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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Festival É Tudo Mentira (5): "Mas eles também!"

Ao longo desta semana, em que houve o Primeiro de Abril e o centenário do Pinóquio, o festival É Tudo Mentira analisou alguns tipos de mentira política. Para encerrá-lo, vamos analisar uma verdade que é usada pra distrair quando a mentira é descoberta: "eles também fizeram isso".

Esse tipo de declaração é usado basicamente com três finalidades.

A primeira é acusar jornalistas, esses malditos xeretas, de relevarem o que os outros fizeram e só revelarem o que eles fazem. Essa versão foi comum ao longo do escândalo do mensalão, por exemplo, quando petistas diziam que a imprensa só investigava escândalos quando eram do PT, nunca do PSDB.

Eu, que comecei a cobrir política no final do governo FHC, lembro de vários escândalos bastante graves que foram cobertos à exaustão na época. Muitas vezes, com informações passadas por fontes da então oposição, hoje governo. Em alguns casos, o esperneio tem um fundo de verdade: por exemplo, o valerioduto mineiro, de raiz tucana e pai do valerioduto federal, foi muito mal coberto em relação ao que ficou conhecido como o caso do mensalão. Mas em boa parte dos casos não procede.

Uma variante dessa reclamação, que foi especialmente comum durante o caso do mensalão, era a de querer que se relevasse escândalos presentes em prol de mergulhar em escândalos passados. Que os escândalos passados merecem esclarecimento, merecem. Mas não à custa dos escândalos presentes. É mais produtivo questionar um governo enquanto ainda está com a mão no pote do que um que já não tem mais a mão lá.

A segunda finalidade é a de jogar coisas no ventilador, alimentando a briga de bugio no curto prazo pra costurar uma pizza no médio prazo.

Isso você está vendo agora, por exemplo, no rolo da Camargo Corrêa. A Polícia Federal identificou sete partidos que podem ter recebido doações por baixo dos panos. Mas uma empresa desse porte acende uma vela pra cada santo, então doa para todos. Portanto, se alguns partidos receberam, todos podem ter recebido. Não há como duvidar desse princípio.

O problema é que esse tipo de coisa acaba funcionando mais ou menos como a fiscalização das contas eleitorais. Essa fiscalização é feita com a ajuda dos partidos. Os partidos olham as contas uns dos outros e aprovam sem se demorar muito. Pode até ser que eles tenham achado algo indevido, mas eles é que não são loucos de denunciar porque sabem o que eles botaram e omitiram nas suas. Vai que o denunciado responde na mesma moeda...

A terceira finalidade é a de confundir, simplesmente. Mais ou menos com a mesma finalidade da segunda, mas não só. Aumenta-se exponencialmente a quantidade de personagens e fatos investigados, fazendo com que a imprensa saia correndo loucamente atrás do próprio rabo pra no fim acabar tudo em pizza. No final, a culpa é sempre da Geni de sempre.

Isso aconteceu com maestria no caso EJ. Eduardo Jorge Caldas Pereira era o assessor mais próximo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele foi acusado de intermediar pedidos do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, o famoso Lalau do TRT, junto ao governo. Em poucos meses, a coisa virou uma bola de neve imensa, em que quase ninguém conseguia entender como é que os fatos se encaixavam.

Foi nesse caso que eu aprendi a confiar na minha inteligência: se eu não entendo como as coisas se encaixam, não é por burrice. É porque tem alguma coisa errada aí.

No desespero, o Correio Braziliense publicou uma matéria completamente errada vinda de uma só fonte sem checagem - e ganhou um Esso por ter publicado errata na primeira página. Meu chefe, na época, brincava com sua voz de trovão: mais dia, menos dia, podia aparecer que o Eduardo Jorge contratou Sandy e Júnior pra cantar num aniversário e ia sair uma manchete dizendo "Sandy e Júnior envolvidos no caso EJ".

Ao final de meses e meses, nada ficou provado. O caso EJ acabou virando contra a imprensa. Não duvido que alguma coisa houvesse. Mas a coisa ficou tão grande que no fim qualquer coisa que pudesse haver ficou desmoralizada.

E assim passam os dias e os anos, de escândalo em escândalo.

O fato: É óbvio que eles também fizeram. Todos eles fazem. Nunca acredite num político que diz que não faz. Aliás, desconfie de cara. O "eles também" é um ótimo motivo pra ficar de olho em qualquer governo - inclusive e principalmente aquele no qual você votou. Não cabe lógica de torcida nisso: o melhor que você pode fazer por um político que você elegeu é ficar de olho no que ele faz. Fiscalizando-o, e fazendo-o saber disso, você o estimula a manter pelo menos a aparência de honestidade pra não dar na sua vista.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Festival É Tudo Mentira (3): Estatísticas

A terceira parte do festival que comemora o dia dos bobos trata das mentiras numéricas. Em 1954, o estatístico americano Darrell Huff publicou um livro chamado "Como Mentir com Estatísticas". Nele, Huff explica conceitos da estatística, mostra como lê-las e não deixa dúvida alguma: bem torturados, os números revelam o que o freguês quiser. E os fregueses políticos SEMPRE querem.

Vamos começar pelo mais quente. Vocês viram ontem a notícia de que um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontou que o Brasil tem menos funcionários públicos do que os Estados Unidos? Isso bem no meio de um escândalo justamente relacionado à abundância de diretores no Senado e de recorrentes notícias sobre o inchaço de indicações políticas no governo.

Não é o primeiro estudo do gênero. Em janeiro, o mesmo instituto lançou um estudo noticiado da seguinte forma: "Brasil tem eficiência no gasto em saúde, diz estudo do Ipea".

Esse tipo de manipulação de dados faz um sucesso danado em debate de candidatos - mal posso esperar os de 2010.

Ora, você deve conhecer as queixas de alguém que enfrenta as filas do SUS, se é que não se queixa sozinho. Então, na época, eu abri o estudo do IPEA para dissecá-lo. Cheguei à seguinte conclusão: a eficiência no gasto apontada pelo estudo significa que a situação é tão precária que qualquer coisa que se gaste a mais já dá uma boa melhorada.

Procurei o estudo original do IPEA sobre os servidores. Em 2007, o país ultrapassou a marca dos 10 milhões de barnabés. Eles compararam a proporção de servidores públicos no Brasil com a proporção em outros países, quase todos menores que o Brasil. A máquina pública nos Estados Unidos é realmente muito maior que a brasileira - eu imagino a quantidade de arquivistas que eles devem contratar pra manter organizados seus documentos, que qualquer cidadão pode solicitar. No Brasil, essa estrutura é precária.

O que o estudo não leva em conta, portanto, são as medidas de eficiência dessa máquina. Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.

É que nem o Senado: tem dois diretores para cada senador, custa o equivalente a uma Ferrari, mas presta serviços de fusquinha detonado com problemas no escapamento. É mais ou menos essa a crítica feita pelo professor José Pastore ao estudo do IPEA.

Mas experimente por exemplo criar indicadores para avaliar essa eficiência. O pau come. Especialmente quando se trata de avaliação do ensino público ou da produtividade dos servidores. Sempre virão os paladinos da qualidade subjetiva dizendo que ela não pode ser reduzida a números. Até certo ponto, a crítica faz sentido: o número não diz tudo. Mas em boa parte ela não faz sentido: um conjunto bem escolhido de indicadores sempre diz alguma coisa a quem sabe lê-lo. Muitas vezes, porém, essa crítica arrasadora vem pra evitar qualquer tipo de avaliação que ameace práticas confortáveis. Por exemplo, o Senado detestou quando o estudo que eu coordenei mostrou que ele era a Casa legislativa mais cara do mundo, proporcionalmente.

Outra forma de estatística favorita entre os políticos e seus marqueteiros são as sondagens de opinião pública. Aí vai uma longa discussão para a qual não tenho muito espaço neste post. Mas cabe avaliar uma, que vem ganhando popularidade: as sondagens via internet.

No início de junho de 2007, uma polêmica cercava a não-renovação da concessão da emissora venezuelana Radio Caracas Televisión – identificada pelo presidente do país, Hugo Chávez, como uma das principais opositoras de seu regime. Os defensores da decisão de cassar a concessão argumentam que a licença havia vencido e que Chávez agiu perfeitamente dentro da lei. Os críticos da decisão afirmam que tirar a emissora do ar agrediu a liberdade de expressão – ainda que sua licença pudesse estar vencida, seria abuso da autoridade presidencial tirar do ar um canal crítico para pôr no ar uma TV “chapa-branca”.

Por aquela época, a embaixada da Venezuela em Brasília propôs a seguinte questão numa enquete em seu website:

    Você considera que a não-renovação da concessão do sinal radioelétrico do Estado à RCTV é:

    Um ato de soberania legislativa do Estado
    A expressão da vontade popular
    Um atentado à liberdade de expressão
    Não sabe

Fiquei sabendo da enquete no dia 4, a partir do blog do professor Orlando Tambosi, da UFSC – um ácido crítico de Chávez. Não foi o único blog que convidou à manifestação de contrariedade ao ato. Quando votei, havia 68,7% de votos na opção “Um atentado à liberdade de expressão”. À noite, já eram 77,28%. Na manhã do dia 5, eram 83,7%.

Pouco depois, misteriosamente, o placar virou e a opção “Um ato de soberania do Estado” ficou com 82% dos votos. No dia 6, a enquete foi fechada e ficou no arquivo do site.

Como era possível votar mais de uma vez, não é impossível que muitas pessoas tenham votado diversas vezes, contra, a favor ou ambos. Estão em seu pleno direito de manifestação, se a formulação técnica da enquete permite. Mas isso demonstra que uma pesquisa online não tem exatamente os mesmos critérios de uma pesquisa de opinião feita com rigor. Serve mais como passatempo do que como informação.

O fato: Os números não mentem, mas bem torturados eles revelam o que o freguês quiser. Pra saber o que está por trás deles, tem que ficar ligado. Tem que olhar como foi feito o número. Tem que ler o estudo. Às vezes, ele diz mais pelo que não é dito do que pelo que é efetivamente dito. Lembre que 100% dos pacientes de câncer desenvolveram a doença após anos bebendo água todo dia. Nem por isso a água é cancerígena.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Senado precisa é de um choque de transparência

Vira e mexe, rola algum escândalo com funcionários do Legislativo. Ora eles iam trabalhar no Congresso por indicação de sanguessugas, ora são terceirizados que vendem fitas, ora são diretorias excessivas cujo número a Mesa Diretora não faz a mínima questão de esclarecer.

Tem um jeito fácil de evitar escândalos com a composição do funcionariado de qualquer casa legislativa: publicar na internet a lista completa e atualizada dos funcionários, de preferência com cargos, lotação, função e gratificação. Salário, talvez.

Não é nada revolucionário e nem mania de fã da Suécia. O Executivo tem um site que faz mais ou menos isso, o Siorg. Por exemplo, aqui você pode consultar a árvore da hierarquia. Se for lá na Casa Civil, dá pra ver todos os assessores especiais lá lotados, com seu respectivo DAS. Esse código indica a faixa de salário do servidor, que é definida em lei. Assim, você pode saber onde o Fulano trabalha e fuçar quanto ele ganha e checar a quem ele responde. O Siorg também tem uma busca pra você procurar pelo nome do servidor. Mas ele só pega o Executivo.

O que me espanta é que o Senado gasta uma fábula de dinheiro por ano -- são R$ 87 por segundo, pelo orçamento de 2009 -- e não presta sequer serviços de informação estruturada eficientes. Isso sim me parece desperdício de dinheiro público. OK: ele tem um site, uma TV e um jornal (que, aliás, eu recebo). Mas, tirando a sempre genial consulta às atas de CPIs e movimentações de projetos de lei no site, tudo isso acaba se prestando mais a envernizar a vaidade de suas excelências.

Aliás, alguém mais ouviu falar em como ficou a questão da prestação de contas nota por nota das verbas indenizatórias depois desse escândalo todo? Pois é.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Capela Fashion Week

Ontem eu brinquei no Twitter com a Liana Pithan: o enterro do Clodovil iria lançar as novas tendências para a moda fúnebre outono-inverno.

Por mais que eu estivesse brincando, o jornalismo online nunca me decepciona. Da Folha Online:

    Terno claro, em tecido branco riscado com pequenos quadrados cinza, gravata borboleta azul e lenço do mesmo tom. É assim que o estilista, apresentador e deputado Clodovil Hernandes é velado nesta quarta-feira na Assembleia Legislativa de São Paulo.

    A criação é do próprio estilista que, segundo assessores, desenhou o modelo durante o Carnaval deste ano.

    "É a primeira vez que ele está usando", afirmou o assessor e amigo João Toledo, que acompanha o velório próximo ao corpo.

    O caixão onde se encontra Clodovil está coberto por um véu e seu corpo é coberto por pétalas de flores até a altura da cintura; na mão, Clodovil segura um buquê de flores roxas, presente de uma amiga que também está no velório.

Nada contra. Legal a observação do repórter. Acho que daria um bom tempero numa matéria maior sobre o enterro e as questões políticas envolvidas (como a briga do presidente do PTC, partido pelo qual Clodovil se elegeu mas depois saiu, com a assessora do deputado). Mas uma matéria só sobre isso? Não sei.

terça-feira, 17 de março de 2009

Censores com censores fazem zigue, zigue, zá

A Embraer, que fez de tudo pra atrapalhar a vida do repórter que revelou em dezembro o plano de demitir mais de 4 mil funcionários, teve 5% de seu capital comprado pelo banco Barclays, inglês.

O anúncio sai no mesmo dia em que o Barclays censurou judicialmente o Guardian por publicar uma série de documentos internos vazados da empresa, mencionando um plano do banco de fazer investimentos por meio de uma complexa teia de empresas, incluindo algumas nas ilhas Cayman, pra escapar dos impostos.

Segundo o Barclays, o Guardian de agir como quem toma a justiça em suas próprias mãos ao publicar os documentos. O tribunal aceitou a censura. No caso da Embraer, não houve processo, mas o repórter foi humilhado em público.

A vida imita os spams mais toscos

Você certamente já recebeu uma história parecida em seu e-mail. Um livro de geografia, distribuído para alunos da sexta série de um território riquíssimo, traz noções completamente erradas sobre um país pobre latino-americano.

Não, não é a volta daquela corrente ridícula sobre o suposto livro de geografia americano que "tira" a Amazônia do Brasil.

Trata-se de um livro de geografia que realmente existe, é distribuído na rede estadual de São Paulo e, não contente em ter dois paraguais, ainda trocou o verdadeiro de lugar com o Uruguai. Ficou assim a imagem:


A Secretaria de Estado da Educação bota a culpa toda em quem imprimiu o livro e diz que não vai trocar. Menos de 2% dos exemplares teriam defeitos, mas a Folha encontrou livros defeituosos em várias cidades. O governo pôs uma correção na internet, mas só os diretores de escola, com senha, podem acessar.

Os paraguaios já têm o Brasil entalado na garganta por quererem aumentar os preços pagos pelo Brasil pela energia excedente que compra da parte paraguaia de Itaipu. Agora, mais essa.

E sabe o que é pior? Explico.

Quando os brasileiros se revoltavam com a corrente do livro americano, estavam reagindo a uma falsificação grosseira possivelmente feita por milicos de pijama. A indignação nacionalista apontava um cálculo maquiavélico.

Quando os paraguaios se revoltarem com a notícia do livro brasileiro, estarão reagindo apenas a mais uma demonstração do analfabetismo funcional institucional que rege o Brasil. Mas a indignação nacionalista também apontará um cálculo maquiavélico.

Pelo menos o livro ofensivo aos paraguaios de fato existe. Infelizmente. E o pior: existe por burrice.

    ATUALIZANDO: Depois que apareceu, ficou feio. Como sempre no Brasil. Então, o governo mandou recolher 500 mil exemplares do livro, que deverão ser substituídos pela Fundação Vanzolini, que o imprimiu, diz a Folha. Mas será que o erro foi só de quem imprimiu? O conteúdo não é produzido por quem imprimiu.

domingo, 1 de março de 2009

Pra biografia

O historiador marxista Eric Hobsbawm, autor do best-seller "A Era dos Extremos", está hoje com 91 anos. Segundo o Guardian, ele teve negado seu pedido para ver o que o MI-5, o serviço secreto britânico, mantém arquivado a seu respeito - mesmo sendo ele um dos 45 agraciados com o título oficial de "Companion of Honour".

Por suas idéias, ele era automaticamente considerado suspeito, embora ele próprio não acredite que tenha tido alguma atividade potencialmente danosa mesmo a um governo ao qual se opusesse. "Até onde eu saiba, nunca estive envolvido em nada de interesse de segurança nacional. Acho que o único motivo pode ser que o pessoal da segurança não quer entregar quem fofocava sobre mim para as autoridades".

Talvez. Esses caras costumam ser bem fofoqueiros mesmo. Em 1968, por exemplo, registram os arquivos ingleses que a polícia deu uma batida procurando drogas numa festa onde estariam John Lennon e Mick Jagger, entre outros. Acharam maconha, mas Lennon dizia ter sido plantada. Mas isso é o tipo de documento que aparece. O FBI, por exemplo, passou anos negando acesso a dados sobre a vigilância que fazia sobre as atividades antiguerra do Beatle.

Os casos de Hobsbawm e Lennon são ruins, claro. Mas há países piores - como o Brasil, por exemplo, onde os milicos negam até a existência de documentos. Pense-se o que quiser a respeito das idéias de Hobsbawm, Lennon ou dos militantes do Araguaia, o que está em jogo é o registro da história e a manutenção em segredo de coisas que, tantos anos depois, não correm mais o risco de pôr país nenhum nas garras de um império que faliu.

Enquanto isso, resta ao velho historiador usar a fleuma, esse instrumento tão britânico, pra explicar o motivo da curiosidade sobre seus arquivos:

"Ver os papéis pode me ajudar a corrigir algum erro na minha autobiografia."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Lulitter

Será que foi o Planalto mesmo que lançou o Twitter do Presidente Lula, com informações oficiais do governo?

Ontem o conteúdo twittava a agenda do presidente e falava do programa de rádio "Café com o Presidente". Hoje, traz a manchete do site do Fome Zero. Meio frio.

Será que a idéia é dar uma obamada genérica?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Calcular multidões? Yes, we can


(Atenção: este post foi originalmente publicado no meu blog de dicas de pesquisa, o Dicas de um Fuçador. Dê uma passadinha lá!)

O jornalista Steve Doig, discípulo de Philip Meyer, aposta: vai ser uma loucura a quantidade de chutatísticas divergentes sobre a multidão que vai assistir à posse do Obama. Não por ser a posse do Obama, mas porque os números sempre são usados como arma para demonstrar força política. É assim lá, é assim aqui.

Nisso, que se dane a precisão. Os organizadores sabem que os jornalistas adoram números mas têm sérios problemas com a maldita matemática, então a gente entra na dança. Os mais cuidadosos costumam apresentar as estimativas dos organizadores lado a lado com as da polícia. Na mais comum, só pegam as estimativas de um dos lados. Mas dá pra medir, sim - embora seja mais trabalhoso. Nos anos 80, especialmente a partir dos comícios pelas Diretas na Praça da Sé, a Folha consagrou a técnica de pegar uma foto aérea, calcular a área e multiplicar: caberia algo entre 4 e 6 pessoas por metro quadrado.

Em artigo para a MSNBC, Doig sugere metodologia parecida e conta a origem dela:

    O método vem do final dos anos 60 e de um professor de jornalismo da Universidade de Califórnia em Berkeley chamado Herbert Jacobs, cujo gabinete ficava numa torre de onde se via a praça onde os estudantes freqüentemente se reuniam para protestar contra a guerra do Vietnã. A praça era marcada com linhas cruzadas regulares, o que permitiu a Jacobs ver quantos quadrados eram preenchidos pelos estudantes e quantos estudantes, em média, se aglomeravam na área.

    Após reunir dados de numerosas amostras, Jacobs criou alguns macetes que ainda são usados hoje por quem leva a sério a estimativa de multidões. Uma multidão mais solta, em que cada pessoa está à distância de um braço do corpo de seus vizinhos mais próximos, precisa de quase um metro quadrado por pessoa. Uma multidão mais aglomerada ocupa 0,42 metro quadrado por pessoa. Uma turba realmente assustadora com densidade de mosh-pit daria 0,23 metro quadrado por pessoa.

    O truque, então, é medir adequadamente os metros quadrados totais da área ocupada pela multidão e dividi-los pelo número apropriado, dependendo da avaliação sobre a densidade da multidão. Graças a fotos aéreas ou aplicativos de mapeamento como o Google Earth, até áreas abertas podem ser prontamente medidas atualmente.

Quando era ombudsman da Folha, mestre Mário Magalhães observou o quanto as medidas da multidão eram usadas pra puxar a brasa para assados militantes. A Parada Gay daquele ano orgulhava-se de 3,5 milhões de participantes. Magalhães lembrou que, no maior fora-Collor da história, em 18 de setembro de 1992, os organizadores falavam em 1 milhão de participantes, a polícia falava em 650 mil e a medição por foto aérea, feita pelo DataFolha, cravava 70 mil. Mário fez as contas: caso os números dos organizadores, apurados sabe-se lá com que metodologia, estivessem corretos, a multidão da parada gay seria "equivalente a 50 atos como o do auge dos caras-pintadas".

Para não dar muito erro amanhã, Doig dá algumas dicas:

    Se o pessoal se amontoar nos 0,33 quilômetros quadrados do National Mall entre as ruas 1 e 14 Noroeste em apertados meio metro quadrado por pessoa, cerca de 700 mil poderiam se enfiar lá. A área aberta em torno do Monumento a Washington, entre as avenidas Constitution e Independence, até a 17 Noroeste, podem acomodar outros 700 mil na mesma densidade. E, presumindo que uma multidão mais solta longe da posse vá ficar nos degraus do Capitólio, talvez mais um meio milhão possa estar circulando pela área do Mall defronte ao Memorial Lincoln.

    Assim, é pelo menos fisicamente possível acomodar algo próximo a 2 milhões de americanos na faixa de 3,4 quilômetros entre os degraus do Capitólio e os pés de Lincoln. Graças às espantosas realidades logísticas para hospedar, alimentar e transportar uma multidão de visitantes que quadruplicariam a população do distrito, há boas chances de que a multidão real será menor do que isso. Apenas fotos aéreas pós-posse poderão nos dizer ao certo.

Doig também lembra que a inflação das multidões também se presta à criação de mitos. "Um dia, tanta gente vai dizer que esteve na multidão que testemunhou a posse de Barack Obama quantos os que dizem hoje que ouviram o Jimi Hendrix tocar em Woodstock há 40 anos. As pessoas adoram se gabar de terem sido testemunhas da história - mesmo quando não foram."

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Defensores do todo-poderoso

Em Londres, um grupo de ateus resolveu pôr um anúncio nos ônibus dizendo:

"PROVAVELMENTE, NÃO EXISTE DEUS.
Agora, pare de se preocupar e curta sua vida."


O que eles fizeram com a sua descrença não é nada muito diferente, embora com o sinal trocado, do que absolutamente todas as religiões fazem para pregar suas crenças. A idéia é tão boa que fizeram o mesmo em Barcelona, logo depois. O único senão, apontam alguns ateus mais rigorosos, é o "provavelmente". O Guardian entrevistou Richard Dawkins a respeito.

Agora, carolas de toda sorte reclamam ao órgão regulador da publicidade que a campanha do ônibus ateu é mentirosa e vai contra os padrões comumente aceitos para a publicidade. Já foram recebidas 141 reclamações. Mesmo com o "provavelmente". Ah, que saudade do tempo do Torquemada! Não tinha tanta baixaria na tevê e nem se falava tão mal de pessoas importantes no jornal!

Eles, que acreditam no todo-poderoso, não precisavam fazer uma dessas. Era só deixar o ofendido decidir sozinho e punir os ofensores como lhe aprouvesse. Ou será que eles acreditam que provavelmente deus não vai fazer nada a respeito? Mas o cara não é todo-poderoso? Então, ora. Deixa ele provar que existe, caso exista, pra esses hereges verem só uma coisa. Afinal, o maior interessado em defender sua honra não é o ofendido?

Eu, no lugar dos diretores da campanha do ônibus ateu, faria o mesmo que seus oponentes, mas com sinal contrário: denunciaria todas as propagandas que dizem que certamente deus existe.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Máfias e assimetrias


O filme "Gomorra" ganhou o prêmio europeu de cinema. Ele se baseia no livro homônimo do escritor Roberto Saviano, a quem a Máfia ameaçou matar até o natal. O filme, já comparado ao "Cidade de Deus" por mostrar como a Máfia domina regiões inteiras em Nápoles, já foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e está em pré-estréia na cidade.

Enquanto o diretor Matteo Garrone recebia os cinco prêmios dados ao filme, o escritor francês JMG le Clézio dava na Suécia seu discurso de aceitação do Nobel de literatura. O tema básico da fala foi um alerta sobre os perigos da "pobreza de informação". Segundo ele, a indústria literária vem focando esforços na pesquisa de como levar os livros para o formato digital, o que pode elitizar o produto. Mais produtivo, segundo ele, seria estudar formas de ampliar o acesso ao livro de papel em países onde a leitura não é muito difundida. Suas propostas:

    "Joint publication with developing countries, the establishment of funds for lending libraries and mobile libraries, and, overall, greater attention to requests from and works in so-called minority languages – which are often clearly in the majority – would enable literature to continue to be this wonderful tool for self-knowledge, for the discovery of others, and for listening to the concert of humankind, in all the rich variety of its themes and modulations."

O que têm a ver os dois prêmios?

Hoje pela manhã, fui procurar o livro de Saviano. Quero tentar lê-lo antes de a Camorra conseguir cumprir sua promessa de matá-lo até o Natal. Deparei-me com um tema que usei várias vezes no começo do blog, mas no qual não toco há muito tempo: a desigualdade no acesso aos livros.

"Gomorra" foi lançado em português pela editora Caderno. A edição estava exposta na livraria e quase a comprei. Quando fui olhar o preço, quase tive um infarto: custava mais de R$ 90. Pesquisei quanto custavam as edições em outras línguas. O preço da edição em português só perdia para o da edição francesa. Veja só:


Só agora há pouco descobri que a edição da Caderno é de Portugal. A edição brasileira (Gomorra - a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana, da Bertrand Brasil) sai depois do dia 15, talvez esperando ganhar publicidade com a eventual morte do autor dez dias depois. Ao preço de R$ 39, ela custará mais caro que as edições britânica e espanhola disponíveis no Brasil.

Eu comprei a edição britânica, como tenho comprado muitos livros em inglês nos últimos anos por saírem mais baratos que os nacionais e por vezes terem até mais conteúdo. Meu Freakonomics, por exemplo, é da edição de bolso da Penguin com textos extras.

Como leio com facilidade em inglês, fico muito grato por esse subsídio involuntário que tenho à minha leitura. Mas fico pensando nas várias assimetrias dessa situação:

    1) Para ter acesso a esse "subsídio", o cidadão precisa saber ler em inglês. Geralmente se paga para fazer cursos e eventualmente poder ler numa segunda língua.

    2) O preço que se paga aqui por livros importados já traz embutido até mesmo o custo do transporte das obras, da Europa até o Brasil. Então, um leitor inglês pagou ainda mais barato que o brasileiro que comprou a mesma edição no Brasil - com a vantagem de a renda per capita lá ser bem maior que a daqui.

    3) A diferença de R$ 7 entre o preço da futura edição brasileira e o da edição britânica que eu comprei certamente pesa mais no bolso de alguém que não lê em inglês porque não teve grana pra fazer um curso do que no meu bolso atual.

Segundo pesquisa do Observatório Brasileiro do Livro, 77 milhões de brasileiros não lêem. Numa população de 200 milhões, isso dá quase 4 em cada 10. E, dos outros 6, ainda se deve levar em conta que há os leitores muito eventuais e os que só lêem coisas tipo auto-ajuda. (E, verdade seja dita, as três categorias - não leitores, leitores eventuais e leitores de bobagens - incluem muitos brasileiros que têm bem mais poder aquisitivo do que os que não compram livros por conta do preço.)

O mercado livreiro brasileiro costuma dizer que o preço do livro é influenciado por vários fatores, incluindo as baixas tiragens que se tem no Brasil e os custos de distribuição num país desse tamanho. É verdade. Mas também é verdade que os livros brasileiros também são caros porque são feitos num papel mais pesado e com capas mais grossas que as edições populares gringas. E também é verdade o círculo vicioso segundo o qual o livro é caro porque vende pouco e vende pouco porque é caro.

Para mim, tanto faz ler em português ou em inglês. Eu preferiria comprar livros nacionais. Mas, se um livro inglês está mais barato, sequer paro para pensar a respeito. Um livro a menos vendido pela editora brasileira. Sempre que converso sobre isso com amigos que também observaram o mesmo, ouço a mesma coisa. Então não é só um livro a menos - são vários. Mais ainda: são leitores que têm o hábito da leitura e estão acostumados a comprar livros com freqüência. Basicamente, portanto, parte dos melhores fregueses das editoras.

Na sexta-feira, o Valor publicou um artigo do Alberto Carlos de Almeida sobre "Os gargalos do Brasil". Ele comparava a concentração de carros por habitantes em vários estados do Brasil e em vários países ricos. Não é um indicador que me agrade muito, considerando o inferno em que a lógica do carro transformou as cidades, mas vale a pena observar o raciocínio dele.

De certa forma, o mesmo raciocínio se aplica ao mercado de livros no Brasil.

Mais ainda: os mercados ilegais, como a Camorra do livro de Salviano, surgem especialmente por conta de assimetrias nos preços. Se o maço de cigarros custa R$ 2,50 na banca de revistas e R$ 1 no camelô logo à frente, e o consumidor julga que os dois produtos matam igualmente, abre-se um incentivo poderoso para o mercado ilegal de cigarros, certo?

No caso do mercado do livro, não existe exatamente um mercado ilegal. Há os sebos, que são perfeitamente legais, mas livros novos não chegam a eles. (E, pra falar a verdade, mesmo os velhos não têm tanta procura assim.) A disputa é entre o hábito da leitura e a inércia do analfabetismo funcional institucional. As assimetrias, infelizmente, me parecem favorecer a segunda.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Empurrando com a barriga

Lembra aquele projeto de lei de acesso que o Lula prometeu em 2006 que levaria ao Congresso ainda em 2007 e ainda não levou?

No final da semana passada foi anunciado que ele vai sair do papel em breve. Mas ele tem defeitos sérios. O rascunho da lei que eu li em 2006 já foi descaracterizado. Por exemplo, ele inclui uma brecha para que um grupo de çábios defina se deve haver ou não sigilo eterno, de acordo com sabe-se lá que critérios (que eles, obviamente, dirão serem critérios razoáveis e necessários).

Em países que já têm lei de acesso, isso não existe. Nem com o Bush.

Por exemplo: pela lei atual, que não tem provisões sobre como pedir acesso a documentos, os dados dos gastos da Presidência até 2003 já deviam ser públicos. Mas não são.

Lembram do caso do dossiê que era um banco de dados? Pois. Na terceira explicação a respeito, a Dilma Rousseff utilizou parecer do Gabinete de Segurança Institucional, segundo o qual os gastos da Presidência se equiparam aos documentos do regime militar: caso tratem de informações sobre a intimidade, vida privada, honra e imagem de alguém, devem ter "acesso restrito à pessoa diretamente interessada ou, em se tratando de morto ou ausente, ao seu cônjuge, ascendentes ou descendentes".

O projeto ora desfigurado piora a questão do sigilo eterno para documentos que tratem desses temas. Em vez de documentos ultra-secretos vedados por 50 anos renováveis por outros 50 indefinidamente, ou 25 anos renováveis por outros 25 indefinidamente, como quer o novo projeto, qualquer documento pode ser vedado pra todo o sempre:

    O acesso a documentos ou informações que possam atingir a honra e a imagem das pessoas será restrito eternamente, independente da classificação.

Ou seja: é uma porta dos fundos criada especificamete para barrar o acesso dos cidadãos aos dados dos gastos da presidência, que têm a classificação "reservado". Isso não existia nem no decreto do sigilo eterno do FHC, sancionado pelo Lula. O negócio do governo, cada vez mais claramente, é não prestar (contas, informações, etc).

De qualquer forma, não vai ser para agora. O governo havia anunciado que apresentaria o projeto ainda em dezembro, na inauguração de um site com todos os documentos da ditadura que já são públicos. (A lei de direito de acesso, lembre-se, também dará acesso aos documentos da democracia.)

Pois agora a inauguração deve sair só em janeiro - e, por conseqüência, o projeto também. Pelo que informou o ministro Paulo Vannucchi, dez estados brasileiros ainda se negam a abrir os seus documentos da ditadura.

A matéria da Folha termina assim:

    O ministro disse que seu engajamento em rever as questões ligadas a ditadura desagradou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2005 chegou a expressar sua insatisfação com a maneira como o tema estava sendo tratado.

Ou seja: o presidente faz questão de empurrar a questão com a barriga.

Contornos borrados

Assisti neste sábado a um filme muito interessante: "Rebobine, Por Favor". É uma comédia inteligente do diretor Michel Gondry, o mesmo de "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Mas vai ser difícil assistir, visto que só chegou uma cópia ao Brasil. Se vir na programação, corra para assistir. Enquanto isso, veja o canal deles no YouTube.

Se você acompanha o que se produz e distribui na internet, e o debate sobre isso, o filme é um prato cheio de sementes de idéias. Pena que o debate com o diretor, no Museu da Imagem e Som, estivesse tão cheio de estudantes tietes pedindo autógrafo e querendo que ele fizesse no palco a lição de casa deles. Podia ter sido bem produtivo. (Enchi o saco meio rápido e saí pra tomar um cafezinho.)

A história gira em torno de uma locadora de filmes dos anos 80 em VHS numa cidade pobre de New Jersey. Essa locadora fica numa casa condenada, onde o dono da lojinha (Danny Glover) diz ter nascido um grande pianista de jazz. Ameaçado de fechar, ele inventa umas férias e deixa seu filho (Mos Def) cuidando da loja. Ocorre que o filho tem um amigo completamente desastrado (Jack Black), que ganha temporariamente poderes magnéticos e simplesmente apaga todas as fitas da locadora.

Para ter o que entregar aos clientes sem dar na vista, eles começam a fazer suas próprias refilmagens amadoras dos filmes pedidos. Ficam assim:



As refilmagens ("suecadas", na definição do personagem de Jack Black) fazem sucesso e atraem multidões, que também passam a participar dos seus filmes. Isso gera conflitos com quem administra o copyright, que busca cobrar indenização dos autores das fitas "suecadas" por conta da propriedade dos filmes originais.

Se você já tentou acessar um vídeo no YouTube que havia sido tirado do ar por conflito de direitos autorais, percebe que é a mesma coisa em versão analógica. Hoje mesmo, no Valor Econômico, há uma notícia interessante a respeito: nos últimos 18 meses, uma associação que defende os direitos dos estúdios de cinema conseguiu na Justiça 268 sentenças contra piratas de DVDs. A polícia é acionada sempre que um pirata é identificado.

Há dez anos, sites de fãs de personagens de quadrinhos nos EUA costumavam ser acionados pelos detentores dos direitos - que buscavam retirar do ar as ilustrações utilizadas. E, se eu fizer meu próprio filme do Batman, ou uma versão editada do que bateu recordes de bilheteria, estou infringindo os direitos autorais da Warner ou alimentando a fama do personagem? As fitas "suecadas", que não eram exatamente copiadas de versões originais, seriam pirataria ou uma outra coisa?

Os contornos do direito autoral estão bastante borrados. Eu ainda tenho o costume de comprar CDs, mesmo sabendo o quanto é fácil baixar música da internet. Mas eu os ouço mais num aparelho de MP3 que carrego no bolso do que no CD player da sala. Para isso é preciso converter no computador, e o iTunes permite. Não há objeções a isso. Mas se eu copio um dos meus CDs raros do Deep Purple para presentear meu amigo Abdalla, que canta em homenagem aos mestres, estou violando os direitos autorais deles? E se eu faço um podcast sobre o Deep Purple contando a história de como evoluiu uma das músicas deles, usando vários trechos de diversas faixas, estou violando direitos autorais? E se eu pego meu violão e gravo uma versão de "Smoke on the Water" em ritmo de bossa nova, estou violando direitos autorais ou criando? (Ian Gillan talvez ache que não; mandei o arquivo para ele há alguns anos e ele respondeu: "Groovy!")

Mas, ao mesmo tempo, em seu "Ilícito", Moisés Naím conta como os terroristas que fizeram os ataques de 11 de março na Espanha usaram a venda de DVDs piratas para financiar seu negócio. Não era troca de arquivos, e sim venda em escala. O crime é o lucro, então? Não, acho que não. Mas a questão econômica aí é crucial.

Cada vez mais, a tecnologia facilita e barateia a cópia - e o preço é o principal motivo pelo qual alguém compra ou troca cópias extra-oficiais filmes ou músicas. Eu adoraria presentear o Abdalla com o DVD original de "Highway Star", o documentário que comemora os 40 anos de carreira do Ian Gillan. Pelo meu original, porém, eu paguei 20 libras em Londres. Eu simplesmente não tinha grana pra comprar duas cópias. Mais fácil comprar o meu e copiar pro amigo.

Em outubro, o advogado americano Lawrence Lessig deu uma entrevista interessante ao Marco Aurélio Canônico, da Folha Online. Em seu livro "Remix", Lessig fala na criação de uma cultura em que a audiência passa a ser também criadora, reciclando as idéias de seu consumo cultural. Porque hoje ela dispõe de ferramentas para isso, assim como o personagem do Jack Black tinha uma câmera VCR pra fazer as cópias "suecadas". Segundo Lessig, o principal foco de sua discordância com o cabeça da MPAA é o que fazer com os adolescentes que já começam a ouvir música baixando da internet. O general do copyright acha que uma geração inteira está fora da lei. Lessig acha que não vale a pena criminalizar uma geração inteira. "Os EUA têm tantos problemas maiores que não acho que o próximo presidente vá ter tempo para tratar de direitos autorais", diz ele.

Essa declaração vai mais ou menos na linha do que o Moisés Naím disse em 2007 num debate no Conselho de Relações Exteriores, uma ONG dos EUA. Alguém perguntou sobre a pirataria. Ele disse que, com a explosão das atividades ilícitas por conta das facilidades da tecnologia, do transporte e das finanças criadas nos últimos anos, o único jeito de combater eficientemente o crime organizado seria escolher bem as lutas em que entrar. Até porque os recursos são escassos. Apreender DVD pirata, por exemplo, é um tipo de ação visualmente forte com aqueles rolos compressores passando por cima (uma imagem que tem no filme também), mas é muito menos crucial do que atacar o tráfico de crianças. Para Naím, as próprias empresas interessadas precisam buscar formas de coibir isso por meio de tecnologia, deixando a polícia livre para fazer coisas mais importantes. Isso exigiria uma mudança no modelo de negócio para proteger o copyright - no que, como se vê, ele discorda de Lessig:

    That companies that are operating in areas that are vulnerable to counterfeit and that is now, as you said, almost all will have to think this through and change their business model. And as they say, moving from hoping for the perfection of governments and patents and lawyers to finding ways, tools, technologies that protect them.

    I was fascinated one -- one of the good examples I got was from the movie industry. They are, for example, moving to a new model in which the DVDs that the movies that we now watch at home are going to be a commodity which they have no hope of containing. And they're developing different technologies to change the experience of watching a movie that you can only get at their theatres under their circumstances. And one of the ways in which they are changing is that there will not be a physical product with the movie. There is going to be beamed through very encrypted and very complicated ways from certain centers to movie houses that are going to then project what they call 'project an experience,' which is not only a movie but is a, you know, the whole experience. You would go there because it's the only way of getting something that you cannot get at home by playing your DVDs, and there are plenty of examples of initiatives the industries is taking to protect themselves.

Pessoalmente, e nesse ponto o filme também toca, há uma coisa que me incomoda um pouco no YouTube e correlatos. Acho que há um excesso de material já disponível comercialmente e uma escassez de material produzido criativamente e caprichado. Essa oferta vem crescendo, mas a maior parte dela está ainda "suecada", referenciando material comercial. Há um potencial grande para distribuir coisas novas ali - e acho que o melhor exemplo é aquele grupo de estudantes de cinema austríacos que começaram chamando atenção para si mesmos forjando uma campanha eleitoral.

Gondry, porém, não ousa ir muito longe na defesa das idéias de seus personagens. Ele defende que a audiência faça seus próprios filmes, ainda que imperfeitos. Mas, ao saber que seus filmes não são distribuídos comercialmente no Brasil sequer em DVD, não defendeu que a platéia os baixasse da internet. (OK, ele não é bobo: a incompetente-porém-fashion tradutora do debate era do departamento de marketing da distribuidora do filme no Brasil.)

    SERVIÇO: O site AlwaysWatching.com pôs no ar os 10 melhores filmes suecados pelos fãs de "Rebobine, Por Favor".

    O Museu da Imagem e Som, em São Paulo, vai manter até janeiro a exposição sobre o filme, onde você mesmo pode fazer seu próprio suecado se chegar a tempo de participar de uma oficina.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Não prestar é só o começo

Hoje eu vou contar a história de sucesso de um ex-gestor público que começou sendo acusado de roubar o dinheiro da merenda e acabou sendo preso sob a acusação de ser o mentor do segundo maior roubo a banco no mundo. É o mais edificante de todos os casos que já coloquei na seção Gente que Não Presta.

Uma das notícias mais espetaculares dos últimos anos, no Brasil, foi o roubo dos milhões de reais que estavam para ser destruídos no depósito do Banco Central em Fortaleza (CE). Foi o segundo maior roubo do mundo em quatro décadas, segundo a agência France Presse.

Neste final de semana, foi preso o ex-prefeito de Boa Viagem (CE) Antônio Argeu Nunes Vieira, apontado pela Polícia Federal como o mentor do crime. É esse galã aí do lado.

Até agora, segundo O Globo, a PF contabiliza 122 envolvidos presos, dos quais 36 teriam participado diretamente do assalto. Já teriam sido recuperados R$ 20 milhões em espécie, além de R$ 30 milhões em bens: como carros, casas e fazendas. Isso dá um terço dos R$ 150 milhões originalmente roubados. O mesmo grupo estaria ligado à tentativa de roubo do Banrisul da Praça da Alfândega, em Porto Alegre.

O jornal cearense O Povo conta que uma das principais pistas da autoria do crime foi encontrada ainda em 2005, na casa onde a escavação vinha sendo feita, alugada em nome de uma empresa de grama sintética. Era uma nota de compra das fitas usadas para lacrar os sacos de dinheiro. A nota estava em nome da empresa Big Brilho, de propriedade do ex-prefeito. Aliás, em sua declaração de bens deste ano à Justiça Eleitoral (sim, ele concorreu), ele declarou como seu único patrimônio uma participação de R$ 30 mil nessa empresa. Ali consta apenas o CNPJ, mas se você for ao site da Receita Federal poderá ver os dados inteiros da Big Brilho.

Antes do roubo do Banco Central, Argeu havia tido sérios problemas com as prestações de contas de sua prefeitura. Esta aqui, por exemplo, vem do TCU, em 26 de setembro de 2000:

    GRUPO I- CLASSE II- 1ª CÂMARA
    TC nº 012.365/1999-8
    NATUREZA: Tomada de Contas Especial
    ENTIDADE: Prefeitura Municipal de Boa Viagem/CE
    RESPONSÁVEL: Antônio Argeu Nunes Vieira

    Trata-se de Tomada de Contas Especial instaurada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimentoda Educação–FNDE, contra a Prefeitura de Boa Viagem–CE, em decorrência da omissão no deverde prestar contas de recursos federais recebidos pelo então Prefeito do Município, Sr. Antônio Argeu Nunes Vieira, à conta do Convênio nº 5103/96, no valor de R$ 88.118,00 (oitenta e oito mil,cento e dezoito reais), firmado entre a indigitada Prefeitura e o referido Fundo, tendo por objeto a reforma, ampliação e equipamento das escolas da municipalidade.

Ele não apareceu para prestar contas. Em 2002, foi condenado a devolver aos cofres públicos mais R$ 398.670,00 por não prestar contas de recursos públicos. Caso tenha tempo, o leitor pode ler uma por uma as várias menções a Argeu no site do TCU.

Quem não presta costuma ser incluído pelo TCU numa lista de candidatos inelegíveis. Argeu apareceu lá em 2000. Em 2004. Em 2008. Como no Brasil é feio prejulgar poderosos, os candidatos incluídos nessas listas podem se candidatar caso recorram. Assim, para concorrer neste ano, ele recorreu mais uma vez. Como a lei permite, ele ganhou uma liminar e teve seu nome excluído do cadastro de impedidos de concorrer. Concorreu. Perdeu feio. Pouco mais de um mês depois da eleição, foi preso por uma acusação bem mais pesada. (Não sei se a PF usou algemas. Se usou, tio Gilmar pode achar feio e anular o processo.)

Como eu não sou o tio Gilmar, me permito terminar assim: gente que não presta contas sempre corre o risco de evoluir na carreira.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Na dúvida (hic!) proíba-se

Bebe-se no Brasil. Com algum afinco. E também se anuncia bebidas no Brasil. Especialmente no verão. Quem bebe corre o risco de causar acidentes de trânsito, e tá aí a lei seca que não me deixa mentir.

Agora, nossos nobres representantes na Câmara dos Deputados aprovaram um projeto que, em sua avaliação, pode ajudar a resolver parte dos problemas da humanidade. A lei proíbe a publicidade de bebidas alcoólicas no rádio e na TV. Falta ser aprovada no Senado. Conheça aqui o projeto.

É mais um exemplo da lógica do "na dúvida, proíba-se". Mas vale a pena olhar com mais vagar, pois o caso tem ainda mais nuances: a proibição é bem seletiva.

O projeto não proíbe a publicidade de todas as bebidas alcoólicas, diga-se de passagem. É só das mais fortes, aquelas com mais de 13% de teor alcoólico. Aquelas propagandas de auto-ajuda do uísque Johnnie Walker estarão proibidas se o projeto passar no Senado, assim como as da Sagatiba e de Velho Barreiro. Vinho teria que ver caso a caso - alguns chilenos passam de 13%, mas a maioria dos vendidos por aí não passa dos 12,5%.

Assim, foram proibidos na prática apenas 4,3% dos anúncios de bebidas. É mais ou menos o mesmo que nada. Se o Congresso fizesse jus à sua fama arduamente conquistada e simplesmente não tivesse feito lei nenhuma a respeito, o efeito seria mais ou menos o mesmo.

Como é? Explico. Quando você pensa em anúncio de bebida alcoólica na TV, que bebida vem à sua mente? Que bebida usa anúncios mais freqüentes e persuasivos? Que bebida faz guerra com as concorrentes no intervalo comercial? Cerveja, claro.

Aí vem a pegadinha: como cerveja tem em média uns 3,5% de álcool, está excluída da proibição. Na Alemanha, cerveja é considerada um alimento tradicional, por conta dos cereais utilizados em sua fabricação. Aqui, porém, ela fica de fora por não entrar na média de corte. "Especialistas divergem" a respeito da conveniência da publicidade de cerveja, diz uma outra matéria da Agência Câmara. Mas os fundamentos da divergência não são mostrados.

Essa omissão da Agência Câmara complica muito a vida de quem quiser explicar essa distinção para o guardinha que se aproximar da janela de seu castelo de lata com a caneta, o bloquinho e o bafômetro na mão por conta da outra lei do tipo "na dúvida, proíba-se", a lei seca.

(Antes de prosseguir, é mister informar que nada tenho contra cerveja, especialmente se gelada. Mas gosto muito mais de cruzar informações.)

Como tenho orgulho do meu espírito de porco, fui verificar no Ibope como se distribuem os anúncios de bebidas no país. Os dados são de 2006 e 2007 e estão em imagem, então eu os redigitei no Excel para calcular as proporções.

Pelas minhas contas a partir dos dados ali apresentados, as bebidas mais fortes representavam, entre julho e setembro de 2007, 4,3% de todos os anúncios de bebidas. Ou 0,2% de todos os anúncios no Brasil. Isso dá um bolo de R$ 22,3 milhões. Bastante? Pouco?

Os anúncios de cervejas, entre julho e setembro de 2007 - meses de inverno, lembrem, antes das campanhas publicitárias do verão - representavam 52,7% do total dos anúncios de bebidas. Ou 2% do total de anúncios veiculados no Brasil. Num bolo de R$ 276,4 milhões. Bem mais. E está fora do alcance da lei.

As principais anunciantes de bebidas eram a Ambev (Brahma, Antarctica e outras, R$ 154,5 milhões), Kaiser (R$ 99,2 milhões), Coca-Cola (não vem ao caso, por não ter álcool), Schincariol (Nova Schin, R$ 39,3 milhões) e Cervejaria Petrópolis (Itaipava, R$ 32,3 milhões).

Nenhuma delas vende uísque ou cachaça, ao que eu saiba. Mas vale a pena olhar como as cervejarias investiram dinheiro na campanha de 2006. Sempre lembrando que não existe nada intrinsecamente errado em uma empresa financiar uma campanha e declarar, mas vale a pena olhar como os deputados financiados pelas cervejarias votaram o projeto. O dado ainda não está no ar.

A Ambev financiou, com R$ 40 mil, o deputado Sigmaringa Seixas (PT), que não se reelegeu.

A Schincariol do Rio financiou, com R$ 200 mil, os deputados Alexandre Santos (PMDB-RJ) e Virgílio Guimarães (PT-MG).

Um dos CNPJs da Schincariol do Nordeste, no Pará, financiou com R$ 50 mil o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA).

Outro CNPJ da Schincariol, no Ceará, financiou com R$ 50 mil o deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE).

Outro CNPJ da Schincariol, em Pernambuco, financiou em R$ 435 mil os deputados Renildo Calheiros (PC do B-PE), Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE), Bruno Araújo (PSDB-PE) e Elias Gomes da Silva (PPS-PE). Elias não tem mandato hoje.

O CNPJ baiano da Schincariol financiou em R$ 60 mil os deputados Jorge Khoury (DEM-BA) e Sérgio Brito (PDT-BA).

A Cervejaria Petrópolis financiou em R$ 30 mil os deputados Oswaldo Dias (PT-SP), Vicentinho (PT-SP) e Jamil Murad (PC do B-SP). Oswaldo não tem mandato hoje. Nem Murad.

sábado, 15 de novembro de 2008

Mais civilização

Falei outro dia do projeto Show Us a Better Way, britânico, que premiava a mais engenhosa idéia para fazer um site integrando informações públicas na internet em benefício do cidadão. Hoje, fiquei sabendo de um projeto semelhante, em Washington: é o Apps for Democracy.

O Mashable mostra algumas idéias engenhosas. Uma delas mostra os dados demográficos de cada canto da cidade. Outra mostra onde estão os crimes. Outra mostra onde estão os gastos da cidade.

No Brasil etc etc etc.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os gaúchos e a política


Peguei no Nova Corja um resumo muito resumido de uma pesquisa encomendada pela Assembléia Legislativa do RS sobre como o povo autoconsiderado o mais politizado do Brasil vê a política. O PDF linkado no site da Zero Hora tem apenas pinceladas nos resultados. Pessoalmente, eu queria ler os resultados inteiros. Podem ser reveladores.

Menos de um em cada 5 gaúchos confia na imprensa (17,6%), o que explica muito o ataque ao Graciliano há duas semanas. No Brasil, o índice de confiança na imprensa medido no Barômetro da AMB é de quase 3 em cada 5 (58%). O índice gaúcho é um terço disso, por mais que seja temerário comparar pesquisas de metodologia diferente.

Essa diferença diz muito a respeito da qualidade da imprensa de lá, embora certamente os gaúchos --eu sou sueco-- certamente prefiram achar que é por causa do nível de educação do berço de Flores da Cunha e de Borges de Medeiros, terra de Getúlio Vargas, presidente brasileiro. Ainda ontem, a Zero Hora inventou novas regras para o campeonato sul-americano de futebol, regras essas prontamente desmentidas pela Conmebol. Se o povo come bola até nas páginas de gre-nal, que são a especialidade informativa daquelas plagas, é compreensível um índice tão baixo de consideração à imprensa.

Menos de um em cada 4 gaúchos vê necessidade de maior fiscalização dos poderes eleitos (22,5%). Isso me lembra bastante o comentário que recebi no blog do Deu no Jornal, em 2006, quando cutuquei a falta de acessos ao Excelências no RS. Um cavalheiro disse que lá o povo é tão politizado que não precisa ter acesso a informações sobre o que seus deputados fazem. Na época, observei: "politização" sem informação não passa de torcida.

Possivelmente por conta desse déficit de informação, desse analfabetismo funcional institucionalizado, mais de um em cada 4 gaúchos acha que o RS é mais desenvolvido que o resto do Brasil (25,5%).

Mais da metade dos eleitores não lembra mais em quem votou pra deputado estadual em 2006 (51,9%). Em conseqüência, quase a totalidade dos consultados não sabe dizer o que o Parlamento votou de importante (95,2%). Se bem que isso também pode refletir um acompanhamento constante da Assembléia gaúcha. Duvido que o pessoal que acompanha também saiba dizer o que lá foi votado de importante.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Justiça argentina censura resultados do Google

De O Globo:

    É de se imaginar que um dos termos com mais resultados num site de buscas argentino seja "Diego Maradona", certo? Errado. Uma batalha legal iniciada por diversas personalidades públicas do país vem obrigando o Yahoo e o Google locais a censurar diversos termos, entre eles o nome do ex-craque e atual técnico da seleção argentina.

    Segundo um representante do Google ouvido pelo site CNet News, essa manobra legal não seria possível nos EUA ou na Europa, onde a lei considera que sites de busca não são responsáveis pelo conteúdo das páginas que eles indicam.

    O imbróglio teve início em meados de 2007, quando um grupo de 70 modelos, representadas por um único advogado, pediu que o Google bloqueasse todas as referências com seus nomes para evitar o acesso a sites pornográficos que exibiam suas fotografias. A empresa se recusou a tomar a medida e disse que bloquearia apenas links específicos e que os usuários precisariam ser notificados, disse ao CNet News Alberto Arebalos, diretor do Google para a América Latina.

    O caso foi levado à Justiça e desde então juízes argentinos têm ficado do lado das modelos e de outras figuras públicas, como Maradona, que procuraram o mesmo advogado, Martin Leguizamon Peña. Ele pede ainda indenizações entre US$ 30 mil e US$ 121 mil para seus clientes.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ah, look at all the lonely people


Vai a leilão nesta semana um documento interessante, conta 0 Guardian. Datado de 1911, ele foi assinado por uma servente do City Hospital de Liverpool ao receber seu salário. Seu nome: E.Rigby. Embora a servente tenha vivido anônima, e justamente por isso, espera-se que o documento seja arrematado por no mínimo meio milhão de libras, diz a Reuters.

Annie Mawson, a filantropa que administra uma fundação que usa a música para tratar de pacientes com dificuldades físicas, escreveu uma carta bastante ousada em 1989. Endereçada a Paul McCartney, dos Beatles, a carta pedia meio milhão de libras ao ex-Beatle para ajudar seus pacientes.

Nove meses depois, quando ela já pensava ter a carta ido parar no lixo da secretária do ex-parceiro de John Lennon, chega um envelope estranho, com o timbre da turnê de McCartney. Dentro dele, estava esse documento antigo e manuscrito. Só ao ver o carimbo do músico e ligá-lo ao desconhecido nome manuscrito é que ela lembrou da música:

    Eleanor Rigby died in the church and was buried along with her name
    (Eleanor Rigby morreu na igreja e foi enterrada junto com seu nome)
    Nobody came
    (Ninguém veio)
    Father McKenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
    (Padre McKenzie limpa a sujeira das mãos ao se afastar da cova)
    No one was saved
    (Ninguém foi salvo)

    All the lonely people
    (Tanta gente sozinha)
    Where do they all come from?
    (De onde todos eles vêm?)
    All the lonely people
    (Tanta gente sozinha)
    Where do they all belong?
    (Onde é o lugar de todos eles?)

Durante anos, McCartney disse que a canção tratava de uma personagem fictícia. Ele dizia que "Eleanor" veio do nome de uma atriz e "Rigby" de uma loja. Também se dizia que a música originalmente se chamava "Miss Daisy Hawkins". Encaixa perfeitamente na métrica.

Nos anos 80, porém, foi encontrado no cemitério da igreja de St.Peter, em Liverpool, o túmulo de uma Eleanor Rigby que nasceu em 1895 e morreu em 1939, aos 44 anos. Não é garantido que as duas E.Rigby sejam a mesma pessoa. Sequer, também, se sabe qual é a relação entre a servente do hospital e os dois Beatles autores da letra. Se ela é a mesma do túmulo, nenhum dos dois a conheceu - Lennon é de 1940 e McCartney é de 1942.

Mas há aí um mistério interessante para os arqueólogos do rock, não?

Um pouco de civilização

Há alguns meses, o governo britânico destinou 20 mil libras para que uma força-tarefa premiasse um projeto interessante apresentado por um cidadão. Não se tratava de projetos abstratos, como aquele concurso de soluções hipotéticas para o Minhocão feito em São Paulo a título de curiosidade, e sim de projetos que usassem informações públicas para melhorar a vida do cidadão. O nome do projeto: "Mostre-nos um Jeito Melhor".

O vencedor foi Adam Temple, de 26 anos, com o projeto Posso reciclar?". No Reino Unido, existem diversos centros de reciclagem especializados, mas cada um tem uma especialidade. A idéia de Temple foi criar um site onde o cidadão digita o seu código postal e fica sabendo o que se recicla nas redondezas de sua casa.

Fácil de fazer. Uma idéia óbvia, aliás - mas nunca feita. Houve outras idéias interessantes, que o governo promete retrabalhar. Uma delas é "Para onde vai o meu dinheiro" - um mashup que coloca dados de execução orçamentária num mapa, mostrando o que está sendo gasto e onde.

No Brasil, eu consigo pensar em várias aplicações para a mesma idéia simples de achar o centro de reciclagem a partir do CEP. Por exemplo: onde fica o oftalmologista que atenda pelo SUS mais perto da casa do vivente. Ou um sistema unificado de bibliotecas públicas onde se possa consultar qual é a biblioteca mais próxima onde o sujeito acha o livro que procura. Ou etc etc etc.

O problema: se for esperar até os governos da terra do analfabetismo funcional institucional convidarem, vamos criar raízes na cadeira.