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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Festival É Tudo Mentira (3): Estatísticas

A terceira parte do festival que comemora o dia dos bobos trata das mentiras numéricas. Em 1954, o estatístico americano Darrell Huff publicou um livro chamado "Como Mentir com Estatísticas". Nele, Huff explica conceitos da estatística, mostra como lê-las e não deixa dúvida alguma: bem torturados, os números revelam o que o freguês quiser. E os fregueses políticos SEMPRE querem.

Vamos começar pelo mais quente. Vocês viram ontem a notícia de que um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontou que o Brasil tem menos funcionários públicos do que os Estados Unidos? Isso bem no meio de um escândalo justamente relacionado à abundância de diretores no Senado e de recorrentes notícias sobre o inchaço de indicações políticas no governo.

Não é o primeiro estudo do gênero. Em janeiro, o mesmo instituto lançou um estudo noticiado da seguinte forma: "Brasil tem eficiência no gasto em saúde, diz estudo do Ipea".

Esse tipo de manipulação de dados faz um sucesso danado em debate de candidatos - mal posso esperar os de 2010.

Ora, você deve conhecer as queixas de alguém que enfrenta as filas do SUS, se é que não se queixa sozinho. Então, na época, eu abri o estudo do IPEA para dissecá-lo. Cheguei à seguinte conclusão: a eficiência no gasto apontada pelo estudo significa que a situação é tão precária que qualquer coisa que se gaste a mais já dá uma boa melhorada.

Procurei o estudo original do IPEA sobre os servidores. Em 2007, o país ultrapassou a marca dos 10 milhões de barnabés. Eles compararam a proporção de servidores públicos no Brasil com a proporção em outros países, quase todos menores que o Brasil. A máquina pública nos Estados Unidos é realmente muito maior que a brasileira - eu imagino a quantidade de arquivistas que eles devem contratar pra manter organizados seus documentos, que qualquer cidadão pode solicitar. No Brasil, essa estrutura é precária.

O que o estudo não leva em conta, portanto, são as medidas de eficiência dessa máquina. Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.

É que nem o Senado: tem dois diretores para cada senador, custa o equivalente a uma Ferrari, mas presta serviços de fusquinha detonado com problemas no escapamento. É mais ou menos essa a crítica feita pelo professor José Pastore ao estudo do IPEA.

Mas experimente por exemplo criar indicadores para avaliar essa eficiência. O pau come. Especialmente quando se trata de avaliação do ensino público ou da produtividade dos servidores. Sempre virão os paladinos da qualidade subjetiva dizendo que ela não pode ser reduzida a números. Até certo ponto, a crítica faz sentido: o número não diz tudo. Mas em boa parte ela não faz sentido: um conjunto bem escolhido de indicadores sempre diz alguma coisa a quem sabe lê-lo. Muitas vezes, porém, essa crítica arrasadora vem pra evitar qualquer tipo de avaliação que ameace práticas confortáveis. Por exemplo, o Senado detestou quando o estudo que eu coordenei mostrou que ele era a Casa legislativa mais cara do mundo, proporcionalmente.

Outra forma de estatística favorita entre os políticos e seus marqueteiros são as sondagens de opinião pública. Aí vai uma longa discussão para a qual não tenho muito espaço neste post. Mas cabe avaliar uma, que vem ganhando popularidade: as sondagens via internet.

No início de junho de 2007, uma polêmica cercava a não-renovação da concessão da emissora venezuelana Radio Caracas Televisión – identificada pelo presidente do país, Hugo Chávez, como uma das principais opositoras de seu regime. Os defensores da decisão de cassar a concessão argumentam que a licença havia vencido e que Chávez agiu perfeitamente dentro da lei. Os críticos da decisão afirmam que tirar a emissora do ar agrediu a liberdade de expressão – ainda que sua licença pudesse estar vencida, seria abuso da autoridade presidencial tirar do ar um canal crítico para pôr no ar uma TV “chapa-branca”.

Por aquela época, a embaixada da Venezuela em Brasília propôs a seguinte questão numa enquete em seu website:

    Você considera que a não-renovação da concessão do sinal radioelétrico do Estado à RCTV é:

    Um ato de soberania legislativa do Estado
    A expressão da vontade popular
    Um atentado à liberdade de expressão
    Não sabe

Fiquei sabendo da enquete no dia 4, a partir do blog do professor Orlando Tambosi, da UFSC – um ácido crítico de Chávez. Não foi o único blog que convidou à manifestação de contrariedade ao ato. Quando votei, havia 68,7% de votos na opção “Um atentado à liberdade de expressão”. À noite, já eram 77,28%. Na manhã do dia 5, eram 83,7%.

Pouco depois, misteriosamente, o placar virou e a opção “Um ato de soberania do Estado” ficou com 82% dos votos. No dia 6, a enquete foi fechada e ficou no arquivo do site.

Como era possível votar mais de uma vez, não é impossível que muitas pessoas tenham votado diversas vezes, contra, a favor ou ambos. Estão em seu pleno direito de manifestação, se a formulação técnica da enquete permite. Mas isso demonstra que uma pesquisa online não tem exatamente os mesmos critérios de uma pesquisa de opinião feita com rigor. Serve mais como passatempo do que como informação.

O fato: Os números não mentem, mas bem torturados eles revelam o que o freguês quiser. Pra saber o que está por trás deles, tem que ficar ligado. Tem que olhar como foi feito o número. Tem que ler o estudo. Às vezes, ele diz mais pelo que não é dito do que pelo que é efetivamente dito. Lembre que 100% dos pacientes de câncer desenvolveram a doença após anos bebendo água todo dia. Nem por isso a água é cancerígena.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Cokrigagem

Professor Túlio Kahn, seja bem-vindo. Volte sempre, o blog está aberto. Caso queira comentar, agradeço: elevará o nível por aqui.

A respeito da questão dos dados de crimes em São Paulo, que sua secretaria julga por bem não divulgar para evitar interpretações erradas e injustas, que rebaixem a auto-estima do paulistano e abalem o valor dos imóveis, gostaria de solicitar sua opinião a respeito de uma experiência de outras paragens.

Em Londres, há um debate interessante sobre o mapeamento de crimes. O novo prefeito, Boris Johnson, prometeu um mapa, mas ainda não cumpriu por várias questões burocráticas - incluindo a falta de vontade da SSP de lá em fornecer os dados.

A inspiradora jornalista Heather Brooke escreveu um artigo interessante para o The Times a respeito da importância dessas informações, até para reduzir o medo nas ruas. Na falta de um mapa oficial, tem gente fazendo mapas a partir do noticiário, como este de assassinatos de adolescentes:


View Larger Map

O noticiário é uma fonte interessante: é de domínio público e pode ser organizado usando as tecnologias disponíveis, mas ainda assim é parcial no sentido de que nem todos os crimes são noticiados. Como o sr. sabe bem, um assassinato no Capão Redondo não tem o mesmo destaque de um seqüestro-relâmpago nos Jardins. Os dados oficiais podem ajudar a reduzir o medo.

(Ora, que obviedade eu estou dizendo. É claro que o senhor sabe: em 2001, um estudo seu constatou que os homicídios representam 4 em cada 10 notícias sobre violência, mas não chegam a 2% dos crimes.)

Outra experiência interessante, feita por jornalistas, é o antigo Chicagocrime.org, que hoje foi expandido no Everyblock. Vale a pena ler o testemunho do Adrian Holovaty a respeito da experiência que ele começou:

    Muita coisa boa resultou do chicagocrime.org. Em nível local, incontáveis moradores de Chicago entraram em contato para expressar seu agradecimento pelo serviço de utilidade pública. Grupos comunitários imprimiram partes do site e levaram a reuniões com a polícia, e cidadãos empolgados levaram os relatórios do site a seus vereadores para apontar alguns cruzamentos problemáticos onde a cidade poderia considerar a instalação de postes com luz mais forte.

Em São Paulo, professor, não temos nada disso porque simplesmente não há dados. O sr. prestaria um valiosíssimo serviço público, maior até que os resultados de sua pesquisa, caso aproveitasse sua estadia no departamento para aumentar a transparência desses dados. Com a grande disponibilidade de acesso à internet, incluindo em telecentros de áreas mais carentes, e com o potencial mobilizador da tecnologia, grandes possibilidades podem se abrir.

Aguardo sua opinião a respeito. O sr. já conhece o caminho.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Por que é legal pra caramba dar aulas

Acabo de receber um e-mail do repórter Aguirre Peixoto, do jornal "A Tarde", com três páginas em PDF com reportagens de política publicadas nos últimos dias. Todas as reportagens foram feitas a partir de análises de informações públicas.

Abri um sorriso imenso ao vê-las. Foram feitas a partir de técnicas de levantamento e análise de dados que mostrei a duas turmas de repórteres do jornal durante 10 dias no começo de julho.

Uma das pautas que estavam caindo de maduras era sobre quanto das verbas do ministério da Integração Nacional, ocupado pelo baiano Geddel Vieira Lima, ia para cidades baianas administradas pelo seu partido, o PMDB. O repórter Vitor Rocha descobriu: foram 75% das verbas, desde que o ministro baiano tomou posse. Mais ainda: dos 55 prefeitos do PMDB que receberam recursos do ministério, 38 foram eleitos originalmente por outros partidos. Um prefeito que recebeu verba mas não mudou de partido disse que só não mudou para não perder o cargo, mas que está apoiando o candidato do PMDB. Entrevistado, o ministro respondeu que políticos de partidos de oposição nunca lhe pediram verbas. "Não posso liberar dinheiro para quem não demanda", disse.

O próprio Aguirre fez uma reportagem, publicada na terça, sobre o crescimento do patrimônio dos candidatos a prefeito de Salvador. O de ACM Neto, por exemplo, dobrou. Segundo o deputado, ele vendeu um apartamento que passou por uma grande valorização e comprou um mais caro, além de receber rendimentos em suas aplicações bancárias. Outra do Aguirre, "Mais de 700 têm ficha suja", comparou os candidatos a prefeituras já registrados pelo TRE baiano às listas de candidatos com contas desaprovadas do TCU, TCE e TCM.

sábado, 26 de julho de 2008

Lies, damn lies and statistics

A Agência Brasil conta sobre uma unificação de critérios entre os institutos de estatística de vários países latino-americanos. Dos que eu conheço, o melhor ainda é o IBGE. O mais polêmico, o INDEC argentino. Estatísticas são como um termômetro: se estiverem quebradas, não dá pra medir febre alguma. A grande diferença é que ninguém quebra um termômetro clínico por interesse politiqueiro.

A notícia:

    Rio de Janeiro - Representantes dos órgãos oficiais de estatística da Argentina, Paraguai, Uruguai, México e Brasil estão reunidos hoje (25), no Rio de Janeiro, para discutir a harmonização de metodologias de pesquisa e definir os modelos que serão utilizados pelos países a partir de agora.

    De acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eduardo Pereira Nunes, durante o encontro, que faz parte de um programa de cooperação técnica entre essas nações, estão sendo analisadas duas opções: a realização de censos para as áreas demográfica, econômica e agropecuária ou o levantamento por meio de amostragem. Nunes acredita que a segunda alternativa requer menos recursos e permite uma visualização melhor do desenvolvimento do país.

A principal interessada em recuperar a credibilidade de suas estatísticas é a Argentina. Do La Nación:

    En medio de las insistentes versiones sobre el alejamiento del secretario de Comercio Interior, Guillermo Moreno, la Casa Rosada analiza cambios en el Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec), según admitieron ayer a LA NACION altas fuentes oficiales.

    El indicio de que el tema es motivo de debate en estas horas en el Gobierno lo brindó por la mañana el flamante jefe de Gabinete, Sergio Massa, al admitir que hay que "trabajar muy fuerte" para reconstruir "la confianza del ciudadano" en el Indec.

    "Me preocupa que no tengamos la capacidad de transmitir confiabilidad a la sociedad sobre cómo está funcionando cada una de las instituciones", afirmó a Radio América.


O Clarín tem uma boa recapitulação do histórico de como o INDEC, o IBGE argentino, perdeu toda a credibilidade. Pra ver o tamanho do problema lá, veja esta notícia de julho:

    Si no se dio cuenta, tome nota. En un año, en promedio, los precios de las frutas, las verduras, la ropa exterior (y el alojamiento, excursiones y transporte turístico bajaron el. 15,1 por ciento Quien registró semejante "deflación" de precios es el INDEC, de acuerdo a las cifras difundidas el viernes por el organismo que opera en la órbita del secretario Guillermo Moreno.

    Los precios de las verduras fueron los que más se desplomaron: casi una tercera parte. Le siguió la ropa exterior con una baja del 13,4 por ciento. Los precios de las frutas subieron apenas el 8,8 por ciento, menos que la inflación promedio. Y en Turismo no es posible saber qué pasó porque el instituto oficial dejó de publicar los datos desagregados de éste como de otros rubros.

    Para el INDEC, en un año, estos productos estacionales -que tienen una ponderación de casi 10 por ciento en la nueva canasta- bajaron de precio en nueve de los últimos doce meses y subieron sólo en tres. Y es éste también uno de los factores que explica por qué la inflación anual acumula un alza de apenas el 9,3 por ciento.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Primeiro mundo é outra coisa

Devo ir à Noruega em setembro, para participar da Conferência Global de Jornalismo Investigativo. As passagens foram emitidas pela organização do evento. Aí, eu estava verificando os itinerários e me deparei com esta frase:

    Calculated average CO2 emission is 2225.0 kg/person

Que tal? Nem a TAM e nem a Gol colocam nada do gênero, pra gente não se sentir tão culpado...

terça-feira, 15 de julho de 2008

Existem mentiras, mentiras deslavadas... e estatísticas

A expressão "lies, damn lies and statistics" já foi atribuída a Mark Twain, Benjamin Disraeli e outros gênios que não podem mais se defender da autoria. Mas ela tem muito de verdadeiro, embora costume ser lida pelo que não é. A estatística, quando bem feita, mostra apenas o que ela apura. O que ela não apura ela não mostra. Malfeita, a estatística cai em qualquer um dos outros dois tipos de mentira.

Hoje, os sites de notícias vêm informando que, segundo novos dados divulgados pelo TSE, mais da metade do eleitorado tem o primeiro grau incompleto. É quase um escândalo, e pode ser usado como explicação sobre o porquê da eleição de maus políticos. Mas, tomado sem o devido grão de sal, é um dado falacioso.

Quando foi a última vez em que você atualizou seu cadastro na Justiça Eleitoral?

A minha foi em 1993, quando eu tinha 16 anos. Ali, eu tinha apenas o segundo grau completo. Desde então, comecei, enrolei e terminei a faculdade. Outros da mesma idade que eu, mais afeitos à academia, fizeram mestrado e começaram doutorado. Ainda outros, talvez, estariam no primeiro grau e foram adiante. Outros, possivelmente, não tinham estudos e avançaram um tanto. Dá tempo pra acontecer de tudo. Se você não atualizou seus dados, as estatísticas do TSE não sabem disso.

Talvez você esteja, como eu, engordando as estatísticas dos eleitores com escolaridades defasadas. Mais ainda: talvez esteja, como eu, engordando as estatísticas de endereços defasados. Como eu nunca atualizei meus dados, a Justiça Eleitoral ainda considera que eu viva em Porto Alegre. Meu endereço que ela tem é o de onde eu deixei de morar em 1995. Desde então, mudei de endereço nove vezes (três delas mudando de cidade).

Uma das principais dicas que eu dei no curso de 10 aulas no jornal A Tarde, que terminou ontem, foi esta: saiba como é produzido o dado que você vai analisar. Senão, corre-se o risco de fazer como TODOS os sites de notícia estão fazendo hoje, TODOS os telejornais vão fazer daqui a pouco e TODOS os jornais vão fazer amanhã.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A tecnologia é a mesma

Hoje pela manhã, a Polícia Federal deu uma batida na Câmara e apreendeu computadores e documentos nos gabinetes dos deputados mineiros João Magalhães (PMDB) e Ademir Camilo (PDT). A operação busca combater fraudes em licitações de obras do PAC. Teriam sido desviados cerca de R$ 700 milhões da construção de casas populares e de estações de tratamentos de esgoto em vários municípios.

Magalhães, pelo que nos conta o Excelências, tem estes antecedentes:

    Em 2004, seu ex-assessor Márcio Passos foi acusado pelo TCU de participar de um esquema de desvio de recursos federais por meio de emendas parlamentares. As emendas eram apresentadas por Magalhães, mas as acusações contra o deputado foram arquivadas pelo Ministério Público na época por falta de provas. O caso, comparado em notícias mais recentes ao dos Sanguessugas, levou o deputado a ser incluído na lista dos inelegíveis do TCU (O Estado de Minas, 1.out.2004; O Tempo, 5.jul.2006).

    Aparece no livro-caixa da máfia dos Sanguessugas, periciado pela Polícia Federal, como tendo recebido R$ 42 mil da empresa Planam em fevereiro de 2006. Seu nome também é mencionado em grampos feitos pela Polícia Federal. Ele afirma que se trata de um homônimo. Antecipou seu depoimento à CPI dos Sanguessugas, em julho, depois que seu nome foi publicado pela revista Veja em uma lista de suspeitos. (Correio Braziliense, 14.mai.2006; O Tempo, 23.jul.2006).

Já a respeito de Camilo nunca se encontrou indícios de participação no esquema dos Sanguessugas. Segundo o Estadão de 3.ago.2006, porém...

    O depoimento do empresário Luiz Antônio Vedoin à Justiça de Mato Grosso, no mês passado, revela que o esquema dos sanguessugas estava terceirizando o lobby em busca de parlamentares que aceitassem participar da apresentação de emendas em favor das empresas de sua família.

    O principal agente "terceirizado" era, segundo revelou Vedoin, Wilber Correa da Silva, ex-chefe de gabinete do ex-deputado federal Zé Índio (PMDB-SP). Wilber foi detido em maio, quando a Polícia Federal promoveu uma ação para prender acusados de envolvimento no direcionamento de licitações para compra de ambulâncias.

    Em seu depoimento, Vedoin afirma que "no final de 2005 Wilber atuava como lobista, fazendo contato com deputados e assessores para conseguir recursos para entidades". Nessa função, ele informava a família Vedoin sobre emendas para saúde e ciência e tecnologia.

    Os deputados que estavam na mira de Wilber, segundo Vedoin, eram Leonardo Matos (PV-MG), que destinou R$ 800 mil para a área da saúde; Jaime Martins (PL-MG), que subscreveu R$ 3 milhões para o setor; Geraldo Thadeu (PPS-MG), que assinalou R$ 2,8 milhões para a saúde; e Ademir Camilo (PDT-MG), que destinou R$ 2 milhões para a saúde e mais R$ 400 mil para tecnologia.

Nunca foi demonstrado se, além de fazer mira, Wilber chegou a atirar. Ele, aliás, foi preso pela Operação Hurricane.

O que o esquema apontado pela operação Sanguessuga tinha a ver com o Congresso? Liberação de recursos do Orçamento federal que depois seriam distribuídos a prefeituras que fraudavam licitações. É mais ou menos o mesmo negócio, mas com outro produto, que a PF parece estar investigando aí.

No tempo em que eu fazia o blog do Deu no Jornal, eu alertava: há vários esquemas que usam o mesmo ralo, mudando apenas o produto. Pouco foi feito até hoje para fechar o ralo. Muitas vezes, os mesmos caras são acusados de envolvimento em distintos esquemas que usam esse ralo. Eu costumava alertar:

    1) O problema que gerou a Máfia dos Sanguessugas não foi o fato de a Planam vender ambulâncias. Foi a pouca transparência do processo de emendas orçamentárias.

    2) O fato de a Planam vender ambulâncias é secundário. Ela era uma empresa que usava as possibilidades do ralo orçamentário para superfaturar um produto - que podia ser ambulância, vergalhão, gibi ou melancia. O ralo não é específico para aquele produto, como mostra o caso atual.

    3) Dificilmente o ralo é aproveitado para apenas um produto. Dificilmente apenas uma empresa aproveita o ralo para um produto. A Planam tinha concorrentes no negócio de superfaturar ambulâncias. Nas milhares matérias publicadas sobre o caso, menos de 1% mencionavam o esquema Domanski, concorrente dos Vedoin no negócio de ambulâncias.

    4) Os vários esquemas podem ter conexões entre si. No caso da Sanguessuga e da Pororoca (de 2004), há o link de Erick Janson Sobrinho Lucena, ex-assessor do deputado paraense Benedito Dias e preso pelas duas operações. Em 2004, ele foi preso pela Operação Pororoca. Em 2006, Janson tinha uma empresa de fachada junto com os Vedoin, que atuou nos dois esquemas. O esquema pego pela Operação Gafanhoto, de 2005, usava o mesmo ralo para obras de barragens. Os deputados de Roraima acusados de envolvimento na Gafanhoto também foram acusados na Sanguessuga.

    5) Dificilmente serão os mesmos deputados envolvidos com todos os produtos e todas as empresas que os vendem. Deve ter mais gente. O problema é descobrir e depois provar.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Pra mim, não fecha a conta

O ministro da Justiça, Nelson Jobim, negou enfaticamente a presença de guerrilheiros das Farc no Brasil.

"Não tem possibilidade. Temos hoje cerca de 20 mil homens do Exército espalhados nos postos de fronteira do Brasil. Está tudo coberto", disse. Mas isso é pouco ou é muito? Ou é suficiente?

Vamos lá. 20 mil homens, considerando uma hipotética divisão equânime em três turnos de oito horas, dá 6.666 por turno. Dificilmente um soldado anda sozinho. Digamos, hipoteticamente, que haja quatro em cada ponto. Isso daria 1.666 pontos ocupados por turno. Mas lembre que não tenho dados pra embasar isso. De dados, só tenho a quantidade de militares dada pelo Jobim e o que segue abaixo.

Vejamos o tamanho das fronteiras com a Amazônia, apenas com três países da mesma Comissão Demarcadora de Limites:

Peru: 2.003,1 km por rios e canais, 283,5 km por linhas convencionais e mais 708,7 km por divisor de águas. São 86 marcos.

Colômbia: 808,9 km por rios e canais, 612,1 km por linhas convencionais e mais 223,2 km por divisor de águas. São 109 marcos.

Venezuela: 90,0 km por linhas convencionais e mais 2.109,0 km por divisor de águas. São 2.440 marcos.

Ou seja: só com esses três países, são 9.278 km. Parece que fica pouca gente. Se cada ponto tiver 4 soldados, seria um ponto a cada 5 km, numa fronteira de floresta e rio, onde fica tudo escuro à noite.

Vá lá: hoje em dia tem o Sivam. Mas não sei se ele capta entrada gradual de homens pela beira do rio ou pelo meio do mato, por exemplo, à noite. Ou disfarçados pela fronteira. Se nem o corte ilegal de madeira, que depende de caminhões para o transporte, se consegue fiscalizar direito, imagine a entrada de homens por uma fronteira maior do que a altura do mapa do Brasil.

Se a conta realmente não fecha, ou o ministro é otimista demais ou está deliberadamente dizendo o que não pode garantir para abafar questionamentos. Homem dos três Poderes (Legislativo, Executivo, Judiciário e agora Executivo de novo), ele sabe há muito tempo que a imprensa trabalha coletando aspas, não necessariamente informações.

Se a conta fecha de alguma forma que eu não percebo (o que não seria incomum), o governo faz mágica com pouco. Ou as Farc se comprometeram de alguma forma a não entrar no Brasil. Não tem como saber.

Como eu não acredito em mágica, continuo achando que a conta não fecha.

terça-feira, 4 de março de 2008

Quanto vale ou é por quilo

A Transparência Brasil fez um novo estudo sobre os Orçamentos dos Legislativos brasileiros, atualizando o que coordenei em 2007. Baixe-o aqui.

Mordaças, politicagem e camuflagem

No Paraná e em Pernambuco, como eu mostrei outro dia, houve restrições à publicação de dados de violência. No Rio, a diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública perdeu o cargo após divulgar um novo recorde de assassinatos pela polícia fluminense.

Hoje, o Globo Online mostra que uma revisão de dados de segurança de São Paulo acabou por revelar um número maior de crimes em cidades do interior. Não há prazo para a investigação terminar.

Possivelmente, essas mordaças, camuflagens e calabocas têm a ver com o ano eleitoral. Estatísticas de segurança sempre tiveram um certo grau de camuflagem, ao que se saiba, mas hoje em dia há movimentos simultâneos da tecnologia e da sociedade possibilitando que isso apareça mais, porque a demanda é mais aberta. Tanto a demanda quanto as maquiagens tendem a aparecer mais.

Não custa repetir que o conceito de informação pública ainda é esotérico, no Brasil. No ano passado, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo apresentou um estudo mapeando como órgãos da administração pública atendem a pedidos de informação. Três quartos dos órgãos consultados simplesmente não responderam às perguntas feitas.

A mão que nega informações públicas a um repórter trabalha em harmonia com a mão que maquia estatísticas. É tudo gente que não presta (informações, serviço decente, respeito ao cidadão...).

O maior problema com isso é o fato de que maquiar estatísticas é semelhante a quebrar um termômetro. Como se vai saber qual é a febre do doente? Como se vai planejar o tratamento?

A tentação de usar estatísticas maquiadas é um dos efeitos mais nefastos da marquetização da política. Pode ser útil em termos eleitorais ou publicitários, vá lá. Isso serve bem às panelinhas de plantão, mas só a elas.

sábado, 1 de março de 2008

Accountability na lata do lixo

A Folha tentou obter os dados das notas com as quais os parlamentares justificam o recebimento de verbas indenizatórias. Dos 594, apenas 14 forneceram. A reportagem informa que a Câmara não fiscaliza as notas, apenas confere os valores. São esses os cavalheiros e madames que vão investigar em CPI o uso dos cartões corporativos (que, diga-se, merece ser observado a fundo).

Observar a forma como os pedidos foram recebidos diz muito sobre o quanto suas excelências prezam a prestação de contas à sociedade:

    Um assessor de gabinete fez questão de rasgar o ofício na frente do funcionário do jornal que os distribuía na Câmara. Outros tantos o atiraram direto na lixeira.

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, ficou irritadinho:

    "[O repórter] se outorgava, parece-me, a um papel que não cabe a um jornalista. Ele não tem poder de polícia, não representa o Ministério Público nem tampouco o Poder Judiciário. Ouvi vários líderes e dezenas de deputados e deputadas e não tenho nenhuma dúvida em afirmar que aquilo causou uma indignação, dada a atitude que podemos chamar de desrespeitosa com o Poder."

Atitude desrespeitosa com o Poder. Pois sim. O que sua excelência tem medo que apareça?

Se você é assinante da Folha ou do UOL, leia aqui a matéria inteira.

O Senado começa a divulgar os gastos de verba indenizatória nesta segunda. Mas sem os detalhes das notas, aparentemente.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Outras novidades do NYT

O Russo provocou ali embaixo: bilheteria de cinema é um assunto meio bobinho. Ainda mais em se tratando de Hollywood.

Concordo em parte. Mas o que eu queria, na verdade, era chamar a atenção para coisas interessantes que o New York Times vem fazendo em termos de apresentação de dados, até mesmo numa área que costuma ser coberta com alguma frivolidade (figurinos, efeitos especiais, casa/separa). No Brasil, geralmente, a cobertura mais aprofundada de artes e espetáculos é na forma de resenhas. Há pouca reportagem sobre os bastidores, mas há, ainda que geralmente sem usar bancos de dados.

Vale a pena dar uma olhada no guia da pré-campanha eleitoral americana que eles fizeram. Neste aqui, está creditado o dedo do Aron Pilhofer, repórter especializado em bancos de dados com quem tive algumas ótimas conversas em Londres, há alguns meses.

Tudo feito com informação pública. Tudo mais revelador do que muito off. São caminhos muito interessantes, os que se abrem à nossa frente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Novas formas de apresentar dados

O New York Times fez um gráfico interativo muito interessante, sobre as receitas de filmes americanos. É de babar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Censura, por outros meios

A Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco baixou uma ordem, dia 18, proibindo que o centro integrado de dados da Polícia Civil de fornecer informações à imprensa, segundo nota de repúdio do sindicato dos jornalistas local. O centro totaliza as informações sobre homicídios ocorridos no estado.

Isso atrapalha o trabalho do PE Bodycount, uma das mais interessantes iniciativas jornalísticas independentes atualmente em curso no Brasil, vencedora do prêmio Vladimir Herzog. De certa forma, também é uma reação a ele. No final de semana, o blog informou que teria havido 45 mortes no estado, enquanto a secretaria só admitia 26. Mais adiante, a secretaria precisou voltar atrás.

EDITADO: Na verdade, não atrapalha muito o trabalho deles - só dos repórteres que contam exclusivamente com a fonte oficial. Mas ainda assim é um problema. Todo dia, a equipe do PE Bodycount faz cerca de 50 telefonemas para delegacias, hospitais e rádios para colher dados sobre assassinatos ocorridos no estado. Muitas vezes esses dados contradizem os da secretaria de segurança. Coloco em breve no blog uma entrevista com os responsáveis pelo site.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ainda mais sobre jornalismo e dados

A repórter Jennifer LaFleur, que por anos foi instrutora de reportagem com o auxílio do computador na NICAR, escreve no Dallas News sobre como os cidadãos podem acessar e usar registros públicos para facilitar suas vidas.

O jornal até mesmo criou na internet um centro de dados que foram notícia, para que os leitores possam acessar os dados brutos e pesquisarem o que lhes interessa.

ISSO é usar a internet com inteligência.

Um bom exemplo do que acontece quando os jornais colocam na internet para qualquer leitor ler as planilhas com que trabalham foi publicado neste domingo, no Estadão.

Comentei durante a semana passada o fato de o jornal ter colocado na internet a planilha com os parlamentares que receberam dinheiro de bancos em suas campanhas eleitorais (baixe aqui a planilha).

No domingo, o jornal publicou uma reportagem mostrando que os dados de algumas doações registradas na Justiça Eleitoral atribuíam ao Unibanco dinheiro doado por empresas que incluem até um frigorífico. Ninguém sabia disso, nem ninguém tinha reclamado, antes de o jornal publicar a reportagem anterior, colocando a planilha na internet.

Questionado a respeito, o TSE indicou que o problema pode ser ainda mais grave:

    Por meio de sua assessoria, o TSE esclareceu que não processa outras contas que não as de candidatos a presidente da República. A contabilidade de candidatos a outros cargos é de responsabilidade dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) dos Estados, que as enviam ao TSE, encarregado legalmente apenas de torná-las disponíveis, não de manuseá-las.

    (...) O TSE informou que vai tentar descobrir o que aconteceu, mas adiantou que não tem como conferir, uma a uma, a contabilidade de campanha de todos os candidatos a deputado federal e a senador, nem pode, legalmente, corrigi-las. Também explicou que a veracidade das informações é de responsabilidade dos candidatos, que, se quiserem corrigir as contas, devem pedi-lo aos respectivos TREs.

    Segundo o TSE, em relação a senadores e deputados a lei determina que deve divulgar a contabilidade, não sanar os erros. Essa, insistiu, é função dos tribunais estaduais, a partir de iniciativa dos candidatos.

Não foi por falta de aviso que isso aconteceu. O Claudio Weber Abramo, diretor da Transparência Brasil, costumava sempre criticar a falta de checagem por parte da Justiça Eleitoral sobre os dados de doações de campanha. Muitas vezes, os dados que chegavam para o projeto Às Claras vinham com CNPJs estapafúrdios, o que dificultava estabelecer conexões entre doadores que são filiais da mesma empresa, por exemplo.

É impossível saber que proporção dos dados está comprometida por esse desleixo por parte do TSE. Mas muito dificilmente se ficaria sabendo que parte deles está comprometida se não fosse a singela atitude do Estadão de colocar na internet a planilha que usou. Não foi o jornal que descobriu. Talvez tenha sido algum político, talvez tenha sido o banco, e o descobridor alertou o jornal. Isso rendeu pauta, e das boas. Isso é parte da serventia de colocar os dados à disposição do leitor.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Poupando trabalho do Legislativo

O senador Expedito Júnior (PR-RO) apresentou um projeto de lei que determina que sejam divulgados os nomes de quem tem cartões corporativos do governo e quanto gasta com eles, informa a Folha Online, chupando a Agência Senado. É importante ficar de olho nesses gastos, que mais do que dobraram em dois anos. O projeto tramita aqui.

A idéia é ótima, mas essa divulgação já é feita. Vá ao Portal da Transparência do governo federal e vá indo até chegar a este link, que mostra ministério por ministério quem tem cartões e onde gasta. Esses dados foram fonte de uma boa reportagem do Estadão deste domingo.

Há lacunas nessa divulgação. Por exemplo, não se mostra o que foi comprado com o cartão. Também há muitos gastos e portadores de cartão sigilosos. Na Abin, por exemplo. São essas lacunas que precisam ser atacadas. Não precisa inventar o que já existe.

De nada, senador.

Inovação sutil, mas importante

O Estadão de hoje publica na reportagem sobre os deputados financiados por bancos que vão votar o aumento do imposto sobre os lucros do setor financeiro, sutilmente, uma planilha de Excel com os dados de quais deputados receberam dinheiro de bancos (baixe aqui).

Isso permite que o leitor faça sua própria análise e tire suas próprias conclusões. Permite, por exemplo, que eu aponte um passo a mais que o jornal não permite na planilha: analisou quanto os deputados receberam dos bancos, citou em alguns casos que proporção das doações isso representava. Mas não mostrou isso na planilha, o que me impede de saber quem são os mais comprometidos com os bancos.

Ainda assim, parabéns ao repórter Wilson Tosta e à equipe do jornal online. É uma inovação, sem dúvida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O vaivém dos partidos

Consegui os dados. A assessoria do TSE me indicou esta página do site, que tem praticamente mês a mês os dados de filiação.

Embora o crescimento do eleitorado em geral dificilmente passe de 2,1%, o crescimento dos filiados às vésperas de prazos para a corrida eleitoral costuma ser impressionante. De julho a novembro, a quantidade de filiados no Brasil aumentou quase 7%, enquanto o eleitorado aumentou apenas 1%.

O nível atual de eleitores filiados é proporcionalmente o mesmo ao de outubro de 2002 e de julho de 2004: 9,7%. Em julho deste ano, era de 9,1% - o mais baixo registrado nos dados do TSE. Aparentemente, os partidos estão reconquistando simpatias. Para fins de análise, veja o que ocorreu com os dois principais partidos governistas e os dois principais partidos de oposição:



Várias das questões levantadas anteriormente se mantêm. Os dados por estado e cidade estão disponíveis no TSE, mas não tenho muito tempo disponível pra analisá-los.

Uma história passando batido

Todos os sites de jornais estão dando a notícia das 815 mil novas filiações a partidos políticos no último ano. Quando fazem alguma análise, anotam o quanto os partidos cresceram: PT e PSDB foram os que mais ganharam novos sócios, DEM foi o que mais perdeu, PMDB continua sendo a mais volumosa legenda do Brasil.

Ninguém ainda deu uma olhada mais de perto nos números. O TSE não colocou na internet os dados de crescimento ano a ano da quantidade de filiados, então não é possível ir muito longe nela. Mas, apenas comparando os dados de 2006 e 2007, vemos que a quantidade de eleitores em geral aumentou 1,2% e a de filiados aumentou 7%. Em meados de 2007, os eleitores filiados a partidos políticos eram 9,2%, hoje são 9,7%.

O que isso pode significar? Abaixo, algumas questões em aberto:

1) Caso o aumento proporcional dos eleitores filiados seja significativamente maior do que em outros anos, isso pode refletir o aumento da polarização política no Brasil, observada a partir da campanha eleitoral de 2006. Isso explicaria o crescimento de PT e PSDB, governo e oposição, apesar dos escândalos enfrentados pelos dois partidos. Pelos dados liberados pelo TSE e noticiados pela imprensa, porém, não é possível observar bem isso.

2) Um esforço grande dos partidos em amealhar filiados para votarem nas prévias eleitorais de 2004. Isso tem de todo jeito, do convencimento até a fraude. Isso sempre rende boas pautas. Cabe dar uma olhada nisso.

3) O aumento dos filiados foi uniforme ao longo do país ou foi maior em algumas regiões? Se foi, por quê? Em que regiões os partidos cresceram mais?

4) Esses eleitores que resolveram se unir aos partidos políticos estão contentes com a atuação deles? Qual é o perfil desses eleitores?

Estou tentando obter os dados com a Justiça Eleitoral. Obtendo, coloco no blog.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Uma varridinha na lista suja

Peguei a mais recente versão da "Lista Suja" do Ministério do Trabalho. É a lista de fazendas flagradas mantendo trabalhadores em condições análogas à escravidão. Transformei-a em uma planilha, para facilitar a análise (abra-a aqui).

Estranhei o fato de a lista não incluir os dados da mais importante ação promovida em 2007 pelo Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo. Ela ocorreu em julho, em Ulianópolis (PA), na fazenda Pagrisa, maior produtora de álcool na Amazônia. Foram libertados 1.108 trabalhadores que, segundo o grupo, eram mantidos em condições desumanas. Entre outras sanções, a fazenda perdeu contratos que tinha com a Petrobras.

A ação se tornou polêmica porque a empresa utilizou de toda sua influência para levar um grupo de senadores para fazer uma inspeção por lá e afirmar que as condições da fazenda eram exemplares. Fiscais responsáveis pela ação foram chamados a serem ouvidos. Até no YouTube foram veiculados vídeos em defesa da empresa. O grupo móvel, acusando o Senado de interferência política, suspendeu as inspeções por 22 dias, em 2 de outubro. Voltou perto do final do mês, com o apoio a Advocacia-Geral da União.

Nada se falou sobre mudanças em relação ao tratamento da Pagrisa. Ela regularizou sua situação? Os fiscais estavam errados? Nada foi dito a respeito. Possivelmente, tampouco perguntado. O fato é que a lista suja não inclui os dados da Pagrisa.

Quando a lista suja saiu, na sexta, eu tinha o interesse de ver quantos trabalhadores em situações análogas às de escravidão foram libertados em fazendas brasileiras durante o ano. Vi várias notícias a respeito, inclusive a da fazenda no Mato Grosso, de propriedade de um conselheiro licenciado do Instituto Ethos, onde mais de 800 índios eram mantidos nesse tipo de condição. Imagine só: o etanol, tido hoje como o combustível do futuro, com uma grande demanda, produzido em condições do passado.

O número de trabalhadores em condições análogas à escravidão em lavouras de cana, neste ano, era no entanto exatamente o mesmo do ano passado. Nem a Pagrisa com seus 1.064 trabalhadores, nem a fazenda dos 820 índios constam da lista. Mais ainda: há 47 registros na lista que sequer informam que tipo de atividade tinha a fazenda (eram 34 na versão anterior, de junho).

A metodologia da confecção da lista confunde um pouco os observadores: ela exclui as fazendas que regularizaram sua situação, embora muitas vezes essas fazendas acabem voltando. Então, não se tem um registro histórico de trabalhadores libertados por ano, por exemplo, porque as fazendas vão deixando de figurar na lista conforme informam ter-se regularizado. Também não há na lista a informação sobre há quanto tempo cada fazenda está na lista.

Já entrei em contato com o Ministério do Trabalho solicitando esse tipo de informação. Não recebi resposta alguma - apenas uma resposta informando que a lista é atualizada de seis em seis meses (o que eu já sabia).

A lista suja é um documento importante. Mas o acúmulo de silêncios que ficam pouco claros para quem não está perfeitamente por dentro do assunto pode deixar brechas para que um espírito-de-porco imagine que parte da sujeira foi varrida pra baixo do tapete.