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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Máfias e assimetrias


O filme "Gomorra" ganhou o prêmio europeu de cinema. Ele se baseia no livro homônimo do escritor Roberto Saviano, a quem a Máfia ameaçou matar até o natal. O filme, já comparado ao "Cidade de Deus" por mostrar como a Máfia domina regiões inteiras em Nápoles, já foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e está em pré-estréia na cidade.

Enquanto o diretor Matteo Garrone recebia os cinco prêmios dados ao filme, o escritor francês JMG le Clézio dava na Suécia seu discurso de aceitação do Nobel de literatura. O tema básico da fala foi um alerta sobre os perigos da "pobreza de informação". Segundo ele, a indústria literária vem focando esforços na pesquisa de como levar os livros para o formato digital, o que pode elitizar o produto. Mais produtivo, segundo ele, seria estudar formas de ampliar o acesso ao livro de papel em países onde a leitura não é muito difundida. Suas propostas:

    "Joint publication with developing countries, the establishment of funds for lending libraries and mobile libraries, and, overall, greater attention to requests from and works in so-called minority languages – which are often clearly in the majority – would enable literature to continue to be this wonderful tool for self-knowledge, for the discovery of others, and for listening to the concert of humankind, in all the rich variety of its themes and modulations."

O que têm a ver os dois prêmios?

Hoje pela manhã, fui procurar o livro de Saviano. Quero tentar lê-lo antes de a Camorra conseguir cumprir sua promessa de matá-lo até o Natal. Deparei-me com um tema que usei várias vezes no começo do blog, mas no qual não toco há muito tempo: a desigualdade no acesso aos livros.

"Gomorra" foi lançado em português pela editora Caderno. A edição estava exposta na livraria e quase a comprei. Quando fui olhar o preço, quase tive um infarto: custava mais de R$ 90. Pesquisei quanto custavam as edições em outras línguas. O preço da edição em português só perdia para o da edição francesa. Veja só:


Só agora há pouco descobri que a edição da Caderno é de Portugal. A edição brasileira (Gomorra - a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana, da Bertrand Brasil) sai depois do dia 15, talvez esperando ganhar publicidade com a eventual morte do autor dez dias depois. Ao preço de R$ 39, ela custará mais caro que as edições britânica e espanhola disponíveis no Brasil.

Eu comprei a edição britânica, como tenho comprado muitos livros em inglês nos últimos anos por saírem mais baratos que os nacionais e por vezes terem até mais conteúdo. Meu Freakonomics, por exemplo, é da edição de bolso da Penguin com textos extras.

Como leio com facilidade em inglês, fico muito grato por esse subsídio involuntário que tenho à minha leitura. Mas fico pensando nas várias assimetrias dessa situação:

    1) Para ter acesso a esse "subsídio", o cidadão precisa saber ler em inglês. Geralmente se paga para fazer cursos e eventualmente poder ler numa segunda língua.

    2) O preço que se paga aqui por livros importados já traz embutido até mesmo o custo do transporte das obras, da Europa até o Brasil. Então, um leitor inglês pagou ainda mais barato que o brasileiro que comprou a mesma edição no Brasil - com a vantagem de a renda per capita lá ser bem maior que a daqui.

    3) A diferença de R$ 7 entre o preço da futura edição brasileira e o da edição britânica que eu comprei certamente pesa mais no bolso de alguém que não lê em inglês porque não teve grana pra fazer um curso do que no meu bolso atual.

Segundo pesquisa do Observatório Brasileiro do Livro, 77 milhões de brasileiros não lêem. Numa população de 200 milhões, isso dá quase 4 em cada 10. E, dos outros 6, ainda se deve levar em conta que há os leitores muito eventuais e os que só lêem coisas tipo auto-ajuda. (E, verdade seja dita, as três categorias - não leitores, leitores eventuais e leitores de bobagens - incluem muitos brasileiros que têm bem mais poder aquisitivo do que os que não compram livros por conta do preço.)

O mercado livreiro brasileiro costuma dizer que o preço do livro é influenciado por vários fatores, incluindo as baixas tiragens que se tem no Brasil e os custos de distribuição num país desse tamanho. É verdade. Mas também é verdade que os livros brasileiros também são caros porque são feitos num papel mais pesado e com capas mais grossas que as edições populares gringas. E também é verdade o círculo vicioso segundo o qual o livro é caro porque vende pouco e vende pouco porque é caro.

Para mim, tanto faz ler em português ou em inglês. Eu preferiria comprar livros nacionais. Mas, se um livro inglês está mais barato, sequer paro para pensar a respeito. Um livro a menos vendido pela editora brasileira. Sempre que converso sobre isso com amigos que também observaram o mesmo, ouço a mesma coisa. Então não é só um livro a menos - são vários. Mais ainda: são leitores que têm o hábito da leitura e estão acostumados a comprar livros com freqüência. Basicamente, portanto, parte dos melhores fregueses das editoras.

Na sexta-feira, o Valor publicou um artigo do Alberto Carlos de Almeida sobre "Os gargalos do Brasil". Ele comparava a concentração de carros por habitantes em vários estados do Brasil e em vários países ricos. Não é um indicador que me agrade muito, considerando o inferno em que a lógica do carro transformou as cidades, mas vale a pena observar o raciocínio dele.

De certa forma, o mesmo raciocínio se aplica ao mercado de livros no Brasil.

Mais ainda: os mercados ilegais, como a Camorra do livro de Salviano, surgem especialmente por conta de assimetrias nos preços. Se o maço de cigarros custa R$ 2,50 na banca de revistas e R$ 1 no camelô logo à frente, e o consumidor julga que os dois produtos matam igualmente, abre-se um incentivo poderoso para o mercado ilegal de cigarros, certo?

No caso do mercado do livro, não existe exatamente um mercado ilegal. Há os sebos, que são perfeitamente legais, mas livros novos não chegam a eles. (E, pra falar a verdade, mesmo os velhos não têm tanta procura assim.) A disputa é entre o hábito da leitura e a inércia do analfabetismo funcional institucional. As assimetrias, infelizmente, me parecem favorecer a segunda.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TSE faz a apologia do analfabetismo funcional

O TSE considerou "rigoroso demais" o teste de alfabetização promovido pelo TRE de Alagoas para os candidatos. Segundo a notícia do TSE, a prova tinha dez questões. Três delas eram de marcar. As outras sete eram de escrever. O candidato a vereador Manoel Martim Filho respondeu apenas as de marcar. Acertou duas.

Não li o teste, mas li as aspas dos ministros nessa notícia:

Ministro Arnaldo Versiani, relator do processo:

    “O tribunal resolveu transformar esse teste de alfabetização num vestibular, na base de interpretação de texto”

    “Eu acho que o fato de a pessoa ser alfabetizada não significa nem que ela tenha condições propriamente de escrever. Eu acho que o que importa é a compreensão do texto que ela lê e que lança alguma resposta. A habilidade de grafia não é uma condição inerente à condição de alfabetizado”


Ministro Carlos Ayres Britto, presidente do TSE:

    “Há uma diferença entre dominar a língua e dominar o alfabeto. Dominar o alfabeto é uma coisa muito simples”

Ou seja: se o candidato conhecer as letrinhas, está qualificado para tentar ganhar a chance de fazer as leis de uma cidade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Primeiro mundo, terceiro mundo

O The Times hoje relata um levantamento sobre plágio em 73 universidades britânicas. Na University of London o problema é pior: 65 estudantes foram pegos colando em provas e 801 casos de plágio foram registrados no ano letivo 2006-2007.

Tente fazer levantamento semelhante no Brasil e você vai dar com os burros n'água. A regra parece ser o deixa-disso, se formos levar em conta os pouquíssimos casos que vêm a público, como o da Física da USP e o da Comunicação da UFRGS.

Os leitores que trabalham em universidades conseguem obter resposta se solicitarem às reitorias dados sobre quantos casos de plágio foram registrados no último ano pelas instituições?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Debate seguro

Os sindicatos de jornalistas não cansam de me surpreender. Agora, inventaram o DEBATE A FAVOR, como se pode ver na nota do Coletiva.net de que reproduzo um trecho abaixo:

    JORNALISMO | Terça-feira, 12 de Agosto de 2008 | 09:48

    Feevale realiza debate a favor do diploma de jornalista

    Nesta quarta-feira, 13, às 19h30, a Feevale realizará um debate a favor do diploma de jornalista, com a presença do presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, José Nunes. No auditório do prédio Branco, no Campus II da Feevale (RS-239, 2755, Novo Hamburgo), o encontro é aberto aos alunos de todos os cursos da instituição e também à comunidade externa interessada. O evento está sendo organizado pelo representante do curso de Jornalismo da Feevale, Humberto Ivan Keske, e pela professora Neusa Ribeiro

    Segundo Nunes, o Sindicato está realizando uma mobilização junto às universidades, centros universitários e faculdades, buscando o apoio dos reitores, para que a lei não seja aprovada. "O apoio das universidades é extremamente importante, porque , se essa medida for aprovada, com o tempo, vai reduzir e muito o número de alunos interessados pelo curso", destaca.

Assim não dá. Ou é debate, ou é a favor. Se vai apenas abrigar opiniões a favor, pode ser chamado de manifestação, apologia, discurso, homenagem, defesa, desagravo. Mas debate não é, porque debate pressupõe outro lado.

Basicamente, isso reforça o que o Maurício Tuffani escreveu no artigo "Os defensores do diploma e seus debates imaginários", publicado no blog Laudas Críticas:

    As entidades defensoras da exigência de graduação superior em jornalismo para o exercício dessa profissão podem comemorar uma importante vitória: conseguiram evitar um efetivo debate público sobre esse tema polêmico ao longo de quase sete anos passados desde que o Ministério Público Federal em São Paulo ingressou com a Ação Civil Pública contra essa obrigatoriedade, que é vigente no Brasil desde a edição do Decreto-lei nº 972, de 17/10/1969.

    Das instituições ligadas ao jornalismo no Brasil, as principais defensoras desse requisito são sindicatos, escolas superiores e associações de professores e pesquisadores. Retomando sua prática contumaz nestes quase sete anos, elas decidiram proceder à tática da pressão junto ao Judiciário, sem ter esboçado o menor esforço para discutir publicamente o assunto. (...)

    No que diz respeito à Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e aos sindicatos a ela associados, seria ingenuidade esperar que eles promovessem uma ampla discussão sobre o tema. No entanto, apesar de a pesquisa ser parte das atribuições de professores e pesquisadores de jornalismo e de suas entidades, estes não responderam praticamente nada às questões de fundo levantadas contra a obrigatoriedade do diploma desde 2001. Em vez de contestações diretas a argumentos pontuais contrários a essa exigência, suas “contribuições ao debate” recorreram sistematicamente à evasiva e surrada tática de refutar questionamentos genéricos ou imaginários.

    Desse modo, nenhum antagonista é citado nominalmente, assim como nenhum documento com tese contrária é mencionado, seja em pronunciamentos de dirigentes, em ofícios de diretorias de entidades e até mesmo em artigos assinados por pesquisadores. Não é por menos que essas manifestações estão disponíveis na página de notícias do site da Fenaj, que prima por sua alergia a opiniões contrárias.

Mais ainda. O sindicalista fala mesmo que o debate a favor é "para que a lei não seja aprovada"? Que lei? O que está em questão hoje é o fato de o STF levar a julgamento neste semestre uma ação que questiona a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, criada pela ditadura militar em 1969.

O sindicalista afirma que, se cair a obrigatoriedade, "vai reduzir e muito o número de alunos interessados pelo curso". Bom, aí entramos numa seara interessante, que rende um ótimo debate (contra e a favor, por favor). Há uma profusão de cursos de jornalismo no Brasil. Boa parte deles é de baixa qualidade. Parte deles, de baixíssima qualidade. Esses cursos se mantêm por causa da obrigatoriedade do diploma. Existe demanda garantida, cria-se oferta.

Aí, lembro o que mestre Philip Meyer disse em entrevista que fiz com ele em 1999:

    "O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão."

Mas, é claro, um sindicalista diria que tal posição é selvagemente capitalista.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O ortopedista, a ortografia e as medidas de tempo

Segundo meu ortopedista, tenho artrose nos dois joelhos. Doença da maioria dos velhos e dos jovens que precisam perder peso. Ao redigir a receita, ele recomendou um remédio para "DÔR", assim com o circunflexo antigo, denunciando sua idade.

Lembrei de quando eu era criança e mergulhava na biblioteca da escola, especialmente em Monteiro Lobato. A escola era estadual, meio sucateada, e havia muito que os livros não eram atualizados. Então, a maioria deles era de antes da reforma ortográfica de 1971. Desde pequeno, peguei simpatia por essa medida ortográfica de tempo.

Poucos dias depois da consulta, uma amiga enviou um e-mail à lista da Abraji pedindo o contato de um bom professor de português para orientar a adaptação da editora em que trabalha à nova reforma ortográfica que vem aí. Só então caiu a ficha que minha gramática está prestes a ficar quase tão datada quanto a do ortopedista.

Como eu venho escrevendo pouco em português, profissionalmente, não dei muita bola a essa mudança. Devia. E vale a pena ficar de olho no futuro, porque uma língua subdesenvolvida como o português muda de tempos em tempos: mudou em 1911 em Portugal, mudou em 1943 no Brasil, mudou em 1971 e vai mudar em 2008. Nada impede que mude de novo, mais adiante. Saiba tudo sobre a história das reformas no Granada de Bolso.

O inglês, por exemplo, começou a se estabilizar no século 17, com o surgimento dos dicionários. No século 18, as grafias já estavam estabelecidas. Shakespeare no original soa tão datado quanto um Machado de Assis intocado para nós. Mas Charles Dickens escreve mais parecido com a grafia atual do que Nelson Rodrigues. Até na escrita, estamos constantemente reinventando a roda.

Mas paciência. Para você não soar datado (caso use o trema, por exemplo), leia este breve guia da Veja resumindo as principais mudanças. Pessoalmente, estou imprimindo agora mesmo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Analfabetismo funcional e blefador

O Instituto Pró-Livro fez uma pesquisa para ver como se lê no Brasil. Descobriu que muito pouca gente lê (o que você já sabia) e que 55% dos leitores são mulheres (o que é um dado novo).

A maioria dos leitores brasileiros está nas idades escolar e universitária: 53% têm entre 5 e 24 anos. Os estudantes lêem 7,2 livros por ano, mas apenas 1,7 seria lido por vontade própria. E quem ganha mais de 10 salários mínimos mensais lê 5,3 livros por ano além dos obrigatórios - nível semelhante ao da Espanha e próximo ao da Argentina.

Aí, eles perguntaram quais são os livros mais lidos pelos leitores brasileiros.

Em primeiro lugar, deu a Bíblia. Vá lá, é um dos best-sellers mais tradicionais do mundo. Em alguns círculos, pega bem dizer que lê, especialmente se você for político.

De acordo com a Folha, em segundo lugar deu "O Sítio do Picapau Amarelo", do Monteiro Lobato. Ocorre, porém, que o Monteiro Lobato NUNCA escreveu um livro com esse título. Há um chamado "O Picapau Amarelo", em que os personagens da ficção se mudam para o sítio da Dona Benta. Mas "O Sítio do Picapau Amarelo" é o nome da série de TV inspirada na obra do Monteiro Lobato.

Ou seja: se o autor da matéria não errou o título e não existe uma sutileza aí reunindo sob um só chapéu todos os livros do Monteiro Lobato, o Brasil possivelmente tem ainda menos leitores do que os que afirmam ler.

Vale a pena ler este post e seus comentários (em inglês) no blog Marginal Revolution, sobre por que os livros são tão ultrajantemente caros no Brasil. A maior parte das respostas diz respeito à falta do hábito de leitura.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A culpa é sempre do aluno

Renunciou o coordenador da Medicina da UFBA que culpou o "baixo QI" dos alunos baianos pelo mau desempenho do curso em avaliações nacionais. Deve se aposentar - talvez para poder passar o dia tocando berimbau na beira da praia, sei lá.

No Fantástico, ontem, foi mostrada uma reportagem em que estudantes de primeiro grau poderiam passar facilmente em vestibulares de faculdades particulares. Não que ninguém soubesse disso. Mas vejam só que interessante esta aspa do presidente da Associação Nacional de Universidades Particulares, Abib Cury:

    "A Anup orienta as universidades para que mesmo que eles facilitem o vestibular, que coloquem o aluno dentro da universidade. Os melhores alunos do ensino médio não vão para iniciativa privada. Eles vão primeiro para o ensino público gratuito. O que sobra para o ensino particular é efetivamente aquele problemático."

Ou seja: para esses distintos senhores, o vestibular da particular é picareta porque o aluno é problemático e o curso de medicina da pública tem mau desempenho porque os alunos não têm capacidade.

Não entro no mérito de como são os alunos. Dando palestras em faculdades públicas e particulares, eu já vi de tudo, inclusive alunos excepcionalmente bons nas particulares e estudantes medíocres nas públicas. É óbvio que tem de tudo. Mas já diz mestre Sérgio Gomes que um professor é medido mais pelos alunos que entrega do que pelos alunos que recebe.

Sendo isso verdade (e eu acho que é), em ambos os casos os gestores do ensino parecem ter jogado a toalha. Um por achar que a faculdade não tem papel nenhum de qualificar os alunos que recebe, e o outro por assumir que o aluno é "problemático" e existe meramente pra trazer dinheiro para a instituição.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Sobremesa

Gosto de ler sobre música, até por não ter talento musical nenhum (participação especial cantando Deep Purple em bar de rock conta como talento?). É meu jeito de tentar captar como meus músicos favoritos fazem a mágica que fazem.

Hoje, ao invês de tomar um café e comer um brigadeiro na sobremesa, passei na livraria e trouxe o livro "A Love Supreme - a criação do álbum clássico de John Coltrane", escrito por Ashley Kahn. Coloquei o CD A Love Supreme, um dos meus favoritos no jazz, e me reclinei no sofá pra ler. Até o disco terminar, foram-se os dois primeiros capítulos numa lufada só.

Eu já conhecia relativamente bem o trabalho do escritor há quatro anos, desde que li o livro semelhante que ele escreveu sobre a gravação de Kind of Blue, do Miles Davis. Há dois anos e meio, também, li um pouco do trabalho dele no encarte do disco do Coltrane com o Thelonious Monk no Carnegie Hall.

Minha única reclamação: os livros nacionais ainda são mais caros que os publicados em inglês. No caso do livro do John Coltrane, a versão nacional custa R$ 44 e a importada custa R$ 28. No do livro do Miles Davis, a nacional custa R$ 43 e a importada R$ 37.

Não reclamo de a importada ser mais cara - não tenho nenhum problema em ler em inglês. O problema é que livro brasileiro é caro. É caro porque vende pouco, mas também vende pouco por ser caro. Concorrer com o original não é exatamente um bom negócio.

Como leitor, tradutor (ainda que de quadrinhos) e possível autor de livros, acho que isso é um tiro no pé das editoras.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O repórter do Mercosul

Os posts sobre a pós-graduação no Paraguai, que publiquei nos últimos dias, tinham a ver com uma ajuda que dei a uma amiga que é repórter investigativa do jornal ABC Color, de Asunción. Hoje, o jornal publicou as respostas que obtive com a CAPES sobre a legalidade dos cursos paraguaios. É minha primeira matéria para um jornal dos países vizinhos. (Esta outra saiu no dia 11.)

O Correio do Povo, de Porto Alegre, também publica artigo meu sobre o caso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Mais da pós paraguaia

O jornal ABC Color entrevistou hoje alguns dos estudantes brasileiros que foram fazer pós-graduação no Paraguai. Muitos deles sequer têm conhecimento suficiente de espanhol para compreender todas as aulas, mas ainda assim acham vantajoso. É mais fácil que fazer pós no Brasil, dizem.

    Os quase 3 mil estudantes brasileiros que fazem mestrado e doutorado em universidades privadas entendem pouco ou nada das aulas, por um motivo simples: elas são dadas em espanhol. Pelo menos esse problema têm os que estudam nas universidades do Norte (UniNorte) e Americana (UA). Apesar disso, ninguém se queixa, devido à flexibilidade e à falta de controle oficial desses cursos.

    "Entendo mais ou menos", disse ao ABC Color a estudante brasileira Renata Sampaio (30 anos), professora de psicologia do Rio Grande do Sul, Brasil.

    Como ela, são muitos os que vieram do país vizinho para fazer este curto curso de pós-graduação de verão (mestrado ou doutorado). A entrevistada se encontra atualmente cursando mestrado em Ciências da Edicação na UniNorte.

    "Entendo muito pouco de espanhol, e as aulas se desenvolvem nesse idioma", lamentou João Manoel de Almeida (33), que cursa mestrado em Ciências da Educação na UA. O entrevistado reside em Fortaleza, no Brasil, de onde veio para aproveitar essas ofertas educativas.

    A maioria tem esse mesmo problema, porque os docentes desenvolvem as aulas em espanhol, sem prévia preparação dos estudantes que falam um português muito fechado.

    O motivo principal pelo qual os universitários brasileiros vêm ao Paraguai cursar estudos superiores, sejam mestrados ou doutorados, é o baixo custo destes em comparação aos existentes em seu país.

    "No Brasil, os mestrados são para quem tem dinheiro. Estudar em universidades públicas é quase impossível, porque a burocracia é muita, e as privadas são caras", disse Almeida.

    (...) Por sua parte, Renata disse que tomou conhecimento dos cursos em sua universidade, através de uma empresa que os oferece. Disse que se sente satisfeita com as aulas, apesar de serem em espanhol. "Não entendo tudo. Compreendo mais ou menos o que dizem os professores, e isso dificulta meu aprendizado. Mas ainda assim é muito mais fácil fazer pós-graduação aqui do que no meu país, pois, além de ser mais barato, no Brasil eu não poderia trabalhar e estudar ao mesmo tempo", afirmou.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Jeitinho paraguaio

O jornal ABC Color, do Paraguai, publicou reportagem dando conta de que 3 mil estudantes brasileiros estão no país para fazer pós-graduação. Não se trata de uma demanda necessariamente pela qualidade da pesquisa paraguaia. O que ocorre é que instituições de lá oferecem cursos com aulas presenciais apenas nas férias, a preços muito menores que os das universidades brasileiras.

A possibilidade de obter um título de pós-graduação nas férias e conhecer um país vizinho deixa estudantes brasileiros ao mesmo tempo empolgados e apreensivos. No Orkut e outros fóruns eletrônicos, vários estudantes perguntam se tais títulos têm validade no país. Geralmente, trata-se de profissionais que trabalham muito, geralmente como professores, e precisam obter título de pós-graduação para melhorar sua situação profissional.

Um instituto de Fortaleza pôs na internet os dados de seus cursos. As aulas seriam distribuídas em dois períodos do ano: 6 a 21 de janeiro e 4 a 19 de junho. A aprovação é condicionada apenas ao pagamento da inscrição. Os cursos custam, ao todo, entre R$ 11.310 (mestrado em ciências da educação, com duração de 4 semestres, em 29 cotas de R$ 390) a R$ 17.980 (doutorado em administração de empresas, com duração de 3 semestres, em 29 cotas de R$ 620).

Para fazer pós-graduação no Brasil, é preciso passar por um processo de seleção. Em uma instituição tradicional brasileira, como o Instituto Presbiteriano Mackenzie, o mestrado em Administração de Empresas exige que os candidatos respondam a testes de proficiência em inglês e redijam um ensaio sobre o assunto que pretendem pesquisar. Depois disso, os selecionados são convocados para uma entrevista. A procura é de sete candidatos por vaga. A mensalidade, ao longo de dois anos, com duas aulas semanais, é de R$ 1.170 por mês.

O que parece fácil pode não ser tão fácil assim. Embora haja acordos internacionais sobre a aceitação multilateral de títulos obtidos nos países do Mercosul, a validação não é automática. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) é o órgão responsável, no Ministério da Educação brasileiro, pela avaliação dos títulos.

Em 2005, quando os mestrados no Paraguai estiveram no noticiário e causaram polêmica com o país vizinho, a Capes divulgou nota informando que os cursos feitos lá valem caso o estudante pretenda continuar seus estudos no Brasil. Não servem, porém, para fins profissionais:

    Os acordos de cooperação eventualmente assinados pelo Brasil, reconhecendo os títulos obtidos em alguns países do exterior, são exclusivamente para fins de prosseguimento de estudos no Brasil. Isso significa que o portador de um título de mestre obtido em país que tenha firmado acordo oficial com o Brasil tem assegurado reconhecimento automático somente para ingressar num curso brasileiro que requeira o título de mestre, mas não o credencia a lecionar ou a exercer qualquer profissão com o título de mestre.

Nas comunidades do Orkut, brasileiros que estudam no Paraguai dizem ter fé religiosa em que conseguirão ter seu título reconhecido. Outros lembram de conhecidos que não conseguiram. Na confluência do jeitinho brasileiro com o jeitinho paraguaio, quem paga a conta é a fé.

Quer ir para Cambridge? Olho no seu curso

Informações vindas das principais universidades britânicas, analisadas pelo Russell Group, dão conta de que não adianta ter um ótimo desempenho acadêmico se o curso do estudante é pouco rigoroso. A informação é da BBC.

Estes são os cursos em que o bom desempenho é considerado "menos ideal" por Cambridge:

    Arte e design
    Artes performáticas
    Cinema
    Contabilidade
    Dança
    Design e tecnologia
    Drama e teatro
    Economia doméstica
    Educação física
    Estudos da comunicação
    Estudos de mídia
    Estudos de performance
    Estudos do esporte
    Estudos do lazer
    Fotografia
    Negócios
    Saúde e serviço social
    Tecnologias da informação e comunicação
    Tecnologia da música
    Viagem e turismo

A um egresso de faculdade de jornalismo portador de um mínimo de senso crítico, não espanta em nada a prevalência da comunicologia.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Qualquer nota

A coordenação de pós-graduação do Ministério da Educação e Cultura divulgou os resultados da avaliação trienal dos programas de pós-graduação brasileiros.

De acordo com a planilha com os resultados (baixe aqui), foram avaliados 33 programas de pós-graduação na área de ciências humanas aplicadas, na qual se encaixam os 23 programas de pós em comunicação - que, eventualmente, podem tratar de jornalismo.

Levando em conta a nota atribuída pela comissão aos programas de pós em comunicação, a situação é complicada e a pesquisa está ainda muito longe da excelência. Numa escala de 3 a 7, avaliação mais alta, obtida por seis programas de pós, foi 5. A mais baixa, obtida por nove programas, foi 3. A média: 3,86.

O primeiro programa de pós-graduação voltado ao estudo do jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina, foi criado em 2007 e não entrou nessa avaliação.

Os números da Capes basicamente refletem em parte a impressão que eu, pessoalmente, já tinha. Nunca fiz pós-graduação porque não encontrei nenhum programa que me agrade na área do jornalismo. Quando for fazer, deve ser em uma área mais "dura", como ciência política, economia ou análise de políticas públicas.