades ilícitas por conta das facilidades da tecnologia, do transporte e das finanças criadas nos últimos anos, o único jeito de combater eficientemente o crime organizado seria escolher bem as lutas em que entrar. Até porque os recursos são escassos. Apreender DVD pirata, por exemplo, é um tipo de ação visualmente forte com aqueles rolos compressores passando por cima (uma imagem que tem no filme também), mas é muito menos crucial do que atacar o tráfico de crianças. Para Naím, as próprias empresas interessadas precisam buscar formas de coibir isso por meio de tecnologia, deixando a polícia livre para fazer coisas mais importantes. Isso exigiria uma mudança no modelo de negócio para proteger o copyright - no que, como se vê, ele discorda de Lessig:

    That companies that are operating in areas that are vulnerable to counterfeit and that is now, as you said, almost all will have to think this through and change their business model. And as they say, moving from hoping for the perfection of governments and patents and lawyers to finding ways, tools, technologies that protect them.

    I was fascinated one -- one of the good examples I got was from the movie industry. They are, for example, moving to a new model in which the DVDs that the movies that we now watch at home are going to be a commodity which they have no hope of containing. And they're developing different technologies to change the experience of watching a movie that you can only get at their theatres under their circumstances. And one of the ways in which they are changing is that there will not be a physical product with the movie. There is going to be beamed through very encrypted and very complicated ways from certain centers to movie houses that are going to then project what they call 'project an experience,' which is not only a movie but is a, you know, the whole experience. You would go there because it's the only way of getting something that you cannot get at home by playing your DVDs, and there are plenty of examples of initiatives the industries is taking to protect themselves.

Pessoalmente, e nesse ponto o filme também toca, há uma coisa que me incomoda um pouco no YouTube e correlatos. Acho que há um excesso de material já disponível comercialmente e uma escassez de material produzido criativamente e caprichado. Essa oferta vem crescendo, mas a maior parte dela está ainda "suecada", referenciando material comercial. Há um potencial grande para distribuir coisas novas ali - e acho que o melhor exemplo é aquele grupo de estudantes de cinema austríacos que começaram chamando atenção para si mesmos forjando uma campanha eleitoral.

Gondry, porém, não ousa ir muito longe na defesa das idéias de seus personagens. Ele defende que a audiência faça seus próprios filmes, ainda que imperfeitos. Mas, ao saber que seus filmes não são distribuídos comercialmente no Brasil sequer em DVD, não defendeu que a platéia os baixasse da internet. (OK, ele não é bobo: a incompetente-porém-fashion tradutora do debate era do departamento de marketing da distribuidora do filme no Brasil.)

    SERVIÇO: O site AlwaysWatching.com pôs no ar os 10 melhores filmes suecados pelos fãs de "Rebobine, Por Favor".

    O Museu da Imagem e Som, em São Paulo, vai manter até janeiro a exposição sobre o filme, onde você mesmo pode fazer seu próprio suecado se chegar a tempo de participar de uma oficina.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Nasce outro clássico


Num inédito esforço de harmonização política neste momento delicado da conjuntura internacional, deputados governistas e de oposição acabam de finalizar...

...um momentoso DVD de música popular brasileira interpretada pelos digníssimos representantes da nação, que será distribuído para amigos dos próprios, segundo O Globo.

Destinado a tornar-se um clássico ainda maior do que o CD do Roberto Justus (resenhado pela Piauí), ele inclui, entre outros petardos:

    * "London London", na voz de Demóstenes Torres e Roseana Sarney. Não esqueçam que Demóstenes é o cavalheiro looking for flying saucers in the sky no dia em que saiu a Playboy da Gestante

    * "Black is Beautiful", com Demóstenes Torres (homenagem a Barack Obama, possivelmente por ambos serem do partido Democrata)

    * "Se Todos Fossem Iguais a Você", com José Múcio Monteiro

    * "As Rosas Não Falam", com Kátia Abreu

    * "Evidências", com Kátia Abreu

Se algum dos leitores deste blog for amigo de algum deputado e quiser me ver feliz, por favor, entregue uma cópia desse clássico ao Papai Noel para que ele me traga de presente de Natal. Serei eternamente grato.

Pelas minhas contas, o clássico foi gravado no dia 25. Esta é a cobertura que o "A Nova Corja" fez sobre a atividade na Câmara naquele dia:

    08h42 - Setor de turismo debate preparação para a Copa do Mundo

    09h18 - Comissão debate imigração de profissionais estrangeiros

    09h40 - Primeiro-ministro de Cingapura visita a Câmara

    09h43 - Amazônia discute Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas

    09h46 - Parlamentares brasileiros e europeus debatem preservação ambiental

    10h18 - Deputados participam de congresso contra exploração infantil

    11h54 - Frente avalia sugestões da sociedade sobre política climática

    13h44 - Plenário encerra sessão extraordinária sem votações

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tá liberado

Se você é um católico fervoroso, agora pode ouvir Beatles sem ter que mencionar o fato em sua confissão ao padre. Pois o Vaticano acaba de perdoar John Lennon por dizer que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo e que a cristandade ia acabar acabando antes do roquenrôu.

O perdão está no editorial de uma edição especial do Osservatore Romano sobre os 40 anos do White Album dos Beatles. "Depois de tantos anos, soa apenas como o orgulho de um rapaz inglês de classe trabalhadora lutando para conviver com o sucesso inesperado", diz o house organ do Vaticano.

Alguém mais cínico diria que a igreja esperou a morte do roquenrôu pra perdoar o John Lennon com aquele sorrisinho de quem ganhou a queda-de-braço. Mas o roquenrôu não morreu, e estão aí os novos roqueiros que não me deixam mentir: AC/DC e Guns'n'Roses nas paradas de discos, Queen passando pelo Brasil, Led Zeppelin procurando um novo vocalista...

Ah, vitalidade se mostra com bandas de menos de 20 anos de estrada? Então não sei. Mas até aí a igreja também continua tocando mais ou menos a mesma música desde antes de o tataravô do Keith Richards existir.

domingo, 23 de novembro de 2008

Back to basics

Já repararam como, nos últimos anos, várias manifestações da cultura pop resolveram voltar à origem dos personagens? Os dois filmes mais recentes do James Bond são isso. O filme anterior do Batman, "Batman Begins", tratou disso. Durante anos, fez sucesso a minissérie "Smallville", com as histórias do Superman antes de ser o Superman. Até o Che Guevara antes de ser o Che Guevara apareceu em "Diários de Motocicleta". Das três primeiras partes de Star Wars, nem se fala - até porque é outro conceito.

Nesta semana, li sobre um futuro filme de Jornada nas Estrelas que mostrará o início da amizade entre Kirk e Spock e sobre filmes com os X-Men antes dos filmes dos X-Men. A Marvel Comics, diga-se, investiu pesado nisso no início da década, ao sair de uma pesada crise financeira que quase levou a empresa à falência. Eles apostaram em filmes bem-produzidos (sendo o primeiro o dos X-Men) e numa linha de quadrinhos que recontasse do zero as histórias dos heróis conhecidos - a linha Ultimate, publicada aqui em "Marvel Millenium: Homem-Aranha".

Outra coisa que tenho percebido é a tendência de ressuscitar autores por meio de outros. Já li "The Godfather Returns", escrito por Mark Winegardner - que venceu um concurso feito pela família de Mario Puzo. Agora, saiu no Brasil "A Essência do Mal", de Sebastian Faulks "assinando como Ian Fleming". É uma nova história de James Bond. No caso do Chefão, o estilo de Winegardner não é muito fiel a Puzo - o original era muito mais sutil. Mas o novo autor não faz feio. No caso de Bond, ainda não li pra fazer meu juízo.

Se isso acontece, é porque há demanda, porque agrada. O que vocês acham desse tipo de livro e filme?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ah, a adolescência...

Conta O Globo que os fãs adolescentes da banda RBD estão acampados há mais de três meses esperando seus ídolos tocarem no Rio e em São Paulo. Eles justificam com uma faixa: "Amor de fã não tem preço e não se explica, se admira: 72 dias por um sonho". É prato cheio pra qualquer assaltante ou estuprador que preze seu ofício, numa cidade como estas.

Eu, que não suporto fila nem pra entrar no ônibus, não consigo entender por que é que essa molecada faz dessas. Pra mim, isso é falta de pegar em cabo de enxada.

E o pior é que geralmente os pais são recrutados para participar do mico. E TOPAM! Em agosto, eu já havia escrito sobre outra histeria do gênero, com a constrangida participação dos pais. Não consigo entender como é que eles topam. Pra mim, isso é medo de contrariar a criança. O que não é nada educativo. Nem seguro, diga-se.

OK, você pode argumentar que eu tenho mais que o dobro da idade da média dos fãs do RBD. Também tive na adolescência minhas preferências musicais, tão arraigadas que seguem até hoje. Mas não me vejo esperando mais do que uma hora na fila para ver o Deep Purple tocar, e olha que não dá pra comparar uma banda de músicos de verdade com os personagens de um programinha de tevê.

No meu tempo eu tinha mais o que fazer da vida. Com 14 anos eu trabalhava, por exemplo, como digitador. Aprendi pra caramba e me orgulho disso. Mas a histeria politicamente correta de hoje em dia tornou feio botar crianças pra trabalhar. Também tornou-se feio deixar de fazer as vontades das crianças. Ao mesmo tempo, também criou-se uma hipercomercialização da vida privada, especialmente entre os adolescentes. Junta tudo isso e o resultado é essa situação aí.

Disse e repito: o que falta é cabo de enxada.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Na dúvida (hic!) proíba-se

Bebe-se no Brasil. Com algum afinco. E também se anuncia bebidas no Brasil. Especialmente no verão. Quem bebe corre o risco de causar acidentes de trânsito, e tá aí a lei seca que não me deixa mentir.

Agora, nossos nobres representantes na Câmara dos Deputados aprovaram um projeto que, em sua avaliação, pode ajudar a resolver parte dos problemas da humanidade. A lei proíbe a publicidade de bebidas alcoólicas no rádio e na TV. Falta ser aprovada no Senado. Conheça aqui o projeto.

É mais um exemplo da lógica do "na dúvida, proíba-se". Mas vale a pena olhar com mais vagar, pois o caso tem ainda mais nuances: a proibição é bem seletiva.

O projeto não proíbe a publicidade de todas as bebidas alcoólicas, diga-se de passagem. É só das mais fortes, aquelas com mais de 13% de teor alcoólico. Aquelas propagandas de auto-ajuda do uísque Johnnie Walker estarão proibidas se o projeto passar no Senado, assim como as da Sagatiba e de Velho Barreiro. Vinho teria que ver caso a caso - alguns chilenos passam de 13%, mas a maioria dos vendidos por aí não passa dos 12,5%.

Assim, foram proibidos na prática apenas 4,3% dos anúncios de bebidas. É mais ou menos o mesmo que nada. Se o Congresso fizesse jus à sua fama arduamente conquistada e simplesmente não tivesse feito lei nenhuma a respeito, o efeito seria mais ou menos o mesmo.

Como é? Explico. Quando você pensa em anúncio de bebida alcoólica na TV, que bebida vem à sua mente? Que bebida usa anúncios mais freqüentes e persuasivos? Que bebida faz guerra com as concorrentes no intervalo comercial? Cerveja, claro.

Aí vem a pegadinha: como cerveja tem em média uns 3,5% de álcool, está excluída da proibição. Na Alemanha, cerveja é considerada um alimento tradicional, por conta dos cereais utilizados em sua fabricação. Aqui, porém, ela fica de fora por não entrar na média de corte. "Especialistas divergem" a respeito da conveniência da publicidade de cerveja, diz uma outra matéria da Agência Câmara. Mas os fundamentos da divergência não são mostrados.

Essa omissão da Agência Câmara complica muito a vida de quem quiser explicar essa distinção para o guardinha que se aproximar da janela de seu castelo de lata com a caneta, o bloquinho e o bafômetro na mão por conta da outra lei do tipo "na dúvida, proíba-se", a lei seca.

(Antes de prosseguir, é mister informar que nada tenho contra cerveja, especialmente se gelada. Mas gosto muito mais de cruzar informações.)

Como tenho orgulho do meu espírito de porco, fui verificar no Ibope como se distribuem os anúncios de bebidas no país. Os dados são de 2006 e 2007 e estão em imagem, então eu os redigitei no Excel para calcular as proporções.

Pelas minhas contas a partir dos dados ali apresentados, as bebidas mais fortes representavam, entre julho e setembro de 2007, 4,3% de todos os anúncios de bebidas. Ou 0,2% de todos os anúncios no Brasil. Isso dá um bolo de R$ 22,3 milhões. Bastante? Pouco?

Os anúncios de cervejas, entre julho e setembro de 2007 - meses de inverno, lembrem, antes das campanhas publicitárias do verão - representavam 52,7% do total dos anúncios de bebidas. Ou 2% do total de anúncios veiculados no Brasil. Num bolo de R$ 276,4 milhões. Bem mais. E está fora do alcance da lei.

As principais anunciantes de bebidas eram a Ambev (Brahma, Antarctica e outras, R$ 154,5 milhões), Kaiser (R$ 99,2 milhões), Coca-Cola (não vem ao caso, por não ter álcool), Schincariol (Nova Schin, R$ 39,3 milhões) e Cervejaria Petrópolis (Itaipava, R$ 32,3 milhões).

Nenhuma delas vende uísque ou cachaça, ao que eu saiba. Mas vale a pena olhar como as cervejarias investiram dinheiro na campanha de 2006. Sempre lembrando que não existe nada intrinsecamente errado em uma empresa financiar uma campanha e declarar, mas vale a pena olhar como os deputados financiados pelas cervejarias votaram o projeto. O dado ainda não está no ar.

A Ambev financiou, com R$ 40 mil, o deputado Sigmaringa Seixas (PT), que não se reelegeu.

A Schincariol do Rio financiou, com R$ 200 mil, os deputados Alexandre Santos (PMDB-RJ) e Virgílio Guimarães (PT-MG).

Um dos CNPJs da Schincariol do Nordeste, no Pará, financiou com R$ 50 mil o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA).

Outro CNPJ da Schincariol, no Ceará, financiou com R$ 50 mil o deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE).

Outro CNPJ da Schincariol, em Pernambuco, financiou em R$ 435 mil os deputados Renildo Calheiros (PC do B-PE), Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE), Bruno Araújo (PSDB-PE) e Elias Gomes da Silva (PPS-PE). Elias não tem mandato hoje.

O CNPJ baiano da Schincariol financiou em R$ 60 mil os deputados Jorge Khoury (DEM-BA) e Sérgio Brito (PDT-BA).

A Cervejaria Petrópolis financiou em R$ 30 mil os deputados Oswaldo Dias (PT-SP), Vicentinho (PT-SP) e Jamil Murad (PC do B-SP). Oswaldo não tem mandato hoje. Nem Murad.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Justiça argentina censura resultados do Google

De O Globo:

    É de se imaginar que um dos termos com mais resultados num site de buscas argentino seja "Diego Maradona", certo? Errado. Uma batalha legal iniciada por diversas personalidades públicas do país vem obrigando o Yahoo e o Google locais a censurar diversos termos, entre eles o nome do ex-craque e atual técnico da seleção argentina.

    Segundo um representante do Google ouvido pelo site CNet News, essa manobra legal não seria possível nos EUA ou na Europa, onde a lei considera que sites de busca não são responsáveis pelo conteúdo das páginas que eles indicam.

    O imbróglio teve início em meados de 2007, quando um grupo de 70 modelos, representadas por um único advogado, pediu que o Google bloqueasse todas as referências com seus nomes para evitar o acesso a sites pornográficos que exibiam suas fotografias. A empresa se recusou a tomar a medida e disse que bloquearia apenas links específicos e que os usuários precisariam ser notificados, disse ao CNet News Alberto Arebalos, diretor do Google para a América Latina.

    O caso foi levado à Justiça e desde então juízes argentinos têm ficado do lado das modelos e de outras figuras públicas, como Maradona, que procuraram o mesmo advogado, Martin Leguizamon Peña. Ele pede ainda indenizações entre US$ 30 mil e US$ 121 mil para seus clientes.